• No results found

2.1   Climate  Mainstreaming

2.1.3   Literature  review  and  assumptions

Audiência - Recepção

A partir do argumento lançado “As Aves” trataremos, neste capítulo, de analisar como os processos de trabalho dos alunos desenvolvem-se em relação à presença do humano na situação imaginada para a encenação, tanto do ponto de vista do espaço cênico como da platéia, do ator e da audiência. Por vezes os projetos tomam um determinado caminho a partir de um conceito que se relaciona a este componente. Alguns projetos partem de um desejo de proporcionar uma determinada experiência aos indivíduos que se encontrarão em razão do acontecimento teatral. Assim, a forma de reuni-los para este encontro acaba sendo determinante do encaminhamento para uma dada situação espacial que atenda a este conceito ou desejo.

No âmbito da formação, os estudantes de cenografia são levados naturalmente a assumir um pouco a função de direção, a menos que o projeto em desenvolvimento seja de caráter interdisciplinar e existam outros colaboradores. Nos procedimentos acompanhados esta segunda hipótese não ocorreu. Durante os trabalhos foi, portanto, necessário, tomar alguns partidos e decisões acerca de: como definir um possível contexto, seguir um ou outro conceito, apoiar-se em movimentos imaginados, pensar o todo para formular uma espacialização. Ou indo além, na intenção de criar um lugar de

suspensão no sentido de “reticências”, deixar algo a ser compreendido que não seria

necessariamente dito, uma insinuação, uma emoção.

Diante dos processos pesquisados, percebo que os alunos, em sua maioria, pensam a cenografia do ponto de vista da sensação que ela pode provocar no público. Às vezes são motivados por uma orientação que se dirige a este foco, onde o educador provoca os alunos para que respondam espacialmente às sensações inerentes ao argumento-texto. O grupo da UFRJ, por exemplo, foi conduzido a refletir e responder espacialmente sobre:

“Como um indivíduo que se encontra em um determinado

estado passa a sentir-se mobilizado ou, ao contrário, fortificado, para ir a outro”.

Este movimento corresponde à ação proposta no texto, no qual os dois personagens Pisetero e Evélpides por alguma razão decidem mover-se em direção aos seus ideais. Qual o motivo por trás desta determinação a mover-se? Eles de fato se movem? Ou como alega a Simone, da UNIRIO, eles não vão a lugar algum, eles não se movem;

neste caso o que os conduz à imobilidade? A palavra seria um veículo através do qual podemos ir a qualquer lugar sem, no entanto, nos mover? Entender o sentido do movimento a partir do que propõe o texto é fundamental para definir as possibilidades espaciais. Neste grupo, especificamente, os alunos, conduzidos pelo conceito e pesquisa sobre a construção de cidades e urbanização, optaram por apresentar espaços de conformação circular, reprisando de cerca forma as conformações antigas, nas quais os limites da cidade eram definidos antes mesmo até do seu centro, através de fortificações. A circularidade por vezes tomou a configuração de uma helicoidal, e ambos os espaços propiciaram ressaltar o sentido de que os personagens poderão percorrê-los mas que retornarão ao ponto de partida.

Nos grupos de alunos da USP, As Aves provocou uma busca por relações espaciais, segundo eles, mais democráticas, para organizar os espaços de ação e de recepção, onde a tipologia do Teatro de Arena emerge como uma melhor resposta, capaz de reunir os indivíduos de forma a aproximá-los, ou melhor, de aproximar a ação da recepção. Demonstram-se muito preocupados em não apenas fazer do espaço um lugar de encontro, mas um espaço de reunião de fato, para atender a este discurso. Ao mesmo tempo, alguns alunos defenderam que seria indispensável propor fisicamente a construção de uma cidade e sua modificação em cena, dada não apenas pela ação dos atores, mas, por vezes, incluindo o público nesta ação. Esta reflexão sobre o espaço da ação e da recepção relacionada ao texto, conduziu o grupo à necessidade de se libertarem do proposto inicialmente, a caixa italiana, para definirem espaços que permitissem este diálogo. Além de romperem com a tipologia italiana, foram além dos espaços inusitados, propondo formas não-convencionais para receber a audiência, para acomodá-la, motivados pela determinação de causar uma sensação no espectador.

Proponho acompanharmos alguns passos pelo imaginário dos alunos, relevantes para compreendermos os rumos tomados diante da espacialização proposta ao argumento-texto. Através deles podemos perceber claramente que os alunos buscam, através de suas criações, outras relações através das quais possam afluir suas expressões, distanciando-se da tipologia do palco italiano.

Marina /USP

imaginou um público iluminado por baixo, sentado dois a dois em balanços de acrílico suspensos ligeiramente do piso, dispostos em um lugar circular, como um anel, tentando sensibilizar a audiência para o fato de que não podemos mudar o começo da nossa estória, mas podemos mudar o final. Confundem-se ator e espectador na sua “cidade dos homens”

“Gostaria que se fosse encenada e pudesse provocar as pessoas no sentido de que percebam que podem fazer que está em suas mãos... o público faz parte, está dentro das emoções que o cenário e os atores vão passar, ele tem que sentir profundamente”.

