5.2.1.1 Estrutura
As duas escolas, onde se desenvolvem os Clubes de Rádio investigados, localizam-se na periferia da capital cearense, uma no Bairro Bonsucesso e a outra no Bairro Presidente Kennedy. Ambas possuem refeitórios que também funcionam como auditórios, onde são compartilhadas as programações radiofônicas. As veiculações se restringem a esses espaços por não haver extensão do equipamento radiofônico para outras partes das escolas, como quadra de esportes, corredores e sala dos professores. As instituições dos Bairros Bonsucesso e Kennedy são um tanto quanto semelhantes em termos de estrutura física, ambas possuem quadra de esporte, refeitório e tiveram, respectivamente, 420 e 350 alunos matriculados em 2017, com dez a onze salas de aula cada escola. A escola em Bonsucesso possui um pequeno estúdio de rádio, localizado numa das extremidades do corredor das salas de aula que ficam no primeiro andar. O estúdio possui uma janela de vidro direcionada para o auditório que fica no térreo do prédio, o que permite visualizar o que acontece no espaço durante a programação. Ao contrário, a escola em Presidente Kennedy não possui um lugar específico para as atividades radiofônicas; estas acontecem no palco do auditório com uma caixa de som de tamanho médio e um microfone de apoio. O estúdio do Clube Bonsucesso é equipado com mesa de som, microfone (quebrado, na época das visitas) ar-condicionado (que deixou de funcionar no segundo semestre de 2017 por falta de manutenção), e as caixas de som que estão instaladas nas paredes do auditório, o que permite uma amplificação melhor do som.
Figura 5 – Estúdio Bonsucesso
Figura 6 – Auditório Kennedy – Halloween
Fonte: registros da autora.
5.2.1.2 Funcionamento
Os dois clubes26 possuem ainda outras especificidades. Como a proposta dos Clubes
de Protagonismo é que cada grupo tenha liberdade para traçar seu plano de ação, respeitando o contrato de convivência, então cada clube acompanhado apresentou formas diferentes de funcionamento de sua rádio. O Clube Bonsucesso funciona diariamente durante o período do almoço e de intervalos do lanche, nos turnos matutino e vespertino. Essa constância foi observada principalmente em 2017. O Clube Kennedy, no segundo semestre de 2016, funcionava nos horários de almoço nas segundas, quartas, sextas e em datas comemorativas. Depois foi alterado para as terças e quintas, mantendo as datas comemorativas, e finalizou o ano apenas com atuação nas datas festivas. Em 2017 essas inconstâncias se mantiveram, porém as datas comemorativas continuaram como ponto fixo das atividades da rádio.
26 Os dois clubes intitularam suas rádios com as siglas dos nomes das escolas, entretanto, serão usados títulos fictícios ligados aos seus respectivos bairros a fim de facilitar a correlação e preservar a identidade dos mesmos, como já foi explicitado na introdução da pesquisa.
5.2.1.3 Quadros de gestão
Quanto às funções, os dois clubes organizam-se com presidente e vice-presidente, entretanto, como o interesse pelos Clubes de Rádio é sempre grande, os gestores dos Clubes distribuem outras funções com a finalidade de facilitar o trabalho e ampliar as possibilidades de participação. Nos dois clubes são eleitos monitores (chamados também de “apoio” ou “mão direita”), que se revezam nas atividades, e também secretários. Apenas em um dos clubes há a participação de um tesoureiro e uma locutora.
