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3.5 Extent of corrosion

3.5.1 Half-cell potential mapping

Até aqui, procurou-se analisar o trabalho como fundamento ontológico da existência humana e como atividade que exige o desenvolvimento de certas capacidades humanas essenciais: a sociabilidade, consciência, a capacidade teleológica, a capacidade humana de ser livre e universal, ou seja, de fazer escolhas a partir de alternativas criadas pelos próprios homens e de valorar essas alternativas.

Viu-se que nas condições de realização do trabalho na sociedade capitalista, essas capacidades são limitadas e mesmo impedidas de se objetivar de forma plena devido à forma de organização da atividade produtiva, baseada na propriedade privada dos meios de produção, na divisão social do trabalho e na exploração do trabalho, expressando a presença do mais alto nível de alienação e da história de desenvolvimento humano. “Sob o capitalismo, a humanidade desenvolvera extraordinariamente o seu domínio da realidade natural, mas sacrificara ainda mais profundamente do que em épocas precedentes o seu domínio da realidade social” (KONDER, 2009, p. 10).

Não importa qual homem ou em que condições eles se encontram, a vida cotidiana pertence a todos. Todos os indivíduos precisam realizar atividades cotidianas que possibilitem a reprodução da vida, desde as atividades mais simples como se alimentar, se vestir, dormir, às atividades de maior complexidade, como o trabalho.

Ninguna sociedade puede existir sin que el hombre particular se reproduzca, así como nadie puede existir sin reproducirse simplemente. Por consiguiente, en toda sociedade hay una vida cotidiana y todo hombre, sea cual sea su lugar ocupado en la división social del trabajo, tiene una vida cotidiana (HELLER, 1977, p. 9).

No entanto, a reprodução dessa cotidianidade não será a mesma para todos os homens. Deve-se considerar a divisão social do trabalho e suas formas históricas específicas, nos modos de ser dos indivíduos e das formas objetivas de reprodução da vida material e espiritual. O alimentar-se, o trabalho, o lazer, enfim, todas as

objetivações que constituem esse cotidiano terão modos singulares14, uma vez que

a sociedade dividida em classes propicia condições desiguais para que tais necessidades se efetivem.

Desde o seu nascimento o homem vive em cotidianidade, dispondo permanentemente de suas capacidades, com novos e constantes desafios a enfrentar. O que deverá ocorrer é o seu amadurecimento, considerando as capacidades de assimilação e manipulação das coisas, dos costumes e normas, pois o indivíduo necessita lutar pela sobrevivência, e luta não apenas com seu oposto, mas também com aqueles que pertencem ao mundo similar ao seu, ao próprio ambiente.

Por consiguiente, en la historia de las sociedades de classe la vida cotidiana es em mayor o menor medida también una lucha:

lucha por la simple supervivência, por un puesto mejor en el interior de la integración dada, por un puesto en el seno del conjunto de la sociedade, cada uno según sus necessidades y sus possibilidades (HELLER, 1977, p. 30).

A integração do indivíduo no cotidiano efetiva-se inicialmente pela mediação de grupos, como a família e a escola.

O homem aprende no grupo os elementos da cotidianidade (por exemplo, que deve levantar e agir por sua conta; ou o modo de cumprimentar, ou ainda como comportar-se em determinadas situações, etc.); mas não ingressa nas fileiras dos adultos, nem as normas assimiladas ganham “valor”, a não ser quando essas comunicam realmente ao indivíduo os valores das integrações maiores, quando o indivíduo saindo do grupo (por exemplo, da

família) é capaz de se manter autonomamente no mundo das

integrações maiores, de orientar-se em situações que já não possuem a dimensão do grupo humano comunitário, de mover-se no ambiente da sociedade em geral e, além disso, de mover por sua vez esse mesmo ambiente (HELLER, 2004, p. 19).

14 Heller utiliza o termo

particular e não singular, como esclarece Barroco. “Chamo a atenção para o fato de Heller utilizar o termo particular ao invés de singular. Sabe-se que Lukács (1978), analisando a complexa relação entre estes níveis, situou o particular como campo de mediações entre o paradoxal e o singular; o autor da Ontologia do Ser Social, referindo-se a tal campo, trata-se da categoria da particularidade, recorrendo à palavra alemã besonderheit. Heller, em seus estudos sobre a cotidianidade (HELLER, 1977), ao referir-se aos traços característicos dos indivíduos singulares, utiliza a palavra particularitat que, traduzida embora em línguas neolatinas também como particularidade, tem carga semântica intensamente direta de besonderheit” (BARROCO, 2001, 37).