André /USP

nos apresenta uma visão do ator que prefere a interação com o público, o romper com a quarta parede, estabelecer uma relação de proximidade, olho no olho; esta disposição o leva a visualizar espaços menores, mais claustrofóbicos, que sejam impactantes para o publico.

“Quando neste projeto rompemos com o palco italiano, o projeto desenvolveu-se” – seu projeto caminha para tratar do espaço cênico”.

Graciela /USP

também traz à tona a sensação do ponto de vista do espectador. “... A primeira coisa que pensei foi ALTURA, MEDO, INSTABILIDADE; faço cinema, não tenho muito o hábito de ir ao Teatro, mas pensei logo em uma cenografia que causasse sensações. Tenho a impressão que em relação ao palco italiano, um cenário convencional, o cinema dá conta melhor; pensei então na especificidade do teatro, o que não dá para fazer no cinema, que é a sensação; pensei em um viaduto, uma situação ao vivo na Rua, onde quem está lá não apenas assiste e admira, sente algo.”

Marília /USP

propôs um projeto processional, uma Rua, um objeto em forma de tambor movido pelos próprios atores por um movimento de rolamento. Remete ao exercício proposto em outro grupo sobre o movimento como enunciado. Os atores aqui se confundem com o público espalhado pelas calçadas, em um clima de diversão diante da construção de uma cidade, um ambiente festivo e da coletividade.

Kátia /USP

revelou certa dificuldade para chegar à materialização do espaço, ficou presa à movimentação, que se apresentava, na sua imaginação, muito circense. Não conseguia imaginar que cenografia atenderia a esta movimentação dos atores. Buscou um significado para este movimento e chegou à palavra vertigem, na sensação de vertigem que pode ser provocada no público. A partir desta definição resolveu colocar a platéia no mesmo nível dos “pássaros”, com a preocupação de que o público se enxergasse e se sentisse dentro deste espaço, como parte desta cidade, um espaço que, segundo ela, está situado entre a terra e o céu, em suspensão.

“Pensei em uma estação de arborismo para uma movimentação mais aérea; a maquete para o exercício ASA- CÉU- UTOPIA me levou ao teatro de Arena. Resolvi aproveitar algumas idéias desta maquete e juntar com outras idéias a sensação de vertigem que pode ser provocada no público. Coloco a imagem da Terra em um plano mais baixo; trazer a idéia de que esta cidade fica entre o céu e a Terra, que ficou muito forte para mim. Uma idéia que achei muito engraçada foi a cobrança de impostos a partir da medição da abóbada celeste. Este espaço está em um Teatro, com urdimento – a imagem da Terra seria uma imagem projetada em movimento que apareceria em dado momento. O primeiro desenho me deu uma visão de ser uma nave espacial. Plataformas como lugares de atuação, para dar o texto, acho que é possível conciliar”.

A importância da palavra diante de num teatro tão físico... As sensações como nestes exemplos e de outros, este estado de suspensão, precisam necessariamente ser provocadas por uma suspensão física do indivíduo? Provocar um modo de estar real para causar sensações desejadas não será uma forma de distanciamento do enunciado principal? Onde fica a sublimação (no sentido de elevar, exaltar, engrandecer) neste caso, ela pode emergir da sensação ou tornou-se desnecessária? A busca pela sensação, a realidade da matéria e do espaço, são características que encontramos nas proposições das visualidades cênicas no nosso tempo, talvez em contraponto à ilusão, mas ainda com a necessidade de surpreender. Possibilitar à audiência a perda do senso de direção pode conferir um sentido de uma jornada, de algo que nos impele ao movimento. O sentido de recriar simbolicamente uma jornada pode ser tanto no aspecto físico do deslocamento como no espiritual, se relacionado a características específicas de uma cultura. A encenação, entretanto, não pode ser encurralada por uma idéia em um espaço limitado. Precisamos oferecer a possibilidade inclusive de escapar deste espaço, basicamente, temos que criar um espaço e deixar que os atores construam suas relações, seus relacionamentos. Os atores e a audiência precisam poder ver algo que não está lá. Existe uma grande diferença entre mostrar e ver.

No grupo da UNIRIO, percebo-os mais focados na linguagem e há pouca contaminação destes alunos em relação a conceitos para tratar o ator ou o espectador. A espacialidade é muito mais conseqüência daquilo que a linguagem pretendida traz consigo, os códigos pelos quais é identificada; o mais visível é a preocupação com a movimentação do ator pelo espaço cênico. Alguns alunos desenvolveram o espaço cênico ou o cenário tendo em comum um conceito que me pareceu revelado na maioria dos projetos, a idéia de ASCENSÃO (que encontramos

também na descrição dos projetos de alunos da UFRJ).

Ana/ UNIRIO “Cheguei a propor um