Chapter 3 Coming to consciousness: Seven Winters
3.4 The child
Durante a Segunda Guerra Mundial, 3 reatores foram construídos na área de Hanford, entretanto, com o inicio da guerra fria em 1947, rapidamente em 8 anos haviam mais seis reatores em Hanford perfazendo um total de 9 reatores distante 19 quilômetros um do outro. Embora durante os quarenta anos de guerra fria não tenha havido nenhum confronto direto entre as duas superpotências Estados Unidos e a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, esse confronto foi marcado pela constante ameaça de um conflito nuclear.
“A Segunda Guerra Mundial mal terminara quando a humanidade mergulhou no que se pode encarar, razoavelmente, como uma Terceira Guerra Mundial, embora uma guerra muito peculiar. [...] A Guerra Fria entre EUA e URSS, que dominou o cenário internacional na segunda metade do Breve Século xx, foi sem dúvida um desses períodos. Gerações inteiras se criaram à sombra de batalhas nucleares globais que, acreditava-se firmemente, podiam estourar a qualquer momento, e devastar a humanidade.” (Hobsbawn, 2008 p. 223)
Já que era preciso produzir mais plutônio para alimentar o aumento do arsenal nuclear Americano, Hanford com o grande rio Columbia passando pela cidade era o local perfeito para mais uma série de reatores. Este era um local essencial na corrida frenética em busca do desenvolvimento de tecnologia, recursos e capacidade de produção que foram uma parte tão integral da historia da guerra fria.
A tecnologia avançou com uma velocidade extraordinária, o reator B havia batalhado para produzir plutônio para três dispositivos, menos de uma década depois, 12 reatores produziam o suficiente para fazer dezenas de milhares de ogivas.
Nos anos 50, a medida que o poderio nuclear soviético começou a ameaçar os Estados Unidos, Hanford se tornou um alvo em potencial, graças ao seu papel na produção dos materiais nucleares vitais para o arsenal Americano. Ninguém poderia saber ao certo as consequências de um ataque aéreo em Hanford, mas era claro que medidas defensivas deveriam ser tomadas.
Assim, em resposta a ameaça de ataque de bombardeiros de longo alcance foram criadas 4 baterias de sistema Nike Ajax em torno da área de
Hanford, embora seu objetivo fosse proteger os reatores de um ataque devastador, também era o sinal de que na guerra fria, Hanford ficava na linha de frente. Caso viesse a ordem para lançar um míssil Nike, uma central de controle rastrearia o avião inimigo, lançaria a ogiva e o guiaria até seu alvo; nos anos 50 essa era uma tecnologia de ponta.
Mas no inicio dos anos 60 a introdução dos misseis balísticos intercontinentais tinham tornado essa tecnologia obsoleta. Esses misseis voavam alto demais e rápidos demais para serem apanhados e os misseis Nike de Hanford foram desativados, mas a área continuou a crescer e no inicio de 1964 trabalhava a capacidade máxima e empregava 45 mil funcionários em 9 reatores e produzia mais plutônio do que qualquer outro lugar da terra. O crescimento exagerado desse “complexo industrial militar”55 destinado a produção de armas
nucleares de destruição em massa, não tiveram como objetivo apenas alimentar a guerra fria e garantir a supremacia dessa ou daquela superpotência, como nos informa Hobsbawn (2008):
“Como era de se esperar, os dois complexos industrial-militares eram estimulados por seus governos a usar sua capacidade excedente para atrair e armar aliados e clientes, e, ao mesmo tempo, conquistar lucrativos mercados de exportação, enquanto reservavam apenas para si os armamentos mais atualizados e, claro, suas armas nucleares. Pois na prática as superpotências mantiveram seu monopólio nuclear.” (Hobsbawn, 2008 p. 233) Essa situação só iria encontrar seu fim na segunda metade dos anos 80, até antes da derrubada do muro de Berlim, apesar disso, Hanford ainda possui as cicatrizes do que fazia para alimentar a guerra fria. Hoje o complexo de Hanford é o local da maior operação de limpeza da historia e mais uma vez, milhares de pessoas estão trabalhando no local, desta feita para tentar prevenir uma contaminação adicional do rio Columbia.
Em 1950, 650 quilômetros quadrados de deserto ao nordeste de Las Vegas, foram transformados na área de teste de Nevada. Muitos dos primeiros testes haviam sido realizados no Pacifico, mas a medida em que experimentos mais específicos eram necessários, as longas viagens até lá se tornaram um
55 Este termo, “complexo industrial militar” foi desenvolvido inicialmente pelo presidente
Eisenhower para explicar “o crescimento cada vez maior de homens e recursos que viviam da preparação da guerra.” (Hobsbawn, 2008 p. 233)
estorvo; era preciso achar um novo local em solo Americano. Esse local testemunhou mais de 900 testes nucleares tanto no subsolo quanto na atmosfera e dois tipos de testes eram realizados: um era destinado ao desenvolvimento de armas onde se refinava os detalhes do design e o outro eram testes de efeitos de armas quando são usadas para criar efeitos como calor, explosão e choque que depois se testava em outras coisas como casas e equipamentos militares para determinar se sobreviveriam. Assim, em 1951 o exercito criou o acampamento Desert Rock, uma base para 10.000 soldados cuja tarefa era verificar se havia lugar para armas nucleares num campo de batalha convencional e se elas poderiam ser empregadas com forças de terra.
