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4.3 Implementation of the LES Models

4.3.3 The σ Model

7.1. CONTEXTO

A estação paleolítica de Pousias/Quinta do Cónego situa-se no lugar das Pousias, nas ime- diações da Quinta do Cónego, cerca de 500 m a norte da povoação de Cortes, sede da freguesia do mesmo nome, localizada a sul da cidade de Leiria.

Do ponto de vista topográfico ocupa uma posição particularmente privilegiada, alcandorada num pequeno cabeço delimitado a norte e a sul pelo encaixe não muito pronunciado de duas pequenas linhas de água e imediatamente sobranceiro ao vale do rio Lis, no sector deste rio onde ele encaixa o seu leito em sinuosos meandros que se espraiam já numa planície aluvial bem definida, embora de modestas dimensões, a qual se prolonga para jusante até próximo da cidade de Leiria.

A importância arqueológica do local foi reconhecida há mais de meio século, altura em que aí se recolheu uma primeira colecção de peças líticas talhadas (MACHADO, 1965). Desconhece-se porém não só a interpretação que então terá sido aduzida de tais achados, como também as condições precisas em que foram efectuados, dado que à semelhança de outras descobertas coevas ocorridas na mesma região no âmbito dos estudos aí promovidos por Manuel Heleno nos anos quarenta e cinquenta, a sua existência nunca foi adequadamente assinalada, nem tão pouco se procedeu à realização do estudo dos materiais exumados, entretanto depositados no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, onde o referido investigador ocupava as funções de Director (Quadro 7.1).

A posterior redescoberta desta jazida, no decorrer dos trabalhos que precederam a publicação da cartografia geológica da região na escala de 1/50000, traduziu-se na reunião e subsequente estudo de duas colecções de utensílios, ambas contudo quantitativamente pouco representativas e com uma composição qualitativa e características dimensionais que deixavam transparecer uma manifesta recolha selectiva (ZBYSZEWSKI e VEIGA FERREIRA, 1969; ZBYSZEWSKI et al., 1980). Assinalava-se agora, em todo o caso, a proveniência de tais materiais da superfície de um pequeno depósito de terraço fluvial que localmente se desenvolvia sobre as argilas do substrato jurássico, o que justificava a distribuição das peças talhadas por distintas fases de ocupação do local de acordo com o diferenciado desgaste das suas arestas, a maior ou menor incidência da pátina na sua superfície e a presença ou ausência de lustro.

Quadro 7.1. Pousias / Quinta do Cónego. Distribuição pelas principais categorias de materiais líticos talhados das antigas colecções recolhidas na jazida.

Quando, em meados dos anos oitenta, retomámos o estudo desta estação paleolítica não se detectaram visualmente quaisquer testemunhos do referido terraço, isto apesar de a sua existência ser sugerida pela presença de um pequeno depósito detrítico similar num cabeço contíguo, a jusante, e constituir a única razão susceptível de explicar a presença entre os materiais exumados na jazida de objectos líticos talhados com arestas intensamente boleadas (CUNHA-RIBEIRO, 1992-1993). Contudo, as peças que apresentavam tais características eram em número bastante reduzido, já que os materiais aí encontrados à superfície se repartiam na sua esmagadora maioria entre os grupos de objectos com arestas vivas ou com um boleamento pouco acentuado.

A recolha destes últimos materiais numa zona relativamente circunscrita, correspondente

grosso modo ao topo da elevação onde se localiza esta jazida e a algumas das vertentes adjacentes,

levou então a associá-los à presença no local de uma coluvião, formada a partir da remobilização de materiais oriundos do desmantelamento parcial da formação fluvial subjacente, muito embora a inexistência de qualquer corte e o plantio de vinha em toda a área do cabeço impedissem uma melhor identificação e caracterização de tais condições de jazida.

Mais tarde, porém, esta situação veio a alterar-se, dado que em 1988 a abertura dos alicerces para a construção de um edifício destinado a uma pequena garagem de reparação de automóveis seccionou o topo do cabeço, permitindo não só a observação do desenvolvimento do depósito num amplo corte junto da garagem, como também a reunião de uma nova colecção de peças talhadas, na sua esmagadora maioria muito boleadas, que tudo levava a crer serem oriundas da parcial remoção dos respectivos sedimentos (CUNHA-RIBEIRO, 1990-1991). A recolha de um número significativo de peças no interior do próprio corte veio aliás a corroborar de imediato esta última asserção.

