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Chapter six: Co-production within the recovery college

In document Rose Boyle, IKF_THE.pdf (1.398Mb) (sider 86-107)

Beauvoir (1990) abre esse trecho informando que os judeus são conhecidos pelo apreço à velhice. Em seguida, se pergunta acerca do assunto: o que é a parte do mito e da realidade? E se reponde como uma fronteira que não se demarca facilmente.

Trazendo a base econômica, esta explica que os judeus haviam se fixado na Palestina, pondo fim do nomadismo. Agora eram agricultores e a sociedade se transformara tendo mais classes sociais.

Neste contexto, a velhice era uma recompensa da virtude. Se os preceitos divinos fossem observados, teriam vida longa na terra. E, em sendo esta fase uma dádiva de Deus, a velhice seria abençoada e exigiria respeito e obediência. Está nos dez Mandamentos – honrar pai e mãe. Para que Moisés não fizesse a transmissão, só foi-lhe dada uma Gerusia.

Gostaria de chamar a atenção para a pouca polarização entre jovens e velhos. Destaca-se, no caso da cultura religiosa judaica, a ênfase na forma de lidar consigo mesmo; estimula-se a virtude, como cumprimento das prescrições estabelecidas nas mesmas escrituras, para se chegar à longevidade. A aliança entre política e cultura religiosa, nesse quadro, faz diminuta a tensão intergeracional.

Embora tenhamos uma cultura religiosa judaico-cristã, esta não comparece com a mesma dimensão e proporção que a realidade judaica a assume. Ao contrário, aqui no Brasil a tensão intergeracional é muito marcada.

Margaret Mead (1970), ao tratar da transmissão cultural, afirma que as gerações, desde a Segunda Grande Guerra, estão isoladas umas das outras. Nenhuma será igual a outra, nem a que antecede e nem a que a sucede. Torna-se insular cada uma. A comunicação entre elas fica truncada.

Para elucidar a questão, Mead (1970) utiliza o exemplo da comunicação entre um americano e um inglês. Ambos falam o mesmo idioma, porém existem diferenças culturais e linguísticas que os tornam estrangeiros um para o outro.

Trazendo a discussão para mais próximo, afirmo que um português no Brasil terá sotaque, pois vem de fora. Para ilustrar, um cearense expressará sua extrema

fome com “estou morrendo de fome”, uma expressão hiperbólica em que a ausência poderia ser de tal ordem que a própria existência pode estar comprometida. Enquanto um português dirá “estou cheio de fome”. O cearense se indagará: como posso estar cheio de um vazio? Cheio para ele implica uma saciedade. A comunicação não é da ordem do impossível, mas do estranhamento. Há que se fazer um esforço, uma análise para compreender o cheio. Ele não é da ordem de saciedade, mas da totalidade. Assim, a intergeracionalidade trará o mesmo estranhamento: será estrangeira uma a outra, e, consequentemente, haverá uma dificuldade comunicacional que, recursivamente, alimenta a tensão e, por sua vez, é alimentada.

Tomando por base o pensamento de Mead (1970) na transmissão da cultura, vejamos: no primeiro momento, os velhos detêm o saber e passam para os mais jovens, o momento Pós-figurativo, como conceitua a antropóloga; no segundo momento, a geração do meio, a dos adultos, autorizam a inovação cultural dos mais jovens, o momento co-figurativo; e, no terceiro momento, os jovens ensinam aos mais velhos, o momento pré-figurativo.

A vivência do pós-figurativo foi vista com as idosas pesquisadas: é o ensino dos mais velhos aos mais jovens. É quando um saber geracional – ancestral – cumpre- se e é transmitido. Esse saber realiza sua transmissão, quase sempre, em situações junto ao trabalho, “que cansa o corpo”.

Experiências pretéritas

Idosa: Eu pequenininha já ia pro roçado...

Idosa: Aí ele olhava e dizia: tá certo, tá errado. Então, a gente aprendia ali na

convivência vendo o outro fazer.

