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Identidade

Se o preto de alma branca pra você É o exemplo da dignidade Não nos ajuda, só nos faz sofrer Nem resgata nossa identidade Elevador é quase um templo Exemplo pra minar teu sono Sai desse compromisso Não vai no de serviço Se o social tem dono, não vai... Quem cede a vez não quer vitória Somos herança da memória Temos a cor da noite Filhos de todo açoite Fato real de nossa história. (Jorge Aragão)

Há no Brasil uma série de ditos pejorativos referentes aos negros, nenhum deles é tão pernicioso quanto àquele que refere o preto de alma branca. A expressão preto de alma branca consegue, como nenhum outro, apontar o não-lugar dispensado ao negro, dentro da sociedade brasileira. Ela desnuda o último grau do preconceito – se é que não é também um absurdo falar de graus –, pois ultrapassa a reação à cor da pele. Preto de alma branca fala de uma recusa da cultura, do ethos, da índole. Fala do repúdio a comportamentos – o preto de alma branca age em desacordo com as propensões atávicas, ele se purifica à medida que nega a própria herança, ele se torna aceito.

A idéia de uma alma branca pode ser vista como uma das alternativas da práxis da ideologia do branqueamento148: na impossibilidade de tornar nulos os traços físicos do contingente negro, empreende-se a tentativa de substituir seus traços culturais – sua alma. Essa idéia, há de se entender, é fruto da sociedade brasileira e expõe um dos traços da exclusão de que o negro é objeto: a negação de sua contribuição para a conformação social, econômica e cultural do

148 Destacamos dois trabalhos sobre este aspecto: o primeiro trata do branqueamento e branquitude de Maria Aparecido

Silva Bento (2002) e aborda as dimensões do que podemos nomear como branquitude – traços de identidade racial do branco brasileiro, a partir das idéias sobre branqueamento; e o segundo, anuncia um quadro resumido das relações raciais no Brasil, marcadas por um contínuo processo de miscigenação, diferenciado: histórica, social e regionalmente, pelas institucionais e pessoais de embranquecimento Edith Piza (2000).

Brasil.

Neste capítulo é nossa intenção evidenciar os desdobramentos dessa exclusão nos alunos negros do I.E.E.P. Perseguindo a trajetória de vida de dez daqueles alunos, pretendemos demonstrar que o Instituto, ao desconsiderar a questão racial como discussão relevante para a formação do professor, aprofundou a condição de exclusão a que foram relegados aqueles alunos. O Instituto reproduziu os estereótipos e os preconceitos existentes na sociedade brasileira, em relação aos negros. Mas o Instituto, vale dizer, não existe fora das formulações de seus alunos e professores, de forma que, quando afirmamos que ele refletiu a sociedade que o mantinha, queremos dizer que seus professores e alunos – negros ou não – incorporaram – ativa ou passivamente – as concepções que relegavam o negro a uma condição subalterna.

Assim, as trajetórias dos alunos serão entendidas como instâncias inscritas em uma sociedade tangenciada por uma cultura dominante, a qual institui a discriminação como uma de suas facetas – uma discriminação, entenda-se, velada: ela segrega sem separar. Tais trajetórias reproduzem, portanto, o preconceito presente naquela cultura dominante, incorporando-o na prática social e, no caso que nos interessa aqui, na prática profissional como professores. Tendo em vista o uso da mencionada categoria trajetória, consideramos legítimas as advertências de Bourdieu para os perigos subjacentes às tentativas de transpor as noções do senso comum, como histórias de vida ou biografias, para a esfera acadêmica, sem uma cautelosa reflexão. Adotar a vida como um caminho, um trajeto como um curso é dotá-la de um sentido que comporta etapas que têm um começo e um fim, numa sucessão de eventos que apresentam significados unilineares ou unidirecionais. O autor defende, portanto, que se deve dotar certos acontecimentos de significados, estabelecendo entre eles conexões capazes de dar-lhes coerência, o que deve ser uma tarefa aceita pelos profissionais da interpretação como sendo uma criação artificial de sentido (BOURDIEU, 1987a).

