A consistência ruminal, mensurada em função do tempo de ascensão do pêndulo imerso no rúmen, em segundos, não apresentou significância estatística pelo teste F (P=0,86). Portanto, pode-se considerar que a média dos tratamentos apresentados na Tabela 5, de 1365 segundos, é representativa para todos os tratamentos. Porém, a velocidade do pêndulo, avaliada em centímetros por segundos, apresentou alterações para os diferentes tratamentos estudados.
A velocidade de percurso apresentou tendência quadrática (P=0,11) em relação a concentração de matéria seca da silagem, havendo aumento da velocidade de percurso nas silagens com concentração de matéria seca extremas. O comportamento deste parâmetro não foi constante (P=0,03) para as silagens inoculadas e sem inoculante nos diversos teores de MS de silagens avaliadas. Os elevados coeficientes de variação também encontrados na Tabela 5 para as variáveis tempo de ascensão e velocidade de percurso podem ser explicados, em parte, pelo pequeno número de amostragens realizadas em cada período experimental e por diferenças individuais de comportamento ingestivo dos animais, mesmo que não tenham sido constatadas diferenças significativas pelo teste F, para as variáveis período e animal no modelo de análise de variância. O delineamento empregado, em quadrados latinos, diluiu a margem de erro experimental,
Tabela 5. Médias dos quadrados mínimos para variáveis de cinética ruminal observadas em bovinos e caracterização física de frações contendo silagens de capim Tifton 85.
Com Aditivo Sem Aditivo Contrastes1 Variável 25 45 65 25 45 55 65 CV L Q AD L*AD Q*AD Consistência ruminal Tempo de ascensão (seg.) 1192a 1379a 934a 1166a 1338a 1391a 962a 65 0,96 0,47 0,48 0,48 0,70 Deslocamento (cm seg-1) 0,07b 0,05b 0,14a 0,06b 0,04b 0,04b 0,06b 87 0,29 0,11 0,19 0,03 0,16 Taxa de passagem Sólidos (% hora-1) 3,52a 2,20a 3,64a 2,84a 3,21a 3,20a 2,81a 33 0,57 0,12 0,48 0,20 0,16 Líquidos (% hora-1) 3,77a 3,55a 4,57a 3,76a 5,25a 5,15a 4,96a 42 0,14 0,89 0,54 0,69 0,12 Estratificação de partículas Forragem oferecida < 0,79 cm, % 0,53ab 0,37b 0,45ab 0,40ab 0,24b 0,47ab 0,67a 54,6 0,05 0,04 0,14 0,24 0,67 0,79 - 1,8 cm, % 1,87a 1,10b 1,17b 1,34ab 0,96b 1,23b 1,74a 38,6 0,12 0,02 0,13 0,27 0,83 > 1,8 cm, % 97,6b 98,5a 98,4a 98,3ab 98,8a 98,3ab 97,6b 0,7 0,01 0,47 0,50 0,02 0,03 Ração recusada < 0,79 cm, % 5,62a 11,0a 10,8a 7,46a 9,01a 21,2a 15,7a 123 0,18 0,83 0,53 0,40 0,85 0,79 - 1,8 cm, % 5,85a 4,80a 6,75a 6,11a 6,74a 4,17a 5,73a 67,2 0,77 0,98 0,28 0,54 0,87 > 1,8 cm, % 88,5a 84,2a 82,4a 86,4a 84,3a 74,7a 78,6a 20,5 0,24 0,85 0,76 0,53 0,83
1 Contrastes =L: matéria seca efeito linear; Q: matéria seca efeito quadrática; AD: aditivo; L*AD: interação matéria seca linear e aditivo;
ao longo do experimento. Contudo, pressupondo-se o consumo de matéria seca ad libitum e a falta de homogeneidade na profundidade do rúmen entre os bois, estas variáveis poderiam causar grande impacto no tempo de ascensão do pêndulo e na velocidade de deslocamento.
A consistência ruminal de quatro novilhos canulados no rúmen, foi mensurada, após duas horas do fornecimento de alimentos pela manhã e ao entardecer Welch (1982). O tempo necessário para o peso ascender da parte ventral do rúmen até a porção dorsal foi considerada como indicativo da consistência ruminal. Um longo tempo de ascensão, pode ser associado com sólida quantidade de digesta fibrosa, e um curto período indicando uma camada superficial de menor resistência. Segundo Welch (1982) dietas baseadas em feno produziram denso conteúdo ruminal e maior tempo de ascensão do peso, 900 segundos pela manhã e 333 ao entardecer. As dietas à base de silagem de milho e, dieta com 80% de concentrado mais 20% de feno seguiram as respectivas ordens 201 e 89, 131 e 59 segundos, para os dois períodos de observação. Em outra dieta testada, a utilização de alfafa peletizada apresentou consistência ruminal baixa, com rápido tempo de ascensão do peso de 21 segundos para a mensuração matutina e 4 segundos para a vespertina, contudo algumas ascensões foram quase instantâneas. O tempo de ascensão decresce com aumento do tempo entre a alimentação e a amostragem no rúmen.
