Jean-Paul Willaime define religião como uma comunicação simbólica regular por meio de ritos e crenças se reportando a um carisma fundador e
203 HÉRVIEU-LÉGER, Danièle. A transmissão religiosa na modernidade: elementos para a construção de um objeto de pesquisa. In: Estudos de Religião – Revista Semestral de Estudos e Pesquisas em
Religião, Ano XIV, n. 18, 2000, p.44.
gerando uma cultura. Dentro desse escopo, o protestantismo é entendido um sistema religioso (cultura) cuja relação com o carisma fundador é mediatizado por textos, pois tanto a verdade religiosa como o modo próprio de existência social é legitimado pela Bíblia, considerada a única regra de fé e de prática.
Willaime assevera que o protestantismo é uma integração de fundamentalismo e liberalismo. Quando exige submissão à autoridade das Escrituras, é um fundamentalismo, mas, quando insiste no livre exame para uma convicção pessoal, é um liberalismo. Há uma tendência sectária nos termos da tipologia weber-troeltschiana que é equilibrada com uma outra que se aproxima do tipo místico de Troeltsch206.
A bipolaridade básica do protestantismo (fundamentalismo/liberalismo) se reflete em outras de caráter social e psicológico. A primeira dessas bipolaridades derivadas contempla a dualidade do individual e do societário (comunitário)207, o que nos leva a uma aproximação de um ponto chave não só da sociologia da religião, mas de toda a sociologia de Simmel: a ênfase no social que preserva a transcendência do individual. A segunda trata da relação pendular entre o intelectual e o emocional.
Acerca do equilíbrio desejado entre individualidade e comunidade no protestantismo, o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer define um paradigma: Somente na comunhão aprendemos a ficar corretamente sozinhos, e apenas na solidão aprendemos a viver corretamente em comunhão208. Segundo Bonhoeffer, se não formos capazes de nos completarmos sozinhos em Deus mediante Cristo, nos tornaremos parasitas da comunidade cristã, um fardo para ela, pois a teremos feito um substituto de Deus, um ídolo. Somente os que encontrassem sua suficiência em Cristo é que poderiam ser membros construtivos da comunhão. Desse modo, Bonhoeffer, dentro de uma versão religiosa, supõem o que Georg Simmel chama de caráter duplo do indivíduo.
205 WILLAIME, Jean-Paul. O protestantismo como objeto sociológico. In: Estudos de Religião – Revista
Semestral de Estudos e Pesquisas em Religião, Ano XIV, n. 18, 2000, p. 26
206 WILLAIME, Jean-Paul. Op. Cit., p. 28 207WILLAIME, Jean-Paul. Op. Cit., p. 29
Isso significa que o homem é um elemento no todo social e um todo em si mesmo209.
Os teólogos católicos da Idade Média diziam que, ao se submeter ao juízo da Igreja, ainda que lhe faltasse o esclarecimento doutrinal, o cristão expressava sua fé. João Calvino, contudo, fez oposição a esse ensino. O Reformador de Genebra disse que não podia haver fé sem um processo de esclarecimento pessoal e sem exercício individual de consciência, pois a fé consiste em conhecer Deus e Cristo, e não em reverenciar a igreja; e as Sagradas Escrituras ensinam em todas as suas partes que a fé verdadeira é acompanhada por um entendimento iluminado210.
Para o catolicismo, a graça se comunicava principalmente de modo sacramental, sendo o efeito do sacramento convalidado por sua origem institucional, independentemente da santidade prática do ministrante. No protestantismo, a graça é recebida essencialmente pela fé nas promessas da palavra de Deus. O centro do culto, então, deixa se ser simbolicamente o altar para ser o púlpito. Isso implicava não só na necessidade de uma pregação inteligível aos ouvintes, mas também na capacidade expressiva e moral do ministrante. O puritano Richard Baxter (1615-1691) explicou:
Tampouco é sábio responder que Deus concede as suas graças por meio dos piores e dos melhores, tanto pelos mais fracos como pelos mais fortes, não sendo, portanto, necessário preocupar-se com isso... Ele ordinariamente opera de conformidade com os meios que emprega – e isto é provado tanto pelas Escrituras, como pela razão e pelo experiência diária. Deus opera racionalmente por meio do homem, de acordo com as suas qualificações, como um agente livre e racional, através de uma operação moral e não como uma mera infusão física da sua graça.211
Percebe-se que o protestantismo contribuiu historicamente para o surgimento da nova visão do individuo na modernidade. Stuart Hall explica que, nos tempos pré-modernos, as pessoas conheciam a individualidade sob categorias que faziam o seu valor depender de associação a outros
209 WAIZBORT, L. As Aventuras de Georg Simmel. Sâo Paulo: Editora 34, 2000, p. 500
210 WILLES, J. P. Ensino sobre o Cristianismo(Uma edição abreviada de AS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ de João Calvino). 2a ed. Trad. Gordon Chown. São Paulo: PES, 2002, p. 234-235. 211 BAXTER, Richard. Firmes na fé. Trad. Paulo Anglada. Ananindeua, PA: Knox Publicações, 2009, p.
referenciais, como as tradições e as estruturas feudais. O sentimento de que o homem era “indivíduo soberano” apareceu entre o Humanismo Renascentista do século XVI e o Iluminismo do século XVIII, passando a ser o motor que deu dinamicidade ao sistema social da modernidade. Hall diz que a Reforma e o Protestantismo, que libertaram a consciência individual das instituições religiosas da Igreja e a expuseram diretamente aos olhos de Deus, foram exemplos de movimentos importantes no pensamento e na cultura ocidentais que contribuíram para a emergência da nova concepção de indivíduo212.
