O conatus é o conceito mais significativo da teoria dos movimentos proposta por Hobbes, com reflexos em sua filosofia moral e política. Ele aparece como um termo fundamental na física e segue caracterizando os poderes motor, cognitivo, imaginativo e conceptivo humanos, marcando presença no primeiro discurso dos
108 “That when a thing lies still, unlesse somewhat els stirre it, it will lye still for ever [...]. When a thing is in motion, it will eternally be in motion, unless somewhat els stay.” (L, 1, II, p. 15).
109 “[…] out of an appetite to rest, and to conserve their nature in that place which is most proper for them.” (L, 1, II, p.15).
Elementos do Direito Natural e Político, em toda a primeira parte do Leviatã e em partes significativas do De Corpore, do De Homine e do De Cive.
Apesar de não ter apresentado pontualmente a distinção entre os aspectos físico e humano do conceito de conatus, Hobbes o sugere em duas acepções: o conatus físico, dos corpos físicos ou naturais, e o conatus comportamental, dos corpos humanos. Não obstante às diferenças em relação aos corpos sobre os quais atua, o conatus físico é a base de explicação do conatus do comportamento humano: da sensibilidade, afetividade, condição motora e da fisio-psicologia dos corpos animados e racionais.
A dificuldade para a adequação entre as duas espécies de conatus está em que o conatus físico se desenvolve dentro de corpos que permitem cálculos quantitativos e exprimíveis matematicamente; já o conatus do comportamento atua sobre corpos humanos que apresentam complexas características qualitativas em seus movimentos. O grau de complexidade em relação aos cálculos da potência humana aumenta na medida em que seus movimentos não se restringem a uma esfera física. Os seres humanos desejam não somente a conservação, no sentido físico, mas bens, prazeres e segurança em relação ao futuro, o que ultrapassa sua condição meramente física e levanta o problema da relação entre o mundo físico e o mundo ético-político. Desse ponto de vista, pode-se dizer que a passagem da mecânica hobbesiana para a fisiologia dos movimentos e, desta, para a psicologia,
não responde ao problema político de maneira integral. O mecanismo passional humano parece ultrapassar o fisicalismo e a necessidade incondicional do governo absoluto.
De qualquer forma, a idéia de um conatus do comportamento oferece subsídios para a compreensão da fisio-psicologia humana apresentada por Hobbes, que marca a forte presença da ciência em sua visão de homem. Nessa linha, ele segue afirmando o que se pode denominar de conatus do comportamento, que se exprime pela junção dos movimentos vital e animal e envolve as capacidades motora, afetiva e perceptiva humanas. A junção dos vários movimentos advindos dessas capacidades possibilita a existência de movimentos internos concomitantes e em direções diversas, de atrações e repulsas, desejos e aversões, discórdia e concórdia, prazer, dor e entrechoques, numa demonstração de que a existência humana pode ser representada por perpétuos movimentos conflitantes. Sobre a incidência do conatus na fisio-psicologia humana, Hobbes escreve no Leviatã:
Estes pequenos inícios do movimento, no interior do corpo do homem, antes de se manifestarem no andar, na fala, na luta e em outras ações visíveis chamam-se geralmente ESFORÇO.
Este esforço, quando vai na direção de algo que o causa, chama-se APETITE ou DESEJO, [...]. Quando o esforço vai na direção
contrária de alguma coisa, chama-se geralmente AVERSÃO”.110 (1,
VI, p. 47, grifo do autor).
A presença do conatus nesses mesmos termos já havia sido assinalada por Hobbes nos Elementos do Direito Natural e Político, onde ele declara haver nos homens
uma solicitação ou provocação, quer no sentido de se aproximar do objeto que agrada, quer afastando-se da coisa que desagrada. Essa solicitação é o endeavour ou início interno do movimento animal que quando o objeto agrada, é chamado apetite, e quando desagrada, se
chama aversão.111 (I, p. 50).
