Em sua amplitude, a revolução científica operada pela modernidade caracteriza-se por uma forte transformação intelectual, espiritual e filosófica do homem, que, a partir de então, preocupar-se-á não mais em contemplar a natureza, mas em dominá-la sob uma configuração matemática e compreendê-la no mecanismo que a regulamenta por meio de um método. A partir daí, quando se fala à natureza, as respostas são recebidas numa linguagem puramente matemática. É dissolvido o axioma de um cosmo finito e qualitativamente ordenado e instituído pela geometrização e pela matematização dos corpos.
O método, o grande instrumento do pensamento, busca o conhecimento seguro e chancela o estatuto do saber não pelo simples conhecimento empírico do fato, mas pelo conhecimento causal dos procedimentos científicos, isto é, pela junção dos conceitos em asserções e conclusões necessárias. Pelo método, Hobbes diz que
aquelas coisas que jazem em confusão devem ser separadas, distinguidas e postas em ordem após receberem cada qual seu próprio nome; vale dizer, vosso método deve assemelhar-se ao da criação. A ordem da criação foi: luz, distinção entre dia e noite, o
firmamento, as luminárias celestes, as criaturas sensíveis, o homem;
(...)”82 (DCo, Epístola do autor ao leitor, p. 5, grifo do autor).
O método dedutivo é preferido por Hobbes aos procedimentos indutivos da experiência e da história, dado que comporta as categorias lógicas e as abstrações matemáticas que a indução não pode abarcar, permitindo a aplicação da matemática à física e tornando esta demonstrável aprioristicamente. Tal modelo é reconhecido como o único capaz de dar conta das leis do movimento e das relações de
82 “[…] those things that lie in confusion must be set asunder, distinguished, and every one stamped with its own name set in order; that is to say, your method must resemble that of the creation. The order the creation was, light, distinction of day and night, the firmament, the luminaries, sensible creatures, man […].” (DCo, EW, The author’s epistle dedicatory, p. 3, grifo do autor).
causalidade operadas por ele. Nesse sentido, o conhecimento produzido pela geometria coincide com aquele presente nas próprias leis do entendimento humano. Sua origem encontra-se marcada pelo poder de criatividade e conhecimento dos indivíduos. Essas características permitem ao homem cunhar um universo de artifícios em volta dos fenômenos, propondo-lhes nomes, articulando-os, somando- os e subtraindo-os a fim de alcançar um domínio mínimo do mundo à sua volta.
Galileu foi, para Hobbes, um dos principais criadores do método científico. Sua orientação metodológica aponta para a aplicação da matemática aos domínios da nova física, podendo ser estendida aos terrenos da filosofia natural e civil. Faz parte do método o reconhecimento da regularidade matemática dos fenômenos, dos eventos mecânicos e da constituição física dos corpos a partir de entidades geométricas como figura, movimento, quantidade e todos os seus acidentes.
Partindo dessa compreensão, o pensador inglês defende a tese de que em filosofia todos os eventos dos corpos naturais e políticos devem ser entendidos como movimentos de corpos materiais, que podem ser apreendidos pelo método, pois
o assunto da filosofia, ou a questão de que ela trata, é qualquer corpo do qual podemos conceber alguma geração e que podemos comparar; sob algum aspecto, com outros corpos, ou que é capaz de composição e resolução; isto é, qualquer corpo de cuja geração ou propriedades podemos ter algum conhecimento. E isso pode ser deduzido da definição de filosofia, cuja ocupação é investigar as propriedades dos corpos a partir de sua geração, ou sua geração a
partir de suas propriedades; [...]. 83 (DCo, I, I, p.13).
Se a filosofia é o conhecimento adquirido pelo raciocínio, via resolução (análise) e composição (síntese), então “o método é o caminho mais curto para descobrir os efeitos por suas causas conhecidas, ou as causas por seus efeitos conhecidos.”84 (Ibid., I, V, p.51, grifo do autor). Ele se configura como o modo de agir da filosofia e o elemento possibilitador que circunscreve seu raciocínio numa linguagem clara e objetiva, em busca das causas e efeitos. Pelo método, pode-se
83 “The subject of Philosophy, or the matter it treats of, is every body of which we can conceive any generation, and which we may, by any consideration thereof, compare with other bodies, or which is capable of composition and resolution: that is to say, every body of whose generation or properties we can have any knowledge. And this may be deduced from the definition of philosophy, whose profession it is to search out the properties of bodies from their generation, or their generation from their properties; and, therefore, where there is no generation or property, there is no philosophy.” (DCo, EW, I, p.13).
