An investigation of the strain profile over the cover in reinforced concrete elements subjected to tension
4 Comparison with experiments .1 Test set-up
As capivaras são animais, não raro, incômodos aos vazanteiros e, cada um ao seu modo, vai co-habitando nas vazantes com elas. Andando pela vazante do Jorge, encontrei um espantalho feito de talas de madeira, vestido com um macacão jeans e – fazendo as vezes de cabeça – um capacete velho. Neste dia estava acompanhado seu Raimundo, que roçava o mato ao redor de alguns pés de quiabo ainda pequenos:
– O que é isso, seu Raimundo? – É pra espantar as capiravas, siô61! – Tem muita aqui?
– Ô, demais! Elas acabam com tudo! – E esse espantalho ajuda?
60 Expressão comum em Teresina para afirmar espanto e incredulidade diante das histórias contadas por
outrem.
61
Variação de “senhor”, muito empregado em linguagem coloquial na região nordeste. É o masculino de “siá”.
– Depois que eu botei ele aqui elas ficaram por menos, mas tem umas que são mais atrevidas do que as outras, sabe, e, aí elas entram, acabam com os legumes...
Enquanto conversava com seu Raimundo, alguns passarinhos amarelos com preto acompanhavam o toque da sua enxada no chão. Perguntei se eram bem-te-vis (Pitangus sulphuratus), apesar de achá-los pequenos demais para tanto, ao que ele me disse que “não, são Severinos”. Os Severinos (Tyrannus Melancholicus), pequeninos, não se importavam com o sol inclemente da manhã (a mim, pelo menos, muito mais incômodo do que o da tarde). À tarde – por trás das mangueiras plantadas no alto mais próximo ao rio ainda na época em que seu Dotô era vivo - o sol não nos atinge tanto, sobretudo, se já for mais de três horas. Os pés de manga e jenipapo, juntamente com as árvores plantadas mais próximas ao rio, sombreiam quase toda a vazante do Jorge e dos seus irmãos Filho e Luiz Carlos com o correr do tempo após o meio dia... Mas durante a manhã – quando aprendia com seu Raimundo – a lógica é outra, pois o sol está a nascente, ou seja, iluminando da Avenida para o rio, não o contrário. E, assim, a vazante inteira fica sem uma sombra sequer.
– Os Severinos abrem a boca de sede, Lucas, mas não saem do meu pé. Às vezes eu estou aqui quebrando quiabo e não aparece um, mas basta eu bater a enxada no chão que eles começam a chegar.
– Parece que eles gostam do senhor – brinquei sorrindo.
– Eles ficam esperando eu roçar para comer os bichinhos que ficam embaixo do mato.
– Inseto?
– Humrrum. Tem um bucado, siô... É gangogi ( Lulus sabulosus cylindroiulus), aqueles caramujozinho (Littorina littorea) também... Tudo eles comem. Dia desses, eu estava roçando aqui com o facão e o corte foi bem na asa de um Anum (Crotophaga ani) que estava embaixo do mato e eu não vi... Ô, siô, eu fiquei com pena...
– Poxa... Ele morreu? O senhor terminou de matar?
– As penas até voaram, mas eu não terminei de matar não, o facão não pegou muito forte, aí eu deixei ele ali, na sombra daquele pé de planta. Demorou pouco tempo e ele já estava caminhando aqui perto de mim.
Anuns, severinos, pardais (Passer domesticus) e rolinhas (Columbina passerina) não chegam a ser focos de conflitos e perseguições na vida dos vazanteiros e trabalhadores com quem convivi. Contudo, não posso falar o mesmo dos pombos (Columba livia). Repetidas vezes, seu Valdir – cuja vazante fica ao lado do terreno de Filho – reclamou-se para mim destas aves, especificamente.
– A gente tem que tomar um cuidado danado... Eu tive que replantar umas dez covas de feijão semana passada, porque os pombos chegam, vão revirando a terra e comem as sementes todinhas. Quando eu olho assim para a cova, já sei se eles mexeram...
