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De 1562 a 1598 a França foi palco de sangrentas Guerras de Religião. Segundo afirma Perry Anderson, “a morte de Henrique II precipitou a França em quarenta anos de luta cruenta”.458 De fato, quando faleceu Henrique II, em meados do século XVI, os dois

filhos, Francisco II e Carlos IX, eram menores de idade. Desta forma, a mãe deles, Catarina de Médicis, assumiu a regência. Com isso, duas famílias fidalgas passaram a disputar ferrenhamente a primazia: os Bourbons e os Guise. Estes deram apoio aos católicos e aqueles, aos protestantes. As Guerras de Religião colocavam o poder real em perigo.459

No tempo de Henrique III o tiranicídio foi justificado por diversos pregadores. No dia 1º de agosto de 1589 o monge Jacques Clément, integrante da Liga, assassinou este rei. Antes de morrer, Henrique III designou o primo, Henrique de Bourbon, como seu sucessor à coroa da França. Mas, como Henrique III sabia que os franceses católicos jamais aceitariam o chefe do partido protestante como rei da França, solicitou-lhe, ou melhor, impôs-lhe a condição, que abjurasse ao protestantismo e aceitasse a religião católica. Com a morte de Henrique III, a dinastia Valois foi extinta, Henrique de Bourbon assumiu o poder, tornou-se Henrique IV, dando início à dinastia Bourbon. Em 4 de agosto, por meio da declaração de Saint-Cloud, o novo rei prometeu, entre outras coisas, “conservar a religião católica” e “reservar aos católicos o governo dos lugares que viesse a ocupar”. Desta forma, reuniu em torno de si os denominados “católicos reais”.460 Henrique IV, o fundador da dinastia Bourbon, restaurou o prestígio popular da monarquia com o seu magnetismo pessoal.461

No dia 13 de abril de 1598 Henrique IV promulgou o Edito de Nantes, o qual reconhecia aos protestantes o direito de praticarem a sua fé livremente sem sofrer qualquer

458 ANDERSON, op. cit., p. 90. 459 Cf. CORVISIER, op. cit., p. 141. 460 Cf. ibid.

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espécie de perseguição.462 Por meio do Edito de Nantes, Henrique IV estabeleceu a

tolerância religiosa, pacificando o reino, afinal; com isto, a França se restabeleceu.463 De

acordo com Perry Anderson, “o Edito de Nantes e seus artigos complementares contiveram o problema do protestantismo, ao conceder-lhe autonomia regional limitada”.464

Nas duas últimas décadas do reinado de Henrique IV vários elementos desgostaram os franceses. De 1594 a 1603 Henrique IV expulsou os jesuítas da França, “sob o pretexto de que um deles inspirara o gesto de um regicida”. Rompeu com a Espanha católica e apoiou os holandeses protestantes contra ela. Em 1610, na véspera do dia em que partiria à frente de suas tropas para comandar uma expedição militar contra a Espanha o rei foi assassinado, esfaqueado por Ravaillac, um antigo integrante da Liga. Para grande parte dos franceses, “Henrique IV parecia retomar ao lado dos protestantes a luta contra a Espanha, campeã do catolicismo”. Para os fanáticos católicos, o rei pretendia estabelecer o protestantismo na França. Fato curioso é que enquanto Jacques Clément, regicida que assassinou Henrique III, recebeu elogios, Ravaillac foi injuriado. “Henrique IV foi considerado um mártir e um pesado opróbrio vinculou-se ao regicida”. Desta forma, a monarquia absolutista de direito divino saiu fortalecida.465

Ao estabelecer a tolerância religiosa, o Edito de Nantes proporcionou uma longa trégua aos calvinistas. Durante algumas décadas, ele assegurou aos protestantes um estatuto aceitável. Mas apesar da tolerância ser estabelecida oficialmente por esse tratado de paz, a rivalidade entre católicos e protestantes não deixou de existir. Houve perturbações na segunda década do século XVII. Na menoridade de Luís XIII, a partir de 1610, as agitações religiosas foram constantes; aliás, as regências eram favoráveis a esse tipo de ambiente instável. Os protestantes franceses desejavam formar um Estado dentro do Estado, negando-se a obedecer ao rei da França, o que incorria em uma séria ameaça ao poder centralizado. Ao assumir o Estado, a partir de 1624, o primeiro-ministro Richelieu retomou a guerra contra eles.