84 Method […] is the shortest way of finding out effects by their know causes, or of causes by their know effects.” (DCo, EW, I, p. 18, grifo do autor).
saber quais são as causas de um evento, em que sujeito estão essas causas, de que maneira e em que sujeito produzem seus efeitos. Por exemplo, pode-se afirmar que se o início de todo conhecimento são as idéias advindas dos sentidos e da imaginação, então, é tarefa do raciocínio filosófico saber por que essas idéias existem, de que causas procedem e que efeitos produzem.
O método se mescla com a linguagem, afirmando as definições e as proposições como o primeiro passo no percurso da filosofia. A esse passo sucede a análise e/ou a síntese. A análise propõe a decomposição ou resolução do fenômeno estudado em seus elementos constitutivos e assume que a proposição é verdadeira apenas se houver uma prova válida da qual ela é conclusão. Dessa forma, por divisão, o fenômeno decomposto vai ganhando definição e natureza, até que se chegue aos princípios ou categorias universais. Na outra vertente do método encontra-se a síntese, onde o fenômeno é estudado via composição e, por ele, traça-se o caminho inverso da análise, partindo das causas e chegando aos efeitos possíveis por adição.
Hobbes, como Galileu, combina em seu método elementos empiristas e racionalistas, afirmando que em filosofia, não há “nenhum método para descobrir as causas das coisas que não seja ou compositivo ou resolutivo, ou parcialmente compositivo e parcialmente resolutivo. E o resolutivo é comumente chamado o método analítico, assim como o compositivo é chamado sintético.”85 (DCo, I, V, p. 52, grifo do autor). Este procedimento metodológico alerta para dois percursos fundamentais das ciências demonstrativas, a saber: a investigação e a exposição numa demonstração de que os argumentos a posteriori e a priori devem coincidir entre si.
De sua parte, a análise busca os princípios universais e assinala os acidentes comuns aos corpos que, na ordem do conhecimento, vêm antes das coisas singulares. Na investigação desses princípios, a causa mais universal de todas as coisas é o movimento, pois a própria variedade das coisas que percebemos pelos sentidos − como formas, sabores, sons e cores − têm como causas o movimento, residente parcialmente nos objetos e parcialmente no sujeito.
85 “There is therefore no method, by which we find out the causes of things, but is either compositive or resolutive, or partly compositive, and partly resolutive. And the resolutive is commonly called analytical method, as the compositive is called synthetical.” (DCo, EW, I, p.19, grifo do autor).
Então, pelo raciocínio analítico é possível saber qual é o tipo de movimento que atua sobre os sentidos e sobre os objetos externos e, ainda, de que maneira eles levam às percepções. É possível definir em termos universais, por exemplo, que: o lugar é o espaço ocupado por um corpo; o movimento é a privação de um lugar e a aquisição de outro; a linha é produzida pelo movimento de um ponto; uma superfície é dada pelo movimento de uma linha; o movimento é ocasionado pelo movimento de outro movimento. Mas, para se ter acesso às propriedades específicas de cada definição ou de cada corpo, o método é o sintético, que junta e compõe o que as circunstâncias de um evento podem efetuar isoladamente, consistindo na demonstração que começa nas proposições primárias evidentes por si mesmas e procede, por somatória, das proposições em silogismos até que se faça compreender a conclusão. A causa completa de um evento une as duas partes do método.
Seguindo a própria divisão da filosofia, no conhecimento científico é necessário que as causas das coisas universais (figura, magnitude, proporção, quantidade, extensão etc.), isto é, os acidentes mais comuns aos corpos, sejam conhecidos antes das causas das coisas singulares. Assim, quando há dúvidas sobre em que sujeito reside um acidente ou sobre suas características universais, o método é analítico e procede indo da matéria em geral, por divisão, às partes que concordam individualmente com essa matéria. Já as características singulares de um evento, isto é, aqueles acidentes pelos quais uma coisa se distingue da outra, fazem parte da investigação pelo modelo da síntese. Por exemplo, as coisas que parecem ter dimensão, formato e propriedades diferentes daquelas que realmente possuem, podem ser redefinidas por hipótese causal pela via da síntese.