No cotidiano, são realizadas atividades necessárias à manutenção da sobrevivência, e os indivíduos respondem às necessidades que surgem na vida prática, socializam-se aprendendo a dominar todas as coisas que são fundamentais, aprendem sobre afetos e comportamentos e transmitem esse aprendizado a outros.

En la vida cotidiana el hombre se objetiva en numerosas formas. El hombre, formando su mundo (su ambiente inmediato), se forma también a sí mismo. [...] la peculiaridad de las actividades cotidianas [...] es la interiorización casi adaptativa de este mundo (HELLER,

1977, p. 24)

A cotidianidade tem uma dinâmica peculiar marcada pela repetição, heterogeneidade, pragmatismo, espontaneísmo e pela forma imediata de responder às necessidades de reprodução; nesse âmbito, realizam inúmeras atividades da vida privada e expressam sentimentos e desejos. As atividades do cotidiano estão associadas ao critério de utilidade, desvinculando a compreensão das mediações existentes nas relações sociais postas a partir da inserção do homem na produção e na reprodução da vida material e espiritual. Cotidianamente, os homens participam da sociedade, de forma fragmentada, espontânea, com um vínculo imediato entre pensamento e ação e com a repetição automática de modos de comportamento; realizam várias atividades que não conseguiriam fazer se fosse preciso fundamentá- las teoricamente. “A ultrageneralização é necessária ao nível da cotidianidade” (BARROCO, 2001, p. 38).

Os indivíduos, portanto, utilizam grande parte das capacidades, mas não as fazem na mesma intensidade e no mesmo grau de conhecimento.

A vida cotidiana é a vida do homem inteiro, ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam-se “em funcionamento” todos os sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, ideias, ideologias. O fato de que todas as suas capacidades se coloquem em funcionamento determina também, naturalmente, que nenhuma delas possa realizar-se, nem de longe, em toda a sua intensidade (HELLER, 2004, p. 17).

Em determinados momentos históricos, como no contexto da pólis grega e do Renascimento, a vida cotidiana tinha atividades de aproximação dos indivíduos com a condição humano-genérica. Na sociedade capitalista, a distância entre a consciência do indivíduo singular e sua genericidade alcança o maior nível de afastamento já ocorrido na história, fato que desvela a presença da alienação em seu mais alto grau.

Heller (1977) afirma que por todas as características que lhe são peculiares, o cotidiano é o espaço propício à alienação. A imediaticidade, o pragmatismo, a generalização, a heterogeneidade e a repetição fazem da vida cotidiana uma instância que não permite a reflexão teórica. Não é possível atender a todas as atividades cotidianas adotando uma atitude teórica. “Si solo utilizássemos los objetos cuando conociésemos su estructura científica, no podríamos sobrevivir” (HELLER,

1977, p. 294).

A vida cotidiana exige habilidades em múltiplas direções, e para reproduzi-la estabelece-se uma hierarquia pouco rígida, que pode ser modificada de acordo com a estrutura social de determinados períodos históricos.

Uma das formas vigentes de alienação na dinâmica do cotidiano é a da repetição acrítica de ideias, valores e modos de ser, isto é, a reprodução espontânea do senso comum sem a apreensão das contradições da realidade, “[...] sem apreender as mediações nelas presentes; por isso, é característico do modo de ser cotidiano o vínculo imediato entre pensamento e ação, a repetição automática de modos de comportamento” (BARROCO, 2001, p. 38).

Agir pela probabilidade e imediatismo corresponde à possibilidade de cumprir com objetivos cotidianos, portanto, a experiência e a comprovação do que parece ser útil e seguro para essa finalidade são fundamentais.

Toda categoria da ação e do pensamento manifesta-se e funciona exclusivamente enquanto é imprescindível para a simples continuação da cotidianidade; normalmente, não se manifesta com profundidade, amplitude ou intensidade especiais, pois isso destruiria a rígida “ordem” da cotidianidade (HELLER, 2004, p. 31).

Conforme Heller, a atividade cotidiana não se caracteriza como atividade que possibilita ao indivíduo a criação, a transformação, isto é, a práxis.