O protestantismo foi reduzido pouco a pouco por Luís XIII. Em seu reinado, com seu primeiro-ministro Richelieu à frente, houve uma grande perseguição aos protestantes. Primeiramente, ele procurou destruir o 1º partido político protestante, que reunia cerca da

462 Cf. SHENNAN, op. cit., p. 42. 463 Cf. CORVISIER, op. cit., pp. 144-145. 464 ANDERSON, op. cit., p. 93.

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metade da nobreza francesa.466 “Em 1625 (...) houve uma nova revolta dos protestantes.

(...) Com sua organização militar e suas praças fortes formaram um ‘Estado no Estado’, dispondo de alianças externas, como a da Inglaterra. Contra eles, Richelieu empreendeu uma guerra de Estado, não de religião”.467 Luís XIII e Richelieu recusavam-se a tratá-los como uma potência. A divisão dos reformados facilitou com que o rei e o primeiro- ministro os derrotassem.468 Richelieu liquidou, sem piedade, as “fortalezas huguenotes remanescentes no sudoeste, com o cerco e a captura de La Rochelle”, o maior reduto protestante da França no período.469 Em 29 de outubro de 1628, “Richelieu a sitiou por terra e bloqueou-lhe o porto com um molhe a fim de impedir a entrada de reforços enviados por Buckingan”. Com isso, ele destruiu o 1º partido protestante. “Uma breve

campanha nas Cévennes completou o êxito da empresa”.470 Luís XIII concedeu a Graça de

Alès em 23 de junho de 1629, por meio da qual consumou-se a vitória contra os protestantes: “a revolta estava perdoada, o Edito de Nantes restabelecido, mas só o Edito: todas as fortificações das cidades deviam ser arrasadas, as organizações políticas e militares dos protestantes, dissolvidas. A República protestante não mais existia. Os reformados conduziam-se daí por diante como súditos leais. Sua fidelidade durante a Fronda valeu-lhes a confirmação do Edito de Nantes em 1652”.471

O Edito de Alès, que anistiou os protestantes em 1629, após o cerco de La Rochelle, proporcionou uma relativa paz entre católicos e protestantes, de 1630 a 1660. No entanto, apesar deste acordo, a paz durou muito pouco. A partir de 1665-1670 aumentaram as inquietações, desde 1679 perseguições furiosas foram retomadas e não cessaram até a revogação do Edito de Nantes.472

No início de seu reinado pessoal, em 1661, assim como seus súditos católicos, Luís XIV acreditava que o Edito de Nantes era um compromisso provisório. Freqüentemente, ele era cercado pelas assembléias do clero que suplicavam contra a religião protestante. Os

466 Cf. CHAUNU, v. I, op. cit., p. 121; MOUSNIER, 1973, op. cit., pp. 293-294. 467 CORVISIER, op. cit., p. 192.

468 Cf. MOUSNIER, 1973, op. cit., p. 293. 469 Cf. ANDERSON, op. cit., pp. 94-95. 470 CORVISIER, op. cit., p. 192.

471 MOUSNIER, 1973, op. cit., pp. 293-294. Conforme Pierre Chaunu, “tomando La Rochelle (29 de outubro

de 1628), assenhorando-se de Montauban (20 de agosto de 1629) pela perspicácia, sobretudo do Edito de Graça de Alès (23 de junho de 1629), o grande cardeal ganhou a guerra protestante”. CHAUNU, v. I, op. cit., p. 88. Segundo Corvisier, “pelo Edito de Graça de Alès (junho de 1629), o rei assegurou a aplicação do Edito de Nantes, mas revogava os privilégios outorgados em seus anexos, consolidando um regime de tolerância religiosa que devia durar meio século e garantir a obediência de seus súditos protestantes”. CORVISIER, op. cit., pp. 191-192.

