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Os imigrantes pomeranos vieram de uma região atualmente extinta na Europa, a Pomerânia, situada na costa do Mar Báltico, entre as atuais Polônia e Alemanha e os países escandinavos, conforme pode ser observado na Figura 4. Possuía aproximadamente 38.408 km² e era subdividida em Vorpommern (Pomerânia Anterior) e Hinterpommern (Pomerânia Posterior). Os pomeranos que imigraram para o Espírito Santo, vieram em sua maioria da Pomerânia Posterior (Rolke, 1996, p. 3).
Figura 4: Localização Geográfica da Pomerânia Fonte: Revista Globo Rural, 2008
Para compreendermos o contexto da imigração ao Brasil e a outros países, é preciso recorrer à história dos pomeranos em seu país de origem. Reconstituir a história pomerana talvez seja o principal desafio para pesquisadores da cultura pomerana, pois existe pouca bibliografia em língua portuguesa sobre o tema. Existem estudos
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interdisciplinares em língua alemã que retratam a história pomerana, porém, como não tive acesso aos mesmos, utilizo-me do estudo sobre a Pomerânia e os seus aspectos geográficos, históricos e culturais desenvolvido por Helmar Reinhard Rölke (1996), para fazer uma breve reconstituição da história pomerana.
1.1. A Pomerânia e os conflitos territoriais
Rölke (1996, p. 9-10) relata que o litoral do Mar Báltico foi ocupado por Wendes5 por volta dos 600 anos antes de Cristo. O nome da Pomerânia se originou da palavra PO MORJE, da língua wende que significa Por esta região ser baixa e abundante em alimentos, foi alvo constante de desejo de dominação por povos inimigos. Os primeiros foram os vikings/noruegueses, os dinamarqueses e os poloneses.
Por volta dos séculos X e XI ocorreram conflitos armados entre a Dinamarca, a Polônia e a Pomerânia, porém, nem os poloneses e nem os dinamarqueses conseguiram estabelecer domínio nas terras desejadas. A Polônia, entretanto, conseguiu manter a posse da cidade de Stettin e, diante da impossibilidade de dominar os pomeranos militarmente, o Duque Polonês Boleslav II pediu ao Bispo Otto de Bamberg que cristianizasse os wendes-pomeranos que acreditavam em deuses que se manifestam pela natureza6(RÖLKE, 1996, p.11)
A cristianização ocorreu no ano de 1124, quando o Bispo construiu 11 igrejas católicas e batizou 22.165 pomeranos em um percurso de 85 kilômetros entre Pyritz e Wollin. O templo construído para o deus Trigaw em Stettin foi totalmente destruído. Os pomeranos aceitaram pacificamente a conversão, mas voltaram a fé antiga logo que o bispo Otto de Bamberg deixou o solo pomerano (RÖLKE, 1996, p.12).
Em 1125 o duque Polonês, receoso de que o rei alemão Lotário da Saxônia tentasse uma invasão, decidiu invadir de vez a Pomerânia. O duque pomerano Wartislaw percebeu a intenção de invasão militar dos poloneses e procurou ajuda junto ao Bispo Otto de Bamberg, que era amigo pessoal do rei alemão. Em 1128 o bispo fez sua segunda viajem de cristianização entre os pomeranos, porém com o apoio logístico e
5 Wends é um nome histórico para eslavos que vivem perto de áreas de assentamento germânicas. Não se
refere a um povo homogêneo, mas a vários povos, tribos ou grupos.
6 O maior deus dos wendes era Triglaw, mas havia também deuses menores que eram adorados através de
animais, árvores, matas, riachos e inúmeras lagoas que existiam na Pomerânia. A adoração a esses deuses levava os wendes a confundi-los muitas vezes com poderes demoníacos, que estavam em toda a natureza, tendo como consequência uma grande superstição (RÖLKE, 1996, p. 11).
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financeiro do rei alemão, Lotário da Saxônia, o que levou os poloneses a desistir da invasão (RÖLKE, 1996, p.13).
Com a cristianização apoiada pelos alemães, objetivou-se abrir as fronteiras pomeranas para o comércio e a cultura alemã, resultando em um processo de e 1400. Apesar da presença alemã, a Pomerânia teve que travar guerras com povos interessados no domínio dessas terras, o que influiu no enfraquecimento da nobreza pomerana. No século XII aconteceram 22 guerras na Pomerânia Ocidental contra dinamarqueses e poloneses. Nesse meio aconteceu o último ato dos alemães para se apoderarem da Pomerânia quando os Cavaleiros Teutônicos começam a invadir a Pomerânia a partir do leste. Ao mesmo tempo os Brandeburgueses atacaram pelo sul (RÖLKE, 1996, p. 13-15).
Segundo o autor, para manter a Pomerânia autônoma, a nobreza assinou em 1529 um tratado com os Brandeburgueses que dizia que os Brandeburgueses se
compromete[ra]m a passar o território pomerano a Brandeburgo, após a morte do último
duque wende- 15).
