Segundo a instituição o sucesso do método depende da participação da comunidade. Quanto mais pessoas se envolverem – inclusive as autoridades dos setores jurídicos, civis, religiosos, militares, etc. – mais garantido será o desenvolvimento do método naquela sociedade.
Uma das críticas do sistema comum, observadas pelo pesquisador é que com tanto apoio da sociedade qualquer sistema funciona bem e que há um empenho enorme, realmente, por parte da sociedade – itaunense, por exemplo – para que a APAC funcione, mas não há esse apoio para ajudar a cadeia pública. A própria APAC reconhece e divulga que a unidade Itaúna só se tornou modelo internacional porque foi justamente nessa cidade que ela obteve maior empenho no envolvimento da sociedade.
3.1.1.2 O recuperando ajudando o recuperando
Resumidamente, este elemento funciona como uma maneira de incentivar o recuperando a ser camarada e, ao mesmo tempo, supervisionar os colegas. Para que esse elemento funcione é preciso haver um sub-elemento chamado de C.S.S – Conselho de Sinceridade e Solidariedade:
Para auxiliar o cumprimento das normas contidas no termo de compromisso, a APAC criou o “Conselho de Solidariedade e Sinceridade” (“C.S.S”), integrado por todos os reeducandos14, do segundo estágio, e presidido por um deles, nomeado pelo presidente da APAC, com mandato de duração indeterminada e revogável “ad nutum” [...] a mais importante função do Conselho de Solidariedade e Sinceridade é fazer cumprir todos os regulamentos, instruções, portarias e ordens internas emanadas da direção da APAC, além de controlar os horários, as entradas e saídas dos reeducandos, a disciplina de um modo geral. A diretoria do Conselho de
14 Até então, 1984, os presos da APAC eram chamados de “reeducandos”. Hoje o termo utilizado pela
instituição para se referir aos penitenciários sob sua tutela é “recuperandos”, como foi abordado anteriormente.
Solidariedade e Sinceridade é uma réplica da diretoria da APAC, composta nos mesmos moldes e exercendo da mesma maneira a sua autoridade. O presidente do Conselho de Solidariedade e Sinceridade, depois de nomeado pelo presidente da APAC, escolhe seu vice e seu secretário. Agrupa os demais reeducandos de cinco em cinco, e pode dissolver e reformular esses grupos sempre que julgar necessário. Os reeducandos de cada grupo podem eleger um coordenador, que fará a ligação entre o seu grupo e a diretoria do Conselho de Solidariedade e Sinceridade [...] desempenha ainda o papel de tribunal para julgar as infrações dos reeducandos ao compromisso assumido... (CAMARGO, 1984, p. 64-65).
Cada detento, de alguma maneira, é responsável pela segurança e disciplina na APAC; se a ordem for ameaçada, antes de se apontar um culpado, é feita uma análise da equipe como um todo para averiguar em que ponto ela errou, contudo, isso não impede que o responsável seja disciplinado individualmente, se for o caso, com o registro de sua advertência na sua pasta-prontuário. No regime fechado existe um quadro de avaliação disciplinar diário onde são lançadas as pontuações disciplinares. Além das faltas médias e graves – comuns no sistema convencional – são registradas, também, as faltas leves. Estas últimas são caracterizadas por condutas levemente reprováveis como dormir em horário não permitido, não participação no primeiro ato socializador do dia, não cumprir as tarefas corriqueiras, etc. As Faltas leves são administradas pelo C.S.S que ao tomar conhecimento pela primeira vez faz apenas uma advertência, na segunda essa falta é lançada no quadro de avaliação disciplinar representada por um pontinho amarelo (a punição é de um dia sem lazer), na terceira vez somam dois pontinhos amarelos (a punição é um dia sem lazer e um dia sem telefone, já que três vezes por semana cada recuperando tem direito a 5 minutos no telefone para falar com a família), na quarta vez são três pontinhos (a punição é de uma semana sem lazer e sem telefone), na quinta vez as quatro faltas leves, representadas por quatro pontinhos amarelos, tornam-se uma falta média que é representada pelo pontinho vermelho – nesse caso o C.S.S emite um relatório que vai para a pasta prontuário do recuperando.
3.1.1.3 O trabalho
Há, nos três regimes, atividades produtivas para os presos. Como tudo no sistema, o elemento trabalho também é progressivo. No regime fechado o trabalho é artesanal e o mais diversificado possível com a finalidade de despertar o interesse do recuperando por uma atividade que lhe dará retornos imediatos, como a socialização, e retornos futuros, como a profissão: uma maneira de ganhar a vida. Nessa fase do cumprimento da pena não é permitida a produção industrializada, pois, a finalidade é ajudar o preso a resgatar seus valores e melhorar sua auto-imagem.
Em uma das visitas o pesquisador presenciou, de maneira involuntária, um encontro de um recuperando com sua esposa e filhos pequenos: ele a presenteava com um objeto artesanal – uma espécie de porta-jóias provavelmente confeccionado por ele – ao mesmo tempo em que lhe implorava um voto de confiança. Uma voluntária, que parecia fazer o papel de assistente social, intermediava o delicado diálogo rogando compreensão ao recuperando enquanto sua esposa, em prantos, não lhe dava resposta alguma.
No regime semi-aberto o recuperando tem a oportunidade de conquistar uma profissão definitiva. Aqui, tudo o que for produzido pelo preso trará retorno financeiro para ele uma vez que os produtos são comercializados. No rol de entrada da APAC o visitante se depara com uma galeria de objetos artesanais, confeccionados pelos recuperandos, que estão expostos à venda. Parte do lucro das vendas fica para a instituição e outra parte para o recuperando.
No regime aberto (prisão-albergue), segundo a proposta apaqueana, o recuperando já deve estar preparado para assumir uma profissão visando não apenas favorecê-lo, mas, também, evitar a frustração da família e a proteção da sociedade. O recuperando, após firmar o termo de audiência admonitória, deverá deixar o CRS às 06h retornando às 19h, devendo permanecer no mesmo nos finais de semana e feriados.
Ainda deve haver um departamento formado por voluntários com a finalidade de fiscalizar e acompanhar aqueles que estão em livramento condicional e ex-recuperandos que encontrem dificuldades na reinserção social, como as dependências químicas e as dificuldades de encontrar trabalho. Aqui vale lembrar o comentário de Goffman sobre o status do internado na instituição total, seus privilégios internos e perspectiva externa: