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As questões ambientais inerentes à gestão das atividades industriais têm funcionado como períodos para repensar os valores e práticas produtivas e estabelecer novos paradigmas da concorrência industrial (SANCHES, 2000). A compreensão desse processo evolutivo auxilia no entendimento do posicionamento atual das empresas frente às questões ambientais e de sustentabilidade. De acordo com Searcy (2012), as questões de sustentabilidade nas organizações têm origem em questões sociais e ambientais. Assim, muito do que é atualmente discutido como sustentabilidade nos sistemas de produção, surgiu a partir da postura das empresas frente a problemas sociais e ambientais.

Segundo Berry e Rodinelli (1998), as grandes empresas enfrentaram um processo de evolução entre 1960 e 1990, quando passaram de um estágio de crise, em que não estavam preparadas para enfrentar problemas e regulamentações ambientais, para uma postura proativa, em que sistemas de gestão ambiental vão além de cumprir obrigações legais. Neste último estágio, de acordo com os autores, as empresas adotam práticas como a prevenção de poluição, minimização de resíduos e contabilidade de custos ambientais.

Barbieri (2007) também comenta sobre a evolução do posicionamento empresarial em relação às questões ambientais. Esse autor classifica a postura empresarial conforme o Quadro 3.2.

Quadro 3.2 – Abordagens da gestão ambiental nas empresas

Característica Controle da Poluição Prevenção da Poluição Abordagens Competitividade Preocupação básica Cumprimento da legislação e resposta às

pressões

Uso eficiente dos

insumos Competitividade

Postura típica Reativa Reativa e proativa Reativa e proativa Ações típicas Corretivas; Tecnologias de remediação e de controle no final do processo; aplicação de normal de segurança Corretivas e preventivas; Conservação e substituição de insumos; Uso de tecnologias limpas Corretivas, preventivas e antecipatórias; Antecipação aos problemas; Uso de tecnologias limpas Percepção dos empresários e

administradores Custo adicional

Redução de custo e aumento da

produtividade Vantagens Competitivas Fonte: BARBIERI, 2007, p. 109.

A evolução apresentada por Barbieri (2007) não está colocada em termos cronológicos. Segundo esse autor, essas abordagens podem ser consideradas fases de um

processo de implantação gradual de práticas ambientais, no entanto, os limites entre uma abordagem e outra nem sempre são nítidos. Apesar de não ter limites definidos, Aligleri, Aligleri e Kruglianskas (2009) destacam que a abordagem competitiva, aquela em que as empresas utilizam as questões ambientais de forma estratégica, só existe quando todas as obrigações legais já estiverem satisfeitas, ou seja, implica uma atitude proativa da empresa, de ir além do que é exigido e se antecipar aos problemas, corroborando com o exposto por Berry e Rondinelli (1998). Em resumo, Veleva et al. (2001) afirmam que uma empresa pode estar cumprindo todas as suas obrigações legais, mas ainda assim fazer pouco progresso no sentido de reduzir seu impacto no ambiente. É necessária uma postura proativa, que utilize a sustentabilidade como estratégia de ação para atingir vantagens competitivas.

Assim como Barbieri (2007), Aligleri, Aligleri e Kruglianskas (2009) também comentam sobre a semelhança da evolução da gestão de qualidade e da gestão sócio-ambiental. De acordo com os autores, no passado uma empresa competitiva era aquela que trabalhava com menor preço. Com a “onda da qualidade”, as empresas tiveram que adequar processos focando na melhoria de bens e serviços. Atualmente, segundo esses autores supracitados, “as empresas devem investir permanentemente no aperfeiçoamento de suas relações com todos os públicos dos quais dependem e interagem” (ALIGLERI; ALIGLERI; KRUGLIANSKAS, 2009, p.18), pois podem ser responsabilizadas por todos os impactos que sua produção gera nos stakeholders (partes interessadas na atividade da empresa como acionistas, empregados, comunidade, ONGs, consumidores, concorrentes, fornecedores e governo).