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católicos franceses consideravam o protestantismo como um mal provisório, um corpo estranho, uma verdadeira ofensa ao rei Cristianíssimo. Havia centenas de igrejas reformadas em quase todas as regiões da França, os protestantes eram recrutados em todos os meios sociais: nobres, artesãos, burgueses e camponeses. O despertar católico do século XVII avivou o ódio contra eles. O protestantismo era insuportável aos católicos, por isso eles achavam ser necessário exterminá-lo.473 Porém, a história nos mostra que todos os esforços feitos neste sentido provaram ser esta uma missão impossível.

Como vimos, no Ancien Régime a intolerância religiosa não se dava somente de cima para baixo, mas entre os súditos também. Natalie Zemon Davis retrata a violência religiosa popular nos massacres de São Bartolomeu, em 1572. Segundo a historiadora norte-americana, os católicos odiavam os protestantes “por suas ações poluidoras separatistas e desorganizadoras (...). Para os fanáticos católicos, a liquidação dos ‘vermes’ heréticos prometia a restauração da unidade do corpo social”. A multidão gritava nas ruas, entre outras coisas, “viva a religião católica, (...) Vivam os parisienses fiéis, (...) Que todo o mundo vá à missa. Um Deus, uma Fé, um Rei”.474 Esta intolerância religiosa existia no século XVII com a mesma intensidade.

Na França do século XVII o rei estava associado à Igreja. Lembremos que Luís XIII baixou alvará em 10 de fevereiro de 1638 consagrando a França a Deus sob a especial proteção de Nossa Senhora com ordem de realizar procissões, a título perpétuo, no dia 15 de agosto de cada ano. Pelo fato de estar ligado à Igreja, o rei devia zelar pela salvação de seus súditos; pelo juramento pronunciado durante a sagração, ele devia proteger a Igreja e exterminar a heresia.475 Como constata Roland Mousnier, “o rei é o chefe e o protetor da

473 Cf. MÉTHIVIER, op. cit., pp. 86-87; MANDROU, op. cit., pp. 182-183.

474 DAVIS, Natalie Zemon. Ritos de violência. In: ____. Culturas do povo: sociedade e cultura no início da

França moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p.135. Natalie Davis analisa os ritos de violência praticados tanto por católicos quanto por protestantes, na França, na segunda metade do século XVI. Natalie Davis demonstra o alto grau de intolerância religiosa existente entre ambos. Segundo a autora, os objetivos da multidão ao praticar a violência religiosa eram “a defesa da verdadeira doutrina e a refutação da falsa”. Ambos entendiam que o outro poluía a comunidade, representando um perigo, pois, “provocava a ira de Deus. Tufões e enchentes terríveis eram às vezes vistos como sinais de Sua impaciência” por causa da poluição. ibid., pp. 132, 134-135.

475 Cf. MÉTHIVIER, op. cit., p. 79. Conforme observa Le Goff, desde meados do século XIII os reis

passaram a pronunciar quatro juramentos no momento de sua sagração. Neles estão contidos a defesa da fé, da Igreja e o combate à heresia. “O rei, segundo os ordines de Reims e de 1250, pronuncia quatro séries de juramentos: 1- Ele promete primeiramente à Igreja de protegê-la em sua pessoa e em seus bens; 2- Ele promete fazer reinar a paz e a justiça – valor de forte conotação religiosa e mesmo escatológica – e, (...) de fazer prova de misericórdia. Uma quarta promessa, introduzida após o 4º Concílio de Latrão (1215), consiste no comprometimento de combater os heréticos. 3- Ele promete defender a santa fé católica, de ser o defensor e o tutor das igrejas e de seus ministros, e de reger e defender o reino que Deus lhe deu conforme a tradição de justiça de seus pais. 4- Enfim, após o coroamento e a entronização, o rei faz uma última promessa sintética

