Chapter 5 FSGP SIMULATION RESULTS
5.7 Comparison- Analytical vs Numerical solution
O bordado é uma prática desenvolvida apenas por mulheres e possuía, inicialmente, um caráter estritamente familiar. O bordado era transmitido de mãe para filha e entre os membros femininos da família, tais como primas, sobrinhas e netas. Naquela época, por volta do século XVIII, falava-se na qualidade da mulher “prendada”, onde o sucesso para conseguir um bom casamento estaria ligado à ideia de que a mulher deveria ter conhecimento e habilidade para desenvolver a costura e o bordado.
Nas palavras de Iracema Batista, percebemos esse caráter familiar que circundava a prática bordadeira: “Naquela época, para uma jovem arranjar um casamento, tinha que ter uma prenda, tinha que ser prendada: costurar e bordar. No início, o bordado era só de cunho familiar”. Para o contexto familiar da época, a jovem possuir certas habilidades, como saber costurar e bordar, era sinal de prestígio social.
O bordado, até a década de 40, não tinha o caráter comercial que existe atualmente. As peças bordadas naquela época eram para fins de ornamentação do lar das próprias bordadeiras ou para presentear outras mulheres da família e amigas, não tinha objetivos com fim comercial sobre a peça. Possuir um bordado em casa era sinônimo de bom gosto e significava que ali, naquela casa, a mulher sabia desenvolver habilidades ligadas às artes manuais.
Com o passar dos anos, a arte de bordar foi tornando-se mais conhecida e praticada. Não era apenas uma minoria das mulheres com o poder aquisitivo maior que bordava. Gradativamente o bordado foi se popularizando. A prática não se restringia apenas ao círculo das mulheres de uma mesma família, com o tempo, essas redes iam se estendendo, eram socializados nas rodas de amigas e tornaram-se mais populares, inclusive, entre aquelas com um baixo poder aquisitivo.
Entendemos o conceito de rede social enquanto conjunto de pessoas que interagem em função de objetivos comuns. “Os indivíduos formam um todo social mais abrangente, tendo objetivos comuns, papéis independentes e uma subcultura peculiar” (BOTT, 1976, p.76). Segundo Bott, esses indivíduos podem estar ligados por laços de parentesco, de amizade e podem ser até vizinhos. Os indivíduos podem circular por vários “universos
simbólicos” e, portanto, não se encontram englobados por um grupo específico ou ainda, podem estar inseridos em várias redes distintas.
A bordadeira Iracema Batista, em seu trabalho de especialização – já anteriormente citado – nos fala da prática dos bordados nas décadas de 30 e 50:
O bordado era uma atividade elaborada, principalmente, entre as mulheres da classe burguesa que tinham maior facilidade à aquisição do material, especialmente, nas primeiras décadas do século passado. As antigas bordadeiras afirmam que até a década de 30, um número reduzido de mulheres bordavam, porém, tão somente com o objetivo de decorar o lar. A década de 50, o bordado já era bastante conhecido, pois contava com grande número de pessoas que sobreviviam trabalhando nesta atividade (BATISTA, p.21, 1988).
Uma das pioneiras a praticar o bordado foi a senhora Maria Vale Monteiro17, modista de renome na cidade, conhecida entre as pessoas do município pela qualidade de sua costura. Maria Vale foi uma incentivadora e divulgadora dos bordados feitos à mão. Juntamente com sua filha Eunice Vale, a partir da década de 20, começaram a expandir os bordados para o enxoval de noiva através de encomendas realizadas por outras pessoas. Mãe e filha organizaram o primeiro grupo de bordadeiras de Caicó que recebia encomendas de vários lugares, dentre eles, da capital do estado do RN e de outros estados brasileiros. Na cidade de Caicó, quem faz parte do universo dos bordados conhece a história de Maria Vale, conhece seu pioneirismo frente à comercialização dos bordados. Frequentemente, ouvi Arlete, Iracema e Rosário falarem de Maria Vale como figura de destaque no contexto dos bordados. O reconhecimento de Maria Vale pelos serviços prestados ao município e pelo ser humano que cativou muitas pessoas, segundo Rosário, resultou em algumas homenagens: a Câmara Municipal de Caicó atribuiu o nome de uma rua “Dona Maria Vale”, no bairro Penedo e nomeou um espaço no Complexo Turístico Ilha de Sant’Ana como “Praça de Artesanato Dona Maria Vale”.
