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5. DESCRIPCIÓN DEL ITINERARIO

5.5. Cronograma

5.5.4. Comodidad del cliente

“Os brasileiros têm um complexo de inferioridade. Como eles conhecem pouco as outras culturas e ainda como resultado do colonialismo, existe uma hierarquia imaginária das culturas nas cabeças brasileiras.”1

1 URBASCH, Gerhard. A Globalização Brasileira: A conquista dos mercados mundiais por empresas nacionais. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 95.

O baixo desempenho exportador brasileiro é fruto de muitos fatores, não sendo necessários muitos esforços para enumerar uma grande quantidade de justificativas, dentre as quais Markwald e Pulga (2002) destacam:

1.Baixa rentabilidade exportadora, em vir tude da incompleta desoneração tributária;

2.Existência da base exportadora excessivamente estreita;

3.Elevada concentração das exportações em um número restrito de produtos;

4.Escassa diversificação dos mercados de destino;

5.Financiamento a custo elevado, além de restrito a poucas empresas e a poucos setores;

6.Ausência de coordenação das ações governamentais; 7.Falta de prioridade política ao esforço exportador; 8.Baixa propensão das empresas brasileiras a exportar;

9.Ausência de grandes empresas exportadoras (transnacionais verde- amarelas);

10.Baixo conteúdo tecnológico de nossas exportações; 11.Baixo investimento na consolidação de marcas; 12.Ausência de uma cultura empresarial exportadora;

13.Restrição da oferta exportável, em virtude da baixa taxa de investimento da economia.

Portanto, no Brasil existem vários aspectos que impedem que o país seja uma máquina exportadora. Neste artigo será avaliado o item 12 da lista acima, a ausência de uma cultura empresarial exportadora, e como o aprimoramento dessa cultura poderá provocar um efeito cascata sobre os demais aspectos.

É importante lembrar que ser dono de empresa no Brasil é por si só um grande mérito, dados os obstáculos burocráticos, legais e tributários que emperram a formação de novas empresas. Em recente pesquisa do Banco Mundial, publicada na revista Veja2, foi constatado que no Brasil está a sexta

maior burocracia para abrir empresas, a segunda pior para fechá-las, a terceira pior legislação trabalhista e a trigésima Justiça mais lenta do mundo.

Esses obstáculos também dificultam o esforço exportador, mas não se deve esperar que todos sejam resolvidos para avançar no comércio internacional. Com o empresariado nacional mais participativo nesse comércio, a base exportadora se ampliará, e crescerá o número de parceiros comerciais. Dada a necessidade constante de busca por novos mercados, reduzir-se-á a concentração de empresas exportadoras, aumentará a propensão a exportar e, assim, os efeitos do aprimoramento da mentalidade exportadora dos empresários se fariam sentir de modo mais amplo.

2 ALCANTARA, Euripedes; SILVA, Chrystiane. O Brasil entre os piores do Mundo. Veja, ano 37, edição 1838, nº 4. 3 RICUPERO, Rubens. O Brasil e o dilema da globalização. 2 ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2001, p. 18. 4 URBASCH, Gerhard. A Globalização Brasileira: A conquista dos mercados mundiais por empresas nacionais. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 1.

Desde o seu descobrimento, o Brasil esteve envolvido com o comércio internacional. O país, em sua origem e formação, sempre foi exportador. Porém não vendia de forma ativa, mas era “comprado” passivamente. “O Brasil jamais sofreu de falta de integração, mas sim de excesso de uma perversa integração à economia mundial.”3

Essa condição de ser “comprado” se estendeu até os dias de hoje, quando existe um grande volume de debates sobre a globalização. Dentro desse tema o Brasil não é um globalizador e sim um globalizado. “A maioria das empresas no Brasil está mais ‘sendo globalizada’ pela maior concorrência internacional do que ‘se globalizando’, ou seja, saindo do Brasil para competir nos mercados mundiais lá fora.”4

Com origem agrária, por mais de quatro séculos o Brasil foi exportador de produtos agrícolas de baixo valor agregado, além de explorar o trabalho escravo em sua produção. Um povo carente de identidade nacional, altamente miscigenado, filho de muitas nacionalidades, herdeiro de uma elite colonial concentradora de renda e de interesses, que levava o governo a atendê-los. Isto, a ponto de se esquecer das vantagens nacionais, muitas vezes sacrificando oportunidades únicas de crescimento e desenvolvimento, prejudicando-as por meio de políticas cambiais e de substituição de importações demasiadamente protecionistas, eliminando ou arrefecendo a concorrência, mãe da competitividade, e contribuindo para o comodismo empresarial. Estes são alguns dos fatores que contribuíram para a formação de um empresariado acomodado.

Contudo, a grande mescla cultural brasileira pode ser vista como uma vantagem comparativa e competitiva. O brasileiro é um dos poucos povos bem vistos no mundo pela grande maioria de crenças e culturas, tendo em seu território um pouco de cada grande grupo étnico, logo qualquer um de seus integrantes pode ser visto como brasileiro, ao mesmo tempo em que isto facilita o contato com outras culturas. Esta característica, se bem aproveitada, pode abrir muitas portas para os produtos e serviços nacionais no comércio exterior.

Entretanto, tamanha receptividade ao estrangeiro desde o início da constituição de seu povo criou uma admiração pelo que vem de fora e descaso pelo produto nacional. Somadas às noções de dependência e subdesenvolvimento, criou-se a imagem-mito de que “o que é bom vem de fora”, daí passando à impor tação de muitas idéias e produtos estrangeiros.

