3. Factors mediambientals
3.3. Clima
Autor: GENARO, F., jan. 2016.
O período do “giro” da Folia de Reis transcorre nos seis dias que antecedem à Festa. Os foliões colocam no roteiro todas as propriedades rurais do Barreiro onde residem famílias católicas. Na cidade, a visita da Bandeira só acontece quando é requisitada por uma família.
Atolamos a perua várias vezes, empurramo, pra chegar em todas as casas daqui do Barreiro, na zona rural vai em todas as casas de gente católica, agora quando vamos na cidade, tem que chamar. (folião da Folia de Reis do Barreiro, janeiro de 2016).
O grupo é composto por um capitão acompanhado de doze foliões. Durante a visita nas casas eles cantam pedindo a “esmola”, uma ajuda em forma de dinheiro ou alimento. E também cantam pedindo a bênção e a proteção dos Santos Reis para a família visitada. O “giro” é carregado de um valor simbólico típico do modo de vida camponês, onde há o retorno das relações de troca e a construção de uma identidade comunitária.
Ao construir o espaço simbólico da jornada dos Reis, a Folia transporta para dentro dele, com nomes e proclamações de bênçãos: as pessoas, os animais, os objetos e as trocas do próprio mundo camponês. [...] Na medida em que realizam a jornada e cantam de casa em casa, eles reconstituem tanto esta história, quanto os gestos e as palavras de suas pequenas estórias, tal como acreditam que tenham acontecido e tal como supõem que reproduzem, com uma fidelidade que se perde aos poucos, mas que ainda é legítima, sem dúvida alguma. (BRANDÂO, 1981, p.40-41).
A gente da roça segue uma tradição de segurar uma cultura, as coisas da natureza, muita gente abandona, mas a gente segura. A folia de Santos Reis é cultura, tem que ser preservada, ela é raiz. Eu considero nossa folia como Jesus com os apóstolos. (folião do barreiro – depoimento 16/01/2016).
Entre os componentes do grupo de foliões do Barreiro, apenas quatro ainda residem na comunidade, cinco deles residem na cidade de Iraí de Minas e o restante em Uberlândia. Todos eles têm sua origem na comunidade do Barreiro, para eles o período da Folia representa um retorno às suas tradições, eles arcam com as despesas de translado, alugando carros para fazer o giro. O dinheiro arrecadado com a “esmola” recebida nas visitas está sendo guardado por eles para a construção de um galpão comunitário destinado para o preparo das refeições, para que não seja mais necessário utilizar os barracos improvisados.
Não cobramos nada, cantamos com prazer, pra Deus, folião nenhum pede, o dinheiro é da comunidade, se alguém daqui precisar a gente tira o dinheiro e doa, mas por enquanto é pra construir o barracão. Todo trabalho é uma fé, é um trabalho pra Deus, ninguém cobra nada. Mas é sofrido, tudo é difícil, mas é de onde sai a nossa salvação, fazendo o bem. (folião do
barreiro – depoimento 16/01/2016).
É no ultimo dia de giro que acontece a festa. Antes da “janta” o grupo de foliões reúne-se na igreja para fazer a Entrega da Bandeira. Neste momento eles cantam sobre o nascimento de Jesus e fazem a entrega da Bandeira para os festeiros. Após a entrega há a reza do terço, seguida da troca das coroas, quando os festeiros passam a coroa para os casais que serão festeiros no próximo ano. Após a cerimônia religiosa a festa inicia-se com o jantar, que é gratuito e servido do lado de fora da igreja. Servem a comida típica característica do mundo camponês: o macarrão com frango, arroz, carne de porco e de boi.
A comunidade, ao longo dos anos buscou estratégias para manter a tradição da Festa da Folia de Santos Reis. De acordo com a ministra da palavra, já houve festas com mais de três mil pessoas. Para garantir que sempre haja comida suficiente para todas as pessoas, a comunidade criou um método de “empréstimo da comida”. Todo ano, devido à grande quantidade de doações, sobram muitos alimentos. Assim, se existir alguma família da
comunidade passando necessidade, parte dos alimentos são doados e o restante é dividido entre as demais pessoas da comunidade. Aqueles que recebem a comida tem o compromisso de doar a mesma quantidade recebida na próxima Festa.
O festeiro arca as despesas, a responsabilidade da comida, os enfeites, ele assume a parte financeira da folia, ele é o patrão da folia, só que todo mundo participa, mas ele é o chefe. Esse donativo que nóis pede, vai tudo pro barracão. Hoje o festeiro quase não precisa de doar dinheiro, todo mundo ajuda.
Nóis tira esmola em dinheiro, nóis tira esmola em frango, nóis tira esmola em leitoa, ou bezerro, as mercadorias que não usa a gente leiloa pra juntar na renda do barracão. (folião da Folia de Reis do Barreiro, janeiro de 2016).
Este sistema de troca, doação e o de retorno de doações, ou seja, o método de “empréstimo da comida”, revela traços de campesinidade que permeiam os valores e as éticas vividas pelas comunidades camponesas mais tradicionais. Entre um grupo de vizinhança as relações estabelecidas no cotidiano de vida e trabalho tornam-se a base da vida, que então é reproduzida nos momentos rituais. Assim como afirma Wanderley (2000) quando caracteriza o meio rural como um “singular espaço de vida”.