Ainda na compreensão do processo evolutivo das empresas frente às questões ambientais, Araújo (2010) sintetiza na Figura 3.5 a evolução dos sistemas de produção no sentido de tornar os processos mais sustentáveis. Para esse autor essa evolução pode ser descrita em quatro estágios: conformidade, produção mais limpa, eco-eficiência e produção sustentável. A primeira inserção de questões ambientais nos processos de produção ocorre com o controle da produção pela gestão de conformidades. Nesse modelo, não existe melhoria da qualidade dos processos de produção, apenas práticas de controle da qualidade dos resíduos no final dos processos, sendo esse o motivo pelo qual este tipo de controle é chamado de end- of-pipe (final do tubo). Em seguida, surge o conceito de produção mais limpa com o intuito de minimizar os impactos ambientais, ao mesmo tempo em que reduz os custos da produção. O conceito de eco-eficiência contribui com o desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo em que prima pela proteção ao meio ambiente e induz a soluções inovadoras para produtos e serviços. Por fim, apresenta-se o conceito de produção sustentável com objetivo de equilibrar

ações de acordo com os três pilares da sustentabilidade, social, ambiental e econômico (ARAÚJO, 2010).

Figura 3.5 – Evolução dos sistemas de produção rumo a modelos sustentáveis

Fonte: Adaptada de Araújo, 2010.

Para Berry e Rondinelli (1998), a adoção de uma postura mais proativa das organizações com relação às questões ambientais, e como consequência, ao processo evolutivo rumo à produção sustentável, pode ter sido guiada por forças como demandas regulatórias, custo, stakeholders e requisitos de competitividade. No entanto, na opinião desses autores, o próprio mercado pode ser considerado como principal fator de mudanças, pois provoca necessidades como gerar valor agregado aos produtos e possibilitar a entrada em novos mercados. Montabon, Sroufe e Narasimhan (2007) defendem que muitas empresas tomaram uma atitude proativa em questões ambientais com o objetivo de utilizar os recursos de forma mais eficiente e melhorar a imagem corporativa.

Para Elkington (2001), algumas mudanças mundiais geram a necessidade de buscar a sustentabilidade nos negócios, com destaque para a transformação dos valores humanos e sociais, a maior amplitude de visibilidade no ciclo de vida dos produtos, incluindo todos os elos da cadeia de fornecimento, a busca da venda de serviços em substituição aos produtos e a extensão dos prazos de referência da sociedade. Esse autor acredita que a sustentabilidade empresarial é como um resultado da gestão dos negócios aliada aos pilares do desenvolvimento sustentável: ecologicamente correto, socialmente justo e economicamente viável. Assim, a sustentabilidade empresarial pressupõe que a sociedade depende da economia e esta depende do ecossistema global (ELKINGTON, 2001). Com essa visão, uma empresa

pode ser considerada sustentável se gerenciar e conseguir bons resultados nas áreas econômica, ambiental e social, concomitantemente.

Em parte, a mudança na postura das empresas é moldada por diversas iniciativas internacionais que se transformaram em padrões, acordos, recomendações, códigos unilaterais e multilaterais, que ajudam a compreender e implantar ações empresariais que buscam a sustentabilidade, e procuram fornecer subsídios técnicos que facilitam a implantação de práticas de gestão (ALIGLERI; ALIGLERI; KRUGLIANSKAS, 2009). Dentre as várias propostas, pode-se destacar o Pacto Global da ONU, a Global Report Initiative (GRI) e a criação das normas ISO 14001 como as mais aceitas mundialmente.

O Pacto Global é uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) que tem como objetivo encorajar as empresas a alinharem suas políticas e práticas empresariais com os princípios e valores de sustentabilidade. Já são mais de 5 mil empresas que se comprometem com o Pacto (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2013). Trata-se de uma ação voluntária que fornece diretrizes em forma de 10 princípios em questões de direitos humanos, trabalho, preservação do meio ambiente e combate à corrupção. As empresas signatárias divulgam as ações realizadas e publicam relatórios anuais em que comunicam o progresso alcançado em cada um dos princípios, mas sem serem avaliadas externamente.

Outro método amplamente aceito é a Global Reporting Initiative (SEARCY, 2009). A GRI é como um direcionador do processo de publicação de relatórios. O modelo proposto está baseado na transparência das informações e visa divulgar os aspectos econômicos, ambientais e sociais de uma organização em um único documento, o relatório de sustentabilidade. Os relatórios são classificados em diferentes níveis (A, B e C) de acordo com a quantidade de informações que a empresa está disposta a divulgar. Além disso, a cada nível pode ser adicionado um sinal positivo (+) que indica que as informações são auditadas por membros externos a empresa (GLOBAL REPORTING INITIATIVE, 2006).