17 Maria Vale Monteiro (1896-1979) nasceu em Caicó, casou aos 14 anos com o viúvo Carlos Vasconcelos
Monteiro, já pai de três filhos, Belkiss, Haydée e Carlos. Em virtude do trabalho de seu esposo, além de advogado foi deputado federal e prefeito, residiu em vários lugares: Rio Branco - AC, Manaus - AM, Belém - PA, Natal - RN e Goianinha - RN. Maria e Carlos tiveram dois filhos: Eunice e Cléa. A vida de Maria Vale foi marcada por grandes perdas de parentes próximos: perdeu uma irmã ainda jovem, Alzira Monteiro com 37 anos; ficou viúva aos 24 anos, seu esposo Carlos foi acometido por uma “gripe espanhola”; Cléa, sua filha faleceu aos oito anos vítima de convulsões; sua outra filha Eunice faleceu vítima de um acidente de carro aos 27 anos. Retornou a Caicó e dedicou-se ao ateliê - costuras e bordados – até o final de sua vida, aos 83 anos. Segundo a memória de parentes e amigos, Maria Vale foi uma pessoa doce e amiga, além de ter o “encanto da conversação”, características, que cativavam as pessoas. Fonte: Essas informações estão contidas em um pequeno livro feito por sua neta, filha de uma enteada, Zélia Maria, em memória de Maria Vale, em 2000. Além de contar a estória da vida de Maria Vale o livro reúne mensagens de amigos que conviveram com a mesma. Tive acesso ao livro através de Rosário, bordadeira que conheceu Maria Vale.
Figura 2 e 3: Maria Vale Monteiro, em dois momentos: na adolescência e adulta
Fonte: Acervo CRACAS
Figura 4: Praça de Artesanato Dona Maria Vale, na Ilha de Sant’Ana
Com o passar do tempo o bordado já não ficava apenas na esfera familiar, no qual as noivas bordavam seu próprio enxoval, mas poderiam contar com a possibilidade de encomendarem as peças a outras bordadeiras, sem que, elas mesmas precisassem bordar. Nesse ínterim o primeiro grupo de mulheres bordadeiras iniciou suas atividades para atender às encomendas que estavam crescendo. O que inicialmente era tido como uma qualidade para as moças, começou a ser atribuído outro significado, e confeccionar o próprio enxoval deixou de ser uma qualidade ligada as virtudes de uma jovem. As moças que encomendavam seus enxovais normalmente eram pertencentes à classe abastada da região, o que levaria a pensar
em uma associação da categoria de “moça prendada”, um viés de classe que podia ser tecido em uma classe social específica. Certamente nem todas as moças da cidade podiam comprar o enxoval bordado para seus casamentos, ou ainda, nem atribuíssem o mesmo significado a eles.
Rapidamente a procura pelos bordados foi aumentando, proporcionalmente ao número de mulheres que gostariam de aprender a bordar. Assim, com a crescente expansão do artesanato, a demanda pela procura do bordado era grande, exigindo desse modo, uma maior produção. O bordado que até então era feito à mão, sendo usados para isso, além da linha e tecido, uma agulha e bastidor, não supria a necessidade emergente. A procura estava tornando-se maior do que a oferta.
Nesta época, por volta dos anos 40 do séc. XX chegaram os representantes da Cia. Singer18 no município de Caicó, empresa conhecida mundialmente na fabricação de máquinas de costura. Com sua vinda, a empresa promoveu gratuitamente cursos de bordados à máquina. Tais cursos foram oferecidos com o intuito de estimular a prática do bordado, que antes era feito à mão, para ser confeccionado na máquina de costura.
