STEP III: Coding sessions
5.3 Chapter summary
Esse procedimento foi aplicado a todas as entrevistas realizadas aqui. Por um lado,
foram entrevistados indivíduos supostamente mais afetados pelo fenômeno, ou seja, os
que apresentavam um forte comprometimento com alguma tradição religiosa,
psicólogos da linha analítica e um físico quântico, já que a Sincronicidade foi sempre
associada a essa disciplina, desde o próprio Jung. Por outro, participaram indivíduos
supostamente menos afetados pelo fenômeno: uma engenheira civil, um ateu e um
cirurgião cardíaco. Decidiu-se limitar o âmbito deste trabalho a apenas duas dessas
entrevistas, a saber, a da praticante sufi que é também psicóloga clínica e a do rapaz
14 As idéias filosóficas de Husserl (1970) conduziram à abordagem fenomenológica descritiva da investigação. Husserl acreditava que informação subjetiva era importante para os cientistas que buscavam compreender as motivações humanas uma vez que as ações humanas são influenciadas por aquilo que é percebido como real. Assim, para trazer à tona os componentes essenciais das vivências específicas de um grupo de pessoas, é necessária uma abordagem científica. Isso requer que o pesquisador se desvencilhe de todo seu conhecimento pessoal a priori (suspensão) de modo a prevenir vieses e preconceitos que possam influenciar o estudo (Drew 1999) e assegurar rigor científico (LeVasseur 2003). (FLOOD, A., 2010, pág.3, tradução nossa)
ateu, pois os depoimentos oferecidos por ambos pareceram significativos para iniciar a
discussão apresentada neste trabalho. O material coletado, reunido à análise
empreendida, soma uma quantidade de páginas que ultrapassa os limites apropriados a
esta dissertação. No entanto, ainda que não publicados aqui, tomam parte neste trabalho
tanto pela prática de pesquisa que possibilitaram quanto pelas reflexões que suscitaram,
sobretudo do ponto de vista fenomenológico. E, não obstante, permanecem como
valioso capital para eventual e futura publicação.
A minha própria origem judaica favorece o contato com judeus praticantes,
ortodoxos ou liberais. Observada de fora, minha postura sempre foi a da média: não sou
ortodoxo, tampouco deixo de praticar regularmente alguns ritos tidos como obrigatórios
pela prática religiosa estabelecida dentro do judaísmo. Evidentemente, no interior do
meio religioso apareço como muito religioso para os não praticantes, bem como
significativamente afastado da religião para os mais observantes. A Psicologia não é de
todo bem vista pelo lado mais praticante. Ali, existe apenas uma única verdade possível,
que é a da religião. Qualquer outra é vista com certa dose de desconfiança, e os aspectos
geracionais por vezes têm peso nesse julgamento.
Para mim, no entanto, é nítido o teor sincronístico dentro do judaísmo, sob
diversos aspectos, desde o conteúdo do texto sagrado, passando pela própria prática
religiosa, a constituição psíquica do homem judeu e, finalmente, a sabedoria oriunda do
misticismo judaico, representado pela Cabala. Envolvido em um estudo dessa natureza,
busquei estar o mais próximo possível à fonte do conhecimento. Procurei, assim,
entrevistar um rabino. Assistindo a uma das palestras - corriqueiramente ministradas no
meio judaico - da esposa de um rabino amigo, ouvi-a dizer que tudo que ouvimos em
nossa vida é significativo, nada é ouvido por pura coincidência, há sempre uma
que a definição, mais depurada abaixo, do discurso sincronístico a que tinha chegado
eu naquelas minhas pesquisas empíricas de tempos anteriores.
Parti para conseguir a entrevista com a amiga – seria uma primeira e importante depoente para meu trabalho - porém, com o tempo, depois de tudo combinado, a coisa
não aconteceu, seja talvez por receio (a esposa de um rabino não pode ficar em um
recinto fechado com um outro homem), desconfiança, desprezo (em um dos encontros regulares que tenho com essa amiga, ela me disse “Vamos fazer a entrevista agora, em 5 minutos resolvemos” – mas não era esse o espírito de que necessitava) , enfim, não foi possível levar a cabo essa importante entrevista. Surgiu uma nova oportunidade,
representada, dessa vez pelo rabino-chefe da congregação que freqüento. Homem de um
profundo conhecimento sobre a religião judaica, o rabino, em conversas informais e
palestras corriqueiras, já me tinha dado provas de que traria subsídios importantíssimos
inclusive para o entendimento das particularidades do fenômeno sincronístico. Mais
uma vez, tudo quase combinado, mas a coisa voltou a desvanecer. É opinião desse
rabino que não se deve estudar os fundamentos da religião com um interesse científico,
mas sim como uma obrigação religiosa.
Talvez por isso – ou por uma antipatia nascida a partir do próprio trabalho – também não foi possível realizar essa entrevista. Foi-me indicado, então, outro rabino,
doutor em Filosofia, que se prontificou a fazer a entrevista, realizada no seu escritório
em uma escola exclusivamente destinada a jovens judeus. O rabino, provavelmente
por acumular uma formação acadêmica ao percurso religioso, mostrou uma atitude de
abertura tanto em relação à própria entrevista quanto à temática.
