Até aqui, nosso estudo tem caminhado no sentido de entender a lacuna indicada por Lacan na teoria freudiana no que diz respeito à questão sobre o pai. Além disto, e principalmente, através desse procedimento, acreditamos vir a encontrar o caminho que nos conduzirá à reflexão sobre a feminilidade e ao imbricamento desta com a função do pai.
No entanto, antes de enveredarmos diretamente pelas reflexões sobre a feminilidade, parece-nos interessante comentar que, ao acompanharmos os desdobramentos da noção de Nome-do-Pai, surgiu-nos a possibilidade de forjar uma outra articulação. Esta, de cunho alegórico, nos permitirá apreciar mais um aspecto da relevância e impacto do Nome-do-Pai na medida em que esse conceito se encontra intimamente relacionado aos efeitos do ensino de Lacan no meio psicanalítico. Porém, como nossa alegoria se relaciona à construção do Nome-do-Pai ao longo da elaboração lacaniana, achamos por bem condicionar sua apresentação a uma exposição resumida do recurso que temos empregado e das referências teóricas que nos têm apoiado.
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Segundo o Diccionário Castellano-Guaraní de Antônio Guasch (1961, p.517,518,744), o termo “Guarara” remete-nos àquilo que “produz grande estrondo”; “va” significa “o que”. Daí, Guararavacã é “o que produz grande estrondo”. Quanto à “Guacuí”, este termo remete à “morte” e a “velha, anciã”.
Em linhas gerais, podemos então dizer que temos procurado identificar, no
Grande Sertão, os elementos constitutivos do texto passíveis de serem articulados à
concepção psicanalítica do Nome-do-Pai. Como este conceito se encontra essencialmente ligado às noções de pai real, pai imaginário e pai simbólico, temos procurado também depreender da narrativa um entendimento destas noções a partir da análise do personagem Joca Ramiro.
Assim procedemos porque, como foi afirmado antes, Lacan criou o termo Nome-do-Pai para responder à questão deixada em aberto na obra freudiana no que diz respeito à função paterna. Foi também nesta perspectiva que ele criou a estrutura tripartida composta pelo pai real, pai simbólico e pai imaginário. Com a criação de tais conceitos, podemos afirmar com Jorge (2000, p.13) que
Lacan nos trouxe de volta àquelas regiões cruciais e problemáticas da obra freudiana de uma maneira mais consistente, em que seus contornos estão mais bem definidos e apresentando novas possibilidades de reflexão [de tal forma que] Real-simbólico-imaginário constitui um novo nome, dado por Lacan, ao inconsciente freudiano.
Retrospectivamente, seguimos ainda com Porge (1998) para ressaltar como o estudo de Lacan sobre o pai, a partir da obra freudiana, baseou-se - desde seu primeiro seminário que remonta ao ano de 195124 - numa aproximação entre a questão sobre o que é o pai e a introdução das noções de real, simbólico e imaginário. Sobre esta aproximação, Porge (1998, p.29) afirma também que a função paterna é introduzida a partir de dois eixos: “Aquele que vai ser suportado pelo termo, ainda opaco, de Nome- do-Pai e aquele do pai repartido no ternário pai simbólico, pai real, pai imaginário, mais explícito”.
Gostaríamos de fazer observar que, na construção de sua teoria, Lacan realizou uma espécie de alternância entre a elaboração dos conceitos de Nome-do-Pai e do ternário Real, Simbólico e Imaginário (PORGE, 1998). Além disto, assinalemos que, depois do seminário de 1957 a 1958 intitulado As formações do inconsciente, até o ano de 1963, são proferidos cinco seminários nos quais nem o Nome-do-Pai, nem o ternário, são abordados diretamente por Lacan25 (PORGE, 1998).
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Referimo-nos ao seminário sobre O homem dos lobos realizado durante os anos de 1951 e 1952 na residência de Lacan.
