A configuração espacial da cidade de Belém, na perspectiva do processo de verticalização, segundo lição de Oliveira et al (2005, p. 10610-10611), teve início na década de 1940 do século passado a partir da antiga Avenida 15 de agosto (atualmente Avenida Presidente Vargas) devido àquela via apresentar altas cotas de nível, estar próxima do porto e estar interligada à Estrada de Nazareth, bem como, à Estrada do Utinga por meio dos bondes que, por seu turno, davam acesso até à Estrada de Ferro Belém-Bragança.
Na década de 1950 do mesmo século a verticalização ultrapassou o eixo da Avenida Presidente Vargas até chegar em alguns espaços centrais como os bairros da Batista Campos e de Nazaré. Posteriormente, na década de 1960 observou-se que o processo de verticalização aconteceu em outros terrenos com altas cotas de nível no entorno da Avenida Presidente Vargas e das praças localizadas no centro da cidade. Contudo, foi somente na década de 1970 que a
engenharia civil local, após a evolução da técnica de construção em terrenos mais instáveis, possibilitou que o processo de verticalização acontecesse em terrenos inconsolidados que apresentam baixas cotas de nível e, assim, chegou aos bairros do Reduto e do Umarizal (OLIVEIRA, 1992).
Na década de 1980 a verticalização, devido ao aumento dos preços dos terrenos localizados nos bairros centrais, ampliou-se para os bairros da Pedreira e do Marco, que apresentam cotas de nível médias, mas que tinham largas avenidas, com facilidade de acesso ao centro da cidade e alguns equipamentos urbanos já instalados. Mais recentemente, nas últimas três décadas, o processo de verticalização no Município de Belém apresentou os seguintes caracteres: 1) aumento da densidade demográfica; 2) elevação significativa do gabarito de altura; 3) construção de edifícios com elevado padrão arquitetônico que implica no elevado valor unitário das unidades que os compõem; e 4) aproveitamento das residuais áreas localizadas no centro do município (OLIVEIRA, 1992).
Desse modo, nessa breve síntese evolutiva do processo de verticalização nas últimas décadas em Belém evidenciou-se a ocorrência de um paradigma de configuração do solo e do espaço da cidade no qual a verticalização, o adensamento (construtivo e demográfico), a segregação socioespacial e a diminuição da “cobertura vegetal” (OLIVEIRA et al, 2005) são resultantes da lógica capitalista-especulativa e hoje, também, financeira, de formatação e apropriação do espaço de Belém como valor de troca.
Anteriormente, afirmou-se que, ao se transitar pela cidade de Belém, fica bem evidente que está em andamento uma lógica de configuração da cidade (defendida pelo capital imobiliário e financeiro) que visa ampliar a verticalização construtiva na cidade e, assim, maximizar seus investimentos, mesmo que tais práticas sejam danosas à sustentabilidade do espaço urbano no Município de Belém.
Todavia, deixando a impressão de lado, ou seja, abandonando a apreensão sensorial, para que, lastreado em dados científicos, seja viável uma análise mais completa sobre esse processo, é fundamental fazer referência às informações sobre a construção de edifícios em Belém no período de 1999 a 2011.
Quadro 4: Quantidade de empreendimentos multifamiliares por bairro em Belém
Posição Bairro Número de Empreend.
% do Total
Posição Bairro Número de
Empreend. % do total 1 Umarizal 40 22,73% 12 Canudos 2 1,14% 2 Marco 29 16,48% 13 Marambaia 2 1,14% 3 Pedreira 21 11,93% 14 Reduto 2 1,14% 4 Batista Campos 16 9,09% 15 Sacramenta 2 1,14% 5 Nazaré 16 9,09% 16 Condor 1 0,57% 6 Jurunas 11 6,25% 17 Coqueiro 1 0,57% 7 Segunda Légua 8 4,55% 18 Mangueirão 1 0,57% 8 Cremação 7 3,98% 19 Souza 1 0,57% 9 São Brás 7 3,98% 20 Tapanã 1 0,57% 10 Cidade Velha 5 2,84% 21 Terra Firme 1 0,57% 11 Campina 2 1,14%
Fonte: VENTURA NETO, 2015, p. 137
Assim, as informações contidas no quadro acima apenas confirmam aquilo que a visão (enquanto sentido) evidencia àqueles que transitam pelos bairros do Umarizal, do Marco, da Pedreira e de Batista Campos, ou seja, que o processo de verticalização se intensificou de maneira muito relevante no lapso temporal de 1999 a 201122.
Com efeito, buscando evidenciar essa nova configuração urbana na cidade de Belém, destaca-se o bairro do Umarizal (por ter sido o bairro mais demandado pelo segmento do capital imobiliário), visando confirmar o processo de verticalização que a cidade vem enfrentando nos últimos anos.
Figura 2: Mapa de Localização do Bairro do Umarizal no Interior do Município de Belém
Fonte: Prefeitura Municipal de Belém (2010)
Figura 3: Evolução da Verticalização no Bairro do Umarizal (2005-2015)
As representações cartográficas acima foram elaboradas a partir das imagens de satélite em três distintos momentos (2005, 2009 e 2015) e demonstram o aumento considerável no número de edifícios nos diferentes setores censitários localizados no bairro do Umarizal e, por consequência, no adensamento construtivo e populacional naquele bairro, aumentando as demandas por serviços e equipamentos urbanos.