O uso desse modelo é voluntário e os indicadores podem ser selecionados de forma que sejam divulgadas as informações que mais atendam às necessidades dos stakeholders de cada empresa. De acordo com os dados da base de dados disponível no site da GRI, atualmente mais de 5.000 organizações em todo o mundo publicam relatórios de sustentabilidade. No entanto, a iniciativa gera críticas. Marshall e Brown (2003b), por exemplo, argumentam que os relatórios GRI podem incluir uma série de informações como, conteúdo sobre cumprimento de legislação, informações para melhorar a reputação e até mesmo questões ligadas ao marketing da organização. Além disso, Veleva et al. (2003) lembram que publicar o relatório não significa “produzir de forma sustentável", apesar de demonstrar um interesse no

assunto. Para Bonachi e Rinaldi (2007), a busca pela publicação dos relatórios, não pode ser considerada como a implantação de práticas de sustentabilidade nos processos de produção das empresas, pois são ações distintas.

Por fim, o sistema de gestão ambiental (SGA) pode ser descrito como modelo pelo qual as organizações atuam de maneira estruturada para assegurar a proteção do meio ambiente nas suas operações (OLIVEIRA; SERRA, 2010). Apesar de considerar apenas uma dimensão da sustentabilidade, os modelos de gestão ambiental podem ser considerados como um gatilho para as empresas considerarem a questão da sustentabilidade como um todo (VELEVA; CRUMBLEY, 2001). O modelo define os possíveis impactos de suas atividades e propõem ações para reduzi-los. Portanto, um sistema de gestão ambiental tem como objetivo controlar e reduzir continuamente os impactos gerados pela produção (ROWLAND-JONES; CRESSER, 2005). Os sistemas de gestão ambiental, seguindo a norma da ISO 14001, podem possibilitar a realização de processos de forma mais ambientalmente sustentáveis e a redução dos custos de produção a partir da melhor utilização dos recursos naturais e da aplicação dos conceitos de produção mais limpa (GRAEL; OLIVEIRA, 2010).

De acordo com Campos e Melo (2008), a implantação de um SGA é importante, pois faz com que o processo de produção seja reavaliado continuamente, se refletindo na busca por procedimentos, mecanismos e padrões comportamentais menos danosos ao meio ambiente. Segundo Quazi et al. (2001), a ISO 14001 possui uma estrutura que serve como um guia para a empresa na compreensão e na estruturação de um SGA apropriado. Para Alberti et al. (2010), a certificação ISO 14001 é composta por uma série de normas com o objetivo de padronizar os programas de gestão ambiental nas indústrias de todo o mundo.

Cabe destacar que apesar das possíveis dificuldades de implantação, como alto custo, por exemplo, Oliveira e Serra (2010) afirmam que o sistema de gestão ambiental é uma alternativa real, possível e cada vez mais utilizada por empresas de todo mundo para melhorar e controlar suas atividades de forma a poluir menos o meio ambiente. Porém, como destaca Bansal (2002), a certificação ISO 14001 apenas certifica um sistema existente, mas não atesta nada sobre o desempenho de tal sistema. Além disso, os sistemas de gestão ambiental só consideram uma dimensão da sustentabilidade e outras normas, como a OHSAS 18001, um guia para implantação de sistemas de gestão de saúde ocupacional e segurança do trabalho na tentativa de reduzir os acidentes e doenças do trabalho, e consequentemente, os custos econômicos, e sociais, devem ser adotadas afim de atender às outras dimensões do TBL.

Por se tratar de objetivos muitas vezes antagônicos, a relação entre o meio ambiente e as empresas é muito estudada. Na literatura pesquisada, as investigações que

reportam impactos de medidas de sustentabilidade em resultados financeiros e/ou econômicos de empresas são recorrentes (LEITE, 2012). De forma resumida, Young e Lustosa (2001) analisam essa relação considerando duas vertentes: a primeira acredita na existência de um trade-off, em que de um lado ficam os benefícios sociais e ambientais alcançados pela preservação ambiental, do outro lado as regulamentações ambientais e sociais levam ao aumento dos custos do setor industrial, elevando preços e reduzindo a competitividade das empresas. Neste viés, as regras ambientais e sociais são necessárias para melhorar a qualidade de vida do meio em que a empresa se insere, mas seriam responsáveis pela elevação dos custos e queda da competitividade das indústrias.

A segunda vertente de análise vislumbra, conforme relatam Young e Lustosa (2001), sinergias entre os sistemas de produção e a preservação do meio ambiente. Conhecida na literatura como a hipótese de Porter, pois foi baseada nos artigos de Porter e Van der Linde (1995a; 1995b), essa vertente considera que a imposição de padrões ambientais adequados estimula empresas a adotarem inovações que podem levar a redução dos custos totais de um produto e ao aumento seu valor, contribuindo para a competitividade das empresas.

Portanto, quando as empresas são capazes de visualizar nas regulamentações ambientais e sociais um desafio, elas passam a desenvolver soluções inovadoras e melhoram a sua competitividade. Com as inovações geradas para atender os padrões ambientais e sociais impostos, insumos (matérias-primas, energia e trabalho) são utilizados de modo mais produtivo, reduzindo custos e compensando os gastos com investimentos para a cumprimento da legislação. Desta maneira, tem-se a preservação ambiental associada ao aumento da produtividade dos recursos utilizados na produção, e gerando aumento na competitividade empresarial.

As vertentes de análise de Young e Lustosa (2001) corroboram com o que é proposto por Schaltegger e Wagner (2006). Esses autores consideram duas linhas de raciocínio sobre a relação entre desempenho sustentável, competitividade e sucesso econômico. A primeira é uma visão mais comum e tradicionalista vinda da economia neoclássica. Esta linha argumenta que a regulamentação ambiental deve ser usada para corrigir externalidades negativas geradas por empresas. Desta maneira, a regulação ambiental corrige uma falha de mercado quando impõe custos adicionais às empresas. Trata-se da internalização dos custos ambientais de produção. Com aumento dos custos de produção, as vantagens competitivas diminuem. A segunda linha, chamada de revisionista (do inglês, revisionist), considera o desempenho sustentável como uma potencial fonte de vantagens competitivas, pois pode melhorar processos, reduzir custos, aumentar produtividade e criar novas oportunidades de

mercado. No longo, ou até mesmo no curto prazo, as empresas que investem em pesquisas inovadoras criam novas tecnologias e, assim, podem apresentar vantagens que são determinantes para a competitividade e sucesso financeiro das mesmas.

Portanto, como afirma Araújo (2010), as motivações das empresas em desenvolverem projetos com sustentabilidade não são, e nem devem ser, altruístas. A sustentabilidade é capaz de fornecer um modelo que se integra, a partir do conceito de resultado triplo (o Triple Botton Line), às ferramentas e rotinas existentes nas empresas, criando dessa forma, uma estrutura capaz de levar o tema aos processos de planejamento e tomada de decisão. Conforme demonstra a pesquisa de Fiksel, McDaniel e Mandenhall (1999), a adoção de princípios sustentáveis gera benefícios que vão além das áreas ambientais e sociais, gerando também melhora no valor econômico da empresa.

Apesar dos benefícios já descritos, a adoção de práticas de sustentabilidade ainda não é realidade na grande maioria das empresas. Hubbard (2006) divide as empresas em organizações que ainda atuam de maneira reativa, focando esforços em cumprir os requisitos legais, ou que são solicitados, e empresas proativas, que percebem a sustentabilidade como uma estratégia para o seu desenvolvimento, e que pode gerar vantagens competitivas.

O relatório de pesquisa publicado pelo MIT (HAANAES et al., 2011) também destacou essas duas categorias de empresas quando se trata de sustentabilidade no ambiente corporativo. A primeira categoria compreende os “embracers”, tratam-se das empresas líderes em estratégias sustentáveis. A segunda categoria foi classificada como “cautions adopters”, chamada pelos autores de retardatários. Conforme apresenta o relatório, as empresas líderes são aquelas que demostram mais agressividade nas suas estratégias em busca da sustentabilidade. Enquanto as organizações classificadas como retardatárias acreditam que no futuro a sustentabilidade será importante para garantir vantagens competitivas e acesso a novos mercados. As empresas líderes já atuam dessa forma, tornando a sustentabilidade núcleo de suas ações em todas as áreas, alcançando resultados principalmente em vantagens competitivas, melhorias de processos, capacidade de inovar e, especialmente, a oportunidade de crescer. Resta saber como os sistemas de medição de desempenho dessas empresas se adequam para esta realidade.