25
Citamos Porge (1998, p.45): “Cinco seminários separam As formações do inconsciente do seminário de 20 de novembro de 1963: O desejo e sua interpretação, A ética da psicanálise, A transferência, a indentificação, A angústia. [...] Nenhum destes seminários aborda de frente o Nome-do-Pai (a não ser por algumas poucas exceções) ou o ternário pai simbólico, imaginário e real. [...] Aparentemente o Nome-do-
Ora, nosso empenho em ressaltar o estudo de Porge (1998, p.87-88) sobre as incidências do Nome-do-Pai na teoria lacaniana decorre da explicitação feita por este autor do relevo que tal conceito ganhou no ensino de Lacan: “O Nome-do-Pai não é somente um tema de exposição, ele produz efeitos, no retorno, de contagem e de escansão sobre o ensino de Lacan”. Tal afirmação se fundamenta na possibilidade vislumbrada pelo autor de sugerir uma periodização na seqüência dos seminários proferidos por Lacan e na interpretação dos efeitos deste ensino no meio psicanalítico.
Em conseqüência, consideramos, como Porge, que estes efeitos detêm certa relação, justamente com a elaboração do conceito Nome-do-Pai, uma vez que foi a partir dele que Lacan questionou e reformulou a teoria freudiana sobre o Édipo. Como afirma Roudinesco e Plon (1998, p.448), Lacan propôs “uma releitura universalista da interdição do incesto e do complexo de Édipo”. Assim, o ensino de Lacan repercutiu no meio psicanalítico de tal forma que a reação por parte de alguns psicanalistas não tardou em se fazer ouvir.
Se levarmos em conta que a reação ao ensino de Lacan está relacionada à elaboração do termo Nome-do-Pai, parece-nos imprescindível nos reportarmos a alguns eventos que a marcaram, ainda mais quando consideramos que tal reação se deu de forma dramática e determinou uma mudança na seqüência dos seminários de Lacan.
Em 1963, ano em que Lacan iniciaria o seminário intitulado Os nomes do
pai, vários acontecimentos, decorrentes da crise gerada em torno do seu ensino, se
fizeram notar. Tal crise teve inicio no ano de 1959 quando a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP) fez o pedido de adesão à International Psychoanalytical Association (IPA). Como afirma Porge (1998, p.60), “[n]o centro do que toma ares de uma negociação [...] encontra-se J. Lacan, a duração de suas sessões de análise, o número dos seus analisandos, a presença destes no seu seminário”. A aceitação do pedido de adesão da SFP à IPA fora, então, condicionada ao afastamento de dois psicanalistas da SFP: Lacan e Fraçoise Dolto.
Reproduzimos a seguir um trecho da Recomendação de Edimburgo, citado por Porge (1998, p.61): “13.a – Que os doutores Dolto e Lacan tomem distância progressivamente do programa de formação, e que não se lhes envie novos casos de análises didáticas ou de supervisão”.
Pai não está no centro das preocupações de Lacan. E no entanto... As abordagens laterais, ou sob a forma de incisões destes seminários, que sobrevêm importam muito”.
A querela se acirrou a ponto de, no dia 19 de novembro de 1963, Lacan receber a notícia da perda de sua função de analista didata, ou seja, Lacan perdeu o direito de participar da formação de novos analistas. Porge (1998, p.64) assinala que logo “[n]a manhã seguinte ele suspende seu seminário Os nomes do pai” após pronunciar a primeira e última aula deste seminário.
Até então, os seminários de Lacan eram realizados nas dependências do Hospital Sainte-Anne. Depois do acontecimento acima descrito, Lacan deu continuidade a seu ensino em outro local. Porge (1998, p.65) nos fornece mais detalhes sobre as mudanças que se seguiram:
Lacan retoma um outro seminário, num outro local, o da Escola Normal Superior (ENS), obtido graças aos cuidados de L. Althusser, a quem ele escrevera na noite de 20 de novembro de 1963 solicitando um encontro. Esta mudança de lugar modifica o público do seminário, notadamente ao abri-lo aos universitários e outros não-analistas. Por outro lado, o título e o tema do seminário também mudam: Lacan anuncia que tratará dos fundamentos da psicanálise. O ato de parar seu seminário sobre os nomes do pai toma então só- depois o sentido não de renunciar a manter um ensino, mas de renunciar a fazer um ensino sobre os nomes do pai, contanto que a questão dos fundamentos fosse, senão asseguradas, pelo menos um pouco mais destrinchada.
