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Chapter Two: Reimagining Domestic Space

Esta seção apresenta algumas definições conceituais sobre trajetória tecnológica, catch-up tecnológico, fronteira tecnológica e acumulação de capacidades tecnológicas.

3.3.1 Ideias básicas sobre trajetória tecnológica, catch-up tecnológico e fronteira tecnológica

Trajetória tecnológica é compreendida nesta pesquisa conforme os conceitos desenvolvidos por Kim (2003), Bell (2010) e Dosi e Nelson (2013). Kim (2003) define uma trajetória tecnológica como a direção evolucionária de avanços tecnológicos que são observados entre indústrias e setores. Uma trajetória tecnológica envolve o refinamento e melhoria progressiva das respostas de fornecimento para as demandas e exigências técnicas (DOSI; NELSON, 2013). Ou seja, pode ser compreendida como a trajetória na qual inovações acontecem em um determinado campo, ou a direção de um avanço tecnológico (BELL, 2010).

Nesta pesquisa, o termo ‘catch-up tecnológico’ é entendido conforme os estudos de Bell e Pavitt (1993, 1995) e Bell e Figueiredo (2012a). A ideia do conceito catching-up está centrada em termos de estreitamento ou ampliação de lacunas entre as capacidades tecnológicas de empresas da fronteira tecnológica internacional. Essa lacuna pode ser entendida de duas formas: (i) fronteira internacional de capacidade de produção e (ii) fronteira internacional de capacidade de inovação. Enquanto a primeira está relacionada com taxas de produtividade, a segunda tem a ideia de geração e gestão de mudança na tecnologia, sistema de produção e produto, passando de usuários de tecnologia para empresas que adaptam, incrementam, melhoram ou criam

tecnologias (BELL; PAVITT, 1993; BELL; FIGUEIREDO, 2012a). Nesta pesquisa, o interesse é pelo catching-up para gerar e gerir a inovação.

As organizações latecomers realizam diferentes processos de catch-up tecnológico. Lee e Lim (2001) identificam três tipos de processo de catch-up tecnológico: (i) path-following: a empresa latecomer busca a mesma trajetória desenvolvida por empresas líderes do setor; (ii) stage- skipping: a empresa latecomer busca a mesma trajetória desenvolvida por empresas líderes do setor, porém realiza esforços para pular determinados estágios para acelerar seu processo; e (iii) path-creating: a empresa latecomer cria uma trajetória diferente das empresas líderes e esse processo pode ocorrer a qualquer momento, seja no início ou após a empresa ter perseguido os líderes por algum tempo (FIGUEIREDO, 2010). Figueiredo (2010) e Bell e Figueiredo (2012b) argumentam que a fronteira tecnológica não pode ser concebida como um end point ou um alvo móvel, mas, sim, como uma área ou horizonte fluído para ser explorado.

Existem organizações latecomers que acumulam suas capacidades tecnológicas partindo dos níveis mais básicos e, no decorrer do tempo, aproximam-se da fronteira tecnológica existente. Em outros casos, algumas empresas latecomer se aproveitam de “janelas de oportunidade” e iniciam trajetórias tecnológicas disruptivas e inéditas, inaugurando trajetórias tecnológicas que podem torná-las líderes internacionais. Essas novas trajetórias tecnológicas podem se aproveitar de nichos, como “protected spaces for the development and use of promising technologies by means of experimentation, with the aim of (1) learning about the desirability of the new technology and (2) enhancing the further development and the rate of application of the new technology.” (KEMP; SCHOT; HOOGMA, 1998, p, 186).

Smith, Stirling e Berkhout (2005) comentam que geralmente novas tecnologias coevoluem simultaneamente. Mazzoleni e Nelson (2007) argumentam que trajetórias de catch-up tecnológico em agricultura, por exemplo, “could not simply copy technologies and practice in countries at frontier, but needed to develop technologies suited to their own conditions.” (p. 1516). Ou seja, como essa área de conhecimento é sujeita a condições específicas (ex.: solo, clima, água, doenças, pragas etc.), é necessário (se não, obrigatório) que países e/ou indústrias criem a sua própria trajetória; enquanto o catch-up tecnológico na indústria manufatureira pode ser adaptado com modificações modestas e com custos não tão expressivos (MAZZOLENI; NELSON, 2007).