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Igreja da França”.476 Este autor afirma também que “todo mundo queria ver no rei a

imagem de Deus: ‘Vós sois Deus na terra (...). A esta concepção somava-se, em muitos, o velho sonho humanista: o rei deve ser protetor da Igreja, como Constantino”.477 Behrens

observa que, de acordo com as antigas leis consuetudinárias da França, os monarcas não podiam “banir grupos de pessoas”, com exceção dos “hereges”, pois estes encontravam-se “numa posição especial porque estavam fora da comunidade dos fiéis que o rei tinha jurado

defender no juramento de coroação”.478 Ao referir-se a Luís XIV, Mousnier nos chama a

atenção para o fato de que, “o juramento de respeito ao sagrado obrigava-o a destruir a heresia. Todos os seus súditos, protestantes ou católicos, julgavam que, ‘a diferença de religião desfigura o Estado’: ‘uma fé, uma lei, um rei’”.479

Durante a Fronda, para a satisfação de Luís XIV e de seu primeiro-ministro Mazarino, os protestantes se mantiveram leais ao soberano, tanto que Mazarino considerava os jansenistas facciosos preferindo os protestantes a eles.480 Apesar disso, Luís XIV queria “obrigá-los à conformidade”, pois a existência dessa minoria solidamente estabelecida em seu reino significava uma afronta à honra de sua família e, mais que isto, a sua glória.481

Luís XIV passou a interpretar “o Edito num sentido cada vez mais estrito”.482 No início de seu reinado pessoal, recomeçaram as perseguições aos protestantes.483 Porém, elas eram mais brandas até 1679.484 Logo em seguida, ao Edito de Graça de Alès, Luís XIII tentou unir as Igrejas. “Richelieu pensou em submeter os protestantes graças a um colóquio nacional. Ganhara para o seu plano, segundo dizem, 80 pastores”. Depois de 1662, as negociações foram retomadas por Luís XIV, as quais foram conduzidas por um Conselho oficioso por volta de 1665, em que se destacavam Turenne e Bossuet. Este “publicou sua

Exposição de Fé Católica (1671), ‘a obra-prima da Contra-Reforma’. Turenne propunha conquistar 50 pastores, entabular conferências com eles, obter explicações do papa e

‘coram Deo, clero et populo’ com efeito, nesses juramentos, e de modo geral quando da sagração, um pacto é concluído entre o rei e a Igreja, que fala por ele próprio e pelo povo do qual ele se dá por representante”. LE GOFF, Jacques. “Aspects religieux et sacrées de la monarchie française du X au XIII siècle”. In: BOUREAU, Alain; INGERFLOM, Cláudio-Sergio. La royauté sacrée dans le monde chrétien. Paris: École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1992, p. 21.

476 MOUSNIER, 1971, op. cit., p. 306. 477 MOUSNIER, 1973, op. cit., p. 260. 478 BEHRENS, op. cit., p. 96.

479 MOUSNIER, 1973, op. cit., p. 292. 480 Cf. MÉTHIVIER, op. cit., p. 87. 481 SHENNAN, op. cit., p. 43.

482 MOUSNIER, 1973, op. cit., p. 294. 483 Cf. SHENNAN, op. cit., p. 42. 484 MÉTHIVIER, op. cit., pp. 87-88.

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revogar o Edito de Nantes que se tornaria inútil”.485 Até 1679 acreditava-se que seria fácil

converter os protestantes.486 Em seu anseio pela conversão dos huguenotes, Luís XIV

utilizou-se de estratégias pacíficas como as “missões de capuchinhos e as casas de Propagação da Fé”.487 Bossuet tentava provar os “erros”, os teólogos e os laicos da

