4.1 Despotisme
4.1.5 Comment gouverner selon Montesquieu et Voltaire?
À princípio, o objetivo era realizar entrevistas individuais. Contudo, no primeiro contato com as trabalhadoras, elas se sentiram acuadas e com medo de que as informações que me dessem fossem usadas contra elas. A insegurança de falar com uma estranha sobre seu trabalho e suas opiniões sobre ele se atenuava quando percebiam que a colega de trabalho poderia estar junto, afinal, era um respaldo, a colega também vivia as mesmas situações, assim, elas se sentiram mais à vontade.
Dejours (2007) ao descrever e analisar os obstáculos metodológicos de uma pesquisa sobre pressões no trabalho, aponta que a metodologia das entrevistas individuais, que parecia a melhor alternativa, não se mostrou como tal. O início de entrevistas coletivas para ter acesso à dimensão específica das pressões de trabalho mostrou que os trabalhadores entrevistados em grupo eram capazes de “reconstruir a lógica das pressões de trabalho que os fazem sofrer e também podiam fazer aparecer estratégias defensivas coletivamente
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construídas para lutar contra os efeitos desestabilizadores e patogênicos do trabalho” (DEJOURS, 2007, p. 124).
Portanto, como percebi que as entrevistas fluiriam mais, que as trabalhadoras se abririam mais e até relembrariam acontecimentos que não lembrariam sozinhas para uma estranha, e que mais mulheres aceitariam conversar comigo na companhia de uma colega, as entrevistas foram realizadas com duplas, majoritariamente. Houve uma entrevista com um trio, e uma individual.
Da mesma forma que as mulheres se sentiram inseguras e receosas de responderem perguntas individualmente, também houve resistência para me passarem seus contatos para marcar uma entrevista individual e fora do horário de trabalho, no primeiro momento. Dessa forma, as entrevistas aconteceram no horário de trabalho ou no horário de almoço/lanche dela, como as trabalhadoras preferiram. O ato de responderem perguntas e conversarem com alguém diferente durante o horário de trabalho também era uma oportunidade de descansar um pouco da jornada, assim, andávamos mais devagar do que o usual para elas, ou ficávamos paradas conversando.
A forma como cheguei até as trabalhadoras para conseguir as entrevistas se deu no local de trabalho delas, na rua. Carregando o meu projeto de dissertação nas mãos, eu as abordava, explicando quem eu era e as apresentando meu projeto, caso quisessem ler, perguntava se podiam contribuir para a minha pesquisa. A partir daí, propunha que a nossa conversa poderia ser realizada em outro horário e dia, caso elas quisessem, todavia, todas que se prontificaram a participar, optaram por serem entrevistadas naquele momento.
O grupo de três mulheres foi entrevistado a partir de indicação. Uma amiga é professora e tem alunos e alunas cujos parentes ou vizinhos trabalham como garis, assim consegui o contato de Mariana, que conversou com suas colegas de trabalho, e aceitaram serem entrevistadas. A única entrevistada individualmente foi Márcia, que trabalha no Setor Comercial Sul no turno noturno.
O turno com maior dificuldade para conseguir trabalhadoras que concordassem em participar da pesquisa foi o noturno. Nos dois lugares onde entrevistei trabalhadoras, havia um acompanhamento maior do fiscal, que nos dois casos, centro de Taguatinga e Setor Comercial Sul, eram homens.
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O Setor Comercial Sul é um lugar muito movimentado durante o dia, já na parte da noite, as garis que trabalham ali dividem o espaço com o grande número de pessoas em situação de rua, prostitutas e traficantes. Esta situação faz com que elas estejam em uma situação mais perigosa que em outros lugares e/ou horários. Além disso, o fiscal permanecia sentado em um banco do outro lado da rua, olhando para as trabalhadoras. São várias duplas trabalhando neste local, tentei conversar com 6 mulheres, e apenas Márcia concordou, entretanto, pediu para eu ir no sábado seguinte. Todas as outras mulheres estavam bastante assustadas e sempre olhavam para onde o fiscal estava ou por onde ele poderia estar passando. Uma dupla, inclusive, pensou que eu era uma repórter e que se eu fizesse uma matéria sobre elas e o seu trabalho, as prejudicaria. Esta mulher contou que há algum tempo, uma moça disse que era estudante, fez uma reportagem e a gari que deu entrevista foi demitida. Tentei mostrá-las minha carteirinha de estudante da UnB, mas mesmo assim, não aceitaram.
Para não ir sozinha durante a madrugada, meu irmão me acompanhou na busca por trabalhadoras no Setor Comercial Sul, W3 Sul, centro de Taguatinga e Pistão Sul. Na W3 Sul conversei com uma dupla de trabalho em que uma concordou em participar e me deu seu telefone, porém, no dia seguinte, ao contactá-la, disse que não poderia se arriscar e que não queria ser prejudicada. Em Taguatinga, no Pistão Sul, também falei com uma trabalhadora que me deu seu telefone, mas nunca consegui falar com ela.
“Uma pesquisa sobre gari?” ou “Posso falar tudo?” foram falas recorrentes e que revelam o que Spivak (2010) apresentou como questão, “Pode o subalterno falar?”. Subalterno refere-se às “camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política legal, e da possibilidade de se tornarem plenos no estrato social dominante” (SPIVAK, 2010, p. 12).
É interessante perceber que este medo e/ou falta de costume de falar sobre sua realidade e expor suas opiniões, além de ter alguém que esteja interessada em ouvi-las é construído social e historicamente, este silenciamento foi construído. SPIVAK (2010) aponta que apesar dos dois sujeitos históricos, homens e mulheres, serem objetos da historiografia colonialista e sujeitos de insurgência, a construção ideológica de gênero mantém a dominação masculina. “Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não rem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade” (SPIVAK, 2010, p. 66).
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Desse modo, a oportunidade de serem ouvidas e de falarem sobre o trabalho, seus corpos, suas opiniões e sobre elas mesmas também trouxe satisfação e orgulho do que fazem e de serem enxergadas como mulheres, trabalhadoras, que sustentam suas casas, vaidosas, divertidas, como pessoas.
Antes de ir a campo para as entrevistas, o objetivo da pesquisa era apreender as consequências do trabalho sobre a saúde das trabalhadoras, com um foco maior sobre o sofrimento, contudo, a partir da experiência das entrevistas, a complexidade do que é o trabalho de gari, com todas as ambiguidades existentes, como em qualquer outro emprego, irrompeu. E assim, as entrevistas tiveram como objetivo a investigação de como as trabalhadoras garis enxergam o seu trabalho, quais as consequências dele para a saúde e bem-estar delas, como se sentem e se enxergam como mulheres garis, a manipulação de seus corpos no trabalho, desestabilização/sofrimento e estratégias de defesas.