Em 1530 Johannes Bugenhagem introduziu a Reforma da Igreja na Pomerânia, tornando toda a região evangélico-luterana. A Guerra dos Trinta Anos estourou em 1618 por motivos políticos e religiosos e, para evitar que a Suécia viesse em auxílio dos luteranos no sul, o imperador alemão ocupou a Pomerânia com tropas católicas em 1627. Estes confiscaram as colheitas e os animais para o sustento, causando fome e miséria em toda a Pomerânia. O mesmo foi feito pelos suecos em 1630, quando desembarcam as suas tropas na Pomerânia. Há estimativas de que 50% da população pomerana tenha morrido nessa guerra (RÖLKE, 1996, p. 17-18).
Em 1637, morreu o último descendente da linhagem wende-pomerano, o duque Bogislaw XIV. Conforme o Tratado de 1529, Brandeburgo deveria tomar posse da Pomerânia. Isto só foi permitido pelos suecos, que mantinham as suas tropas na Pomerânia, em 1648 quando cederam a Pomerânia Oriental, porém mantiveram a Pomerânia Ocidental. Sucederam-se novas guerras entre suecos e poloneses e só no ano de 1720 Brandeburgo-Prússia conseguiu concretizar o tratado de 1529 (RÖLKE, 1996, p.18).
Sob o domínio da Prússia por 36 anos, a Pomerânia teve que enfrentar novas invasões por parte dos russos e suecos e, em 1806, o exército de Napoleão passou pela
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região deixando novos estragos. Finalmente, em 1815, no Congresso de Viena foi decidida uma remodelação do mapa europeu, surgindo em 1817 a Província Prussiana da Pomerânia (RÖLKE, 1996, p. 18). De acordo com Tressmann (2008, p. 11), quando os pomeranos imigraram para o Brasil, em 1859, a Pomerânia ainda era uma Província da Prússia. Com a união dos estados alemães em 1871, a Pomerânia passou a fazer parte do Império alemão. Até 1945 a Pomerânia estava dividida entre Pomerânia Ocidental e Pomerânia Oriental.
Com a Primeira Guerra Mundial em 1914 e remanejamentos no mapa da Europa, a Pomerânia Oriental passou a ser a fronteira da Alemanha com a Polônia. Com a Segunda Guerra e derrota alemã, dos 38.500 km² de terra pomeranas, 31.301 km² , em 1945, teve consequências brutais para o Povo Tradicional Pomerano, quando soviéticos e poloneses fizeram uso da resolução que permitia a expulsão da população de origem, levando um milhão e oitocentos mil pomeranos orientais a deixar tudo para trás. Alguns deles só conseguiram salvar a roupa do corpo. Estima-se que 500 mil morreram no caminho para Pomerânia Ocidental e para o restante da Alemanha. Com a Queda do Muro de Berlim as duas Alemanhas foram reunificadas e o que se conhecia como Pomerânia Oriental passou a pertencer a Polônia com o nome de Pomorze. A partir deste período, a Pomerânia como tal desapareceu do mapa da Europa. (RÖLKE, 1996, p. 35-39).
1.2. A questão religiosa e a imigração
Na Pomerânia Oriental, de onde vieram muitos pomeranos ao Espírito Santo, a confissão luterana era levada com muita seriedade. De acordo com Rölke (1996, p.30), os livros que orientavam a vida diária eram a Bíblia e o hinário que eram lidos diariamente e usados para treinar a leitura.
Mas o sonho da liberdade pomerana também não se concretizava nas questões religiosas, uma vez que os conflitos religiosos eram constantes. Por ocasião dos 300 anos da Igreja Reformada, em 1817 o Rei Frederico Guilherme III, da Prússia, decidiu unir a Igreja Reformada e a Igreja Luterana, proposta inicialmente aceita. Porém, desde 1816 existiram movimentos luteranos pomeranos que buscavam preservar os
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A partir de 1822 houve grande resistência à unificação, pois o rei da Prússia introduziu uma Nova Agenda de Ofícios religiosos, uniformizando a liturgia do culto em todo o estado. Em 1834 o problema chegou ao auge, quando fiéis não permitiram a entrada de um pastor que havia aceitado a união no templo. Diante do fato, o Rei que já havia tentado várias formas de persuasão mandou invadir o templo com as suas tropas (RÖLKE, 1996, p. 32).
Por não quererem abrir mão de suas convicções e visando preservar as suas crenças, a revolta dos luteranos resultou na decisão de vários deles por emigrar para os Estados Unidos da América em 1835. Cresceu assim, entre os luteranos, o desejo de emigrar para lugares onde pudessem confessar livremente sua fé evangélico/luterana. A esta vontade somou-se a procura de perspectivas de vida melhor, pois a Pomerânia estava sem emprego, empobrecida e faminta.
Entre 1830 e 1900, em torno de 331.400 imigrantes pomeranos foram para os Estados Unidos, com maior concentração entre 1881 e 1890. Ao mesmo tempo, houve imigração para a Austrália e Brasil. Há uma estimativa de que para o Brasil tenham vindo 30.000 pessoas. Os primeiros pomeranos desembarcaram em terras brasileiras no porto de Vitória, no estado do Espírito Santo, no ano de 1859 (RÖLKE, 1996, p. 34).