Compagnie du Saint-Sacrement empreendiam uma ofensiva convergente para convertê-los; Bossuet converteu Turenne em 1668. Meios nada evangélicos também eram utilizados como a Caisse des Conversions de l’Académicien.488 Segundo Mousnier, “desde os primeiros anos do reinado de Luís XIV empregou-se a corrupção sob a forma de dinheiro ou de favores aos protestantes. Após 1674, o historiógrafo do rei, Pelisson, protestante convertido, dirigia uma ‘Caixa de Conversões’, que, mediante recompensas pecuniárias, ‘preparava os corações para a ação de graça’”.489 Uma outra forma de incentivo para que os protestantes abjurassem a sua fé era a isenção da talha aos convertidos.490 Bossuet acreditava no poder da controvérsia. Mas a importante controvérsia entre ele e o pastor Paul Ferry foi infrutífera491; já que ele não conseguiu converter este pastor nem unir as duas Igrejas.

Estes foram meios pelos quais não se conseguiu muito sucesso, o número de convertidos era bem inferior ao esperado. Pouco a pouco, o Edito de Nantes “foi sendo esvaziado de seu conteúdo e os protestantes sofreram perseguições”. Com o tempo, o Rei Cristianíssimo passou a recorrer a métodos mais violentos.492 Após 1679 aumentaram as perseguições oficiais e cada vez mais as disposições do Edito de Nantes eram desprezadas e violadas.493 De 1679 a 1685 realizou-se uma perseguição violenta para forçar os protestantes à conversão. Para isso dois métodos eram empregados simultaneamente: a

violência legal que tornavam todas as atividades dos reformados ilegais, por meio de vários decretos buscavam impedir que eles tivessem acesso aos ofícios, às profissões liberais; um outro meio era a violência militar pura, em que soldados eram alojados em casa de protestantes, e as atrocidades cometidas por eles causaram espanto. Desde 1680,

485 MOUSNIER, 1973, op. cit., p. 294. 486 MÉTHIVIER, op. cit., pp. 87-88. 487 MOUSNIER, 1973, op. cit., p. 294. 488 MÉTHIVIER, op. cit., pp. 87-88.

489 MOUSNIER, op. cit., 1973, p. 294. “Em mais de um caso, os protestantes surgiam como homens de

dinheiro; daí a idéia de uma caixa de conversões encarregada de indenizar os que abjuravam, através do pagamento de subvenções, pelos aborrecimentos que poderiam encontrar em seus negócios junto de seus antigos correligionários”. CORVISIER, op. cit., p. 280.

490 Cf. ibid.

491 MÉTHIVIER, op. cit., pp. 87-88. 492 Cf. MOUSNIER, 1973, op. cit., p. 294. 493 Cf. SHENNAN, op. cit., p. 43.

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em Poitou, a Dragonnade494 do intendente Marillac forçou trinta mil protestantes à conversão. Diante das queixas, Luís XIV lembrou a Marillac que não queria violência, contudo, Louvois continuou a sustentar os intendentes; assim as dragonadas em Poitou, em Béarn e no Languedoc se tornaram famosas. As listas e as cifras de conversões eram apresentadas a Luís XIV.495

Até 1679 os sacerdotes buscavam converter os huguenotes, reconduzi-los ao seio da Igreja católica. No entanto, o fanatismo interveio, arruinando este empreendimento. Em 1685, alguns conselheiros de Luís XIV lhe afirmaram que quase todos os huguenotes haviam abjurado sua religião, sendo assim, o Edito de Nantes havia se tornado desnecessário, convenceram-no então a revogá-lo.496 Segundo observa Méthivier, “se ele acreditou sinceramente na próxima extinção da heresia, o Edito de Nantes não tinha mais razão de ser: não havia mais que novos convertidos”.497

