Beauvoir (1990), ao tratar da velhice dos romanos, abre seu texto estabelecendo a relação entre as condições existenciais dos velhos, no contexto desta cultura, com a estabilidade econômica e política. Na verdade, estamos constatando que as condições existenciais na velhice se relacionam com os modelos e mudanças nos regimes políticos, que também se munem de coletividades interpretativas. Ainda que repletas de ambiguidades, como se observa, já que não são redutos homogêneos, é certo que sempre haverá rupturas tanto no pensamento dos sistemas políticos como nas subjetividades e nos desafios de superação de limites.
Assevera Beauvoir (1990) que a história do povo romano permite inferir esta relação de modo muito vivo. Então, afirma que até o século II, antes de Cristo, a República era sólida e conservadora, os privilégios da fortuna eram significativos e o governo oligárquico favorecia a velhice.
A representação teatral em Plutarco traz, por outro lado, os pais velhos como avarentos, que rivalizam e obliteram o prazer dos filhos. Beauvoir (1990) tece seu comentário acerca do dramaturgo, arguindo que se os velhos tivessem realmente o poder como na China, não teria sido permitido que ele desse esse colorido à velhice.
A autora retoma o aspecto político e econômico afirmando que, devido ao fim da oligarquia, os velhos perderam privilégios, que logo se refletiu no corpo social, vindo, posteriormente, a ruir completamente muitas das conquistas feitas.
Nesta fase conturbada, o senado perde força política, cedendo-a para a força militar, e nessa admissão da juventude, da força física, o poder que os velhos alcançaram também se dilui. O imperador é esse homem jovem que governa quase que sozinho, ou seja, sem o senado, mas que perde funções administrativas e políticas. Assim, a ambiguidade dos gregos se faz presente em Roma. Beauvoir (1990), por meio de Cícero, reafirma esta posição social em que a extrema pobreza financeira torna a velhice insuportável, até mesmo para um sábio.
Em nosso país, pode-se dizer que, no universo rural, mesmo nas classes populares, os velhos e as velhas eram mais bem tratados. Certamente, eles haviam plantado e roçado para sustentar os filhos – tanto o homem como a mulher – e, quando já não conseguiam isso, com a perda das forças físicas, havia um lugar de reconhecimento de seu papel na família e no ambiente social. Veremos que havia uma supremacia do homem sobre a mulher – e essa questão de gênero será abordada mais longamente. Por agora, ressalto aqui que a perda de território, a migração dos sujeitos que viviam no mundo rural para as cidades não lhes deu, no mundo urbano, o mesmo lugar que no rural.
Sertão X Urbano
Idosa: A gente no interior era mais valorizada. Os velhos tinham trabalhado
a vida toda. Calejados. E os filhos reconheciam isso. Parece que trabalho de velho na cidade ninguém reconhece.
Mulher, então, que fica no lar, fazendo muita coisa até hoje, não é valorizada. É como se ela não trabalhasse, porque não tem carteira assinada.
Mas no interior, no roçado, mesmo vida dura, a gente era mais estimado pelos filhos e netos. Mais respeitado.
(Narradora Idosa)
Assim como no mundo romano houve a perda de lugar social, que influiu na desvalorização dos velhos, com a perda de força do mundo interiorano, em geral sertanejo, no Nordeste do Brasil, na vinda para a cidade, na migração para o mundo urbano, o homem que vivia no mundo rural queda-se em desvalorização. Seus saberes aqui não possuem mais valor como antes; não possuem serventia; advém o desemprego maciço; e o lugar de quem é trabalhador é perdido, diluído, modificado.
No Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz (2010), tem-se a vida no campo, como antigamente o era, sem tantas mediações de consumo para quem é
pobre: “da mão” (do trabalho no roçado, feito com as mãos) “pra boca” (para alimentar- se). Com as palavras da autora:
O velho, que se chamava Amaro (a mulher se chamava Libânia), depois de ouvir meu relato, só fez um reparo:
- Aqui não tem vizinhança. Não tem onde se comprar nada. A gente vive da mão pra boca.
(RACHEL DE QUEIROZ, 2010, p:115)
E, mais adiante, em uma fuga de Maria Moura, que se veste de homem para escapar de violências e estupro contra ela, tem-se os avisos, a guia e o saber dos mais velhos ensinando o caminho do seu jeito.
Minha ideia era seguir entre o norte e o poente, como ensinava o Avô. Mas, “entre o norte e o poente” é bom de falar. Na prática, parece que o mundo inteiro pode ficar entre o norte e o poente. Afinal, isso quer dizer a quarta parte do horizonte.
(...) Dizia o velho: No que avistasse a serra, era só procurar os serrotes do pai e do Filho. Pelo menos a gente tinha esta referência, os tais serrotes de pedra que não mudavam de rumo, nem desabavam no chão, como casa velha. (RAQUEL DE QUEIROZ, 2010, p: 229)
Metáfora segura para nossa reflexão sobre o que vai ruindo e o que se sustenta: havia referências que não mudavam, ficavam fincadas, como Maria Moura percebia ser alguns ensinos do velho que a guiava; e havia coisas que ruíam como asa velha. Realmente, o velho vai guiar a Moura pelos lugares aonde ninguém andava, já que ela objetivava uma fuga – inclusive da situação de espoliada, pois os parentes que se julgavam mais ricos, acreditavam ter mais direitos sobre ela; que ainda era usada em sua condição feminina, o que ela virá a falar mais depois. Veja a narrativa sucinta de Maria Moura:
– Não vê – eu disse – estou aqui vestida nestes trajos de homem, à força, para me esconder dos meus inimigos. Vossemecê conheceu logo que eu sou uma moça – moça de boa família, não é? Fui expulsa da minha fazenda por uns carrascos, que queriam se apossar do que era meu, quando me viram órfã de pai e mãe. Fizeram tudo para me tirar do meu sítio e, por fim, tocaram fogo na minha casa.
Voltando ao contexto concreto das lutas sociais da velhice e considerando o aspecto econômico concernente à população local, esclareço que os velhos tiveram, entre 1998 e 2008, uma redução do quadro de pobreza como um todo.
Na condição de indigência, renda domiciliar per capita inferior a ¼ de salário-mínimo, havia 13,57% indigentes em 2008; já na condição de pobreza, renda domiciliar per capita inferior a ½ de salário-mínimo, existia 21,30% de pobres em 2008 (COSTA, 2010).
Ainda trazendo dados econômicos desta feita do grupo de convivência do qual se retirou um subgrupo para a intervenção, os dados foram obtidos junto às fichas de recadastramento. Vejamos o perfil econômico dos integrantes do grupo pesquisado: Tabela N.º 2.2: Condição Econômica dos Velhos
Renda Individual Número %
Sem renda 6 4,62 De R$ 1,00 a 880,00 108 83,08 De R$ 801,00 a 1.000,00 3 2,31 De 1.001,00 a 2.000,00 9 6,92 De R$ 2.001,00 a 3.000,00 2 1,54 De R$ 3.000,00 a 4.000,00 2 1,54 Acima de R$ 4.001,00 - - Não informada - - TOTAL 130 100,00 Fonte: o pesquisador.
O grupo tem uma concentração extremamente excessiva na renda mais baixa, um salário mínimo, ou seja, 83,08%. Lembrando que, mesmo com esta pífia renda, 63% dos idosos são a referência das famílias, ou seja, como chefe. A segunda maior faixa está entre R$ 1.001,00 de R$ 2.000,00, ou seja, 6,92%, seguido dos sem renda, 4,62%. A tabela não traz novidades.