durante sua formação universitária. Ocorre antes, durante e após as aulas; também em outros espaços da universidade vinculados direta ou indiretamente a essa formação. Desse trabalho decorrem ações de estudar a ser respaldadas por processo investigatório que contribua para ultrapassar conhecimentos incompletos, ir de certo senso comum para certa compreensão sistematizada. Estudar é, então, cabe frisar, “[...] um ato metódico, sistemático e objetivo de perscrutar a realidade” (BARROS, 1986, p. 4), seja para no trabalho docente, seja no trabalho discente.
Consciente de seu trabalho específico, o graduando pode participar mais ativamente de sua formação: dos rumos não só profissionais, mas também da formação científica, que lhe dá condições de articular, crítica e reflexivamente, instituição e sociedade pelo prisma da pesquisa, do ensino e da extensão. Trata-se de um “[...] estudante com um competente domínio do conhecimento científico, habilitá-lo tecnicamente para o exercício de uma profissão e
desenvolver nele uma consciência social, de cunho analítico e crítico” (SEVERINO, 2007, p. 18).
Entretanto, esse trabalho específico não ocorre de maneira simples. Cada aluno precisa situá-lo e compreendê-lo intrinsecamente e como interligado a práticas educacional desenvolvidas no ambiente universitário, em vez de agir como se estivessem em outros espaços de educação não formal — sem sistematização no processo de tomada de decisões. Tais práticas são percebidas apenas quando seus agentes — docente, discente, pessoal de apoio e contexto institucional — ligam-se entre si não de maneira natural, mas de forma consciente e reflexivamente.
A noção de conhecimento científico como algo transmissível por métodos e técnicas apropriadas: aprender ouvindo, anotando e repetindo quem detém o saber — o poder, o controle — e repelindo quem não o tenha. Não há interação nem troca nem dinâmica. Há dogma, domínio, alienação, indiferença. Confundem-se elaboração de conhecimento com transmissão de informações; ciência com tecnologia e técnica; produção de obras acadêmicas com cópias sofisticadas de ideias. Não se diferem competências de habilidades, ainda que às vezes se vinculem à situação produtiva. Essa prática educativa soa como amálgama de fatores socioculturais entrelaçados e sem diferenças nítidas que impeçam diretamente o crescimento acadêmico dos mais desfavorecidos economicamente.
Diferentemente, o processo de ensinar e aprender na universidade tem de ser percebido, sentido, intuído, talvez, bem antes de adentrar a formação geral, específica e profissional proporcionada pelas graduações. Tem que ser captado com força, coragem, disciplina e ação para superar a fraqueza, o medo, a indisciplina e a falta de ação. É preciso experienciar: implicar-se, viver, sentir, lançar-se, envolver, conviver, compartilhar, interagir, flexibilizar e, em especial, pôr-se na condição de ser aprendiz com o intuito de desenvolver sua humanidade. Noutros termos, tal processo supõe entender o que é universidade, ciência, metodologia científica, planejamento, formação discente, desempenho acadêmico, gestão de carreira, elaboração e divulgação do conhecimento; dominar o processo de leitura crítico-analítica, de coletar dados e examiná-los à luz de referenciais teórico-metodológicos.
A filosofia de Kosik pode auxiliar no entendimento dessa realidade universitária ao apresentar e discutir que a realidade pode ser apreendida pela compreensão crítica que se inicia na práxis empírica e compreendida em sua peculiaridade contraditória por meio de esforços conscientes para atingir a práxis crítica, revolucionária. A finalidade é entender e destruir o mundo da pseudoconcreticidade: da práxis imediata, incompleta e parcial; composto de fenômenos externos (apresenta a externalidade do real, oculta a essência), de tráfico e
manipulação (prática fetichizada não coincidente com a práxis crítica); de representações comuns (projeções dos fenômenos externos na consciência dos homens) e de objetos fixados (impressão de condições naturais, e não resultado de atividade social dos homens) — conforme expõe Kosik (1976). Ainda que esse autor não entre na didática de como proceder para realizar esse esforço entre uma práxis e outra (fazer isso não era foco do seu trabalho), ele salienta ser imprescindível para compreender uma realidade única e integral, formada de fatores físicos, socioculturais e relações pessoais e interpessoais positivas ou negativas; conforme seja a lógica de observação e apreciação de cada um que realiza sistematicamente essa tarefa.
Com suas práticas educacionais, a realidade universitária pode ser mais bem percebida pelo entendimento do trabalho estudantil. Essa instância se aproxima de conceitos formulados por Davídov e da ideia do pensamento empírico como imediato, direto e externo, ligado à existência empírica do objeto; objeto com o qual atua o pensamento empírico, que é superficial, pois capta só o lado externo dos fenômenos, não aprofunda. Com isso, a realidade é entendida naturalmente e se manifesta facilmente. Não é questionada. É imutável. Esse pensamento, porém, é importante. Parte dele o entendimento da dimensão interna dos objetos para chegar ao pensamento teórico: cerne do objeto cognoscível. Ao estabelecer conexões exteriores e internas com o objeto, o estudante forma conhecimento completo, organizado e sistemático (LIBÂNEO; FREITAS, 2013).
Com efeito, Kosik (1976) considera que a práxis empírica é necessária para atingir a práxis crítica; e é útil para apreender a realidade. De uma a outra, exige-se um esforço crítico e sistematizado. Para Davídov, o pensamento empírico é início da elaboração do pensamento teórico, num movimento que demanda atividade de estudo, também necessária à apropriação da realidade. Em suas palavras,
A atividade de estudo e o objetivo de estudo a ela correspondente estão ligados, antes de tudo, com a transformação do material quando, para além de suas particularidades exteriores, se pode descobrir, fixar e estudar o princípio interno ou essencial do material a ser assimilado e, desse modo, compreender todas as manifestações externas desse material (DAVÍDOV apud LIBÂNEO; FREITAS, 2013, p. 341).
Trata-se de uma maneira exclusiva de captar dados primários, internos e externos, analisá-los metodicamente e compreender completamente o objeto cognoscível ao interligá-lo ao contexto real do ambiente. Transforma-se o objeto e produzem-se transformações no sujeito quando ele elabora conhecimentos. Segundo Libâneo e Freitas (2013, p. 341), “[...] a atividade de estudo, expressa a relação ativa e criadora do aluno com o objeto de estudo visando
transformá-la (ao fazer as relações entre o externo e interno no conteúdo) e, desse modo, formar o conhecimento teórico”.
Kosik e Davídov elaboraram duas perspectivas: uma filosófica, outra didática, respectivamente, em estreitas vinculações com a filosofia marxista e a abordagem histórico- cultural. Tais perspectivas parecem importantes e complementares para entender e orientar afazeres acadêmicos que ultrapassem atitudes do senso comum e, assim, permitam formar estudantes conscientes de suas ações; podem ajudá-lo a enfatizar e explicitar sua realidade universitária que, às vezes, apresenta-se caótica, desorganizada, acabada e com regulações próprias, às vezes mutável e inacabada, pronta para ser reconstruída e transformar a quem se arriscar a modificá-la. As obras produzidas por ambos os estudiosos parecem ser úteis como referências teóricas que, quando usadas adequadamente, podem abalizar ações do aluno quanto a permitir seu envolvimento com o estudar na universidade tendo por base sua avaliação crítica de sua trajetória acadêmica, intrinsecamente emaranhada com os outros fatores de sua vida. Surgem modos próprios para empreender a organização e execução do trabalho discente — estudar, aprender e pesquisar.