7) ITIL success
5.1 RQ 1: In what way do employees believe ITIL can in- in-fluence organizational culture?
5.1.2 Communication in the organization
Após ter decidido que a EMEF Presidente Campos Salles seria meu campo de investigação, passei a buscar alguma forma de entrar em contato com a unidade escolar. A maneira que consegui foi pesquisando no site da Secretaria da Educação do Município de São Paulo (SME), dados sobre a escola. Nesse site, pude encontrar uma grande quantidade de informações a respeito de todas as escolas que fazem parte da rede do município de São Paulo. Lá obtive o telefone e liguei para saber se poderia agendar uma visita e conversar com o diretor. Isso ocorreu na penúltima semana do mês de dezembro de 2011. Geralmente, por ser próximo ao término do ano letivo, esse é um
período repleto de atividades e tarefas burocráticas a serem finalizadas. Por esse motivo, acreditei que o diretor não poderia me receber, mas, mesmo assim, gostaria de conhecer a escola. Para minha surpresa, ao ligar para a escola, a pessoa que atendeu ao telefone, disse: “aqui não é necessário agendar horário, quando chegar alguém lhe acompanhará para conhecer a escola e se o diretor tiver disponibilidade ele fala com você”. Desliguei o telefone e me desloquei para o bairro de Heliópolis, Zona Sul de São Paulo.
Eu só conhecia Heliópolis pelas notícias que lia e via no jornal televisivo – quase sempre apontando esse lugar como a favela mais perigosa de São Paulo. Mesmo sendo morador de periferia, fiquei com certo receio de como seria recebido no local. A escola está localizada em uma avenida que ostenta um nome muito peculiar: Estrada das Lágrimas. Pelo nome pensei que deveria ser um lugar triste e desorganizado, mas, por meio de moradores com os quais mantive contato algum tempo depois, soube que, em 1944, os Pracinhas (soldados brasileiros enviados para segunda Guerra Mundial) partiam de uma árvore que até hoje existe no início da Via Anchieta (SP). As mães desses Pracinhas ficavam ao longo da estrada para se despedirem de seus filhos e, naturalmente, não podiam conter as lágrimas –, daí o nome Estrada das Lágrimas.
Ao transitar pela avenida, logo desfiz meu imaginário. Além de ser repleta de estabelecimentos comerciais, ela possui um intenso trânsito de automóveis e divide dois bairros: de um lado, o Sacomã – lugar onde se encontram as construções projetadas com um maior rigor, estabelecimentos comerciais de maior porte, uma unidade do bom prato e um pequeno centro comercial com bancos, agência dos correios, casa lotérica, enfim, uma infraestrutura que parece atender aos moradores dos dois lados do bairro; do outro lado da avenida, fica a comunidade de Heliópolis, com ruas e vielas que permitem o acesso entre a Estrada das Lágrimas e a comunidade.
No Centro de Convivência de Heliópolis (CCH), agrupam-se três Centros de Educação Infantil (CEI), uma Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI), uma Escola Técnica Estadual (ETEC) e a EMEF Presidente Campos Salles. Todos esses espaços compartilham uma enorme área verde, com uma quadra poliesportiva e um teatro a céu aberto. Três portões permitem o acesso ao complexo: um encontra-se em frente à Praça da Paróquia São João Clímaco; outro, na Estrada das Lágrimas; e, o terceiro portão, na parte de trás, que dá acesso às ruas da comunidade de Heliópolis.
Quando se vai à comunidade pelo complexo, tem-se a impressão de o complexo é a porta de entrada da comunidade. Próximo a ele, está instalado o Instituto Baccarelli,
que se tornou uma referência nacional por proporcionar o contato entre a música clássica e os moradores de Heliópolis. É na Estrada das Lágrimas que inicia e termina a caminhada pela paz, um evento promovido pela escola juntamente com os moradores do bairro, cujo objetivo é a promoção da cultura de paz.
Ao entrar no complexo pelo portão da Estrada das Lágrimas, a primeira unidade a ser avistada é a EMEF Presidente Campos Salles. Chamam logo a atenção os portões da escola estarem abertos – depois, em outras visitas, pude notar que o portão está sempre aberto. No chão, pude notar indícios de que ali havia muros, pois existem marcas. Há uma pequena mureta que cerca a parte frontal da escola que possui um espaço muito grande, com uma praça com bancos, uma quadra poliesportiva na lateral e uma pequena quadra de vôlei na parte de trás da escola.
Como não há muros, é possível circular e avistar todos os espaços internos da escola. Para entrar nela, é necessário descer uma pequena escada ou utilizar a rampa que fica ao lado. Quando lá cheguei, algumas mães estavam aguardando o atendimento da secretaria. Perguntei pelo diretor e fui encaminhado para sua sala, dentro da qual estava conversando com algumas pessoas – depois fiquei sabendo que era o “pessoal” do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC). Logo fui atendido. Apresentamo-nos e expliquei que era aluno do Programa de estudos pós-graduados em Educação: História, Política, Sociedade da PUC/SP e que gostaria de conhecer o Projeto Pedagógico da escola para realizar minha pesquisa de Mestrado.
Disse-lhe que havia obtido informações sobre o projeto em desenvolvimento, sob sua direção, e que esse era o meu maior interesse. Depois de dizer que eu poderia ficar à vontade, ele deixou a escola à disposição da pesquisa e disponibilizou os recursos que fossem necessários a sua realização. Além de se mostrar uma pessoa muito receptiva, o diretor falou sobre o projeto pedagógico e de como chegou até a escola.