Nesse esforço, encontra-se a base das ações humanas e a explicação da relação de causalidade e necessidade dos seus eventos internos e externos. O conatus não pode, no entanto, ser entendido como uma inclinação ou um apetite para se mover, mas como um movimento local sempre atual, que internamente pode se desenvolver em duas direções: atração/desejo ou aversão/repulsa e carrega consigo a possibilidade dos movimentos vital e animal, sendo a imaginação o ponto que distingue esses dois movimentos. Esta permite a articulação entre ambos, pois fisiologicamente os movimentos animais já levam consigo alguma parte dos sentimentos de prazer e desprazer e, portanto, um certo conteúdo da imaginação.
O movimento vital não é, para Hobbes, nada mais do que um espírito vital que movimenta internamente as partes das quais se compõe o organismo humano. Ele representa “o movimento do sangue perpetuamente circulando (conforme foi mostrado por vários signos e marcas infalíveis pelo Dr. Harvey, o primeiro a observá- lo) nas veias e artérias.”112 (DCo, 4, XXXV, p. 407, tradução nossa). Esse movimento se desenvolve do coração em direção ao sangue, artérias, veias e nervos até chegar
110 “These small beginnings of Motion, within the body of Man, before they appear in walking, speaking, striking, and other visible actions, are commonly called ENDEAVOUR.
This Endeavour, when it is toward something which causes it, is called APPETITE, or DESIRE […]. And when the Endeavour is fromward something it is generally called AVERSION.” (L, 1, VI, p. 38, grifo do autor)
111 “[…] a solicitation or provocation either to draw near to the thing that pleaseth, or to retire from the thing that displeaseth. And this solicitation is the endeavour or internal beginning of animal motion, which when the object delighteth, is called APPETITE; when it displeaseth, it is called AVERSION, […].” (EL, I, p. 28, grifo do autor).
112 “[…] the motion of the blood, perpetually circulating (as hath been shown from many infallible signs and marks by Doctor Harvey, the first observer of it) in the veins and arteries. objects, may be restored again either by bending or setting strait the parts of the body […].” (DCo, EW, 4, XXV, p. 407).
ao cérebro. Esse tipo de movimento é involuntário e não depende da imaginação ou dos sentidos. Como característica essencial do organismo humano, inicia-se na geração e continua ininterruptamente enquanto o corpo viver, como uma espécie de sistema inercial com vida própria, que leva o sangue ao corpo inteiro e sustenta todos os movimentos involuntários humanos.
Sobre a fisiologia e o reconhecimento das engrenagens e articulações internas aos corpos, François Jaboc observa:
As fibras, diz Harvey, ‘amarram o coração como os cordames de um navio’; as válvulas tricúspides velam na entrada dos ventrículos ‘como guardiões diante das portas’; os ventrículos ‘expulsam um sangue já em movimento, como um jogador pode, saltando e batendo na bola, enviá-la com mais força e mais longe que se a atirasse simplesmente’. Diz-se freqüentemente que, fazendo analogia do coração com uma bomba e da circulação com um sistema hidráulico Harvey contribuiu para a instalação do mecanismo no mundo vivo. Mas, ao se dizer isto, inverte-se a ordem dos fatores. Na realidade, é porque o coração funciona como uma bamba que se torna acessível ao estudo. É porque a circulação é analisada em termos de volumes, de fluxo, de rapidez, que Harvey pode fazer com o sangue experiências semelhantes às que Galileu fez com as pedras. (1983, p. 41).
Em complementação à corrente de movimentos fisiológicos internos aos corpos humanos, Hobbes acrescenta o movimento animal, que depende da imaginação e se apresenta como o início interno de todo movimento escolhido pelo homem. Ele se refere aos primeiros movimentos voluntários produzidos no corpo por ação e reação mútua, isto é, por conatus opostos, como é o caso dos sentimentos de atração e repulsa. Nele se incluem os sentidos humanos e todas as suas potencialidades, bem como os desejos e paixões. O movimento animal é considerado por Hobbes como
O primeiro esforço encontrado mesmo no embrião; quando estiver no ventre, movendo seus membros com movimento voluntário, para evitar o que quer que o perturbe, ou para perseguir o que o dê prazer. E este primeiro esforço, quando tende para coisas como as conhecidas pela experiência por ser agradável, é chamado apetite, isto é, uma aproximação; e quando evita o que é incômodo, é
designado aversão ou afastamento.113 (DCo, 4, XXV, p. 407,
tradução nossa).