– E olha que aqui, não tem nem tanto pombo, seu Valdir – argumentei –, porque, lá, em Brasília, é pombo que dá uma guerra!
– É, não é? – É.
– Aqui, tem gente que faz é criar esses bichos. Nunca vi criação mais sem sentido... Só para atrapalhar a gente.
– Ô, rapaz...
– Lucas, eu vou te dizer um negócio: tem gente que não está nem aí para o serviço dos outros. Eu te falei da burra (Equus africanus asinus) que entrou aqui anteontem?
– Falou não.
– Eu estava voltando da coroa, aí eu passei aqui [na vazante da margem] para terminar de quebrar uns quiabos... Quando eu vi, de longe, era a burra acabando com tudo, metendo a venta, com gosto, nessas linhas de feijão aí... Me pergunta se eu apanhei pelo menos uma vagem. Me pergunta! Nenhuma, Lucas!!! Nenhuma!!! A burra comeu todas as carreiras de feijão... Rapaz, foi um prejuízo danado... E, eu vendo aquela burra dentro de minha vazante, foi me dando uma raiva, foi me dando um negócio... Já era mais de meio dia. “Espera ainda, vou dá um recado para a dona desse bicho”, pensei. Peguei umas pedras, peguei uns pedaços de pau e comecei a jogar na burra, para espantar. Quando de repente a dona chega esculhambando, dizendo que eu ia matar a burra dela e que ela ia dar parte de mim na delegacia. “Se você quer criar a sua burra, crie, mas crie presa, não deixe ela solta para vir bagunçar dentro de minha vazante não, sua sem vergonha!”. Olha, Lucas, quem me conhece sabe que eu não sou de andar com
esses nomes, mas, naquela hora, me subiu um ódio e, quando a gente faz as coisas, a gente não pode negar que fez. Não é a primeira vez que a burra daquela mulher dá prejuízo em minha vazante e eu quero é que ela vá me denunciar. Eu quero! Porque aí ela perde e ela vai ter que me pagar tudo o que eu gastei para plantar aquele feijão!
Além dos pombos e demais crias dos vizinhos, há ainda outros animais não- humanos com os quais os vazanteiros têm que lidar: as iguanas e os camaleões. Se os rios são fonte de fartura e riqueza, conforme veremos a seguir, ele traz consigo, ainda, outros seres, como as próprias capivaras, alguns insetos e estes répteis também. Apesar de alguns bichos adentrarem as vazantes e causarem prejuízos de diversas ordens, são também múltiplas as estratégias de co-habitar em interação com eles/as. Seu Mamede contou-me como faz para lidar com as iguanas e os camaleões:
– Aqui, no alto mais próximo ao rio, eu planto um feijão de menor qualidade, um feijão mais ruim de venda, não sabe? Porque quando os camaleões vêm, eles ficam entretidos com esse feijão aqui de perto da beira e não entram mais para comer do resto.