A atividade prática do indivíduo só é elevada ao nível da práxis quando é atividade humano-genérica consciente; na unidade viva e muda de particularidade e genericidade, ou seja, na cotidianidade, a atividade individual não é mais do que uma parte da práxis, da ação total da humanidade que, construindo a partir do dado, produz algo novo, sem com isso transformar em novo o já dado (HELLER, 2004, p.

32).

É própria do cotidiano a predominância do indivíduo, no âmbito da singularidade, voltada às necessidades do “eu”. É certo, então, que a reprodução do singular em relação ao mundo não se dá por sua totalidade, porque o homem se percebe no cotidiano, “sempre sob a forma das necessidades do “eu”. A relação que o indivíduo constrói do “nós” passa por motivações singulares, no entanto, a genericidade é constituinte de todo homem e de toda atividade que o represente, como a atividade do trabalho, que apesar de responder às necessidades do “eu” é atividade socialmente necessária, em um processo que se constitui por razões movidas pela singularidade, mas que representa o humano-genérico.

De acordo com Heller (2004), a expressão do humano-genérico que coloca em curso ações guiadas por uma teleologia imprime ao indivíduo a compreensão de si, como ser singular, podendo alcançar uma compreensão e consciência do humano-genérico, do qual ele faz parte em determinadas condições e atividades, constituindo a “consciência do nós”.

[...] enquanto indivíduo, portanto, é o homem um ser genérico, já que é produto e expressão de suas relações sociais, herdeiro e preservador do desenvolvimento humano; mas o representante do humano-genérico não é jamais um homem sozinho, mas sempre a integração (tribo, demos, estamento, classe, nação, humanidade)

bem como, frequentemente, várias integrações cuja parte

consciente é o homem e na qual se forma sua consciência de nós” (HELLER, 2004, p. 21).

Segundo Heller (2004), ainda que a estrutura da sociedade conduza predominantemente às formas de alienação e desumanização, ela não é necessariamente alienada, porque são determinadas estruturas e formas de reprodução social que possibilitam o maior ou menor desenvolvimento do indivíduo na vida cotidiana. Não absolutizar as características próprias da vida cotidiana, como o espontaneísmo, o pragmatismo, os juízos provisórios, etc., ajuda a entender que

há sempre uma margem de movimento do indivíduo para se afirmar contrariamente ao que está posto.

Na medida em que os indivíduos alcançam uma consciência da genericidade, torna-se possível a “saída” momentânea de sua cotidianidade acrítica e fragmentada para um processo de homogeneização, ou seja, o indivíduo empenha toda a sua força em uma única tarefa, de forma consciente, reconhecendo-se como um “representante do gênero humano”. Nesse momento, sua singularidade voltada somente ao “eu” é suspensa, pois a atividade ou a motivação que permite essa suspensão exige que ele se comporte dessa forma, dedicando-se inteiramente a ela.

Ele opera como um todo: atua, nas suas objetivações cotidianas, como um homem inteiro — mas sempre no âmbito da singularidade.

Ora, o acesso à consciência humano-genérica não se realiza neste comportamento: só se dá quando o indivíduo pode superar a singularidade, quando ascende ao comportamento no qual joga não todas as suas forças, mas toda sua força numa objetivação duradoura (menos instrumental, menos imediata) (NETTO, 1994b, p. 69, grifo do autor).

Contudo, isso não implicará na eliminação da vida cotidiana já que ela é insuprimível na vida dos homens. No entanto, a possibilidade da “suspensão” da singularidade para uma conexão consciente com o gênero humano, ainda que momentânea, contribui para que os indivíduos retornem modificados à cotidianidade.

A homogeneização em direção ao humano-genérico, a completa suspensão do particular-individual, a transformação em `homem inteiramente´ é algo totalmente excepcional na maioria dos seres humanos [...] A vida de muitos homens chega ao fim sem que se tenha produzido nem um só ponto crítico semelhante (HELLER, 2004, p. 28).

Dentre as atividades que colaboram para a superação da cotidianidade, encontram-se a arte, a filosofia, a ciência, a ética e a política. Essas atividades com características próprias oferecem aos homens a possibilidade de ultrapassar as necessidades imediatas e adquirir novas formas de ser, de objetivar-se e de consciência da sua dimensão humano-genérica, portanto, de enriquecimento da individualidade.