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Como bem colocou Montaigne apud Laraia (2001, p. 13) bárbaro o que não se pratica em su

comum que ocorram julgamentos de valores entre as diferentes sociedades, que considera estranho ou mesmo errado o que se pratica pelos outros.

Trata-se do etnocentrismo que, segundo Rocha (1988, p. 5), é uma visão de mundo em que o grupo do qual se pertence é tomado como o centro e os demais são pensados e interpretados por meio dos valores, modelos e definições de existência da sociedade ao qual se pertence. Em outras palavras, o etnocentrismo também pode ser entendido como a dificuldade de pensar a diferença, gerando situações de estranheza, medo e hostilidade.

A questão etnocêntrica surge do encontro cultural, em que de um lado está o es e do outro está

acontece de uma forma diferenciada. Segundo Rocha (1998, p. 5) a diferença é ameaçadora porque fere ou põe em questão a própria identidade do indivíduo.

A relativização surge para apresentar estratégias de como lidar com estes sentimentos de estranheza e hostilidade. Rocha (1988, p.

as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento, de ter um fim ou uma

Nesse sentido, relativizar é ver a dimensão da riqueza daquilo que é diferente, e não transformá-la em hierarquia, em melhores e piores, em bons e ruins, mas sim, em diferentes, cada qual com o seu valor.

Nas comunidades pesquisadas, cotidianamente, é comum ouvir comentários negativos com relação aos pomeranos, principalmente que se trata de um povo fechado

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e preconceituoso. Mesmo sem terem sido questionados diretamente sobre isso, o assunto apareceu em muitas passagens de entrevistas e diálogos informais com os moradores das comunidades pesquisadas, nas quais sempre se referia aos Shwade. Os

Shwade

que não a branca-rosada (morenos, mulatos e negros) e também todas as pessoas que não falavam a língua pomerana, independente de sua cor ou raça.

Esse preconceito vem desde o período inicial da imigração pomerana ao Brasil, quando o estranhamento dos pomeranos com os demais povos era mais grotesco, pois

Shwade Como não conseguiam se comunicar com eles, se fechavam em seu grupo e quase não tinham abertura para relacionamentos.

Antes de aprofundar meus estudos e análises sobre a identidade e cultura pomerana, acreditava que este comportamento não existia mais entre os descendentes, mas, coincidentemente, durante a pesquisa de campo, ao pegar uma carona com um nordestino que era moreno, conversei sobre o assunto. Ele me relatou que durante o seu trabalho como vendedor de panelas, era bem recebido em algumas casas. Em outras, as

Shwadedüüwel Certo dia ele chegou à casa de um senhor muito atencioso que contou sobre as tradições pomeranas e sobre a língua, esclarecendo o significado das palavras xingadas. Assim, quando ele ouvia esta expressão sabia que não era bem-vindo e deveria sair correndo. Ouvir este relato foi triste por saber que muitos pomeranos ainda rejeitam e se fecham ao que vem de fora, e que o fato de uma parte dos pomeranos agirem assim, todos os pomeranos são rotulados pelos que visitam

Buscando ouvir o que as pessoas da comunidade pensavam sobre o assunto, perguntei a algumas pessoas como elas achavam que as pessoas não pomeranas percebiam os pomeranos. Dos informantes indagados com a questão, seis pessoas acreditavam que eram percebidos de forma positiva pelo outro, são respeitados e admirados por manterem muitos aspectos de sua cultura viva. Uma fala que mostra que o pomerano conquistou o seu espaço é a de Germano (75 anos, agricultor aposentado) quando disse ga uma pessoa que só fala português, o pomerano conversa do lado [conversa no mesmo espaço sem ser discriminado por isso]

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Outros quatro informantes acreditam que são respeitadas por algumas pessoas, mas que o preconceito e a estigmatização permanecem acontecendo, quando os

falaram mais especificamente dessa questão abordando a relação entre os descendentes de pomeranos, negros e italianos:

Ele [o pomerano] sofre um pouco de preconceito, mas ele também é um povo preconceituoso com a raça negra. Mas eu não vejo o negro sendo preconceituoso com o pomerano, pra mim não é, quem tem mais preconceito é a cultura italiana, que não aceita muito o pomerano. Não sei se é o modo de vestir, ou o jeito de ser simples (Eduardo, 24 anos, agricultor).