Com a implantação da empresa Singer no comércio, iniciaram-se as vendas de máquinas na cidade a crédito próprio. Até então, as mulheres que desejassem possuir uma máquina de costura teria que comprar em Recife, segundo informações de Rosário. Quem quisesse adquirir uma máquina de costura e não tivesse condições financeiras para pagar à vista, poderia parcelar o valor do produto com acréscimo de pequenos juros. Surgia, então, a solução para suprir as duas necessidades do mercado: um mercado consumidor à procura de bordados e o aumento da produtividade.
Desse modo, o bordado feito à mão começou a dar lugar ao novo seguimento que estava surgindo: os bordados feitos na máquina de costura. Agora, podiam bordar mais peças em menos tempo. Percebemos aqui que uma nova fase do bordado se inicia: a prática do bordado que antes girava em torno da família dá lugar, ao que chamaremos de comércio dos bordados, assim como o vemos atualmente.
Algumas mudanças foram sendo percebidas no processo de feitura do bordado, não só com a introdução da máquina, mas também com a mudança de outras funções dentro do processo de feitura foram aparecendo. Agora não existia apenas a bordadeira responsável por
18 Em 1851 foi introduzido o primeiro modelo comercial da máquina de costura no comércio através da marca
Cia. Singer. A empresa cresceu no mercado mundial e o nome Singer tornou-se sinônimo de máquina de costura. Em 1858, foi aberta, no Rio de Janeiro, a primeira filial da empresa. Em 1888, através de um decreto, foram abertas outras filiais em outros locais do território brasileiro: Niterói, Campos, São Paulo, Salvador, Recife e Pelotas. (Companhia Singer do Brasil, 2009).
todo o bordado, existia a riscadeira, responsável por fazer a arte do bordado, seu desenho; a bordadeira, a lavadeira e a passadeira que, como o próprio nome diz, eram responsáveis, respectivamente, pela lavagem e engoma da peça.
Com essa divisão de funções incorporada à prática do bordado, surge um novo personagem: os atravessadores ou intermediários. O atravessador é a pessoa responsável em fazer a mediação entre as bordadeiras e o consumidor. Em outras palavras, ele encomenda e compra as peças às bordadeiras, fazendo o pagamento imediato. Depois, as revende no comércio, onde acaba por duplicar ou triplicar o preço que, inicialmente, pagou sobre a peça.
De acordo com a memória de algumas pessoas que mantive contato, uma das primeiras atravessadoras foi Maria Nely de Araújo. Ela comprava a matéria-prima, que consistia basicamente em linha e tecido, fazia as encomendas das peças a grupos de bordadeiras que a mesma mantinha em Caicó e, depois de prontas, vendia diretamente aos consumidores de Natal-RN. A pessoa responsável em fazer essa mediação é conhecida entre as bordadeiras como atravessador (a) ou intermediário (a), ou simplesmente, “a pessoa para quem eu bordo”, como afirmou a bordadeira Ana, certa vez.
Com essa nova atividade a mulher começa a ter uma renda. Inicialmente o dinheiro advindo dos bordados era uma renda secundária para ajudar com as despesas da casa, porém, em alguns casos, algumas famílias têm como o principal meio de subsistência o dinheiro advindo desse produto. O que antes era visto como uma atividade sem fim comercial passou a ser visto como gerador e garantidor da renda familiar.
Em muitas famílias, inclusive aquelas que residem na zona rural, a principal fonte de renda é adquirida através do bordado. Devido às intempéries do clima da região semiárida e sua inconstância no ciclo de chuvas, o homem do campo é castigado pela seca. Com a prática do bordado sendo desenvolvido nas áreas rurais que circunscrevem o município de Caicó, muitas vezes, de renda secundária, o bordado passa a ser a principal fonte de renda da casa, da família. Esse contexto foi descrito por Iracema que morava na zona rural e vivenciou a experiência de ter o bordado como renda principal19 e mudar-se para a cidade.
Segundo levantamento realizado pelo SEBRAE - Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Norte (Revista Artesanato - SEBRAE), muitas famílias da zona rural obtêm, através do bordado, sua principal fonte de renda, em momento de pouca produtividade no campo. O bordado passa a ser a renda principal de muitas famílias. Aqui, temos a prática do bordado voltada para a subsistência, para a geração de renda das famílias.