Busquei realizar a segunda entrevista com um psicólogo junguiano. Nesse caso
entrevistado. Consegui o contato de alguém que, além de psicólogo clínico, era também
praticante sufi, o que ia perfeitamente ao encontro de minhas expectativas, pois, após
entrevistar um rabino, seria quase que natural procurar entrevistar um representante da
prática ligada ao islamismo. Com isso, portanto, conseguiria explorar, a um só tempo,
duas vias de abordagens significativas para o estudo, a Psicologia Analítica Junguiana e
o Sufismo. A entrevistada, uma psicóloga clínica junguiana experiente se mostrou, em
todo momento, sempre aberta à entrevista, colaboradora e plenamente consciente dos
meandros tratados, sabendo discriminar o que era oriundo da prática islâmica e o que
constituía o território da abordagem junguiana. O resultado foi extremamente fecundo,
possibilitando esclarecer aspectos diversos tanto relativos a essas duas abordagens
quanto às antigas conceituações que procurava desenvolver e representando um largo
passo em direção à questão central desse trabalho, isto é a ligação entre sacralidade e
Sincronicidade.
Nesse ponto, com essa ligação, a meu ver, já em estágios avançados de
sedimentação em função das duas entrevistas anteriores que lhe conferiam uma boa base
de sustentação, me voltei, então, para a prova ao contrário, ou seja, a exploração de um
ambiente onde, supostamente, a Sincronicidade seria encontrada em graus menores de
desenvolvimento, entre indivíduos supostamente menos afetados pelo fenômeno. Para
tanto, procurei entrevistar um profissional da área tecnológica, onde o racionalismo
fosse preponderante, onde o lugar da coincidência significativa não pudesse ser central.
Encontrei uma engenheira civil, católica, que se mostrou disposta a colaborar.
O fato de pertencer ao sexo feminino trouxe um atrativo a mais, pois,
consideramos de perto, neste trabalho, sempre que passível de apresentar-se, uma
provável significância arquetípica das crenças populares mais difundidas, tais como,
contemplar tanto a vida profissional como a vida pessoal do sujeito de pesquisa,
acareação esta capaz de fornecer dados suplementares que poderiam mascarar-se em um
procedimento unilateral. Um clima de desconfiança jocosa me parceria tomar conta do
contato com a entrevistada. Essa desconfiança se manifestava através de uma surpresa
com o fato de atender às prerrogativas para tornar-se sujeito de pesquisa mas também,
pareceu-me, pelo distanciamento da temática, com relação ao modo de vida da
entrevistada. Pude sentir esse clima durante todo o processo da entrevista, que chegou,
no entanto, a despertar, a meu ver, um certo questionamento e uma ampliação da
consciência da entrevistada com relação à sua atitude com relação aos processos
sincronísticos.
Praticamente imperceptível em tal ambiente, se comparado aos anteriores, o
fenômeno de Sincronicidade dava, entretanto, sinais de resiliência, o que suscitou nova
dúvida: atingiria ele a nulidade, desaparecendo por completo? Poder-se-ia ter um
ambiente de pesquisa, uma racionalidade tal que a significância das coincidências não fosse sequer notada, em que a ligação destas com a presença da sacralidade, do divino não fosse sequer suspeitada, em que o acaso fosse tão somente desprovido de qualquer sentido? Por um lado, para equilibrar o número de entrevistados do lado dos supostamente não afetados pelo fenômeno, já que naquele momento contava com duas entrevistas com representantes religiosos e apenas uma do lado dos supostamente não afetados, a engenheira, e, por outro, para seguir dentro do espectro religioso, o próximo passo natural foi buscar entrevistar um ateu.
Ao mesmo tempo, tendo, pelo meu ponto de vista, alcançado um maior nível de solidez para a ligação entre a Sacralidade e a Sincronicidade, e sempre em busca de um maior conhecimento a respeito das características internas do universo sincronístico, tinha um grande interesse por uma entrevista com um físico quântico. Por um lado, a
Sincronicidade é nascida com um pé nesse ambiente, estando intimamente ligada a esse ramo da Física desde seus primórdios com o próprio Jung. Além disso, por sua própria origem e natureza conceituais, supõe uma realidade unitária entre os processos físicos e psíquicos, o que me gabaritava, penso, a explorar as similaridades entre essas polaridades. Mas, o grande motor era, realmente, o fato de, nas primeiras pesquisas empíricas da fase, por assim dizer, não formal, ter encontrado essas similaridades de modo estreito e abundante. A entrevista com o físico quântico representaria para mim a possibilidade de conhecer com maior profundidade as leis de um mundo onde esperava encontrar um reservatório de leis potenciais correspondentes para os eventos sincronísticos.
Primeiro surgiu o Físico, docente desta própria Universidade, que me recebeu
em sua sala. Pouco depois de chegar, soube que, além de Físico, é também espírita.
Novamente, houve essa espécie de ganho duplo inesperado, onde duas abordagens, a
Física e o Espiritismo, se conjugavam em um mesmo ambiente de pesquisa.
Conhecedor da temática por meio da Física, mostrou, inclusive, conhecê-la melhor do
que eu, em determinados aspectos. Sugeriu-me literatura a respeito, desconfiou de sua
aplicabilidade aos processos psíquicos. De fato, essa entrevista foca sobretudo as
características dos fenômenos quânticos na busca de processos que sejam, ao menos de
modo similar, reconhecíveis no âmbito psíquico, porém, sempre dentro da temática e
da perspectiva da Sincronicidade. Ainda assim, houve um ganho, provindo da
abordagem espírita do professor, configurando a exploração de uma terceira via
religiosa.
Finalmente, surgiu a oportunidade de entrevistar um ateu. Indicado por um
amigo observante do Judaismo, dispôs-se prontamente a participar do trabalho. Nesse
sua força através da confirmação da idéia de resiliência. O jovem ateu recebeu-me
significativamente de pijamas, abrindo uma via, como se verá na análise de sua
entrevista, para a alocação do teor sincronístico, como terceiro elemento, ao lado do
mal-estar psíquico e do tamponamento espiritual, como dado para a avaliação e
interpretação da saúde psíquica.