A intensificação da intolerância religiosa chegou ao extremo com a revogação do Edito de Nantes, privando os protestantes de sua liberdade de religião. Em 1685, Luís XIV decidiu exterminar o protestantismo na França, revogando a lei que lhe dava proteção. Le Tellier, o chanceler de Luís XIV, que estava à beira da morte, redigiu e rubricou o Edito de Fontainebleau que revogava o Edito de Nantes. Estimulado por Le Tellier, em 18 de outubro de 1685 Luís XIV assinou este Edito.498 O arcebispo de Harlay, o chanceler Le Tellier e seu filho Louvois, o ministro de guerra, foram os grandes zelosos da revogação.499 A partir desse momento, a religião protestante estava terminantemente proibida de ser

494 “Data de 1680 a prática que consistia em enviar soldados da guarnição junto aos protestantes tal como se

operava em relação aos contribuintes recalcitrantes. Foram as chamadas dragonadas. O terror inspirado pelos ‘missionários de bota’ provocou conversões em massa”. CORVISIER, op. cit., p. 280.

495 Cf. MÉTHIVIER, op. cit., p. 88. Segundo Shennan, “no fim da década de 70 a influência de Colbert

começou a diminuir, à medida que crescia a do ministro da guerra, Louvois. Colbert, cuja política econômica encorajava os protestantes a se estabelecerem na França, opunha-se à perseguição dos huguentes. Louvois, ao contrário, favorecia uma política brutal de conversão forçada dos hereges, com as infames dragonadas, levadas a cabo pelos dragões reais, as tropas aquarteladas com famílias protestantes, que procuravam aterrorizar para que abandonassem sua fé”. SHENNAN, op. cit., p. 43. Conforme observa Mousnier, “desde 1681, o intendente de Marillac, em Poitou, obteve autorização para aboletar dragões entre os habitantes. (...) Em 1685, o processo generalizou-se. Hospedeiros arruinados pelas exigências dos soldados, injuriados e surrados quando recusavam ouvir os capuchinhos, mulheres arrastadas pelos cabelos, torturas dos pés aquecidos ao fogo, privação de sono, violações, constituíam as façanhas das tropas. Os protestantes converteram-se em massa. O Edito de Nantes pareceu doravante sem objeto e foi abolido a 18 de outubro de 1685 pelo Edito de Fontainebleau”. MOUSNIER, 1973, op. cit., p. 294.

496 Cf. HATTON, op. cit., p. 99. De acordo com investigações recentes, segundo esta autora, parece que “a

revogação resultou de um equívoco [os conselheiros de Luís XIV ter-lhe-iam dito que tantos huguenotes haviam regressado livremente à Igreja, que o Edito se tornara anacrônico]”. ibid., p. 21.

497 MÉTHIVIER, op. cit., p. 88.

498 Cf. HATTON, op. cit., p. 19; SHENNAN, op. cit., pp. 42, 44; ANDRÉ, op. cit., p. 217.

499 Cf. MÉTHIVIER, op. cit., p. 88. Shennan observa que, “tanto Michel Le Tellier como seu filho Louvois

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praticada na França. Na implementação do Edito de Fontainebleau foram empregadas medidas severas, incluindo a pena de morte, os ministros protestantes foram banidos.500 De

acordo com Méthivier, “o Edito de Fontainebleau de 18 de outubro de 1685 bania os pastores, impedia os ex-protestantes de fugir [sob pena de galeras], decretava o fechamento de escolas, o batismo das crianças dos N.C.”, (novos convertidos), “a demolição dos

últimos templos. Ele considerava então todos os protestantes como N.C.”.501

Aproximadamente 200 mil protestantes fugiram da França, apesar da proibição de emigrar. Os leigos que ficaram passaram a praticar sua fé em segredo ou aceitavam converter-se,

porém sem nenhum entusiasmo.502

A revogação do Edito de Nantes deveu-se primeiramente à devoção crescente do ‘filho primogênito da Igreja’. É importante esclarecer que, como observa Rullière, a revogação constitui-se em ‘um ato de devoção e não uma questão de política’. Ezechiel Spanheim, representante do Brandeburgo em Versalhes, foi o único contemporâneo de