Temos, portanto, que o seminário sobre Os nomes do pai, resumiu-se a única aula do dia 20 de novembro de 1963. No preâmbulo à recente publicação traduzida para o português desta aula de Lacan (2005, p.8), Jacques-Alain Miller comenta:
Lacan sempre se recusou a retomar o tema do seminário subitamente abortado, e até mesmo em publicar em vida o texto da única lição pronunciada. Ao concluir, em função de seus dissabores, que o credenciamento do “discurso psicanalítico” não lhe havia sido dado para erguer, como tinha a intenção, o véu com que Freud recobrira o verdadeiro fundamento da psicanálise, e que tinha sido punido por se mostrar sacrílego, assinalou, para bom entendedor - sobretudo com o título irônico que deu a um Seminário posterior, Les non- dupes errent26 -, que manteria mão de ferro sobre verdades por demais intempestivas.
Assim, após o que Lacan (1988, p.11) denominou - no seminário intitulado
Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise - de “excomunhão maior”27, isto se
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Literalmente, “Os não-tolos erram” (Les non-dupes errent), expressão que em francês faz homofonia com “Os nomes do pai” (Les nom du père).
27
“Excomunhão” foi o termo empregado por Lacan para designar sua demissão da IPA. Citamos Roudinesco e Plon (1998, p.118): “Com isso, [Lacan] inscreveu sua ruptura com a legitimidade freudiana na linha direta do herem de Baruch Spinoza (1632-1677), que era um castigo de caráter leigo, e não religioso. Lacan, aliás, comportou-se diante da IPA da mesma maneira que o filósofo frente à sua comunidade: ele mesmo providenciou sua exclusão. E o emprego desta palavra traduz perfeitamente bem
referindo a sua saída da IPA, Lacan (1985, p.19) resolveu recomeçar seus seminários procedendo ao que nos parece apropriado considerar como uma “recapitulação” de conceitos fundamentais à psicanálise. Ouçamo-lo:
Retornar a esta origem [ou seja, retornar ao desejo de Freud] é absolutamente essencial se queremos colocar a análise de pé.
O que quer que ele seja, tal modo de interrogar o campo da experiência, [...], vai ser guiado pela referência seguinte – que estatuto conceitual devemos dar a quatro dos termos introduzidos por Freud como conceitos fundamentais, nominalmente o inconsciente, a repetição, a transferência e a pulsão?.
Desta forma, ao realizar um “retorno” que, a nosso ver, pode também ser entendido como uma “recapitulação” da teoria freudiana, Lacan reavivou os fundamentos do ensino de Freud e travou, então, uma luta, ainda mais determinada, contra os desvirtuamentos de que este ensino vinha sendo vítima.
Por outro lado, ao criar um “lacanismo”, ou seja, ao propor um movimento de retorno a Freud que, ao mesmo tempo, veio prenhe de elaborações inovadoras, bem como de críticas à teoria freudiana, Lacan correu o risco de provocar uma opinião equivocada a seu respeito. Como ressalta Porge (1998, p.72),
[s]eu passo pode ser interpretado – e é isto que não deixa ainda hoje de se produzir – como uma espécie de tentativa metafórica de assassinato do pai (Freud) de acordo com o esquema edipiano, no momento em que justamente ele tenta fazer passar uma mensagem – o Nome-do-Pai – que recoloca em questão o esquema edipiano.