Perante estes resultados optámos por realizar uma pequena intervenção arqueológica no local (EST. 19). Os trabalhos decorreram em 1989 e consistiram na limpeza, levantamento e descrição do corte, incidindo posteriormente a escavação apenas no sector que à partida indiciava um maior potencial arqueológico, o que se traduziu na abertura de uma área com 7 m de comprimento ( A3 - A9 ), disposta paralelamente ao corte e que apenas se aproximava da sua largura máxima - 1 m

ZBYSZEWSKI e VEIGA ZBYSZEWSKI COLECÇÕES

FERREIRA, 1969 et al., 1980 DO M.N.A.E.

Lascas 15

Núcleos 2 26

Bifaces 18 10 19

Machados de mão 4 3 6

Utensílios sobre lasca 16

- na parte inferior, quando se atingia o substrato argiloso. Procurou-se assim confirmar a concentração de materiais que o estudo preliminar do corte deixava entrever, visualizar a sua dispersão no interior do próprio depósito fluvial e reunir ainda uma colecção susceptível de proporcionar o seu adequado estudo tipológico e tecnológico.

A observação do corte permitiu estabelecer a seguinte leitura estratigráfica, baseada na identificação de três camadas sobrepostas, cada uma delas relacionada com um diferente depósito (EST. 20):

“1 - Corresponde ao substrato argiloso atribuído ao Portlandiano. Apresenta-se local- mente bastante ravinado, formando na zona de contacto com o terraço fluvial um amplo canal, com pequenas variações de encaixe menos pronunciadas, por onde terá corrido o leito do rio. É constituído essencialmente por argilas cinzentas e avermelhadas, muito micáceas.

2 - O terrraço fluvial estende-se por toda a área do corte, embora a sua estratificação se apresente apenas completa no sector Norte, em A3, A4, A5 e A6, onde foi mesmo possível identificar duas fases distintas de sedimentação. O topo da formação fluvial aí representado evidencia uma constituição areno-argilosa de textura muito fina. A sua espessura é algo inconstante, já que aparentemente terá sido ravinada na zona superior pela coluvião que se lhe sobrepõe. A coloração avermelhada, entremeada por extensas manchas cinzentas e cinzentas claras, resulta do facto de suportar um antigo solo profundamente alterado pela hidromorfia. Na base da formação surge um depósito claramente mais grosseiro, embora com curiosas variações laterais de fácies. Enquanto na zona norte e central do corte aparece essen- cialmente um nível de cascalheira grosseira sem uma organização muito clara, para sul pode- se observar tendencialmente o entremear da cascalheira por uma disposição estratigráfica oblíqua, definida por materiais mais finos. Os seixos rolados que integram este depósito são maioritariamente em quartzite e quartzo, apresentando diferentes graus de alteração. Na base da cascalheira surgem mesmo alguns seixos fantasmas de grandes dimensões (assinalados com traços oblíquos no desenho do corte). A matriz é predominantemente areno-argilosa, com areias de quartzo e de quartzite sub-angulosas, embora sejam frequentes as areias arredondadas. As primeiras provêm certamente da destruição de formações cretácicas, enquanto as segundas terão tido a sua origem em depósitos oligocénicos. De referir ainda que nesta zona do depósito a base do terraço suporta um solo vermelho fersialítico muito desenvolvido (horizonte B3), alterado posteriormente pela hidromorfia, o que lhe confere uma coloração nem sempre concentrada de tons cinzentos.

3 - Este nível superficial corresponde a uma coluvião de origem recente, com uma coloração castanho-amarelada e uma matriz argilosa, integrando inúmeros pequenos seixos rolados de quartzite, sub-angulosos e sem qualquer organização. A sua espessura é bastante inconstante ao longo da zona em que nos foi possível observar o seu desenvolvimento (A3,

A4, A5 e A6), variando entre os 30 e os 60 cm” (CUNHA-RIBEIRO,1990-1991, p. 11-12).

Desta interpretação depreendia-se que o depósito de terraço observável no corte testemunhava a sedimentação grosseira da base de uma formação fluvial que tendo começado por ravinar o substrato jurássico através de um canal bem delimitado, foi em seguida responsável pela sua colmatação com materiais carreados no quadro de uma dinâmica fluvial nem sempre homogénea. Localmente observa-se mesmo o desenvolvimento pontual sobre a cascalheira heterométrica de base de um nível de sedimentação areno-argilosa, o qual tanto podia corresponder a um fim de sequência, como testemunhar um conjunto sedimentar intermédio. A verificar-se a primeira hipótese estaríamos perante uma situação em que à medida que se caminharia para montante o rio evidenciaria um menor potencial sedimentar, o que justificaria a modesta espessura do depósito de Pousias quando comparada com a dos depósitos das várias formações fluviais conservadas a jusante de Leiria. É no entanto bem mais plausível que a formação fluvial tenha sofrido nesta zona do vale do rio Lis uma forte erosão, apresentando-se, em consequência, ablada dos seus conjuntos sedimentares mais recentes.