A sociologia de Bourdieu está marcada principalmente pela busca de superação de um dilema clássico do pensamento sociológico, aquele que se define pela oposição entre subjetivismo e objetivismo (BOURDIEU, 1998). Bourdieu ressalta

a fragilidade e as armadilhas das abordagens que se restringem a uma análise individual e imediata do sujeito, aquelas que se limitam prioritariamente ao universo das representações, preferências, escolhas e ações individuais. Para ele, essas abordagens são subjetivistas e acentuam a insuficiência, pelo fato de não considerarem as condições objetivas que explicam o percurso das experiências também objetivas, mas principalmente por atribuírem uma pseudo-autonomia ao agente diante dos múltiplos condicionantes nos quais esse agente está envolvido. Assim, as relações de poder de violência encontram-se além da material, e espraiam se para o plano simbólico. Nesse sentido, são imposições de valores engendradas socialmente e tidas como legítimas. Essas imposições estão organizadas por meio de sistemas simbólicos149, refletidos, entre outros, na mídia, na política, nas doutrinas religiosas, na prática esportiva e, inclusive, na educação escolar.

Desta maneira, devemos construir a noção de trajetória como uma série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou grupo) num espaço, no qual ele mesmo deve ser submetido a incessantes transformações (BOURDIEU, 1987a). O significado desses movimentos que levam de uma posição à outra, selecionada no tempo e no espaço, se define na relação objetiva entre o sentido e o valor atribuído, no momento considerado, a essas posições no curso de um espaço orientado. A assertiva de Bourdieu define que não se pode compreender uma trajetória – que é um envelhecimento social independente do envelhecimento biológico, ainda que, na maioria das vezes, um acompanhe o outro – desprovida da construção dos estados sucessivos do campo a partir do qual ela se desdobra. O trabalho docente, embora pautado numa dimensão objetiva do cotidiano, também se entrelaça numa rede de relações subjetivas tecidas no conjunto social ao qual se vincula, podendo compreendê-las como fruto dessa construção social. Atentos às advertências de Bourdieu (1987a), analisaremos as trajetórias do aluno do I.E.E.P.

As trajetórias que analisaremos, a seguir, são todas de alunos negros e pardos – assim autodeclarados150. Seus depoimentos serão percebidos por meio de

149 Conforme Bourdieu, (2000, p. 8) o poder simbólico, nem sempre se apresenta de forma evidente, “é necessário saber

descobri-lo onde ele se deixa menos ver, onde ele é mais completamente ignorado”. Para o autor, esse poder somente poder ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.

três enucleações: família, formação e questão racial. Com relação ao grupo familiar, nossa intenção é perceber as origens familiares – sociais e culturais –, os valores que foram cultivados e as expectativas de vida – especialmente a profissional – que foram formulados no seio da família. Com relação à formação recebida no Instituto, nosso objetivo é perceber a compreensão que o aluno tem de sua trajetória como aluno do I.E.E.P. e a sua prática profissional como professor oriundo daquela instituição. Assim, perscrutaremos as concepções pedagógicas que foram trabalhadas na formação, os conteúdos que foram priorizados, a importância dispensada ao rigor acadêmico, disciplina, tradições institucionais e relações interpessoais. Estaremos atentos, ainda, à visão que formulam com relação à clientela do Instituto, os professores que os formaram e os currículos em vigor no momento de sua formação – o positivo e o negativo. Por fim, analisaremos a forma pela qual se dá a sua prática profissional, a partir do seu testemunho. No que tange à questão racial, estaremos atentos às formas de percepção da problemática racial em dois momentos distintos: no momento da formação e no da prática como professor.

Dos dez alunos entrevistados, nove continuaram os estudos em nível superior, na área de licenciatura: História, Letras e Pedagogia. Dos nove, dois continuaram os estudos em nível de especialização e um em nível de mestrado. Todos eram oriundos de famílias de trabalhadores sem especialização e residentes nos bairros periféricos de Belém. Eram costureiras, doceiras, empregadas domésticas, feirantes, fiscais de ônibus e pequenos comerciantes. Os pais desses alunos tiveram vida escolar irregular: seis eram semi-alfabetizados, três cursaram parte do que hoje equivale ao Ensino Fundamental e um o completou. Todos iniciaram sua vida profissional muito cedo, como professores – tanto em função da oferta de trabalho, resultado da escassez de professores a que já nos reportamos, como em decorrência de sua condição socioeconômica.

de cor ou raça da população deveriam, para melhor clareza e objetividade, ser construídas a partir da atribuição de categorias construídas pelo investigador mais “treinado”, ao invés da autoclassificação, como tem sido nas últimas décadas. No nosso caso, não adotaremos as sugestões de Silva, trabalhamos com a autodeclaração, tal qual as pesquisas oficiais do IBGE. Fizemos com relação aos alunos, e em relação às professoras entrevistadas para este trabalho.