Fig. 186 - Teste nuclear com soldados - Disponivel
em: https://www.google.com.br /search?q= projeto +manhattan
Fig. 187 - Teste nuclear com jornalistas -
Disponivel em: https://www.google.com.br /search?q=projeto+manhattan
Imediatamente foram escavadas várias trincheiras onde em 1955 várias centenas de soldados deveriam ficar agachados e esperar a nuvem em forma de cogumelo surgir, depois disso, a explosão passaria por sobre a cabeça deles, em seguida deveriam se levantar, sair das trincheiras e andar na direção da nuvem. Na verdade esses testes eram mais psicológicos do que científicos, eles foram criados para verificar se os soldados caminhariam na direção de uma explosão nuclear e nos anos 50 esse não era apenas um exercício hipotético, de fato, durante a guerra da Coréia houve muitas discussões sobre se essa nova geração de armas nucleares poderia de fato ser usada de alguma maneira em um campo de batalha convencional.
De certa forma os testes foram um sucesso, os soldados pareciam estar dispostos a caminhar na direção do local de uma detonação e foram feitas tentativas para produzir armas nucleares para o campo de batalha, mas estava claro que o principal propósito dessas armas era causar uma grande destruição por uma área enorme.
Ainda em 1955 os militares iniciaram uma serie de outros testes para observar os efeitos de explosões nucleares em estruturas civis, acompanhados de jornalistas que foram especialmente convidados para observar o local desses testes chamado de “A Cidade da Sobrevivência”. O objetivo era calcular o que
aconteceria se bombas nucleares fossem lançadas sobre alguma cidade dos Estados Unidos e determinar até onde poderiam chegar os efeitos de uma explosão como essa e como os civis a suportariam.
A cidade da sobrevivência foi criada como uma incorporação de todas as cidades, um duble arquitetônico para o modo de vida americano. Bonecos de teste foram vestidos com roupas comuns e colocados em salas totalmente mobiliadas. Sem dúvida era algo bastante mórbido mas naqueles dias era um jogo de sobrevivência afinal os Americanos enfrentavam a possibilidade de um confronto nuclear com a União Soviética e justamente por isso, seria uma irresponsabilidade não determinar os efeitos de uma explosão nuclear em uma casa ou numa população para que se pudesse maximizar as chances de sobrevivência no caso da ocorrência do evento do impensável.
Fig. 188 - Bomba detonada a partir de uma torre -
Imagem disponivel em: https://www.google.com.br /search?q=projeto+manhattan
Fig. 189 - Torre vaporizada com explosão -
Imagem disponivel em: https://www.google.com.br /search?q=projeto+manhattan
Após a detonação de uma bomba a partir de uma torre com 150 metros de altura com cerca de uma vez e meia o poder de destruição da bomba de Hiroshima (29 Kilotons) constatou-se que as estruturas que ficavam até 1.600 metros da explosão foram vaporizadas instantaneamente.
Uma das ferramentas mais importantes que surgiu como resultado de testes em estruturas como esta foram o gabaritos analógicos simples que foram distribuídos por todo país para que as autoridades de defesa civil pudessem calcular tanto os efeitos quanto as medidas em potencial necessárias para remediar os efeitos de uma detonação nuclear. Por exemplo: uma casa localizada
a 2.000 metros do marco zero de uma detonação de 29 kilotons, sofreria uma pressão de cerca de 3.100 kg por metro quadrado ou seja, dava apenas para sobreviver.
Em 1958, temendo que a população real poderia sofrer os efeitos da contaminação radioativa, o local de teste foi ampliado para 3.500 Km pois os fabricantes das bombas estavam ficando melhores e as bombas estavam ficando maiores.
Entre os anos 50 e 60 uma série de manifestações foram realizadas contra os testes nucleares acima do solo e de fato em 1963, houve a proibição dos testes nucleares atmosféricos através de um tratado firmado para limitar a disseminação da radiação e para diminuir a velocidade da corrida armamentista da guerra fria. Esse período marca o inicio do afrouxamento das tensões entre Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e ficou conhecido no meio diplomático como “détente”, estendendo-se até o ano de 1973.
“Em determinado momento do início da década de 1960, a Guerra Fria pareceu dar alguns passos hesitantes em direção à sanidade. Os anos perigosos de 1947 até os dramáticos fatos da Guerra da Coreia (1950-3) haviam passado sem uma explosão mundial.” (Hobsbawn, 2008 p. 239)
A medida em que a guerra fria foi chegando ao final, essas estruturas foram consideradas obsoletas, os reatores do complexo de Hanford cessaram a produção de plutônio para armas e uma proibição mundial pôs fim aos testes nucleares em nevada.