Tem pessoas que, por exemplo, tem muito isso entre italiano e pomerano, talvez é porque o italiano foi um imigrante que veio do lado de Santa Maria. O italiano conquistou as terras logo do lado, colonizou, começou a se sentir mais atualizado, como se interagisse mais, e tal. Eu já vi esse diferencial que o italiano faz, esse desprezo com o pomerano. O italiano se acha um pouco acima do pomerano. Não são todos, hoje já tem mais respeito (Augusta, 33 anos, professora).

Na visão desses entrevistados, o preconceito pelos pomeranos advém de outro grupo de imigrantes: os italianos. Isto se acentua ainda mais no município de Itarana, colonizado ao mesmo tempo por pomeranos e italianos, sendo mais nítida esta divisão entre os dois grupos, não somente nos aspectos culturais, mas também de espaço, pois os dois grupos habitam regiões bem delimitadas do município, os pomeranos na região montanhosa e os italianos na parte baixa do município.

Um grupo menor de participantes, composto por três pessoas, acreditava que outros povos não respeitam os pomeranos. No caso de Itarana, um jovem entrevistado disse que nesse município os pomeranos são vistos com

[...] desprezo, com certo preconceito, parece até nojo, às vezes, deboche. [...]pra mim sempre foi assim. Mesmo hoje com o nosso prefeito sendo pomerano, não tem muita aceitação do pomerano. Já em Santa Maria [de Jetibá] já é uma coisa específica, vamos dizer, ali tem negro, italiano, tem tudo, só que eles estão todos misturados. Em Itarana não, é cada um na sua (Eduardo, 24 anos, agricultor).

Nesse contexto, verifiquei que os pomeranos são preconceituosos, mas também

pomerano era v

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o que é

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não sou alemão, sou pom nasci no Brasil. Alemão é

Essas são frases muito ouvidas no cotidiano das regiões estudadas. Isto mostra que por muito tempo os pomeranos foram e ainda são confundidos e rotulados de alemães, não só no cotidiano, mas também muitos estudos se referem a esse povo tradicional como sendo descendentes de alemães. Isso não é bem visto pelos pomeranos. Esta problemática remete à história da Alemanha, uma vez que durante a desintegração do Império Austro-Húngaro a ideologia da nacionalização alemã foi veiculada sobretudo pela Igreja Luterana Alemã. Também no Brasil, por muitos anos as atividades religiosas, bíblias, hinários e outros livros de orientação religiosa eram em língua alemã, fazendo com que além do pomerano, todos também entendessem e/ou soubessem falar o alemão. Nesse sentido, o Povo Tradicional Pomerano é brasileiro com raízes germânicas.

Esta questão de estigmatização para com os pomeranos também aconteceu no Rio Grande do Sul, porém, naquela região este estigma partiu principalmente de imigrantes alemães, o que mais uma vez ressalta a diferença entre estes grupos étnicos. Krone (2014, p. 82) fala da existência desse estigma na região de São Lourenço do Sul, onde houve um processo compartilhado de ocupação entre alemães e pomeranos. Porém, os imigrantes alemães se destacaram, ocupando posições de poder na vida política e econômica e impuseram o germanismo. Nesse sentido, mesmo que os pomeranos constituíssem o grupo étnico mais numeroso da região, vivenciaram um processo de subordinação e estigmatização que se associou a sua condição étnica e origem camponesa, permanecendo por muito tempo à margem da sociedade.

Da mesma forma que os descendentes de imigrantes pomeranos são diferentes ao olhar dos outros grupos étnicos, estes são igualmente diferentes e estranhos na visão dos imigrantes. É possível perceber uma visão etnocêntrica por ambos os lados, pois os diferentes grupos percebem sociedades que os cercam a partir de seu olhar.