Ora, diante de tais acontecimentos, como poderíamos deixar de nos remeter, alegoricamente, ao Grande Sertão? Acaso, neste, assim como na história da psicanálise, depois do que foi entendido, mesmo que equivocadamente, como uma tentativa de assassinato do pai, não se efetivou um corte, uma cisão? Além disto, como deixar de observar que, como efeito deste corte, no meio do Grande Sertão a narrativa recomeça, recapitula, enquanto que no meio psicanalítico a cisão teve como efeito a retomada, ou recapitulação, por parte de Lacan dos conceitos fundamentais da psicanálise? Desta forma, podemos dizer que no caso dos jagunços a narrativa passou a ser “recontada”, assim como no caso dos psicanalistas, a teoria foi “recapitulada”, criticada e ampliada pelo ensino de Lacan.
a posição particular ocupada pelo lacanismo na história do freudismo. Ao contrário das outras correntes, que procuravam ultrapassar o freudismo, Lacan instaurou, com efeito, uma retomada ortodoxa dos textos freudianos”.
E mais, quando a estória é recontada no Grande Sertão, ficamos sabendo que Zé Bebelo, aquele que foi exilado para Goiás, retornou e se engajou na luta de vingança pela morte de Joca Ramiro. Zé Bebelo lutou, então, ao lado dos guerreiros de um outro grande chefe, Medeiro Vaz, e seu empenho foi tal que ele passou a ser visto como aquele que “herdou brioso comando” (GSV, p.234). Assim, tal como Joca Ramiro e Medeiro Vaz, ele foi capaz de reunir tantos sob seu comando que passou a ser nomeado por Zé Bebelo Vaz Ramiro (GSV, p.238).
Quanto aos rumos da história da psicanálise, podemos dizer que Lacan, aquele que foi “excomungado”, retornou ao texto de Freud para dar continuidade a seu ensino e o fez com tal empenho que afirmamos, como Porge (1998, p.75), que “[e]m nenhum momento tratou-se para Lacan de encabeçar um movimento lacaniano que não procederia de uma relação com a letra do texto freudiano”. Assim, o ensino de Lacan se reúne tanto ao ensino de Freud que podemos mais uma vez afirmar, com Porge (1998, p.75), que “[d]e fato, hoje, pode-se dizer que se lê Freud com Lacan, mas não se diz que se lê Freud com Melanie Klein28, por exemplo. Lê-se Freud e Melanie Klein”, lê-se
Freud Lacan.
Assim, ao nos voltarmos para a leitura de Freud com Lacan, podemos agora interrogar: Afinal, o que Lacan pretendia revelar como tendo sido encoberto por Freud? Para respondermos a esta questão, ouçamos o que diz o próprio Lacan (1985, p.19):
[...] a histérica nos põe, eu diria, na pista de um certo pecado original da análise. É preciso mesmo que haja um. O verdadeiro é talvez apenas uma coisa, é o desejo do próprio Freud, isto é, o fato de que algo, em Freud, não foi jamais analisado.
Era exatamente aí que eu estava no momento em que, por uma singular coincidência, fui posto em posição de ter que me demitir do meu seminário. O que eu tinha a dizer sobre os Nomes-do-Pai não visava outra coisa, com efeito, senão pôr em questão a origem, isto é, por qual privilégio o desejo de Freud tinha podido encontrar, no campo da experiência que ele designa como o inconsciente, a porta de entrada.
Enfim, chegamos ao ponto em que Lacan começa a explicitar sua indicação de que existe uma questão deixada em aberto na teoria de Freud sobre o pai e não é sem
28
Sobre Melanie Klein reproduzimos o comentário de Roudinesco e Plon (1998, p.430): “Melanie Klein foi o principal expoente do pensamento da segunda geração psicanalítica mundial. Deu origem a uma das grandes correntes do freudismo, o kleinismo, e [...] contribuiu para o desenvolvimento considerável da escola inglesa de psicanálise. Transformou totalmente a doutrina freudiana clássica e criou não só a psicanálise de crianças, mas também uma nova técnica de tratamento e de análise didática, o que fizera dela uma chefa de escola”.
surpresa que vemo-lo, então, entrelaçá-la a uma outra - reconhecida pelo próprio Freud como uma questão em aberto -, que é a interrogação sobre “O que quer uma mulher?”.