Raymond Williams destaca entre os fatores que contribuíram para a formação da noção de individualidade no sentido moderno a ênfase do Protestantismo na relação direta e individual do homem com Deus, em oposição a esta relação mediada pela Igreja213”. Vemos aqui a semente do novo misticismo contemplado por Simmel como forma religiosa em ascensão em seus dias.
De uma maneira paradoxal, porém, o protestantismo também se destacou pelo comunitarismo, chegando mesmo a inspirar a elaboração de modelos sociológicos. José Maurício Domingues fez o seguinte comentário acerca disso:
É interessante observar que, enquanto a crítica revolucionária ao capitalismo e ao liberalismo subjaz ao pensamento de Marx, no caso do pragmatismo e do interacionismo simbólico as influências sociais que levam ao destaque à interação são, de um lado, o comunitarismo protestante tradicional e, de outro, uma perspectiva de reforma social liberal.214
Encontramos um bom exemplo do comunitarismo protestante nas sociedades metodistas do século XVIII. João Wesley, o mais famoso líder metodista, em seu “Diário” relativo a 1741 comenta suas orientações sobre a fraternidade nas sociedades. Faz um relatório dos que estão sem alimentação necessária, sem roupa, sem trabalho (desde que não seja por sua culpa
212 HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-modernidade. 10o ed. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e
Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2005, p.25-26
213 WILLIAMS, R. Keywords. Londres: Fontana, 1976, p. 135-136
214 DOMINGUES, José Maurício. Teorias Sociológicas no Século XX. Rio de Janeiro: Civilização
própria) ou enfermos. Alista recomendações aos outros para que tragam tantas roupas quanto cada um pudesse dispensar e dessem dinheiro semanalmente para auxílio dos pobres e enfermos. Observa que pretendia empregar todas as mulheres sem trabalho (em confecção de roupas quentes de preferência), dizendo que se lhes pagaria o preço corrente no início, mas, depois, seriam fixados suplementos segundo a necessidade de cada uma. Inspetores foram nomeados para inspecionar os trabalhos e visitar aos doentes. Às terças-feiras, pela noite, haveria uma reunião para relatar o que foi feito e saber o que ainda deveria sê-lo215.
O protestantismo tanto influenciou o individualismo como o comunitarismo nas antigas colônias inglesas.
A outra bipolaridade projetada pela dialética protestante (fundamentalismo/liberalismo) é expressa na tensão entre o intelectual e o emocional.
A insistência na autoridade das Escrituras dentro do protestantismo, por exemplo, costuma promover um tipo de erudição teológica que gera um modelo religioso “frio” e intelectual216. Já a exigência de uma experiência de constatação pessoal da verdade religiosa, por sua vez, produz o entusiasmo de uma religião “quente” e emocional. No protestantismo, surgiram grupos que enfatizavam tanto um lado como o outro.
O puritanismo foi um dos movimentos dentro do protestantismo inglês do século XVII que melhor procurou administrar as ênfases paradoxais da fé reformada. Errol Hulse faz alusão ao seu equilíbrio singular de doutrina, experiência e prática217. Cita uma afirmação de Andrew Patterson acerca de sua abordagem holística, salientando que os puritanos rejeitavam a quebra e a compartimentalização dos últimos dois séculos218. Observa que sua mensagem era a da liberdade combinada com autocontrole e disciplina219. Eles
215 DUNSTAN, J. Leslie. Protestantismo. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964, p.
126
216 WILLAIME, Jean-Paul. Op. Cit., p. 28
217 HULSE, Errol. Quem foram os Puritanos? ... e o que eles ensinaram? Trad. Maria Judith Prada
Menga. São Paulo: PES, 2004, p. 15.
218 HULSE, Errol. Op. Cit., p. 16. 219 HULSE, Errol, Op. Cit., p. 20
formavam uma comunidade fraterna unida pelo desejo de reformas eclesiásticas que incentivassem o aprofundamento da piedade individual.
Willaime observa que a respeitabilidade dos pastores e teólogos (“homens do livro”) também deve ser destacada no protestantismo220. Muito embora se insista no livre exame das Escrituras, a existência de bons intérpretes facilita o exame do leigo, o que não o dispensa de sua responsabilidade pessoal.
Ao colocar a disposição de cada fiel o meio supremo da legitimidade religiosa, isto é, a Bíblia, a verdade tornou-se um problema hermenêutico, mas ao mesmo tempo erigiu-se um novo tipo de poder religioso: o do pastor-teólogo.221
Pelas razões acima apontadas, é que os puritanos ingleses foram, acima de tudo, uma fraternidade de pastores piedosos.222