Aconteceu ainda de Riobaldo ter a oportunidade de provar de “outra água” (GSV, p.42). Um dia, tendo aportado na Fazenda Santa Catarina, conheceu uma moça chamada Otacília. “[Airou-se nela], como a denguice de uma música” (GSV, p.42). Otacília lhe inspirou a pensar nuns versos que falavam em olhos, “[m]as os olhos verdes sendo os de Diadorim” (GSV, p.42). Aí restou Riobaldo entre dois amores: “Meu amor de prata e meu amor de ouro” (GSV, p.42).
Riobaldo levou a vida a comparar estes dois amores. E, convicto, perguntava: “Todo amor não é uma espécie de comparação?” (GSV, p.122).
Mas como foi que este amor por Otacília se lhe despontou? Chegados à Fazenda Santa Catarina, Riobaldo
[divulgou], qual que uma luz de candeia mal deixava, a doçura de uma moça, no enquadro da janela, lá dentro. Moça de carinha redonda, entre compridos cabelos. E, o que mais foi, foi um sorriso. Isso chegasse? Às vezes chega, às vezes” (GSV, p.122).
Esta paixão por Otacília lhe parecia oportuna ainda mais que ao comparar seus amores, Riobaldo constatou que Diadorim gostava dele “com a alma [pois ele, Diadorim] sabia ser homem terrível” (GSV, p.122). Nestes momentos, Riobaldo lançava mão do amor enquanto amizade, enquanto amor da alma, a tranqüilizadora
Sobre o retorno da philia na modernidade através de sua aplicação no amor conjugal, Julien (1996, p.130), comenta:
Contenção na sexualidade, moderação nos sentimentos, serenidade na ternura e cuidado com o interesse pessoal definem o laço conjugal, bem mais que o amor-paixão, que, muito pelo contrário, põe todo mundo na dependência do outro e expõe à decepção, ao pedir ao outro o que ele não pode dar.
Contudo, paradoxalmente, nos amores de Riobaldo postos em comparação, o que percebemos é sua paixão por Otacília se transmutar em philia38, e o amor da alma por Diadorim crescer como um vertiginoso amor-paixão, pois, Diadorim, “[e]le era irrevogável” (GSV, p.141).
Foi assim que Riobaldo, em meio aos sofrimentos de uma penosa travessia, a travessia do Liso Sussuarão, fez um juramento: “No escaldado... “Saio daqui com vida, deserteio de jaguncismo, vou e me caso com Otacília” – eu jurei, do proposto de meus todos sofrimentos” (GSV, p.43). Riobaldo saiu com vida, mas ainda não foi desta vez que cumpriu sua jura: não desertou, nem desposou Otacília.
Riobaldo - aquele que é um rio carente, desprovido de algo, um rio falho -, ele sempre foi também “um fugidor” (GSV, p.142). Apesar de várias vezes pensar em desertar, a verdade é que nunca o fez, pois ele tanto fugia “que [fugiu] até da precisão de fuga” (GSV, p.142).
Quanto à jura de casar-se com Otacília, esta ele cumpriu, mas só depois, “quando deu o verde nos campos” (GSV, p.457). Antes, ele teve de realizar outras travessias e, principalmente, a travessia maior.
Por estas travessias, Riobaldo um dia fez paragem na “Aroeirinha” (GSV, p.28). Desta vez quem ele viu destacada pela moldura, não de uma janela, mas de um portal, foi Nhorinhá, “mulher moça, vestida de vermelho, se ria” (GSV, p.28). Diante desta pintura em encarnado, Riobaldo “nem tinha começado a conversar com aquela moça, e a poeira forte que deu no ar ajuntou [os dois], num grosso rojo avermelhado” (GSV, p.28). Aí neste arrojar-se Nhorinhá recebeu de Riobaldo o “carinho no cetim do pêlo – alegria que foi, feito casamento, esponsal” (GSV, p.28).