Sendo assim, evidencia-se que, no recorte temporal de dez anos, determinados setores censitários são mais procurados pelas construtoras e incorporadoras, por exemplo, o Setor Censitário nº 1, circunscrito entre a Avenida Visconde de Souza Franco, Rua Antonio Barreto, Avenida Almirante Wandenkolk, Rua Boaventura da Silva e Rua Domingos Marreiros evidencia que, na primeira imagem de satélite (julho de 2005), aquele era o setor mais demandado pelo segmento da construção e incorporação imobiliária, pois se constatou um maior volume de edifícios multifamiliares (contendo de oito a onze edifícios). Contudo, a partir da segunda imagem captada (julho de 2009), revelou-se que o foco prioritário do segmento do capital imobiliário-financeiro alterou-se para o Setor Censitário nº 6 (Travessa Dom Romualdo de Seixas, Rua Diogo Móia, Travessa Dom Romualdo Coelho, Avenida Senador Lemos, Rua Jerônimo Pimentel e Rua Bernal do Couto), na qual aquele setor continha àquela altura entre doze e dezesseis edifícios.
Na sequência, quando em julho de 2015 a terceira imagem de satélite foi captada, foi possível identificar que o Setor Censitário nº 6 manteve o mesmo ritmo de verticalização, mas além daquele, os setores censitários 5, 7 e 823 acompanharam a mesma dinâmica de
adensamento construtivo e populacional, pois cada um continha entre doze e dezesseis edifícios. Registre-se oportunamente que, segundo o IBGE (2010):
O setor censitário é a unidade territorial de controle cadastral da coleta, constituída por áreas contíguas, respeitando-se os limites da divisão político-administrativa, dos quadros urbano e rural legal e de outras estruturas territoriais de interesse, além dos parâmetros de dimensão mais adequados à operação de coleta (IBGE, 2010, p. 3).
Contudo, observa-se que existem setores censitários daquele bairro que ainda não despertaram o interesse nas construtoras e incorporadoras que atuam no Município de Belém. Logo, resta evidenciado que os terrenos mais próximos aos bairros do Telégrafo e da Pedreira
23 Classificação elaborada pelo IBGE (2010):
Setor Censitário nº 5 – Travessa Dom Pedro I, Avenida Pedro Alvares Cabral, Travessa Dom Romualdo Coelho, Avenida Senador Lemos e Rua Municipalidade.
Setor Censitário nº 7 – Rua Antonio Barreto, Avenida Almirante Wandenkolk, Rua Domingos Marreitos, Travessa Dom Romualdo de Seixas.
Setor Censitário nº 8 – Avenida Senador Lemos, Travessa Dom Romualdo Coelho, Travessa Dom Romualdo de Seixas, Travessa Dom Pedro I, Rua Municipalidade e Avenida Pedro Alvares Cabral.
não tiveram mudanças significativas em relação a lançamento de edifícios, mantendo-se como a parte menos valorizada do bairro.
Com efeito, os mapas acima deixam patente que, no intervalo de tempo de 10 anos, o bairro do Umarizal foi fortemente verticalizado e, dentre as causas desse novo modelo de configuração espacial naquele bairro, deve ser considerado o aperfeiçoamento das regras de financiamento imobiliário, seguindo a lógica da financeirização global da moradia (ROLNIK, 2015).
Gráfico 4: Quantitativo de Edifícios no Bairro do Umarizal (2005-2015)
Fonte: Elaboração do autor, 2017
Assim, observa-se que em julho de 2005 existiam 90 edifícios no bairro do Umarizal e que tal montante elevou-se ao quantitativo de 130 prédios em julho de 2009, ou seja, em apenas quatro anos ocorreu um aumento na ordem de 44,4%. Logo, pensando em um aumento quantitativo médio anual, constatar-se-á que, de 2005 a 2009, houve um aumento média ao ano de 11,1% na quantidade de edifícios naquele bairro, percentual bastante expressivo que ratifica a estratégia do capital imobiliário-financeiro em utilizar de modo intenso o solo urbano daquele bairro da cidade de Belém. Destarte, também é possível observar que, no lapso temporal de 2009 a 2015 (seis anos) ocorreu um aumento no número de edifícios naquele bairro na ordem de 33,8% e a média anual ficou em 5,6%, bem aquém da média anual observada no primeiro período (2005 a 2009).
Tal diferença no volume de empreendimentos imobiliários pode ser atribuída às repercussões no circuito imobiliário mundial decorrentes da crise econômica que teve início em 2008 e que, até hoje gera reflexos nas economias mundiais, inclusive, aqui em uma das metrópoles amazônicas, pois o mercado imobiliário vem apresentando um movimento decrescente; desaquecimento que é resultado da diminuição da liquidez na economia e na restrição ao crédito financeiro/imobiliário (aumento das garantias e taxas de juros mais
elevadas). Logo, o recuo na financeirização imobiliária em Belém decorre, em última análise, de problemas gerados no seio do próprio sistema capitalista.
Para ratificar a expressiva verticalização naquele bairro, em outra análise, é possível perceber que em dez anos, a quantidade de edifícios no bairro do Umarizal cresceu 93,3%, passando de 90 (julho de 2005) para 174 edifícios (julho de 2015), revelando a pujança do mercado imobiliário-financeiro e a consequente reconfiguração do solo urbano naquele bairro. Logo, os dados acima demonstrados, apenas servem de referência e exemplo que demonstra que na cidade de Belém, nos últimos anos ocorreu um significativo adensamento construtivo e populacional decorrente do processo de verticalização imobiliária.
5.2 Os agentes do discurso, suas relações e seus interesses com a verticalização imobiliária