Na aula de 22 de janeiro de 1964 do seminário Os quatro conceitos
fundamentais da psicanálise, Lacan (1985, p.32) fez referência a este entrelaçamento
afirmando que “[q]uanto a Freud e à sua relação ao pai, não esqueçamos que todo o seu esforço só o levou a confessar que, para ele, esta questão permanecia inteira, ele disse a uma de suas interlocutoras - O que quer uma mulher?”.
Mas por que Lacan entrelaçou estas duas questões? Que afinidade ele identificou entre elas? Adiante, neste mesmo seminário, quando Lacan aborda o primeiro dos quatro conceitos elaborados por Freud, o conceito de inconsciente, ele relembra que no último capítulo d’A Interpretação dos Sonhos, Freud estabelece a relação entre o inconsciente e o sonho partindo da premissa de que este é a representação de um desejo. Lacan chama a atenção para o fato de que Freud toma, como exemplo desta relação, o sonho de um pai cujo filho acabara de falecer.
Este pai, cansado das noites passadas em claro devido aos cuidados prestados anteriormente ao enfermo, adormeceu durante o velório e sonhou, como relata Freud (1980[1900], v.V, p.543), que “seu filho estava de pé ao lado de seu leito, que o
apanhou pelo braço e lhe sussurrou em tom de censura: ‘Pai, não vê que estou queimando?’”. O pai então é despertado pela luz de labaredas que, efetivamente, se
formavam na sala onde o corpo do filho estava sendo velado, pois, na realidade, aconteceu de uma das velas cair e queimar “as roupas e um dos braços do cadáver”. Segundo Freud, este sonho realiza o desejo do pai de voltar a ver seu filho vivo, tomando-lhe pelo braço e falando-lhe, mesmo que em tom de recriminação.
A propósito desta interpretação, Lacan (1985, p.38), no entanto, se pergunta por que Freud escolheu justamente este sonho para exemplificar a realização de um desejo inconsciente quando o que chama mais atenção é a realidade do corpo do filho sendo queimado. Ele então argumenta que este exemplo fornecido por Freud evoca algo mais, pois, “[d]o que é que ele [o filho] queima? – senão do que vemos desenhar-se em outros pontos designados pela topologia freudiana – do peso dos pecados do pai, que carrega o fantasma no mito de Hamlet com que Freud duplicou o mito de Édipo”.
Para entendermos este questionamento de Lacan precisamos considerar com ele que, inicialmente, Freud concebeu a noção de desejo a partir de suas descobertas sobre o desejo da histérica. Porém, Lacan assinala ainda que tal concepção só pode ser sustentada por Freud até determinado ponto: aquele em que a própria histérica lhe
demonstrou que ele, Freud, não havia formulado corretamente qual é o objeto do seu desejo (LACAN,1985). Daí a interrogação freudiana: “O que quer uma mulher?”.
Então, em relação ao desejo, há algo que Freud não pôde ter acesso. Por isso, Lacan (1985, p.41) voltou-se para o estudo do relato de Freud sobre o Caso Dora, publicado em 1905 e de seu artigo “Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina”, publicado quinze anos depois, e observou que, na condução destes tratamentos, “Freud ainda não podia ver – na falta de referenciais de estrutura [...] – ver que o desejo da histérica – [...] – é sustentar o desejo do pai [...]”, enquanto que no caso da homossexual, a solução que ela encontra para esse desejo do pai é desafiá-lo.
Aí está! As observações de Lacan sobre a afinidade entre o desejo do pai e a questão incitada pela histérica e pela homossexual, parecem-nos contribuir enormemente para a exeqüibilidade deste estudo que visa, em última instância, elucidar as implicações da função paterna sobre a constituição da feminilidade.
Como resultado, acreditamos ter alcançado um ponto onde a vereda traçada por nosso estudo sobre o pai se conjuga com a vereda de um estudo sobre a filha. Por isso, no próximo capítulo, nos empenharemos na caminhada por esta segunda vereda que implica em passarmos pela análise de uma filha e pelas questões da histérica e da homossexual para enfim chegarmos às questões que dizem respeito à mulher.
III
VESTÍGIOS DE MULHER