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Ainda sobre a philia, citamos Julien (1996, p.120-130): “Aristóteles mostrou isso admiravelmente em suas páginas sobre a philia na Ética a Nicômaco, especialmente no livro IX, capítulo 4: “O homem de bem está com seu amigo numa relação semelhante à que mantém consigo mesmo, pois o amigo é um outro de si mesmo” (1166 a 31). [...] Em todos os casos, o amor ao outro (a philia) e o amor-próprio (a philautia) estão ligados, na medida em que “as diversas amizades realmente parecem derivar das relações que são mantidas consigo mesmo” (1166a2), isto é, desse cuidado consigo que é a arte de viver na sabedoria e no justo uso dos prazeres compartilhados”.
Nhorinhá era “nhô” e “nhá”. Era ioiô e iaiá39. Ioiô é senhor, senhora, mas também é brinquedo que seguro apenas por um fio, vai e vem escapando das mãos. Iaiá é moça. Nhorinhá era moça de se brincar, era para o afago de várias mãos, “era meretriz [...] para os homens de fora do lugarejo, jagunços, tropeiros” (GSV, p.29).
Riobaldo gostou de Nhorinhá só o “trivial momento” (GSV, p. 78), no entanto - quando já casado, tendo se passado oito anos, enfim lhe chegou às mãos uma carta de Nhorinhá escrita logo depois do trivial momento deles dois -, Riobaldo viu então que “[...] estava gostando dela, de grande amor em lavaredas; mas gostando em todo tempo, até daquele tempo pequeno em que com ela [esteve]” (GSV, p.78).
É que Riobaldo achava que “[b]om, quando há leal, é amor de militriz” (GSV, p.397). Assim, em suas travessias e travessuras, conheceu mais duas: Maria-da- Luz e Hortência. Elas “não se comparavam com Nhorinhá, não davam nem para lavar os pés dela. [...], porém, beleza a elas também não faltava [...]” (GSV, p.397). Com estas, “[n]o meio delas duas, juntamente, [ele descobriu] que até mesmo [seu] corpo tinha duros e macios. Aí eu era jacaré, fui, seja o que sei” (GSV, p.398) - comentou Riobaldo.
O encontro dele com as prostitutas lésbicas “que, nas horas vagas, no lambarar, as duas viviam amigadas, uma com a outra” (GSV, p.400), nos remete a um tema bastante pertinente: a bissexualidade.
Porém, sem nos aprofundarmos, podemos dizer que para a psicanálise o termo bissexualidade designa uma determinação psíquica inconsciente na medida em que, frente à diferença sexual, o sujeito deverá proceder a uma escolha. Esta escolha sexual se dará ou pelo recalque de um dos dois componentes da sexualidade - masculino ou feminino -, ou pela aceitação dos dois, como é o caso das práticas bissexuais, ou ainda pela renegação da realidade da diferença sexual (ROUDINESCO e PLON, 1998).
Chamamos atenção para este encontro, apenas pela possibilidade de ele ilustrar com grande precisão como na vida adulta pode se dar a reatualização deste processo de escolha: Mesmo se sabendo como um “jacaré”, quer dizer, um indivíduo paquerador, coisa que de fato Riobaldo o era, reza a crendice popular que “homem com homem é lobisomem e mulher com mulher é jacaré”. Ora, seguida a descrição da cena de amor a três, Riobaldo foi solicitado a atender o chamado de seu guarda-costas Felisberto que vigiava a casa das “mulheres-damas” (GSV, p.397). Como Riobaldo
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Segundo o Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa, versão 2001, ‘nhô’ e ‘nhá’ têm como respectivos sinônimos: ‘ioiô’ e ‘iaiá’.
estava “perfeito descomposto nú” (GSV, p.398) uma das mulheres lhe trouxe uma das roupas dela para que ele amarrasse à cintura, “tapando as partes” (GSV, p.399). Ao fazê-lo, Riobaldo, o “jacaré”, experimentou a possibilidade de freqüentar a posição feminina e, súbito, reafirmar sua escolha:
Experimentei. Daí, entendi o desplante, me brabeei, com um repelão arredei a mulher, e desatei aquilo, joguei longe. Tornei a vestir minhas roupas, botei até jaleco. Elas melhor me riam. Eu era algum saranga? Eu podia dar bofetadas – não fosse a só beleza e a denguice delas, e a estrôina alegria mesma, que meio me encantava (GSV, p.399).