Cuche (2002, p. 229-230) diz que a cultura dos imigrantes é definida pelos outros em função de seus interesses, muitas vezes a partir de critérios etnocentristas. A cultura dos imigrantes é tudo que os faz parecer diferentes, ou seja, uma série de sinais exteriores cujo significado profundo ou coerência não são compreendidos pelo outro, mas que os permitem situar o imigrante como tal e colocá-

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Povo Tradicional Pomerano

sofrerem preconceitos. Por outro lado, como os morenos, mulatos e negros eram diferentes dos pomeranos e vistos como estranhos à sua cultura, os pomeranos também desenvolveram seus preconceitos em relação às pessoas com essas características. Entretanto, para conhecer as razões do preconceito pomerano em relação às pessoas de pele escura seria necessária outra pesquisa.

Atualmente os pomeranos já despertaram um sentimento de pertencimento, de

Isto pode ser percebido na fala de Augusta (33 anos, professora) quando menciona que . Hoje ele é [bem] visto, mas alguns anos atrás isso era difícil. Penso também que não foi só difícil para o pomerano, mas também para o negro,

Estes dados corroboram as perspectivas de Cuche (2002, p. 182 ) de que a identidade é uma construção que se elabora em uma relação de oposição entre grupos que mantém contatos, sendo portanto, formada nas relações entre os grupos sociais. Nesse sentido, a definição de identidade não está somente em apontar os traços culturais distintivos, mas sim aqueles que são referenciadas pelo grupo como sendo importantes para a construção de sua identidade que, não sendo fixa, vai mudando conforme novos elementos vão surgindo na dinâmica cultural.

Todos os aspectos destacados acima aconteceram e por vezes continuam acontecendo nas comunidades pomeranas, mas não se pode negar que mudanças têm acontecido nestes comportamentos e na forma dos pomeranos se relacionarem com outros povos. Flontz (72 anos, agricultor aposentado) relatou que dos poucos negros que passavam pela região em décadas passadas, alguns pediam abrigo em sua casa e ele os recebia bem, dava-lhe comida e cama para descansar, sem cobrar nada pela estadia. Isto indica que nem todos os pomeranos agiam da mesma forma para com outros grupos. Outro fato que comprova as mudanças são os crescentes números de casamentos que estão se realizando entre pomeranos com italianos, pessoas morenas ou negras nas diferentes comunidades do município de Santa Maria de Jetibá e Itarana, como também em outros municípios onde residem pomeranos.

Nesse sentido, mesmo reconhecendo as diferenças culturais, os diferentes grupos mantêm contatos, trocam experiências e habitam os mesmos espaços. Vale também

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destacar que não é raro encontrarmos pessoas morenas e negras que se afirmam como sendo pomeranos, falam fluentemente a língua pomerana. Ao participar do Encontro do Povo Tradicional Pomerano: Cultura, Língua e Educação realizado em setembro de 2014 na Universidade Federal do Espírito Santo, pude ver um negro tocando concertina lado a lado com outros pomeranos de diferentes gerações. Conforme imagem abaixo:

Figura 6: Tocadores de Concertina que se apresentaram no Encontro do Povo Tradicional Pomerano, UFES, 2014

Foto: Adriele Schmidt, 2014

Um dos fatores que contribuiu para a mudança e o maior relacionamento entre os grupos foi o aprendizado da língua portuguesa. Chaneta (74 anos) fala que hoje as que os pomeranos aprenderam a falar mais o português, aí eles trabalham mais junto, estão juntos nas festas. Esses aí em baixo [se referindo a uma família de negros que mora perto de sua propriedade], eu não posso reclamar deles,

Outro fator que contribuiu para a aproximação entre os grupos foi o turismo, pois os pomeranos, utilizando-se das leis de incentivo à cultura, passaram a atrair as pessoas de fora, com suas festividades, sua dança, comida e tradição. Lidar com o turista exige receptividade. Assim, os diferentes eventos que foram surgindo contribuiram para aproximar os diferentes grupos.