Com e por meio da ideia de trabalho uma série de outras coisas são gestadas nas vazantes. Se o cultivo de legumes é uma importante fonte de renda, as relações entre vazanteiros, terras, bichos e sementes abrem espaço – também – para pensarmos a respeito de uma série de dinâmicas de constituição mútua. Afinal de contas é somente a partir destas relações que vazanteiros e beira de rio se fazem enquanto tal. A relação de seu Luiz, Arnaldo, Raimundo e a família de seu Dotô com a vegetação ciliar – grosso modo, denominada nativa por observadores externos como alguns biólogos; ambientalistas; gestores e técnicos da Prefeitura – evidencia o quanto é impossível falar de biodiversidade sem considerar a presença humana e o seu papel ativo na constituição do lugar e das paisagens (HIRSCH, 1995; BASSO, 1996; CARDOSO, 2016; CARDOSO e MODERCIN, 2012), conforme também destacado por Escobar (1999; 2010). Ao dizer isto, não estou pautando que as relações entre estas pessoas e o meio são carregadas de romantismos e conexões sempre equilibradas e positivas, tal qual no
prisma idílico através da qual populações diversas, tidas como tradicionais62, foram e, em alguma medida, continuam sendo tratadas nas ciências sociais brasileiras. Figurando, assim, como espécies de museus culturais, com uma imposição normativa sobre o que é ou deveria ser a relação das pessoas com o meio (para citarmos a pertinente crítica realizada por Barreto Filho (2001)). Na esteira desta crítica, o autor arremata algo de que falei há pouco, apontando para o lugar de povos indígenas e de diversos outros agrupamentos humanos no processo de constituição de florestas tropicais na Amazônia:
Assim, se hoje há um consenso quanto à importância das florestas tropicais como celeiros de megadiversidade biológica e pilares da regulação do clima no planeta, cada vez mais se reconhece o peso dos fatores socioculturais- diferentes ondas de ocupação humana e presença mais ou menos contínua de grupos humanos em determinados sítios- na conformação atual das áreas silvestres tropicais - ao lado, é claro, dos fatores estritamente naturais, tais
como paleoclimatologia, geomorfologia e relevo. Daí porque, argumentam
alguns, se todas as florestas tropicais do planeta foram virtualmente afetadas por padrões culturais de uso humano, ao se decidir que um dado atributo ecológico é digno de proteção, devem se considerar os desejos e as necessidades daqueles que contribuíram para moldar aquela paisagem particular [...] (BARRETO FILHO, 2001: 146) [grifos feitos por mim]
No caso da vegetação ciliar aos rios Parnaíba e Poti, é inegável a contribuição e a participação de vazanteiros/as, oleiros/as e pescadores/as no processo de constituição destes ambientes, conforme tenho mostrado aqui a partir do cotidiano nas vazantes. Contudo, estas pessoas são sumariamente desconsideradas nas suas relações com o meio quando políticas de “requalificação” urbana e, pasmem, sócio-ambiental são empreendidas pelo poder público municipal via PLN. Procurarei desenvolver isso no próximo capítulo. Retornemos.
Longe de significar uma relação idílica e romântica com o lugar, as experiências de Luiz, Arnaldo, Raimundo e o pessoal do seu Dotô conferem mais nuances à ideia de
sossego acionada por alguns dos/as meus/minhas interlocutores/as no primeiro capítulo, onde o sossego na Boa Esperança anda de mãos dadas com uma relação (discursivamente declarada) harmônica entre homens/mulheres e meio ambiente. Estas interações são – também – atravessadas por afecções de rivalidade, conflitos, perseguições e violências, não só entre vizinhos; entre vizinhos e noiados/as, mas,
62 Conforme pode-se observar no trabalho de Oliveira (2005), as pesquisas entre ribeirinhos e com
vazanteiros, especificamente, inserem-se no rol dos estudos de “populações tradicionais”, conceito amplamente discutido e problematizado nas ciências sociais brasileiras (BALÉE, 1993; BARRETO FILHO, 2006; CUNHA e ALMEIDA, 2009; DIEGUES, 1996; DIEGUES e ARRUDA, 2001; LITTE, 2002; POSEY, 1996; PRADO, 2012).
ainda, entre humanos e não humanos. Constituir-se e constituir ambientes com – tal qual apontado também por Virgílio (2014) através da noção de peleja em sua etnografia sobre criação de animais no interior no Ceará – envolve uma série de lutas e interações nem de longe passíveis de serem consideradas idílicas e harmoniosas. E essa peleja, essa luta, esse trabalho, da forma como foi captado por mim entre os vazanteiros da Boa Esperança, não passa pela noção de um enfrentamento dos “homens” versus a “natureza”, onde os primeiros devem triunfar, vencer, ganhar e, por fim, exercer seu
domínio (BRANDÃO, 1999) sobre a última: o trabalho, antes disso, trata-se de um movimento de percepção a respeito dos modos de habitação empreendidos por outros seres que não só nós humanos. Pelejar, lutar ou trabalhar com eles/as é, portanto, habitar e constituir ambientes em diálogos com outros, inclusive, com a própria terra, como procurarei evidenciar no tópico seguinte.