Então, era assim, a leviandade da alegria das mulheres encantava Riobaldo. No entanto, num “repelão” ele afastou a mulher. Qual? A que lhe cedera as roupas ou a que ele mesmo incorporara?
Além do mais, o tema da possibilidade de mudança entre as posições feminina e masculina não lhe era desconhecido. Tanto que um dia, ao atravessar “o miolo mau do sertão, era o sol em vazios” (GSV, p.40), enfrentando sede, cansaço e uma tonteira que “provinha de excessos de idéia” (GSV, p.41), Riobaldo - quando pode descansar - “teve uma sonhice: Diadorim passando por debaixo de um arco-íris. Ah, eu pudesse mesmo gostar dele – os gostares...” (GSV, p.41).
Sabemos que o sonho é a realização de um desejo. Ao sonhar com Diadorim passando por debaixo do arco-íris, realizava-se, então, o desejo de Riobaldo de que Diadorim deixasse de ser homem e passasse a ser uma mulher. Por aí se abriria, então, a possibilidade de ele poder gostar de Diadorim.
Segundo o Dicionário do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo, citado por Utéza (1994, p.88), sabe-se que “quem passa por debaixo do arco-íris muda de sexo e o recobrará, se o repassar em sentido contrário”. O sonho viabilizava, por conseguinte, uma solução para que Riobaldo se permitisse gostar de Diadorim. Neste caso, seria preciso que cada um deles se fixasse em lados opostos do arco-íris.
Ora, não é isto que acontece geralmente. Tanto homens quanto mulheres podem vir a freqüentar cada uma das duas posições, masculina e feminina. Diadorim é o exemplo mor. Riobaldo também. Mesmo que por um lapso de tempo, não lhe foi possível vestir-se de mulher?
E mais, em relação a Diadorim - mesmo sendo “guapo tão aposto – surgido sempre com o jaleco, que ele tirava nunca, e com as calças de vaqueiro, em couro de veado macho, curtido com aroeira-brava e campestre” (GSV, p.135) -, mesmo com toda
esta elegância guerreira, talvez, ainda assim, possamos imaginar, como sugere poeticamente Hollanda (1989, p.211) que “A menina que passou o arco era o menino que passou no arco e vai virar menina, imagina”. Assim, na presença-ausência do arco- íris - por sua evanescência -, a própria evanescência do falo... imagina!
Voltando-nos para Riobaldo, podemos afirmar que ele percorreu muitos amores, dentre os quais ele próprio destacou três: “Otacília, era como se para mim ela estivesse no camarim do Santíssimo [...]. Nhorinhá puta bela. [...] Diadorim – eu adivinhava. Sonhei mal?” (GSV, p.236).
Acreditamos que não. Riobaldo, o “jacaré”, o paquerador, se não foi um Don Juan, de certa forma, sonhou e se empenhou, tanto quanto este, em adivinhar uma resposta para o que é uma mulher. A diferença entre eles foi que Riobaldo esmerou-se em suas intermináveis elucubrações, enquanto Don Juan, não interrogava: simplesmente tentava alcançar a Mulher, aquela que ele desejava suscetível de apreender completamente.
Sobre o mito de Don Juan, podemos dizer que ele persegue a Mulher, percorrendo, numa velocidade alucinante, o infinito que se abre entre aquilo que marca a diferença da posição masculina, da posição feminina. Ele tenta apreender a marca evanescente desta diferença, o falo. Tenta corrigir qualquer falha, busca o compacto.