3.3.2 Algumas definições sobre capacidade tecnológica

As definições de capacidade tecnológica na literatura sobre empresas latecomers são encontradas a partir da década de 1970. Katz (1976) inaugura a ideia de “atividade inventiva” e Dahlman e Westphal (1982) formulam o conceito de “domínio tecnológico”. Os conceitos de Bell, Scott-Kemmis e Satyarakwit (1982), Westphal, Kim e Dahlman (1984) e Scott-Kemmis (1988) consideram que a capacidade tecnológica inclui as aptidões e os conhecimentos incorporados dentro da organização, nos trabalhadores, nas instalações e nos sistemas organizacionais, usando o conhecimento tecnológico para produzir mudanças tanto na produção quanto nas técnicas utilizadas. Lall (1992) avança essa ideia e considera que a capacidade tecnológica de uma empresa é de natureza intrínseca, isto é, requer um esforço deliberado interno à organização para dominar novas tecnologias e adaptá-las às condições locais, e ela difere de uma para a outra e, por isso, o conhecimento tecnológico não é completamente partilhado, transferido ou imitado entre as empresas. Kim (1993) avança em todas as proposições anteriores e considera que a capacidade tecnológica é a habilidade ou a capacidade para aplicar conhecimentos tecnológicos em diferentes atividades para adaptar a organização ao contexto no qual está inserida e responder às mudanças do ambiente.

Neste trabalho, capacidade tecnológica inclui um estoque de recursos relacionados ao conhecimento que permite que uma organização realize atividades de produção e diferentes níveis de inovação. A capacidade tecnológica está acumulada em diferentes componentes (FIGUEIREDO, 2001, 2014; DANTAS; BELL, 2011; BELL; FIGUEIREDO, 2012a): (i) capital humano – profissionais especialistas, bases de conhecimento e habilidades/talentos que são formal e informalmente alocados dentro de unidades organizacionais específicas, projetos e times; (ii) sistemas organizacionais – arranjos organizacionais da firma, como as rotinas e procedimentos, conexões e sistemas gerenciais; e (iii) sistemas técnico-físicos – hardware, software, bases de dados, laboratórios, equipamentos etc.

Bell e Pavitt (1993, 1995) diferenciam a “capacidade de produção” e a “capacidade inovadora”. Esses autores consideram capacidade de produção as capacidades de rotina, que são as habilidades para as atividades operacionais e de produção de bens e serviços com determinado nível de eficiência, podendo ser descrita como a habilidade de uso de tecnologia, conhecimento e sistema organizacional. No outro espectro, a capacidade inovadora refere-se à incorporação de

recursos adicionais e distintos para gerar e gerenciar a mudança tecnológica, conhecimentos, experiências e sistemas organizacionais; e criar, alterar e/ou aprimorar produtos, processos, organização de produção e/ou equipamentos (FIGUEIREDO, 2010; BELL; FIGUEIREDO, 2012a). Adicionalmente, Chesbrough (2006), Dantas e Bell (2009, 2011) e Bell e Figueiredo (2012a) acrescentam novos elementos que devem ser considerados para o entendimento do que é a capacidade tecnológica.

De acordo com esses autores, as capacidades tecnológicas das empresas podem não se concentrar completamente dentro das firmas. Essas capacidades podem estar distribuídas dentro e fora da organização e parte considerável dessas capacidades estão alojadas em fornecedores, consultorias, institutos de pesquisa, universidades etc. Há o uso proposital de fluxos (inflows e outflows) de conhecimento para acelerar a inovação interna (CHESBROUGH, 2006). Dessa forma, a organização necessita criar capacidades de integração de conhecimento externo à sua base de conhecimento interno e coordenar a geração de conhecimento externo à empresa se adequando aos diferentes contextos de seus parceiros (BELL; FIGUEIREDO, 2012a).