Em uma de minhas visitas, a presidente do Clube Kennedy chegou a afirmar que a rádio (referindo-se ao clube) era a “cabeça da escola” e que seus integrantes sempre eram elogiados pelo bom trabalho que desenvolviam na escola, chegando, inclusive, a ganharem como “Clube Destaque” (clube mais atuante), em 2016. Ao tratar das datas comemorativas, nas visitas feitas no segundo semestre de 2016, sempre faziam referência ao Clube da Decoração e contavam que os dois clubes trabalhavam juntos para fazerem os eventos da escola acontecerem. Por essa razão, uma das funções estabelecidas pelo Clube Kennedy é a de tesouraria. No início, estranhei a ideia de um tesoureiro em um Clube de Rádio, entretanto, ao compreender a dinâmica do clube nessa escola, descobri que tal função justifica-se pois os estudantes arrecadam dinheiro entre eles e professores para auxiliar nos gastos das festas que realizam. Além do tesoureiro, o clube agrega ainda funções de secretariado e ‘mão direita’. 5.2.1.4 Programação
A programação do Clube Kennedy é essencialmente musical, com leituras intercaladas de poemas, recados e informes. Os próprios integrantes colocam a caixa de som de mais ou menos 1m de altura sobre o palco, distribuem cadeiras ao redor da caixa para os participantes, equalizam o som e dão início à programação. Quando a música tocada não é consenso dos que permanecem espalhados pelo auditório, automaticamente, há reclamação, seguida de mudança de faixa. Alguns integrantes do clube demonstram constrangimento, outros, insatisfação, mas a programação segue com o que eles têm no pendrive, no notebook ou no smartphone. Durante a leitura dos poemas/recados românticos, geralmente, um deles coloca uma música mais calma ou mesmo romântica e reduz o volume com o intuito de criar uma sonoridade compatível com o que está sendo lido.
No Clube Bonsucesso a programação não é muito diferente. A música é também o principal elemento da rádio e, com a falta de manutenção do microfone, os informes escolares
são gravados no smartphone e transmitidos via rádio. Não presenciei em nenhuma das visitas nesse clube a leitura de poemas ou outros textos, salvo quando algum professor utilizava a rádio para alguma atividade específica de sua disciplina ou eletiva, como por exemplo, as eletivas “No embalo dos anos 80” e “Do clássico ao pop, essa caixinha toca tudo”, em que utilizaram a rádio para efetivar suas atividades.
5.2.1.5 Organização e planejamento
Em 2016, o Clube Bonsucesso não realizou reuniões de planejamento; no entanto, no primeiro semestre de 2017, o presidente garantiu que as reuniões com o vice-presidente e a professora de Protagonismo tornaram-se frequentes a fim de melhorar a rádio. Já no Clube Kennedy, as reuniões eram mais frequentes, pois as datas comemorativas exigiam um planejamento prévio para organizar os eventos. No entanto, no que diz respeito às programações normais, tudo acontecia (quando acontecia), “ao vivo” e improvisadamente.
Os núcleos gestores das duas escolas (diretores e coordenadores) me apontaram a dificuldade que os clubes têm de planejar as programações e reconheceram a consequente defasagem potencial das rádios, sugerindo que seria interessante, portanto, que alguém os instruíssem e auxiliassem na construção de uma programação mais diversa. Entretanto, como os Clubes de Protagonismo não sugerem a mediação de adultos, apenas o incentivo e o apoio, então, na prática, eles fazem o que conseguem e com o que têm, a julgar pela falta de manutenção dos equipamentos, quando não dos próprios equipamentos. Os dois clubes apresentaram e questionaram os problemas enfrentados por conta da ausência de internet, de cabos de áudio de qualidade e dispositivos para tocarem as músicas.
Apresentados e caracterizados a partir de suas realidades, os clubes serão analisados mediante o que foi observado, tomado como nota no diário de campo e compartilhado em rodas de conversa gravadas e não gravadas. A construção desta mímesis seguirá um contorno narrativo e se efetivará a partir das narrativas compartilhadas pelos estudantes, pela interpretação narrativa dos clubes realizada por intermédio da observação participante e pelas reflexões propostas pelo referencial teórico. Como as visitas ocorreram durante três semestres, final de 2016 e 2017, esse acompanhamento dos clubes permitiu, a partir dos eventos que foram se delineando nesse recorte de tempo, a construção de uma cadência narrativa sob a ordem das três principais categorias abordadas: coletividade, convergência e protagonismo.