Porém, como já falamos, o compacto é constituído por uma infinidade de pontos, a compacidade. É por isso que não é possível alcançar a Mulher. Pode-se ter acesso apenas a uma mulher. E, como ressalta Lacan (1992, p.117), “já é muito dar conta de uma”.
Mas, para Don Juan, foi uma após outra e outras tantas. Até mil e três – ou mais. Desta forma, ao percorrer o infinito, pela infinidade de mulheres que seduz, ele desafia o limite, a lei, pois Don Juan visa à completude, ao gozo absoluto. E sabemos que no final ele alcança este gozo absoluto. Contudo, aí ele não encontra a completude da mulher, mas a morte.
Retornemos a Riobaldo. Dissemos que ele se interrogava sobre as mulheres. Afirmamos isto por notarmos seu empenho em relatar vários casos. Apresentaremos dois destes com exemplo. Um, é o caso da moça do Barreiro-Novo:
essa desistiu um dia de comer e só bebendo por dia três gotas de água de pia benta, em redor dela começaram milagres. Mas o delegado-regional chegou, trouxe os praças, determinou o desbando do povo, baldearam a moça para o hospício de dôidos, na capital, diz até que lá ela foi cativa de comer, por armagem de sonda. Tinham o direito? Estava certo? (GSV, p.48).
A moça do Barreiro-Novo era uma moça que sabia o que queria: ela queria “só o Céu” (GSV, p.48). E sobre os procedimentos tomados em relação a ela, chega a causar espanto a atualidade das interrogações de Riobaldo40.
Outro, é o caso de Maria Mutema. Ela era uma “senhora vivida, mulher em preceito sertanejo” (GSV, p.170). Uma madrugada, seu marido amanheceu morto. Deste então Maria Mutema passou a freqüentar diariamente a igreja e a confessar-se de três em três dias com o Padre Ponte. Este, um “vigário de mão cheia, cumpridor e caridoso” (GSV, p.171), tinha uma pecha: “ele relaxava” (GSV, p.170). Tivera três filhos com sua governanta que passou a ser conhecida como Maria do Padre. As freqüentes confissões de Maria Mutema acabaram por adoecer o Padre Ponte até a morte. Os anos se passaram. Ela não voltou mais à igreja. Porém, durante uma missa celebrada por um novo missionário, Maria Mutema reapareceu. Ao vê-la entrar, o missionário a expulsou bradando que ela confessasse seus crimes. Ela, então, confessou chorando que, “sem motivo nenhum” (GSV, p.173), havia matado o marido derramando-lhe chumbo derretido no ouvido enquanto dormia. Reconheceu também que havia levado o Padre Ponte à morte, pois lhe dizia em confissão que matara o marido por que gostava do padre “em fogo de amores, e queria ser concubina amásia...” (GSV, p.173). Disse ainda que tinha mentido sobre este sentimento pelo padre. Não gostava dele, mas sentia prazer em atormentá-lo. Maria Mutema foi presa. Logo depois, profundamente arrependida, ela mesma suplicava por castigo. Passados alguns dias o povo, a Maria do Padre e os meninos da Maria do Padre, todos, perdoaram Maria Mutema e chegaram mesmo a achar que ela “estava ficando santa” (GSV, p.174).
O soturno caso de Maria Mutema nos leva a interrogar e sugerir algumas respostas: seria realmente tão sem motivo o crime que ela praticara contra o marido? E por que deste gosto em atormentar o padre com uma paixão fictícia? Convenhamos que o Padre Ponte fazia uma ligação entre a piedade e os apelos da carne. O padre era um pai que relaxava, pecava. Talvez, Maria Mutema tenha despejado no ouvido do marido o peso de chumbo de uma vida a seu lado. Talvez não erremos ao afirmar que ela não gostava do homem. Depois, talvez sua intenção tenha sido a de soprar no ouvido do
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Fazemos este comentário a partir de nossa experiência, pois certa vez, chegou a nosso conhecimento a conduta de algumas pessoas que ofereceram um presente aos familiares pobres de uma adolescente anoréxica a fim de que estes a convencessem a realizar tratamento hospitalar. O presente sendo, ironicamente, uma geladeira!
padre o peso dos pecados deste, queimando-o até a morte. Talvez, as confissões de Maria Mutema possam ser entendidas como um desafio ao padre, ao pai. Talvez, para Maria Mutema, as coisas se misturassem: padre – ou seja, pai - e marido, todos pecadores, todos abomináveis por seus atos. Não sabemos ao certo. Esta é apenas uma interpretação. Muitas outras podem se apresentar.