“... O fim da Guerra Fria provou ser não o fim de um conflito internacional, mas o fim de uma era: não só para o oriente, mas para todo o mundo.” (Hobsbawn, 2008 p. 252)
Por todos os Estados Unidos os vestígios desse programa que tanto alimentou a guerra fria ainda podem ser encontrados, eles são o legado da maior corrida armamentista de todos os tempos que por 40 anos ameaçou destruir o mundo todo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o objetivo de se promover uma releitura do acidente radiológico com o Césio-137 em Goiânia e ao mesmo tempo tentar compreender de que forma o medo da radiação atômica tornou-se um sentimento cada vez mais presente em nosso cotidiano, sobretudo quando se trata de eventos dessa natureza, procurei enfatizar a sua origem e disseminação e ao mesmo tempo reconhecer a importância histórica e cultural das produções audiovisuais em nossa sociedade ou mesmo na elaboração de um trabalho acadêmico desta natureza, sejam elas jornalísticas, videográficas ou cinematográficas.
Ao enfatizar o uso dessas fontes, salientamos não só o quanto de histórico e contextual existe em sua constituição, como também a percepção de um longo e pragmático processo de difusão e estabelecimento do medo da radiação atômica contido na memória das pessoas, nos grupos envolvidos no evento, bem como nas narrativas construídas pelos órgãos oficiais envolvidos no evento juntamente com o cinema e a mídia jornalística.
A escolha dessas fontes deu-se sobretudo pela percepção de que elas representaram ao longo do tempo, o reconhecimento e a importância da realização científica estando inserida como uma importante atividade social contemporânea. Assim, a leitura histórica das reportagens de telejornais, das entrevistas, dos vídeos documentários e dos filmes de ficção científica, a partir de suas próprias constituições e narrativas, possibilitou revelar elementos importantes da construção dessas narrativas históricas e em alguns casos, extrapolando as evidências dos seus propósitos discursivos. No caso dos filmes de ficção científica, dos vídeos documentários e das reportagens de telejornais, a análise dessas produções permitiu-me pensar sobre a forma como aquela parcela da sociedade discutiu, naquele momento, as suas relações entre presente e futuro, entre ciência e sociedade, entre o modo de ver o que era considerado positivo e desejável e o que era negativo e abominável e finalmente, como o medo da radiação atômica tornou-se rapidamente um forte sentimento presente no cotidiano das pessoas daquela época.
Todos os anos milhões de pessoas são vítimas de câncer, acidentes de trânsito ou AIDS, no entanto continuam dirigindo seus veículos todos os dias; continuam fumando ou praticando sexo sem proteção adequada. Além disto, uma grande quantidade de pessoas absorvem significativas doses de radiação ao realizarem exames radiológicos sem se dar conta dos perigos que essas atividades representam. Por outro lado, quando falamos em “acidente nuclear” ou
ainda em “acidente radioativo”, imediatamente surge a noção de que partículas
subatômicas podem atravessar nosso corpo e causar danos aos nossos órgãos ou mesmo modificar nosso DNA provocando alterações genéticas inclusive em nossas futuras gerações.
A angústia provocada pela noção de que algo invisível, inodoro e insípido possa atravessar nosso corpo e provocar tantos males, desencadeia um forte sentimento de medo generalizado reforçado sobretudo pelo conhecimento histórico das consequências imprevisíveis e em alguns casos desconhecidas, da exposição à radiação atômica em nosso organismo e que foram amplamente divulgadas ao longo dos anos que por sua vez nos remete à uma série de acontecimentos que tiveram seu início com o projeto Manhattan, quando foram implantados os primeiros reatores nucleares destinados à construção de armas de destruição em massa, passando pelas terríveis consequências da explosão das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki até ao período da guerra fria com o constante medo de um iminente conflito nuclear além dos vários acidentes nucleares ocorridos como Chernobyl ou Fukushima.
Percebemos então que o medo que permeia eventos dessa natureza são paulatinamente construídos até adquirir o aspecto de emoção interiorizada nos indivíduos e na maioria das vezes esse sentimento se apresenta como resultado de uma construção histórica onde finalmente o medo da radiação atômica se constitui como parte do repertório emocional de cada indivíduo.
Assim, a mídia televisiva, através de seus telejornais, tiveram uma grande contribuição na construção de um clima generalizado de ansiedade social com sua vocação alarmista, disseminando ideias equivocadas, ações despropositadas e enfoques descontextualizados sobre os reais riscos de contaminação e suas consequências, contribuindo de forma efetiva para a construção da “cultura do medo”. Da mesma forma, o cinema tem procurado trabalhar ao longo dos anos, a