A escavação, propriamente dita, permitiu, por seu lado, reconhecer a inequívoca associação dos materiais líticos talhados que se apresentam muito boleados à cascalheira de base da formação fluvial identificada, onde aparentemente se dispersam de forma aleatória, muito embora seja de assinalar uma significativa concentração de peças na zona de contacto com o substrato argiloso de base, no sector mais profundo da zona intervencionada (EST.21). Refira-se, porém, que se a esmagadora maioria das peças líticas talhadas que aí se exumaram no decurso da escavação evidenciavam arestas particularmente desgastadas, não sendo possível delinear mesmo frequentemente o respectivo posicionamento, cerca de 1/5 dos objectos inventariados não apresentavam contudo uma alteração tão pronunciada do respectivo estado físico.

Por outro lado, a escavação da camada superior do corte revelou-se algo inconclusiva, não só pelo facto de apenas ter propiciado a recolha de um número residual de peças líticas talhadas, como também por ter incidido numa zona aparentemente marginal em relação ao depósito em que muito provavelmente se integrariam boa parte dos materiais líticos talhados não alterados exumados na superfície da estação arqueológica. Correspondendo certamente tal depósito a uma coluvião antiga, a sua degradação, decorrente quer da erosão natural do cabeço, quer dos trabalhos agrícolas aí efectuados, veio porém a conduzir à formação da coluvião subactual onde incidiu parte da nossa escavação.

Em todo o caso, esta intervenção tornou clara a associação dos materiais líticos mais alterados da jazida paleolítica de Pousias à base de uma formação do rio Lis que aí se encontra preservada, em contraponto à circunstância de as peças não alteradas haverem sido todas elas recolhidas na superfície do cabeço, sendo de considerar a sua proveniência de uma antiga coluvião que localmente se terá formado sobre os testemunhos que subsistiam do referido depósito fluvial.

7.2. MATERIAIS

O conjunto dos materiais líticos talhados cujo estudo foi considerado no âmbito do presente trabalho sobre a estação paleolítica de Pousias/Quinta do Cónego perfazem um total 974 peças, na sua maior parte provenientes de recolhas de superfície (67%), seguidas pelos materiais exumados no decurso da escavação (17,9%), a que acrescem duas outras pequenas colecções, uma delas agrupando os objectos talhados encontrados no corte (8,2%) e outra correspondente ao espólio originalmente recolhido no local pelos prospectores de Manuel Heleno, o qual se encontra depositado no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia (M.N.A.E.; vd Quadro 7.2).

Quadro 7.2. Pousias / Quinta do Cónego. Proveniência dos materiais estudados e sua distribuição em função do respectivo estado físico.

A integração desta última colecção foi ditada pela circunstância de se ter procurado promover o estudo da totalidade dos materiais paleolíticos da bacia hidrográfica do rio Lis existentes nas reservas do M.N.A.E., independentemente da diferenciada representatividade quantitativa de cada colecção, da sua variada homogeneidade e da possibilidade de se determinar ou não a sua eventual associação a um contexto preciso. Pretendia-se igualmente por cobro a uma situação que tinha levado a que tais materiais permanecessem na sua quase totalidade inéditos durante várias décadas.

Apenas não se enquadraram no presente trabalho as peças das colecções particulares cujo estudo havia sido por nós considerado numa anterior investigação (CUNHA-RIBEIRO, 1992- 1993), nos quais aliás se integravam parte dos materiais de uma das publicações já anteriormente conhecida sobre a jazida (ZBYSZEWSKI et al., 1980). Mas se neste último caso estávamos perante uma pequena colecção onde transparecia a inequívoca selecção dos materiais recolhidos, com claro predomínio para as formas mais elaboradas por talhe e com maiores dimensões (Quadro 7.1), tal exclusão foi no entanto determinada pela impossibilidade de se proceder ao reestudo das referidas 175 peças de acordo com os parâmetros de análise agora adoptados.

Tendo em conta a distribuição dos materiais estudados por duas distintas ocupações do local pelo homem paleolítico, cada uma delas associável a diferentes condições de jazida, optou-se por realizar o estudo conjunto das várias colecções reunidas, separando-as contudo em função do

E F : 1 E F : 2 E F : 3 T O T A I S Nº % Nº % Nº % Nº % Colecção do M.N.A.E. 32 37,2 33 38,4 21 24,4 86 8,9 Espólio da escavação 139 79,9 34 19,5 1 0,6 174 17,9 Materiais do corte 68 85 12 15 80 8,2 Materiais de superfície 78 12,3 283 44,8 271 42,9 632 65