Contudo, as histórias de tantas mulheres que atravessaram a vida de Riobaldo – assim como as histórias de tantas mulheres relatadas por Freud em seus estudos de caso, alguns dos quais fizemos referência anteriormente41 - nos servem para apreciar o entrelaçamento das questões sobre a santa, a puta, as lésbicas, a anoréxica e a perversa, com as questões sobre o pai.
Acreditamos que estes questionamentos inauguraram-se para Riobaldo através de sua própria mãe, a Bigri. Segundo Bolle (2004), por este nome “repercute a estrutura consonantal de bugre, [...]. Parece que nas veias de Riobaldo corre certa dose de “sangue de gentio” (GSV, p.20), de “raça de bugre” (GSV, p.20), raça considerada pelos europeus como sodomita. Além disto, ela, a Bigri, era devota do “Santo Senhor Bom-Jesus da Lapa” (GSV, p. 80), ela era “por [Riobaldo]” (GSV, p. 86). Ela era, também, uma amásia pobre de Selorico Mendes, fazendeiro “rico e somítico” (GSV, p.87), homem “muito medroso. [...] tinha sido valente, se gabava, goga” (GSV, p.88). Este era o pai de Riobaldo, um pai cheio de faltas, um pai sem glórias.
Além deste, Riobaldo conheceu outros pais na travessia do Grande Sertão. Já sabemos da profusão de referências a chefes valorosos e ao chefe maior - o glorioso Joca Ramiro. Sabemos ainda da inquietação de Riobaldo em relação ao pai supremo, ao demo e ao Deus Pai.
Sendo assim, suas perquirições dirigidas a tantas mulheres santas e putas; aos chefes jagunços; à existência, ou não, do Diabo; e aos procedimentos de Deus, nos levam a crer que Riobaldo buscava aprofundar seu conhecimento, buscava certa mestria. Inclusive tivemos oportunidade de vê-lo prestar-se ao serviço de ensinar quando foi convocado a ocupar a posição de professor de um de seus futuros mestres, Zé Bebêlo. Contudo – parece-nos - a mestria de Riobaldo foi uma mestria advertida,
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Concordamos plenamente com a indicação dada pela Profª Drª Nadiá Paulo Ferreira durante o Exame Geral de Conhecimento - realizado em 22 de setembro de 2006 -, de que a “articulação entre as mulheres de Freud (Dora, Sra. K, a Jovem homossexual, a paranóica crônica, Emmy von N.) e as mulheres do Grande Sertão dariam panos para manga”. Na verdade, tivemos mesmo a intenção de sinalizar esta possibilidade. No entanto, considerando a extensão desta pesquisa, vimo-nos na contingência de adiar tal percurso.
pois ele sabia que “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende” (GSV, p.235).
Foi a partir disto que ele insistiu – na forma do querer e requerer - em compor uma trajetória, um traçado capaz de dar a ver a diferença entre conhecer e saber. Fez um apanhado de seu conhecimento sobre outros e concluiu que este lhe propiciava um não-saber sobre si mesmo:
Medeiro Vaz reinou, depois [...] morreu em pedra. [...] Zé Bebelo me alumiou. [...] Joca Ramiro, tão diverso e reinante, era como se já estivesse constando falecido. [...] Sô Candelário se desesperou por forma. Meu coração é que entende, ajuda minha idéia a requerer e traçar. Ao que Joca Ramiro pousou que se desfez, enterrado no meio dos carnaùbais, em chão arenoso salgado. [...]. Diadorim me veio, de meu não-saber e querer (GSV, p.235-236).