Em linhas gerais, o método representa para Hobbes uma tomada de consciência do indivíduo em relação à elaboração do seu próprio saber. O saber é artificial e sua criação é, também, poder. A submissão dos fenômenos ao método designa uma complexidade de noções que envolvem intuições, sentidos, racionalizações, percepções e observações. Esse processo une a perspectiva empirista às abstrações e racionalizações como fonte da pesquisa científica.
Os passos do método ligam-se ao funcionamento do mecanismo do conhecimento humano que se inicia nos sentidos, passa pelas faculdades do espírito e gera a imaginação, a memória e o raciocínio, chegando, assim, ao seu termo. Isso ocorre da seguinte maneira: as sensações geram as primeiras
concepções ligadas diretamente ao início interno dos movimentos nos corpos humanos; das concepções são dados nomes às coisas; depois de criadas as denominações, estas são reunidas em proposições de forma a serem concludentes. Por meio dessas operações, a conclusão torna-se evidente e pode-se dizer que se conhece a verdade da conclusão.
Nesse mecanismo, a ordem, a conexão, a articulação e a cadeia de pensamentos obrigam obediência à relação causa e efeito, antecedente e conseqüente de forma que o conhecimento possa ser submetido a apreciações pela análise e pela síntese. Todo raciocínio possível consiste na aplicação desses dois passos em conjunto ou separadamente. Por eles, pode-se ora dividir o objeto, ora compô-lo e isso possibilita o conhecimento das partes e do todo, das coisas particulares e universais. Os dois procedimentos são importantes visto que nas causas universais encontram-se os acidentes comuns a todos os corpos e nas causas singulares estão os acidentes particulares que permitem as distinções entre os corpos.
O caminho percorrido pela filosofia de Hobbes, tendo por base o método, mostra que independentemente da via escolhida, análise ou síntese, o conhecimento segue determinados padrões que fazem da filosofia natural e da filosofia civil ciências. Por exemplo, tendo como objeto de investigação o movimento, apenas por meio dos procedimentos metodológicos detectam-se os efeitos, as características e a velocidade que os movimentos de um corpo causam em outros corpos; que movimentos um segundo corpo gera em um terceiro; e, que efeitos e mudanças são produzidos pelos movimentos das partes no todo. Tudo isso leva à compreensão das qualidades e mudanças dos corpos na filosofia natural, que auxilia numa melhor leitura da filosofia civil.
Pelos procedimentos metodológicos, a razão torna-se sinônimo de cálculo. Um cálculo erigido pelo esforço da adequada imposição dos nomes, pela adição ou subtração que culmina no que se denomina recta ratio. Transportando esse método para ciência civil, Hobbes quer mostrar que, com o auxílio da geometria e da lógica, é possível calcular com as palavras, de tal maneira que ao se somar dois nomes tem-se uma afirmação, ao unir duas afirmações, chega-se a um silogismo e a junção dos silogismos culmina numa demonstração.
A razão é, nesse sentido, uma faculdade adquirida. É o ponto de partida do desenvolvimento e progresso da humanidade. No mundo do conhecimento, ela “é o
passo; o aumento da ciência, o caminho, e o benefício da humanidade, o fim”86 (L, 1,
V, p. 45) e representa a soma encadeada das definições, previamente ordenadas numa seqüência de afirmações ou negações anteriores e se aplica universalmente a tudo aquilo que se submete ao cálculo. Essa forma de racionalidade é, para Hobbes, a grande salvação da filosofia, pois é responsável pela requerida universalidade das proposições e demonstrações.
Se a razão for utilizada em sua finalidade, isto é, seguindo os procedimentos adequados de adição e subtração de nomes, então será possível alcançar a evidência necessária, já que a afirmação de uma conclusão precede o exame de todos os itens do cálculo, sejam eles nomes ou números. As filosofias natural e civil dão o seu exemplo: os aritméticos adicionam e subtraem com números; os geômetras o fazem com figuras, ângulos, linhas etc.; os lógicos com palavras, afirmações e asserções; e a ciência política, com pactos, leis e fatos. Na vertente científica, a razão matemática caminha unida a uma linguagem adequadamente empregada, com vistas ao desenvolvimento correto da latente razão humana.
Considerando esses antecedentes, podemos afirmar que, em Hobbes, a razão é uma faculdade em potencial, que se desenvolve na mesma medida do aprimoramento humano. Não é infalível, contudo, ao se tornar recta ratio propicia, para a ciência, o método mais assertivo no alcance do conhecimento. Os procedimentos gerais de todo conhecimento científico passam por definições inambíguas e seguem num discurso de proposições e silogismos assertivos. Esses passos representam a possibilidade de uma ciência plenamente demonstrativa e evidente e, o mais importante, avessa aos artifícios de uma arte retórica meramente persuasiva.
