Conforme informamos no item referente à abordagem investigativa, as escolas – loci da nossa pesquisa – receberam nomes fictícios de escritores voltados para o público infantil: Monteiro Lobato, literato e jornalista, é reconhecido como precursor da literatura infantil brasileira. Criador do Sítio do Picapau Amarelo, obra original cheia de fantasias e aventuras que se passam no interior de um sítio, evidenciando sua característica de escritor regionalista. O autor influenciou muitas gerações brasileiras através do seu trabalho.
Já Mauricio de Sousa é reconhecido nacional e internacionalmente por sua produção principal: a Turma da Mônica, que tem em seu enredo temáticas ligadas ao cotidiano infantil, permitindo uma identificação do leitor com os personagens (os principais têm sete anos). A estrutura narrativa breve, sem muito esforço para a compreensão da mensagem contida no texto, também é um aspecto que faz com que um maior número de crianças se interesse por essas histórias genuinamente brasileiras. Nesse sentido, reconhecemos as histórias em quadrinhos como um instrumento capaz de relacionar os saberes de várias áreas do conhecimento, pois se valem da palavra e, essencialmente, da imagem, e seguem pelo caminho da leveza e comicidade, desenvolvendo tanto os aspectos da racionalidade quanto da imaginação criativa.
A Escola Mauricio de Sousa e a Escola Monteiro Lobato, onde foram selecionados os sujeitos da pesquisa, localizam-se no Bairro de Mãe Luíza, em Natal, Rio Grande do Norte. Mãe Luíza tem como ponto inicial dos limites do bairro “[...] o encontro da cerca do IBGE com o eixo da Rua Desembargador Benício Filho e como ponto final da linha de limite do bairro, a Rua Tuiuti.” (MINEIRO, 1998, p. 214).
Mãe Luíza foi oficializado como bairro pela Lei nº 794, de 23 de janeiro de 1958, sancionada pelo então prefeito Djalma Maranhão (NATAL, 2008). Seus limites foram
redefinidos pela Lei nº 4330, de 5 de abril de 1993, publicada no Diário Oficial de Natal, em 7 de setembro de 1994. O bairro é hoje considerado área especial de interesse social. Segundo dados do IBGE/2004, estima-se que, em média, lá habitam 15.000 pessoas, dentre as quais, 35,99% têm renda inferior a 1 salário mínimo, 37,65% entre 1 e 3 salários mínimos, 13,46% não têm nenhum rendimento. (BARROSO, 2003, p.14).
Segundo a Secretaria de Educação, da Cultura e do Desporto (2006), no bairro existem duas escolas municipais de Educação Infantil e quatro escolas de Ensino Fundamental, dentre as quais, duas atendem à modalidade de Educação de Jovens e Adultos e uma ao Ensino Médio. Além disso, encontram-se no bairro cinco escolas particulares.
O local é conhecido pelas inúmeras características peculiares: situa-se sobre dunas com vistas para o mar, é reconhecido como comunidade, haja vista que as relações entre os moradores são pautadas pelos graus de parentesco, vizinhança, amizade e as decisões gerais baseiam-se no bem comum dos que lá habitam. A Igreja Católica desenvolve, ali, um importante trabalho social, não no sentido meramente assistencialista, mas especialmente com o intuito de desenvolvimento humano. As habitações, em sua maioria, pequenas casas de alvenaria que contrastam, fortemente, com os ricos edifícios das regiões vizinhas. No entanto, as condições socioeconômicas são caracterizadas pela homogeneidade financeira, pois, como dito anteriormente, a maioria dos moradores vive com menos de 3 salários mínimos. Os empregos dividem-se basicamente em empregados domésticos, vigilantes, moto boys e operadores de caixa. Outros são vendedores ambulantes e proprietários de pequenos comércios.
Emoldurado pelo verde das dunas e o azul do mar, próximo ao centro da cidade, Mãe Luíza tornou-se alvo de especulações imobiliárias. A solução encontrada para proteger o território foi uma ação comunitária, que resultou na regulamentação de Mãe Luíza no plano diretor de Natal como área de Interesse Social. (NATAL, 1994).
Mãe Luíza já foi nominada Morro da Favela, Aparecida e Novo Mundo e foi habitada inicialmente por pessoas vindas do interior, fugitivos da seca, em busca de vida melhor. São limitados os registros históricos de Mãe Luíza; no entanto, as pessoas do local contam satisfatoriamente o que sabem. Questionamos informalmente a um grupo de mães, à espera de seus filhos na escola, por que o nome Mãe Luíza e elas nos explicaram que o nome é uma homenagem a uma antiga parteira da redondeza.
A Igreja Católica, o Centro Social Padre João Perestelo, a Casa do Idoso, Casa Crescer, Clube de Mães são organizações que denotam a luta pela cidadania do povo de Mãe Luíza. Há uma efervescência de projetos culturais e sociais que favorecem o desenvolvimento das pessoas. Ao contrário dos mitos e preconceitos que marginalizavam os moradores do morro, observamos a presença de muitas pessoas de bem, lutadoras para vencer licitamente as adversidades da vida, através do trabalho e do esforço pessoal.