Convidou-me, ainda nesta visita, a participar da reunião de Jornada Especial Integral de Formação (JEIF), que começaria dali a algumas horas. Enquanto esperava, melhor do que ele, um aluno poderia me apresentar os espaços da escola e falar como era o projeto pedagógico da escola. Fomos ao salão do 7º ano. Chegando lá, espantei- me com uma sala enorme, repleta de alunos, todos sentados e discutindo suas lições. Ele chamou uma aluna e pediu para que ela me mostrasse a escola e falasse um pouco sobre o projeto. Despedimo-nos e ele voltou para a sua sala, pois tinha que preparar algumas coisas para a reunião.
Durante a apresentação, a aluna me apresentou todos os espaços – conheci os demais salões, as salas de orientação, o pátio interno e externo, por fim andamos pelo complexo educacional. Notei que o primeiro pavimento da escola fica em um nível inferior ao da “rua” – depois descobri que antes da construção do complexo, na frente da escola existia uma rua. Nesse espaço, do lado direito, ficam duas salas para orientação de roteiros de estudo, um salão e a sala dos professores. Do lado esquerdo, encontram-se a secretaria da escola, a sala do diretor, uma Sala de Apoio e Acompanhamento à Inclusão (SAAI), dois banheiros e, seguindo pelo corredor, há a sala onde ocorre a reunião dos professores – nesse mesmo espaço, em uma sala anexa, fica a sala das coordenadoras pedagógicas.
No outro pavimento, subindo as escadas, encontram-se três salões e mais uma sala de orientação de roteiros de estudo. Para que os alunos possam chegar ao pátio da escola, onde se localiza a cozinha, os banheiros e um pequeno palco, é necessário descer uma pequena escada. Nesse espaço, foi instalado um portão que dá acesso à parte de trás da escola. Do lado direito, existe um corredor onde está a sala de informática, a sala de leitura, uma sala de orientação de roteiros de estudo e uma pequena sala que é utilizada pelos funcionários que fazem a limpeza da escola para guardar alguns objetos. No final do corredor, há uma porta que permite aos alunos acessarem a quadra poliesportiva e as demais unidades do complexo educacional.
Por notar que era um espaço grande e aberto, perguntei à aluna se ela não tinha vontade de cabular aulas e ir embora. Com os olhos arregalados e um ar de reprovação, ela exclamou: “Claro que não! Por que eu iria cabular se estou na hora da escola?” (risos). Ela disse que uma vez até tentou, mas que não valeu a pena, pois perdeu muita coisa. Voltamos à escola e já se aproximava o término das aulas – ela foi para a sala de aula, e eu, para a sala do diretor – um espaço pequeno, dividido com as assistentes de direção – que estava muito movimentada, com muitas pessoas – as quais fui apresentado pelo diretor –, entrando e solicitando informações, falando sobre o que estava acontecendo na escola.
Quando o relógio marcou meio-dia, fomos para a sala onde acontecem os encontros de formação para os professores que realizam a JEIF. Lá estavam alguns professores e as coordenadoras pedagógicas. Antes de iniciar a reunião, o diretor me apresentou ao grupo, informando-lhe o objetivo de minha presença ali e o período
inicial da realização de minha pesquisa de mestrado – ano de 2012. Depois das apresentações, deu início à reunião.
Naquele dia, eles estavam realizando a avaliação do projeto que havia sido elaborado com o CENPEC. Pelo que pude perceber, esse foi um projeto muito importante para todos aqueles que participaram – todos avaliaram muito bem a formação dada pelo projeto e gostariam que tivesse continuidade no próximo ano.
O projeto pretendia ajudar os professores na construção dos roteiros de estudos que eles desenvolviam com os alunos. Aquela foi uma tarde muito especial, pois pude ver um grupo de professores, relatando suas experiências ligadas à pratica educacional, pude vê-los, refletindo e questionando a prática cotidiana. Ainda neste dia, presenciei uma atitude que não é muito comum entre os docentes: uma professora relatou que, quando ia elaborar os roteiros, percebeu que não sabia dar aula, mas, após expor suas dificuldades, com a ajuda dos demais colegas, encontrou apoio no grupo e hoje sente mais segurança para elaborar o que vai trabalhar com os alunos.
Essa não foi, porém, uma fala isolada. Outros professores descreveram o quanto o projeto auxiliou para que sua prática fosse modificada. Antes do término da reunião, o diretor disse que no ano seguinte, eles iriam organizar o projeto de ação República de Alunos, e esperava contar com a colaboração de todos! Ele foi enfático ao dizer que, em uma escola onde os alunos eram incentivados a trabalhar em grupo, era inadmissível que alguns professores ainda tivessem um comportamento individualista, e por esse motivo, para criar uma República de Alunos, era necessário existir uma república de adultos que soubessem trabalhar coletivamente.
Esse projeto visaria estabelecer uma República de Alunos e professores. Salientou que já havia sido iniciada uma conversa com os alunos e que os mesmos estavam muito ansiosos para ver o projeto acontecendo na prática. Um professor pediu a palavra e lembrou que os alunos já haviam feito um roteiro de estudos com o tema política e ética Caberia agora dar continuidade no ano seguinte e não deixar a ideia “esfriar”. O diretor encerrou a reunião e me convidou para participar das reuniões de formação que ocorreriam no início de 2012.
Neste dia, saí com a esperança de que algo diferente ocorria naquela escola, e que merecia ser observado mais de perto, pois encontrei um grupo de professores que não tinham medo de dizer que não sabiam algo, e uma gestão que parecia não ter medo de permitir que o outro de fora viesse presenciar o que eles estavam realizando.