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Para avançarmos no debate sobre a subjetividade, a fim de apresentar uma compreensão que se deriva de ambos os autores ora em estudo, iniciemos explorando duas metáforas da literatura do mundo antigo: o mito hebraico de Abrahão e o protagonista da Odisseia homérica. Ambos são diretamente comentados por Levinas ao tratar da consciência, e também são referidos num comentário sobre a subjetividade na perspectiva hermenêutica. Ambos os personagens também são foco de análise literária na obra Mímesis, de Auerbach17. Ulisses é o herói que sai de sua terra – Ítaca – e vai ao mundo para combater e vencer, para enfrentar as tormentas e os encantos, e retorna à mesma Ítaca trazendo consigo o que recolhera nessas experiências pelo mundo. Diferentemente, Abrahão é o homem que sai da sua terra – Ur – e parte em direção à terra prometida, que lhe é desconhecida, e nunca mais retorna à sua origem.

Segundo Levinas, Ulisses e Abrahão são ícones de duas visões distintas da subjetividade: enquanto o primeiro representa o sentido moderno da consciência, que sai de si, vai ao mundo e retorna a si; o segundo representa a saída de si sem retorno. Em Humanismo do outro homem, Levinas faz a identificação da filosofia com o herói odisseico: “O itinerário da filosofia permanece sendo aquele de Ulisses cuja aventura pelo mundo nada mais foi que um retorno a sua ilha natal – uma complacência do Mesmo, um desconhecimento do Outro” (HH, p. 50). No texto Vestígio do Outro, publicado em Descobrindo a Existência com Husserl e Heidegger, Levinas fala da oposição abrahâmica a Ulisses: “Ao mito de Ulisses que regressa à Ítaca, gostaríamos de opor a história de Abrahão que abandona para sempre a sua pátria por uma terra ainda desconhecida e que proíbe ao seu servidor reconduzir até o seu filho a esse ponto de partida” (DEHH, p. 232). Nestes dois personagens legados da antiguidade – um da tradição hebraica e outro da tradição grega – pode-se encontrar a estrutura com que Levinas concentra a sua análise da subjetividade: não mais consciência transcendental que apreende o mundo a partir de si, mas consciência individual dissolvida em sua ipseidade que transborda como linguagem frente a outrem (cf. TI, p. 228; 186). A subjetividade, tal como é concebida por Levinas, é abrahâmica e não odisseica. Trata-se da “subjetividade como não redutível à consciência e à tematização” (AE, p. 157). A consciência abrahâmica é aquela do descentramento da subjetividade e, portanto, da abertura ao Outro que torna possível a linguagem. Abertura como saída de si sem

retorno a si. Abertura que, em Levinas, marca a passagem do eu egoísta para a subjetividade ética: desejo do Infinito; almejar não mais o que lhe possa saciar, mas desejar o que não pode ser tomado para si. Não mais um eu transcendental, tal como o concebera a filosofia da consciênica, mas a “subjetividade como o outro no mesmo” (AE, p. 176). A subjetividade é tomada pela abertura ao Outro. Em Autrement Qu’être, Levinas trata desta abertura como substituição – um para o outro – responsabilidade para com o Outro desde uma passividade. Tal passividade não é alienação de si, mas é responsabilidade assumida por um sujeito constituído desde o para si até a abertura à substituição – o outro no mesmo.

Veja-se, a partir de então, como a hermenêutica gadameriana responde à questão da consciência. Rohden, ao tratar da subjetividade na perspectiva hermenêutica, utiliza a metáfora de duas veredas: uma curta (Ulisses) e uma longa (Abrahão). Tomando por referência a análise literária de Auerbach, Rohden situa o caminho de Ulisses, desde sua saída até seu retorno a Ítaca como um caminho curto, pois “volta ao mesmo lugar de onde saiu, sabe quem é e os outros o reconhecem” (2008, p. 125). Embora tenham se passado vinte anos entre sua partida e seu retorno, Ulisses mantém a susbstância do seu eu inalterada e por isso é reconhecido. Nem mesmo as mudanças do envelhecimento interferem no reconhecimento do herói que retorna. “[...] no caso do próprio Ulisses, o envelhecimento meramente físico é velado pelas repetidas intervenções de Atenéia, que o faz aparecer velho, ou jovem, segundo o requer cada situação. Para além do físico, nem sequer se faz alusão a outra coisa, e, no fundo, Ulisses é, quando regressa, exatamente o mesmo que abandonara Ítaca duas décadas atrás” (AUERBACH, 2009, p. 14). É o que ocorre com as filosofias essencialistas: é possível ser exatamente o mesmo. É o movimento da consciência que não se afasta do seu centro. Por essa vereda odisseica não se pode ir além de si mesmo, é caminho curto e sempre preso a seu ponto de partida. A consciência odisseica é desprovida de abertura. Outro caminho – longo – é aquele percorrido por Abrahão, “sem a pretensão de voltar ao mesmo lugar de onde saiu, idêntico” (ROHDEN, 2008, p. 129). A subjetividade abrahâmica é inteira abertura ao desconhecido, tal qual alguém que se põe em diálogo com outrem sem saber a que direção o diálogo será conduzido. Não é consciência que aprende o mundo exterior em si, mas consciência histórica que ultrapassa os limites do presente e da ipseidade, é além fronteiras e por isso sem um núcleo fixo de referência.

No debate que se dá a partir das interpretações dos mitos odisseico e abrahâmico, está uma posição contundente de superação da concepção de subjetividade, com relação ao que fora pensado na modernidade: Levinas e Gadamer estão de acordo no que se refere a uma ruptura radical com a filosofia da consciência. Em lugar disso, ambos os autores apresentam a linguagem como condição de compreensão. O sujeito que compreende o mundo e o outro (Gadamer), ou que se percebe responsável por outrem (Levinas), constitui aí o seu próprio eu como subjetividade na relação, no dizer, no sair de si. Subjetividade que se torna possível na intersubjetividade. Se a linguagem é condição para se pensar a subjetividade, então o outro será sempre determinante para que se possa falar de um eu. E a possibilidade de compreensão dar-se-á num percurso que é de descentramento do eu – ao modo abrahâmico. O que marca a subjetividade, então, não é a sua imanência, mas a abertura que possibilita a saída de si e a acolhida a outrem. Daí subjetividade que só pode ser pensada a partir da intersubjetividade.