Nesse sentido, esclarece Fernandes (2000, p. 134), na sua dissertação de Mestrado:
A construção histórica e social de Mãe Luíza como um núcleo habitacional moldado por laços afetivos, dentro de um espaço urbano, no qual as relações por interesse se intensificam, fez com que se desenvolvessem buscando resguardar sua identidade. A apropriação do espaço, primeiramente como uma necessidade de sobrevivência no contexto urbano, dimensiona-se para o plano simbólico, o qual se inscreve na vida cotidiana da comunidade à medida que esta delimita seu(s) território(s) como forma de dizer “eu sou de Mãe Luiza”. Mãe Luiza tornou-se uma referência para a cidade pelas respostas que vem buscando dar, ao longo de sua história, aos problemas que a afligem, fazendo-se confrontar com a denominação de ‘bairro marginal’.
Embora os problemas com drogas tenham aumentado, pois dizem haver muitos traficantes e usuários no bairro, escutamos também comentários respeitosos de trabalhos sociais desenvolvidos em Mãe Luíza, desmitificando a ideia de que – ‘quem lá mora é preguiçoso, ladrão ou drogado’. Esta discriminação não tem sentido, quando sabemos que os problemas sociais afligem vários bairros de Natal.
As organizações comunitárias são responsáveis pelo estímulo à união de pessoas para defenderem seus direitos. Alternativas para os problemas que vão surgindo são discutidas em assembléias, seminários, encontros. Exemplo disso foi o projeto de Lei aprovado em 31 de julho de 1995 – Lei nº 4663/95 que se refere ao uso e ocupação do solo de Mãe Luíza, impossibilitando que um investidor compre várias casas para fazer grandes empreendimentos.
No processo em que foram gestadas, essas atividades trouxeram para a comunidade a noção de responsabilidade social consigo própria. Mas, também conduziu-lhe nos caminhos da construção de sua autoridade perante outras instâncias além bairro: a própria cidade; as instituições públicas – poder executivo, universidade. A comunidade, ao assumir-se como sujeito, estabeleceu o seu lugar, à medida em que, de ouvinte, passou a ser ouvida, reivindicativa e atuante; da postura de aceitabilidade, passou à da negociação. (FERNANDES, 2000. p. 132-133).
Observamos nas crianças, com quem trabalhamos, a ideia positiva de pertencer à Mãe Luíza, destacando que muitas demonstram sentimento de satisfação em serem membros de uma comunidade que se organiza em prol de seus filhos.
5.1.1 Escola Monteiro Lobato
A Escola Monteiro Lobato iniciou suas atividades em 1990. Foi criada por meio do Decreto nº 4.146, segundo informações obtidas em diálogos com a direção da escola. A escola funcionava numa pequena casa em outra rua do bairro, até que, em 1992, foi construído um prédio apropriado para abrigá-la. A instituição possui boa infraestrutura, é composta por seis salas de aula, uma biblioteca, uma sala de artes, de vídeo, uma cozinha, uma sala de direção, uma secretaria, uma sala de professores e sete banheiros, sendo um destinado especialmente aos professores. Existe também um átrio central com mesinhas coletivas e coloridas onde acontece o encontro inicial, o lanche, brincadeiras no intervalo. Na área externa, os bouganvilles e outras plantas florais alegram o espaço, além de um pequeno parque e um espaço arenoso onde as crianças jogam futebol.
As paredes e até o teto da escola comumente abrigam trabalhos feitos pelos alunos ou decorações “didáticas” organizadas pela equipe de professores. A escola está bem conservada, funcionando no turno matutino e vespertino. Atende aos anos iniciais do Ensino Fundamental e, ali, estudam, em média, 360 alunos.
A equipe de trabalho é composta por 35 funcionários e está dividida em: 26 professores, um auxiliar, recreadora, diretora e vice-diretora, dois serventes, vigilante, dois auxiliares de secretaria. Os gestores são escolhidos pela comunidade, em processo eletivo, que ocorre a cada três anos, conforme Legislação Municipal – Resolução Municipal 02/01.
Todas as professoras regentes têm formação apropriada, possuindo licenciatura plena, além de participarem comumente de programas de formação continuada.
A escola não possui lugar apropriado para a prática de esportes nem laboratório de informática, sendo essas as principais metas físicas dessa comunidade escolar.
5.1.2 Escola Mauricio de Sousa
A Escola Mauricio de Sousa iniciou seu trabalho com as primeiras séries do Ensino Fundamental, até que nos anos 1980, passaram a funcionar, também, as demais séries sequenciais do Ensino Fundamental, nos três turnos e, assim, funciona até hoje. Em 2008, a Escola matriculou 551 alunos, divididos em Ensino Fundamental I (2º ao 5º ano) no turno matutino, Ensino Fundamental II (6º ao 9º ano) e classes de aceleração nos turnos vespertino e noturno. A equipe de funcionários é formada por uma diretora, uma supervisora, uma coordenadora financeira, duas auxiliares de secretaria, dois assistentes gerais, uma merendeira, três professores pedagogos, quatro estagiárias, dois professores de Ciências, dois professores Matemática, um professor de Geografia, um professor de Inglês, dois professores de Português, um professor de História.
A estrutura física está dividida em área administrativa, uma sala de direção, uma sala de professores, uma secretaria, uma sala de arquivo, área pedagógica, sete salas de aula convencionais, uma sala de reforço, oito ambientes compostos de biblioteca, sala de vídeo, área de serviço, cozinha, depósito de merenda, pátio coberto e quadra coberta. A escola não tem parque, área esportiva nem laboratórios.
Diante dos dados de caracterização apresentados, até este momento, e para compreendermos melhor os sujeitos, sentimos necessidade de situá-los no grupo mais próximo, ou seja, na turma em que conviviam durante o ano escolar.
5.2 CARACTERIZANDO OS GRUPOS EM QUE ESTÃO INSERIDOS OS SUJEITOS DA