Miguel P. Caldas, em artigo intitulado Santo de Casa não faz milagre5,

aborda o fascínio e dependência do brasileiro do que vem de fora. Salienta a mania nacional de acreditar que nada de qualidade pode ser feito por brasileiros, o que cria um falso complexo de inferioridade de que não somos 5 MOTTA, Fernando C. Prestes; CALDAS, P. Miguel. Cultura Organizacional e Cultura Brasileira. São Paulo: Ed. Atlas, 1997.

6 O magnetismo exercido pela pessoa, por meio de seu discurso ou de seu poder de ligações (relações com outras pessoas), e não por sua especialização, parece destacar-se no cotidiano brasileiro. Podemos citar Getúlio Vargas, Juscelino Kubitshek, Jânio Quadros, Leonel Brizola e Fernando Collor.

competentes para competir globalmente. Veja-se a quantidade de modelos que compramos do exterior: cinema, música, programas de Master in Business Administration (MBA) e por aí afora.

Nessa linha, o fator que mais assusta Caldas é a idéia de dependência de um guia: “Nós brasileiros parecemos sentir uma necessidade ancestral de alguém que nos guie, que decida por nós e que nos leve pelas mãos” (Caligaris, 1993). Primeiro, sofre-se da principal e mais extensa influência estrangeira advinda dos primeiros colonizadores, os portugueses. Logo passamos pelo ciclo Paris-Londres e finalmente o ciclo da influência dos Estados Unidos.

A postura de espectador é originada de duas fortes instituições na então nascente cultura nacional. Em O Estilo Brasileiro de Administrar (Prates e Barros, 1997) postula-se o Personalismo6 como um dos principais traços

nacionais, que, em conjunto com a concentração de renda, deu os elementos necessários para o Pater nalismo. “A combinação dos dois traços mencionados, concentração de poder e personalismo, em maior ou menor grau, tem como síntese o paternalismo.”7

Manifestando-se na sociedade como um todo esse paternalismo, chega- se ao governo nacional, que, principalmente nas décadas de 70 e 80, via substituição de impor tações e isolacionismo econômico, fechou as fronteiras, defendendo a emergente indústria nacional e acomodando ainda mais o empresário brasileiro. Enquanto o mundo vivia a competição capitalista, os brasileiros tinham um governo que apadrinhava e protegia a ineficiência. As conseqüências dessas medidas se manifestaram no choque gerado pela aber tura econômica feita no governo Collor, na baixa par ticipação no comércio internacional (menos de 1%) e na pauta exportadora ainda centrada nos produtos agrícolas de baixo valor agregado. Dentre as características culturais nacionais, a postura de espectador adotada pela sociedade civil aumenta a dependência, pouco transforma e nada consegue agregar. Fica uma pequena massa crítica, com frágil capacidade de organização, junto à constante e redundante transferência de responsabilidade de um para o outro. No caso do comércio internacional, o governo chama o empresariado de acomodado8. Por sua vez, o setor

privado reclama dos altos juros, da falta de infra-estrutura e de uma tributação maléfica. “O papel do governo ainda é superestimado pelos empresários brasileiros. Parece que o governo tem de resolver uma série de problemas antes das empresas poderem dar um salto.”9

Este artigo não tem a finalidade de dizer quem está certo ou errado, mas sim apontar para a fuga da responsabilidade entre as partes de forma a contribuir para o 7 PRATES, Marco Aurélio Spyer; BARROS, Betania Tanure de. O estilo Brasileiro de administrar: sumário de um modelo de ação cultural brasileiro com base na gestão empresarial. In: MOTTA, Fernando C. Prestes; CALDAS, P. Miguel. op.cit.

8 CRESCENTI, Marcelo. Furlan diz que empresário brasileiro é “acomodado”. Disponível em: <http:// www.bbc.co.uk/portuguese/economia/030515_furlanon.shtml>. Acesso em: 24 nov 03.

9 URBASCH, Gerhard. A Globalização Brasileira: A conquista dos mercados mundiais por empresas nacionais. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 167.

rompimento desse processo. O momento demanda ação e vontade de globalizar, superar obstáculos e conquistar o mercado mundial. O empresário deve perder a timidez, abandonar o imediatismo e fazer estratégias de longo prazo. Felizmente, há exemplos a seguir, como os casos nacionais da Embraer, Gerdau, Sabó, Rosa Chá e Marco Polo. São todas empresas 100% brasileiras que buscaram no comércio exterior uma fonte de crescimento e não apenas uma fuga temporal quando o mercado interno estava debilitado. A falsa idéia de que o Brasil é um grande mercado ainda mal explorado pode ser considerada outro entrave à vontade do empresário de exportar. Porém, a falta de informação do empresariado nacional, uma herança cultural agravada pelos baixos níveis educacionais brasileiros, não os deixa perceber nem agir diante a gravidade do fato de que, apesar de o Brasil possuir dimensões continentais, não passa da 13.ª economia mundial10 com um PIB de apenas US$ 477 bilhões. Em outras palavras, a economia

brasileira é 20 vezes menor que a norte-americana, 16 vezes menor que a da União Européia, 8 vezes menor que a do Japão e 4 vezes menor que a da Alemanha. Na realidade, portanto, o mercado nacional ainda é muito pequeno para desconsiderar a possibilidade de exportação.

Essa herança cultural de dependência, o baixo nível de informação e de preparo resultando no sentimento de inferioridade perante o estrangeiro, com as falsas idéias sobre o tamanho do mercado nacional, fizeram com que o empresariado nacional seja, ainda hoje, um espectador do comércio internacional.