Idosa: No roçado tudo eu sei fazer. Torrar farinha, arrancar mandioca... O

que precisar disso eu ensino. (Narradora Idosa)

O trabalho do mundo rural cresce como lembrança nas memórias das velhas do Centro Comunitário São Francisco: a roça, o trabalho com o corpo coletivo assegurando mais-valia...

Figura N.º 2.3: Café

Cândido Portinari, 1935.

Os trabalhadores agrícolas da cafeicultura, aqui representados na pintura de Portinari, são postos com corpos, como máquina-instrumento, fisicamente fortes. Isto está expresso tanto nos homens quanto nas mulheres. Já o cotidiano dos trabalhadores da agricultura apresenta-se fisicamente desgastante. Está presente a colheita, o manuseio e o transporte detalhando uma rotina extenuante. Estes corpos-máquina- instrumento apresentarão, cedo ou tarde, sinais de desgaste, dores e diminuição da força. Mas este é também um espaço de aprendizado, pois os velhos sabem ensinar aos futuros trabalhadores que, na tenra infância, se forjavam adultos na labuta enquanto aprendiz das técnicas e do corpo-máquina-instrumento.

O momento co-figurativo, como fase de transição na inovação cultural, é trazido pelos jovens, mas com anuência da geração do meio. A mais velha não mais é consultada. Esta fase não apareceu na pesquisa, mas subentende-se que, para a geração vindoura, que a sucede, possa fazer sua transmissão.

Na geração mais nova, então, tem-se o momento pré-figurativo, que se configura como a ensinagem dos mais jovens aos mais velhos; e neste aspecto, ninguém escapou.

As novas tecnologias realizam um momento pré-figurativo, ímpar, na história: os jovens (especialmente os netos) ensinando o manuseio de aparelhos e, dentro disso, a transmissão se dá de modo importante.

O tempo passa e as coisas mudam

Idosa: Eu não sei mexer é com nada desses aparelho moderno...

Idosa: Eu tenho o meu bonitão, mas não sei fazer muita coisa. De primeiro

eu não faço coisa nenhuma, eu só sei passar o dedo pra apertar, depois foi desarnando...

Idosa: Quando chega um celular diferente... Quem é que vai me ensinar a

mexer? Os netos. Alguma coisa eu aprendo com eles mais. Mas não sei como eles.

Idosa: Vou aprendendo com o neto porque o neto já sabe mexer nos

equipamentos. (Narradora Idosa)

Assim, a transmissão da cultura, no pensamento de Mead (1970), apresenta gerações que possuem traços mais pré-figurais, ou mais pós-figurais. Essa ideia de analisar a transmissão pelo que cada geração pode ensinar apresenta-se como válida para compreender o lugar dos velhos na nossa cultura contemporânea. Dele se apreende que o lugar que o velho ocupa não é mais o de estar na condição de transmissor de um saber prático operacional, ao contrário, o coloca na condição de aprendiz com a nova geração. Contudo, seu vivido traz, intrinsecamente, a experiência, um saber do valor ético e moral inegável e que pode e deve ser intercambiado com os mais jovens.

O lugar de intercâmbio entre dois estrangeiros, dois sujeitos diferentes, pode ser marcado pelas transmissões de um tipo ou de outro em sua dominância. Isto implica, para ambos, o desafio de se disporem na condição concomitante de aprendizes e transmissores, bem como no esforço, em nome desde processo, de superar as barreiras geracionais – a superação do estranhamento de ambos.

Posso afirmar, desde agora, que este processo foi vivido na pesquisa quando o pesquisador, geração mais jovem, se propôs a trazer saberes, porém, logo se viu revelando-se como aprendiz. A aproximação e a descoberta causaram admiração e

encantamento para com esses idosos fortes, essas mulheres corajosas, cheias de solidariedades pulsando-lhes no coração da vida. Viveram e venceram muitos desafios; e não estão mortas.

In document Rose Boyle, IKF_THE.pdf (1.398Mb) (sider 86-107)