Portanto, de um pai desfeito, morto e enterrado, de um querer sem saber, ou melhor, de um não-saber que ainda assim insiste em querer, lhe veio Diadorim.
E Diadorim, o que queria?
Feita esta indagação, consideramos que, enfim, nos aproximamos do cruzamento entre os caminhos do pai com as veredas para a feminilidade de uma filha.
IV
UMA MULHER
4. 1 Introdução
Deixamos explícita nossa hipótese de que no Grande Sertão as questões sobre a feminilidade de uma filha giram em torno da questão sobre a função do pai. Cabe-nos agora verificá-la.
Neste intento, julgamos necessário relembrar que partimos da idéia de que a problemática sobre o pai compõe o centro do redemoinho narrativo. Exerce, portanto, uma força centrípeta capaz de atrair, para o ponto central do romance, - qual seja o relato do assassinato do pai - quase todas as outras interrogações feitas pelo narrador. Evidentemente, dentre estas, prepondera nosso interesse pelas interrogações sobre o instigante Diadorim.
Tomamos como apoio a esta nossa decisão de retornar aos eventos centrais do romance o fato de aí nos ser revelado o parentesco existente entre Diadorim e Joca Ramiro. É também a partir deste ponto que o destino de Diadorim se mostra expressamente vinculado ao encargo de vingar o assassinato daquele. Assim, para resumir, consideramos que nossa tarefa, neste capítulo, consiste exatamente em verificar as seguintes possibilidades:
Ou Diadorim levou às últimas conseqüências a obrigação de vingar a morte de Joca Ramiro e com isso se manteve preso a este desígnio, por não conseguir superar os obstáculos que se interpuseram impedindo seu acesso a um destino que lhe fosse próprio; ou Diadorim conseguiu superar este desígnio de vingança e realizou uma travessia em conformidade com suas próprias determinações.
Sendo assim, no que diz respeito à primeira possibilidade, cabe-nos apenas averiguar de que maneira a morte de Joca Ramiro se constituiu como evento suficiente para impedir Diadorim de seguir a singularidade de seu desejo.
Já em relação à segunda suposição, teremos de verificar até que ponto se estendeu a relevância da morte de Joca Ramiro sobre a vida de Diadorim, além de termos ainda que apurar se algum outro evento contribuiu no sentido de favorecer sua caminhada rumo a um destino sui generis.
À primeira vista, estas duas possibilidades são mutuamente excludentes. Neste caso, para chegarmos ao ponto de exclusão de uma delas, precisaremos antes buscar um entendimento razoável sobre cada uma. Por isso, procuraremos identificar as precedências do vínculo construído entre Diadorim e Joca Ramiro.
Feito isto, é possível que nos surja um complicador inesperado: é possível que as hipóteses acima levantadas não sejam apenas excludentes. Devemos, então, contar com a possibilidade de elas serem, ao mesmo tempo, exclusivas e inclusivas.
Neste caso, e por considerar de antemão que esta possibilidade deve ser apreciada com cuidado, refazemos agora mesmo nossa formulação: Será que a relação entre Joca Ramiro e Diadorim excluiu - até certo ponto - a possibilidade de este último escolher as veredas que desejaria percorrer de tal forma que - a partir deste mesmo ponto - tenha sido justamente esta relação que incluiu, ou seja, que implicou na escolha singular de Diadorim?
Voltemos então ao momento retentivo em que foi anunciado: - “Mataram Joca Ramiro!...” (GSV, p.224). Este momento, sendo o do referido fundo da questão, foi aquele em que “[a]í estralasse tudo” (GSV, p.224) e no qual, pelo meio, se ouviu o “uivo dôido de Diadorim” (GSV, p.224).
4. 2 “um feio dia”
Quando tudo estralou com a notícia do assassinato de Joca Ramiro,