Quando (e se) as organizações latecomers avançam no seu processo de catch-up e acumulam capacidades substanciais para inovar em nível de liderança mundial, autores como Prahalad e Hamel (1990), Leonard-Barton (1995) e Teece, Pisano e Shuen (1997) são úteis para a compreensão do comportamento da organização. Cada autor define seu conceito de forma diferente. Prahalad e Hamel (1990, p. 82) definem core competence como “um aprendizado coletivo na organização, especialmente em como coordenar diversas habilidades de produção e integrar múltiplos fluxos de tecnologia.” Leonard-Barton (1995, p. 20), de outro lado, define strategic technological assets como uma vantagem competitiva da empresa que foi estabelecida ao longo de sua trajetória e de difícil imitação. Por fim, Teece, Pisano e Shuen (1997, p. 516) definem dynamic capabilities como “[…] the firm´s ability to integrate, build, and reconfigure internal and external competencies to address rapidly changing environments.”

Nesse sentido, essa literatura busca trazer entendimento de como as empresas que já realizam atividades inovadoras devem aprofundar e ampliar suas capacidades inovativas e empurrar os limites da fronteira tecnológica internacional (BELL; FIGUEIREDO, 2012a).

Dutrénit (2000) talvez tenha sido uma das primeiras pesquisadoras que buscou conectar essas duas dimensões: tecnológica e organizacional (BELL; FIGUEIREDO, 2012a). A ideia básica é

que “a importância relativa de diferentes tipos de questões organizacionais parecem variar com os diferentes níveis de atividade inovadora.” (BELL; FIGUEIREDO, 2012a, p. 58). Portanto, quando a organização latecomer amplia suas capacidades tecnológicas, podem ocorrer mudanças na estruturação organizacional de como ela ordena as atividades inovadoras internamente e em arranjos colaborativos.

3.3.3 Ideias básicas sobre atividades inovadoras

Para que as organizações possam realizar atividades inovadoras, é necessário que elas desenvolvam suas capacidades tecnológicas. Mas como o termo ‘inovação’ é compreendido nesta pesquisa? Utiliza-se, aqui, uma visão ampliada que compreende a inovação como algo mais abrangente, em que a inovação é um processo, que envolve um espectro de atividades, ou seja, com caráter de gradação ou continuum de atividades (DOSI, 1988) com graus de sofisticação e dificuldades crescentes. A partir do século XX, a inovação foi inserida no debate sobre desenvolvimento econômico sob influência principalmente das ideias de Joseph Schumpeter (VON TUNZELMANN, 1995; SZMRECSÁNYI, 2006).

Para o correto entendimento e aplicação desse termo, é necessário inicialmente discutir a distinção entre invenção e inovação. Freeman (1982) conceitua invenção como uma ideia/esboço/modelo voltado para um produto, processo ou sistema novo e/ou aperfeiçoado, com possibilidade de ser patenteado, mas que não resulta necessariamente em inovação tecnológica. Schumpeter ampliou a perspectiva da ideia de inovação para: (i) introdução de novos produtos; (ii) introdução de novos métodos de produção; (iii) abertura de novos mercados; (iv) desenvolvimento de novas fontes provedoras de matérias-primas e insumos; e (v) criação de novas estruturas de mercado. O autor não limita, portanto, a inovação somente para produtos e processos, mas, sim, amplia para a articulação de novas formas de gestão e abertura de mercados (FIGUEIREDO, 2005)3. Inovação é um processo que envolve busca,

descoberta, experimentação, desenvolvimento, imitação, e adoção de novos produtos, processos de produção e arranjos organizacionais (DOSI, 1988). Bell e Figueiredo (2012a) distinguem graus de novidade da inovação em termos tecnológicos e de mercado, ou seja, graus de

3 Em Campos (2006), é encontrada uma discussão mais profunda sobre ciência, tecnologia e economia e, mais

diferenciação entre inovações próximas de pura imitação até as fundamentalmente diferentes de qualquer outra coisa existente.