Segue-se dessa análise, que embora Hobbes considere a natureza humana imutável, acolhe a possibilidade de seu desenvolvimento progressivo em termos racionais, porque a razão é uma faculdade em potência que pode chegar ao seu melhor termo quando se associa ao emprego correto da linguagem. O entendimento aliado a esse novo conceito de razão representa justamente a faculdade que permite ao homem libertar-se dos equívocos das palavras e dos contextos discursivos conturbados, para encontrar o sentido mais apropriado da realidade. O
86 “Reason is the pace; Encrease of Science, the way, and the Benefit of man-kind, the end.” (L, 1, VI, p. 36, grifo do autor).
conhecimento de caráter científico e comprovadamente verdadeiro baliza os artifícios lingüísticos e diz um não a todo discurso superficialmente retórico.
O novo estatuto da ciência se coloca contra o mero estudo da história e seu repasse retórico, firmando a ciência demonstrativa como grande impulsionadora do conhecimento e da própria sabedoria. Para além dos discursos persuasivos, as verdades científicas são demonstráveis e qualquer que seja o âmbito da investigação, elas devem ter relação direta com o dado concreto. É o que mostra Harvey (apud Skinner, 1999, p. 353) na seguinte afirmação: “procuro aprender e ensinar anatomia não a partir de livros, mas a partir das dissecações, não a partir das opiniões dos filósofos, mas a partir do tecido da natureza”.
A ciência demonstrativa é a salvaguarda a que Hobbes quer se apegar para romper com o dogmatismo dos discursos retóricos. Para o bom entendedor, se comparados à ciência, o discurso e as opiniões de um orador não passam de palavreado vazio. E é o entrecruzamento entre ratio e oratio que permite ao cientista a superação desses problemas. Trata-se, no entanto, de uma oratio que não se faça pelo uso doloso das metáforas e tropos absurdos, e que seja empregada justamente na superação desses elementos.
Por jamais abandonar a idéia da recta ratio, seria impossível para Hobbes aderir à retórica tradicional empregada com intencionalidade persuasiva. Por isso, reserva a utilidade da retórica a alguns procedimentos compatíveis com o método e a verdade científica. Podemos considerar que retórica e eloqüência, método e ciência, fazem parte de um todo, de um arcabouço geral do pensamento hobbesiano que não podem ser radicalmente separados ou medidos um em contraposição ao outro. Assim, se é verdade que a força da retórica e da eloqüência marca suas obras políticas mais importantes, não é menos verdade que, por um tempo considerável, Hobbes procura contestar e superar a fundamentação humanista das relações entre razão e retórica. Sobre essa questão ele argumenta que
razão e eloqüência (embora não talvez nas ciências naturais, mas pelo menos nas ciências morais) podem muito bem ficar juntas. Pois onde houver lugar para adornar e enaltecer o erro, muito mais lugar haverá para adornar e enaltecer a verdade, se a quiserem
adornada.”87 (L, IV, Revisão e Conclusão, p. 583).
87 “So also Reason, and Eloquence, (though not perhaps in the Naturall Sciences, yet in the Morall) may stand very well together. For wheresoever there is place for adorning and preferring of Errour, there is much more place for adorning and preferring of Truth, if they have it to adorn.” (L, 4, Review and Conclusion, p. 483-4).
A eloqüência é reconsiderada, no entanto, não se sobrepõe ao raciocínio e ao método científico. A faculdade de raciocinar com firmeza e solidez continua sendo exigida em todo conhecimento que se pretende seguro e correto, pois sem essa faculdade “as decisões dos homens são precipitadas e as suas sentenças injustas.” Porém, por outro lado, “se não houver uma eloqüência poderosa que conquiste a atenção e o consenso, será pequeno o efeito da razão.”88 (L, IV, Revisão e Conclusão, p. 582). Daqui se conclui que a clareza de juízo e a força da razão não são necessariamente opostas à elocução. A arte retórica, unida à razão, propaga a ciência e torna-se necessária à política, não para cooptar as mentes, mas para expor mais adequadamente o conteúdo científico. A oratio é um elemento necessário à explicitação da ciência, mas que perde todo o seu sentido se estiver separada da razão, do raciocínio e do método.