O aumento no consumo de alimentos foi testado, em outro experimento de Welch (1982), oferecendo os seguintes níveis de consumo de feno ad libitum de 40, 60, 80 e 100%. A consistência ruminal foi mensurada duas vezes, com um intervalo de 13 horas e a unidade tempo usada foi o minuto, assim foram encontrados os seguintes tempos, para os respectivos níveis de consumo: 1,32 ± 2,19 e 0,23 ± 0,35 para 40%, 3,57 ± 2,76 e 2,16 ± 2,30 para 60%, 5,81 ± 3,84 e 5,38 ± 0,84 para 80% e 7,78 ± 5,32 e 5,42 ± 4,16 para 100% de feno. A variabilidade observada na estimativa destas médias, também revela a dificuldade de se identificar diferenças consistentes entre ingredientes, o que está de acordo com o que foi caracterizado na Tabela 5, no presente trabalho. Em resumo, as diferenças encontradas na mensuração da consistência ruminal, observadas em razão do tempo de ascensão do pêndulo, por Welch (1982) e não verificadas neste
trabalho corroboram com as observações de Allen (1997). O referido autor afirma que a variação entre fontes similares de alimento tende a ser muito pequena, em comparação com outros alimentos. Este fato permitiria a possibilidade do valor da matéria orgânica, digestível no rúmen, poder ser usado genericamente, embora exista variação nas características do alimento, interações entre as dietas, animais e microrganismos ruminais, que afetam o tempo de resistência à digestão, no rúmen, e a atividade microbiológica. A variação de degradação ruminal entre alimentos tende a ser mais acentuada para fibras de fontes não oriundas de forragem, gerando diferenças no tempo de retenção no rúmen, com probabilidade de afetar a consistência ruminal.
Fitzgerald (1996) observou que cordeiros alimentados com silagem de azevém perene picado sob diferentes comprimentos de partícula, apresentaram declínio no consumo de 24,5 gramas de matéria seca para cada hora de aumento no tempo de retenção ruminal. Para cada centímetro reduzido em comprimento de partícula, houve aumento médio no consumo de silagem de 56 g MS, com ganho médio diário de 14 gramas, considerando um tempo de retenção ruminal reduzido a 1,53 horas. Na tentativa de se eliminar este efeito, uma das práticas de campo adotadas na ensilagem do capim Tifton 85, foi a regulagem da enfardadeira para que o tamanho das partículas se mantivesse dentro de um padrão homogêneo de corte, em torno de oito centímetros para todos os tratamentos. Devido a homogeneidade desta característica física nas silagens, assim como a utilização de um nível equivalente de concentrado em todas as rações, não se pode creditar influência do tamanho de partícula sob a consistência ruminal de qualquer tratamento.
Outros fatores alimentares que possivelmente causariam efeito neste parâmetro poderiam advir do consumo de matéria seca ou mais precisamente da ingestão de FDN; contudo, a avaliação destas estimativas, apresentadas na Tabela 7, não se mostraram significativas. Segundo Welch (1982) a digesta ruminal se constitui em uma massa estratificada com fibras longas e leves presentes no saco dorsal. Mudanças progressivas na flutuação da massa e a redução do tamanho médio de partícula, aumentam a gravidade específica das partículas e a passagem se torna máxima quando a gravidade específica atinge tamanho entre 1,10 a 1,20 µm. Estes achados, sugerem que a
combinação da digestão microbiana e da ruminação reduzem o tamanho da partícula, ao mesmo tempo hidratam a digesta com liberação de ar ou gases aprisionados na partícula. Com isto, é aumentada a chance da partícula obter acesso ao orifício retículo-omasal e aumentar a gravidade funcional específica no rúmen, próximo deste orifício.
A avaliação do consumo voluntário de alimentos, apresentado na Tabela 7, não foi caracterizada por diferenças significativas, porém houve um padrão de comportamento peculiar, que pode ser notado diariamente em função do oferecimento dos alimentos. Após o oferecimento matutino da refeição, os animais permaneciam ingerindo alimento, por um período aproximado de 3 horas, indistintamente a concentração de matéria seca das silagens. Como o início das atividades de mensuração se dava 4 horas após o fornecimento da ração, provavelmente, a atividade de ruminação exerceu pouca influência sobre o componente fibroso. Desta forma se existiram pequenas diferenças, provavelmente não foram detectadas.
Henriques et al. (2001b) estimaram o tempo de retenção ruminal da fase sólida em 66,2 e 92,6 horas e o tempo de retenção da fase líquida em 11,4 e 11,5 horas para silagens de capim elefante, tratadas ou não com ácido lático polimerizado (Acipim). Do mesmo modo foi estimado o tempo de retenção da fase sólida em 37,3 e 35,6 horas e 20,2 e 17,9 horas para fase líquida, em silagens de milho pelo modelo unicompartimental.
Castro et al. (2001b) verificando os parâmetros físico-químicos das mesmas silagem do capim Tifton 85, sob efeito do emurchecimento e de inoculante bacteriano- enzimático, em função do tempo de armazenagem, encontraram uma queda mais acentuada no pH e também menores valores para este parâmetro em silagens inoculadas. Estes resultados sugerem a lise da membrana celular com extravasamento do conteúdo celular, consequentemente, levando à ocorrência de maior disponibilidade de substrato para o crescimento de microrganismos.
A associação destas duas idéias descritas anteriormente, pode possivelmente servir de explicação para a interação observada neste experimento. Partindo-se do princípio de que o tempo de retenção da fase sólida é maior que o tempo de retenção da fase líquida, para silagens que possuem menor concentração de matéria seca, e que esta relação se
inverte, como também fica estreita com o acréscimo de matéria seca na silagem. O principal efeito da técnica de emurchecimento é o de elevar o teor de matéria seca, podendo explicar a primeira parte da associação, onde o inoculante bacteriano- enzimático, na silagem de Tifton 85, proporcionou aumento da produção de ácidos orgânicos. Este efeito é similar ao do Acipim, que diminui o tempo de retenção de sólidos no rúmen e aumenta o tempo de retenção para a fase líquida.