No seu conjunto o estudo das formações fluviais e das coluviões desenvolvidas na Bacia Hidrográfica do rio Lis permitiu definir não só o quadro litoestratigráfico do Quaternário local, como também as diferentes fases de morfogénese da região e os principais acontecimentos pedológicos e paleoclimáticos aí identificados (TEXIER e CUNHA-RIBEIRO, 1991-1992).
De imediato destaca-se a disposição escalonada das formações fluviais individualizadas no vale do rio Lis, situação essa decorrente do levantamento mais ou menos gradual que a região terá conhecido, mesmo se da identificação pontual de falhas nos depósitos ou a presença de de-
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23T Estas considerações reportam-se obviamente às coluviões mais antigas, já que as mais recentes são na generalidade pós-plistocénicas e por vezes mesmo subactuais.
terminadas figuras sedimentares transparece a ocorrência de perturbações sísmicas de origem tectónica ou diapírica. A própria concentração dos terraços a jusante de Leiria, ao longo da margem direita do rio, deixando entrever uma configuração manifestamente dissimétrica do vale, além de testemunhar a deslocação progressiva de este para oeste do leito do Lis, evidencia também os constrangimentos estruturais subjacentes à actual disposição da rede de drenagem local.
Do posicionamento das várias formações fluviais foi, contudo, possível inferir a sua cronologia relativa, tendo-se a partir do respectivo estudo tentado identificar as condições paleoambientais que provavelmente determinaram o seu desenvolvimento, para o que também contribuiu a análise dos solos que as afectaram. Mas se as formações fluviais F1, F2, F3 e F4 se dispõem escalonadamente em função da sua antiguidade, apresentando-se as mais antigas a uma cota mais elevada que as mais recentes, já a antiguidade relativa das três unidades em que foi possível dividir a formação fluvial F1 - F1a, F1b e F1c - se deduziu de acordo com o princípio básico da estratigrafia, dado que a sua sobreposição determinou que a situada a uma cota inferior era naturalmente a mais antiga.
Na generalidade das formações fluviais predominava uma sedimentação de textura grosseira decorrente da prevalência de caudais com um escoamento espasmódico de tipo torrencial, aparentemente associados à vigência de um período de aridificação climática. Com efeito, admite-se que o aumento da aridez, sendo responsável por uma forte diminuição do coberto vegetal, engendraria a erosão das vertentes com a consequente acumulação de materiais detríti- cos no fundo dos vales. Ora, o regime fluvial então prevalecente remobilizaria nas condições descritas estes materiais, depositando-os quer na colmatação dos múltiplos canais em que por vezes se distribuia o caudal dos rios e que se cruzavam entre si, quer em camadas horizontais ou sub-horizontais formadas em águas pouco profundas mas rápidas no decurso de inundações em área. Registe-se, por último, que nenhum testemunho claro de frio foi relacionado com a vigência destas fases de aridificação do clima, embora seja de admitir a sua correlação com uma diminuição significativa da temperatura, tanto mais que as fases mais significativas de aridez no decurso do Quaternário acompanharam de perto o desenvolvimento dos fenómenos glaciares (TEXIER e CUNHA-RIBEIRO, 1991-1992).
Paralelamente, a presença menos frequente de depósitos de textura fina, por norma asso- ciáveis ao final das sequências fluviais, como sucede no topo de F1a, F1b e F4, foi relacionada com a ocorrência de fases climáticas mais temperadas. Situação similar acompanharia aliás o desenvolvimento dos solos lessivados aí observáveis. Acresce ainda que as condições climáticas temperadas e húmidas vigentes entre as várias fases de deposição sedimentar ao permitirem não só o desenvolvimento da vegetação, com a consequente estabilização das encostas, como também um aumento significativo e regular do caudal do rio, contribuíram também decisivamente para a incisão do leito do rio que então ocorreu.
Fig. 5.2. Litoestratigrafia, morfogénese e pedologia do Quaternário da Bacia Hidrográfica do rio Lis (seg. TEXIER e CUNHA-RIBEIRO, 1991-1992, simplificado).
Os dados acabados de referir sugeriam a eventual conexão das várias fases da morfogénese fluvial do vale do Lis com a evolução paleoclimática que aí terá ocorrido ao longo do Quater- nário. Basicamente identificar-se-iam seis fases de manifesta aridificação do clima, no decurso das quais se desenvolveu a sedimentação grosseira presente nas principais unidades sedi- mentares aí individualizadas, intercaladas por períodos manifestamente mais temperados e húmidos em que se assistiu ao encaixe progressivo, ainda que com uma amplitude por vezes algo diferenciada, do leito do rio Lis (TEXIER e CUNHA-RIBEIRO, 1991-1992).
As coluviões, por seu lado, foram no seu conjunto aparentemente associáveis a uma única fase de morfogénese da região, certamente correspondente à última aí ocorrida, já que a provável existência de depósitos similares mais antigos não terá sobrevivido à erosão que a pre- cedeu. Procurou-se assim tentar correlacionar a génese das coluviões com a deposição sedimen- tar grosseira que acompanhou inicialmente o desenvolvimento da formação fluvial F4, não só pela circunstância de tal episódio sedimentar representar a última fase de morfogénese da região, mas também pelo facto de ele ter sido acompanhado por condições climáticas semi-ári- das similares às que determinaram a génese das coluviões. O próprio solo podzólico que afecta superficialmente as coluviões parece ser manifestamente recente, tendo para a sua formação contribuído largamente a acção do homem.
Não se pode porém deixar de sublinhar novamente as limitações inerentes a uma interpre- tação que procura circunscrever a complexa dinâmica da sedimentação quaternária a uma sucessão linear de fases de aridificação climática, intercaladas por períodos em que se verificou a inversão dessas mesmas condições. A própria sucessão do já tradicional ciclo de bio- rexistasia que lhe estaria subjacente, revela-se também uma visão demasiado redutora de uma realidade que terá sido igualmente mais complexa e que no âmbito da presente investigação não é possível precisar.
Por outro lado, procurando sobretudo a definição de um quadro litoestratigráfico do Quaternário da região no âmbito do estudo das indústrias que lhe estão associadas, este trabalho não proporcionou dados particularmente precisos para a aferição da antiguidade das sucessivas fases da morfogénese identificadas na região, embora tal situação nem por isso deixe de permitir uma aproximação relativa a essa mesma antiguidade. Com efeito, a espessura apresentada pela sedimentação observável nas formações fluviais, que nalguns casos chega a ser superior a 10 m, bem como a dimensão da incisão por vezes atingida com o encaixe do leito do rio, constituem um sugestivo indício da dimensão cronológica das várias alterações que afectaram a região ao longo do Quaternário. Ora, a possibilidade de se estabelecer uma correlação entre os testemunhos arqueológicos e as diferentes formações quaternárias aí individualizadas torna exequível uma percepção aproximada do período de tempo que poderá ter decorrido entre as várias ocupações identificadas.