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10.4 Commercial Catch/Effort Data and Survey Indices
Essa intelligentsia anticapitalista de caráter heterogêneo que surge nos anos 1960, no entanto, teve correspondentes anteriores marcantes nos anos 1950. Isso porque fez parte de um debate que envolveu instituições, partidos políticos e entidades que se propunham a pensar o país a fim de encontrar saídas para a superação dos entraves que demarcavam dois Brasis, um atrasado e outro moderno. Aqui, vamos nos ater a alguns exemplos principais e isso se justifica para definir que o clima de euforia e efervescência que marcou o começo da década de 1960 provinha de um debate anterior, no qual a cultura engajada se inseriu e interferiu. Essa inserção e interferência são vistas de uma forma mais ativa por Deni Rubbo (2008). Para ele, é a cultura engajada que “problematizará em graus mais complexos as relações entre ideologia, cultura e política” (RUBBO, 2008, p.114) presentes nesse contexto sócio-histórico vivenciado pela intelligentsia brasileira.
Esse contexto, marcado por uma concepção dualista do país (rico/pobre) e uma visão dicotômica entre nação e imperialismo, fomentou o debate de ideias em torno de modelos de progresso e desenvolvimento. Tais dilemas passaram a ser teorizados por diferentes grupos, tais como: o Instituto de Estudos Brasileiros (ISEB), ligado à casa Civil da Presidência da República; a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL),
organismo das Nações Unidas (ONU), e pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). A influência deste último foi marcante, e no caso do Cinema Novo, é-nos de maior interesse, já que possibilitou muitas discussões relacionadas diretamente ao cinema brasileiro nos anos 1950.
De forma sintétita, o ISEB foi criado em 1955 como um centro de altos estudos sobre política e sociedade, a fim de elaborar instrumentos teóricos que permitiriam o incentivo e desenvolvimento nacional. O Instituto era formado por intelectuais de diferentes áreas e filiações ideológicas. O ISEB assinalava como contradição principal na sociedade brasileira o embate entre “nação” e “antinação”, e elegia o “povo brasileiro” como principal agente da História. Já a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), criada em 1948 pela ONU, visava o desenvolvimentismo e defendia que a superação da condição de subdesenvolvimento do país dependia de programas estatais que viabilizassem a industrialização do mercado interno, com o apoio do capital estrangeiro, mas em oposição ao imperialismo comercial estrangeiro. Enquanto para o PCB caberia à revolução burguesa, nacional e democrática, em sua primeira etapa, combater as forças interessadas em manter o subdesenvolvimento brasileiro (o imperialismo e seus aliados, os latifundiários e setores das classe média próximos aos interesses multinacionais), a qual se seguiria posteriormente a revolução socialista.
Essas discussões se fizeram atuantes na cultura engajada da década de 1960, principalmente nos anos que antecederam o golpe. Diferentes movimentos artísticos engajados, que visavam formar uma „arte revolucionária‟ pautada na proximidade com o povo, participaram desse debate: além do Cinema Novo, a dramaturgia do Teatro de Arena de São Paulo (autores como Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Francisco de Assis e Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha), a canção de Carlos Lyra e Sérgio Ricardo, o agitprop dos Centros Populares de Cultura (CPC‟s)13 da União Nacional dos Estudantes, que reuniu
artistas de diversos campos, especialmente do teatro, música, cinema e literatura (RIDENTI, 2010, p. 90). Os CPC‟s, ao trabalhar “o contato direto com as massas, de onde extraíam seu maior interesse e vigor, encenavam peças em portas de fábricas, favelas e sindicatos; publicavam cadernos de poesia vendidos a preços populares e iniciavam a realização pioneira de filmes auto-financiados (HOLLANDA, 1995, p.10).
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A relação do CPC com o ISEB é um exemplo de confluência interessante, já que “o CPC começa sob o impacto da presença do ISEB, mas com o tempo essa ligação se inverteria” (ESTEVAM, apud RUBBO, 2008, p. 112).
No pré-64, era forte o diálogo entre os intelectuais e artistas e havia uma mobilidade entre essas diversas manifestações, cineastas do Cinema Novo, por exemplo, também faziam parte do CPC, como foi o caso de Cacá Diegues, Eduardo Coutinho, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, entre outros.
Para Marcelo Ridenti (1993), as teses de libertação nacional e de um governo nacional-popular, em suas diversas variantes, traziam a marca evidente de desdobramentos das propostas do PCB. Partido que mantinha na década de 1950 uma relação complicada com os intelectuais e artistas, em um jogo implícito de consentimento e discordância entre si. Isso também se deveu a própria condição do partido (na ilegalidade desde 194514), no qual prevaleceu o stalinismo, cuja linha dogmática restringia a ação dos intelectuais até o fim da década. No entanto, a partir dos anos 1960, o PCB se esforça para se inserir nas lutas populares, tentativa que resultou em uma fase áurea que foi de 1960 até o golpe, o que também coincidiu com o momento de maior efervercência da cultura engajada do momento e do Cinema Novo.
Um fator gerado pelo partido, por exemplo, que repercutiu e favoreceu o surgimento do Cinema Novo, foram os Congressos de Cinema organizados pelo PCB. Em março de 1951 foi criada, com forte participação comunista, a Associação Paulista de Cinema, que promoveria, em abril de 1952, o I Congresso Paulista de Cinema (o qual se desdobra no I Congresso do Cinema Nacional) e no ano seguinte, o II Congresso Nacional do Cinema Brasileiro, a fim de viabilizar o cinema nacional.
De certa forma, os cineastas comunistas prepararam o terreno para a hegemonia do Cinema Novo nos anos 1960 – que se colocava tarefas revolucionárias, mas já sem o didatismo e a submissão ao PCB, embora congregasse cineastas comunistas e ex- integrantes do partido. O Cinema Novo não seria possível sem a história anterior de disputas no campo fomentada pelos cineastas comunistas. (RIDENTI, 2010, p. 73).
Não pretendemos aqui estabelecer uma relação direta e unilateral entre o nascimento do Cinema Novo e o PCB, mas sim situar a participação do partido, bem como das demais instituições e entidades, no debate sobre um projeto de desenvolvimento para o país, do qual participou ativamente a cultura engajada dos anos 1960, de maneira geral, e o Cinema Novo em particular. Projetos que conjugavam perspectivas políticas de interferência na sociedade. Ou seja, ainda que com visões distintas, esse cenário previa uma configuração
14 Após o Estado Novo (1945) e com o começo da Guerra Fria no contexto mundial, o PCB foi colocado na
ilegalidade, em maio de 1947, pelo governo Dutra (1946-1951). Em resposta, e visando derrubá-lo, o partido apoiou o candidato Juscelino Kubitschek e João Goulart para vice-presidente nas eleições de 1950. Fato que de certo contribuiu para a vitória do candidato, mas que não garantiu a legalidade do partido. Ainda assim, a perseguição retrocedeu e sua atuação aberta passou a ser tolerada, até o golpe de 1964.
social nova, na qual se buscava a superação do dualismo e do anacronismo. Vale aqui definir que houve, então, um ambiente propício para o surgimento da cultura engajada e do Cinema Novo - e que ambos tiveram raízes com as quais dialogaram e interferiram também ativamente – o que fomentou a sua fase áurea do início dos anos 1960.