113“[…] the very first endeavour, and found even in the embryo; which while it is in the womb, moveth its limbs with voluntary motion, for the avoiding of whatsoever troubleth it, or for the pursuing of what pleaseth it. And this first endeavour, when it tends towards such things as are known by experience to be pleasant, is called appetite, that is, an approaching; and when it shuns what is troublesome, aversion, or flying from it.” (DCo, EW, 4, XXV, p. 407).
Conforme explicita a citação acima, o movimento animal é o grande primeiro conatus que move as partes voluntariamente, evitando aquilo que provoca dor e perseguindo o que causa prazer. Na análise da natureza humana apresentada nos Elementos do Direito Natural e Político, Hobbes aproxima o movimento animal do poder motor do espírito que tem a incumbência de possibilitar todo tipo de movimento animal, como as paixões e aflições, no corpo em que ele habita.114 O movimento animal é de tal forma organizado que aumenta à medida que nossa experiência aumenta. Isso quer dizer que, ao nascermos, pela falta de experiência em relação às coisas, impera em nós uma menor quantidade de movimento animal que cresce em conformidade com o desenvolvimento dos apetites e aversões.
No fisicalismo hobbesiano, os sentimentos de prazer e dor representam a chave para as escolhas dos seres humanos, que se aproximam e elegem como bom tudo aquilo que dá prazer e se afastam, elegendo, como ruim, tudo que provoca dor. Os indivíduos deliberam e escolhem em conformidade com esses apetites e jamais podem deixar de senti-los. Entende-se, com isso, que os perpétuos movimentos internos apontam para uma liberdade presa às necessidades desses movimentos que cessam apenas com a morte. Nesse nível, Hobbes coaduna liberdade com necessidade, e entende que a deliberação inclinada ao apetite faz nascer a esperança e, quando voltada para a aversão, germina o medo.
A arquitetônica dos movimentos humanos delineada pelo filósofo inglês, numa analogia com o conatus físico, pressupõe que: 1º.) se alguém em movimento, em prol da guerra ou da paz, tocar alguém em repouso, aquele que está em repouso se moverá necessariamente para se defender ou para consentir com o movimento do outro; 2º.) os movimentos da pessoa movida tenderão a ter a mesma velocidade do movente; 3º.) se a pessoa que se moveu primeiro cessar o seu movimento (de guerra ou de paz) não será necessário que aquele que foi movido pare de se mover, pois, pelo princípio da inércia, o movimento desse corpo será retido apenas se sofrer interferência em sentido contrário.
Na passagem do conatus físico para o comportamental, as leis positivas nascem como determinações ou movimentos externos com a finalidade de barrar os movimentos humanos desencadeadores da guerra. Os diferentes corpos em
114 “O poder do espírito que se chama motor difere do poder motor do corpo; de facto, o poder motor do corpo é o poder pelo qual ele move outros corpos: é o que se chama força; mas o poder motor do espírito é o poder pelo qual o espírito dá movimento animal a esse corpo que ele habita; os actos desse poder são as nossas aflições e as nossas paixões, [...].” (EL, I, p. 47).
movimentos, com seus diversos conatus, pedem a aplicação de uma ordem externa que possibilite a adaptação a sentimentos variados de prazer e dor, atração e aversão de maneira a evitar a guerra.
Enfim, com base no conceito de conatus, Hobbes rejeita todo tipo de explicação ontológica em relação aos movimentos dos corpos físicos e humanos. No nível das ações voluntárias e involuntárias, o conatus segue direcionando o agir humano rumo a bens futuros. Nessa marcha, o Estado pode se deparar com a impossibilidade de resolver todos os problemas advindos do conatus comportamental, pois os corpos humanos, em seus desejos, paixões e afecções, representam um agregado de matérias extremamente complexo, que podem não suportar todas as determinações de um governo absoluto.