[...] socialmente construído pelos seus habitantes, em função das relações fundadas nos laços de parentesco e de vizinhança, e isso, tanto ao nível da vida cotidiana, quanto do ritmo dos acontecimentos que determinam os ciclos da vida familiar, tais como, nascimentos, casamentos e mortes e, ainda, no que se refere ao calendário das manifestações de ordem cultural e religiosa. [...] cuja reprodução é necessária para dinamização técnico-econômica, ambiental e social do meio rural, ao mesmo tempo em que são portadoras de um sentimento de pertencimento a este espaço de vida. (WANDERLEY, 2000, p. 29).
Desta forma, é possível compreender a importância das festas religiosas para as comunidades do setor do Barreiro, pois entre os lugares pesquisados são facilmente identificáveis as características de campesinidade. Contudo estas características ficam muito mais evidentes durante a preparação e realização de festas como a da Folia de Reis. Ao analisar mais detalhadamente alguns momentos da Festa (Quadro 6), que vão desde sua preparação até a confraternização final, ficam evidentes os traços de campesinidade que são resgatados e ao mesmo tempo reafirmam uma identidade camponesa.
QUADRO 6 – Características de reprodução dos modos de vida a partir da Festa da Folia de Reis de São José do Barreiro em janeiro de 2016
Imagens Reprodução do ritual Reprodução social Barracão improvisado em quintal para o
preparo da janta
Reúnem-se e se organizam para preparar o jantar da Festa, utilizando alimentos doados pela comunidade e barracão improvisado em quintal de uma das residências.
Reafirmam laços de reciprocidade doando tempo, trabalho e demais materiais necessários.
Chegada da Folia a uma residência do Barreirinho
Ao receber em suas casas a Folia de Reis, reconhecem e são reconhecidos como devotos. Estabelecem o vínculo comunitário reafirmando relações de vizinhança e pertencimento A “reza” da Folia A devoção e a fé em Santos Reis é formalizada pela “reza da Folia” dentro da residência – a casa e a família se tornam abençoados. A partir de uma devoção partilhada, reproduzem os laços de amizade e de reconhecimento dentro da comunidade.
Arcos em frente à igreja
Uma manifestação da religiosidade popular que se insere em espaços sagrados institucionalizados
legitimando a devoção por Santos Reis Promove a legitimação de um ethos e de uma ética campesina em relação com instituições oficiais.
Chegada da Folia à igreja
Estabelece uma relação direta entre os devotos, a Folia e a igreja oficial.
Fortalece os laços de amizade dentro da comunidade, legitimados por uma devoção aceita e respeitada.
Folia na igreja com os festeiros
Recria, numa dimensão ritual, os laços de devoção e responsabilidade pela Festa atual e do ano seguinte.
Recria, numa dimensão social, os laços de reciprocidade e solidariedade dentro da comunidade.
Jantar servido no final da Festa
Estabelece as relações entre o sagrado e profano, em que a confraternização final configura-se na partilha do resultado de tudo que foi doado para a Festa como obrigação devocional.
Revive e reproduz uma identidade campesina pautada pela trocas de bens e serviços.
Fonte: pesquisa de campo. Autoria das fotos e org.: GENARO, F., jan. 2016.
Neste sentido, é possível identificar que as estratégias de reprodução social dos agricultores do setor do Barreiro permeia uma construção de valores que assume distintas graduações em seus modos de vida, de acordo com as interações que fazem com os valores impostos pela modernização. Afinal, estes agricultores não são obtusos, não ficam presos a uma tradição arcaica observando o tempo passar. Eles se adaptam, buscam se manter na terra enfrentando as condições impostas e resgatam seus valores camponeses para encontrar formas de garantir a manutenção do núcleo familiar e de seu patrimônio.
[...] os camponeses não se dissolvem, nem se diferenciam em empresários capitalistas e trabalhadores assalariados, e tampouco são simplesmente pauperizados. Eles persistem, ao mesmo tempo em que se transformam e se vinculam gradualmente à economia capitalista circundante, que pervade suas vidas. Os camponeses continuam a existir, correspondendo a unidades agrícolas diferentes em estrutura e tamanho, do clássico estabelecimento rural familiar camponês (...) Os camponeses são marginalizados, a importância da agricultura camponesa dentro da economia nacional diminui, o crescimento mais lento de sua produção torna-se atrasada. (SHANIN, 2005:09)
Manter o equilíbrio entre os elementos terra, família e trabalho é o que proporciona a estes agricultores reafirmar suas identidades. Seus valores tradicionais servem de fio condutor para a elaboração de novas estratégias de reprodução social. É, por assim dizer, o motivo destes agricultores permanecerem em suas propriedades nas vertentes, mesmo que a renda seja pouca, mesmo que grande parte da família esteja na cidade, é na roça onde eles têm suas raízes.
Na Folia de Reis, o resgate de suas tradições passadas por gerações reafirma a identidade camponesa do povo das vertentes. Ela simboliza que, apesar das grandes mudanças advindas da modernização, ainda é possível estabelecer relações sociais pautadas na generosidade, na solidariedade e na reciprocidade.
Portanto, para além das estratégias adotadas por estas famílias para permanecerem no campo, se faz importante entender o porquê de se permanecer. Eles permanecem porque é nesta terra que se expressam todos os seus valores, suas crenças e seus costumes, é nesta terra que cresceram, criaram seus filhos e recebem seus netos. É neste sentido uma terra vivida e não uma mercadoria.
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