Esta seção discute sobre o papel da aprendizagem tecnológica na acumulação de capacidades tecnológicas. Dodgson (1993) e Bell e Figueiredo (2012b) ajudam a entender como a aprendizagem na literatura de inovação pode ter várias interpretações. Bell e Figueiredo (2012a) identificam três abordagens de aprendizagem nessa literatura que têm limitações para o propósito da análise deste trabalho e clarificam o que a aprendizagem não é nesta pesquisa. A primeira abordagem considera o aprendizado como um tipo específico de inovação (SCOTT- KEMMIS; BELL, 2010). A segunda abordagem considera o aprendizado como um tipo particular de conhecimento (AMSDEN, 1989; VIOTTI, 2002), usualmente como mecanismo para a criação de conhecimento por canais externos, em vez de atividades de criação de conhecimento. A terceira e última abordagem considera a aprendizagem como criação de conhecimento de fontes externas à empresa (COHEN; LEVINTHAL, 1989).
Nesta pesquisa, a aprendizagem é entendida nos moldes de Bell (1984) e Bell e Figueiredo (2012a), que apontam que ela é constituída de processos conscientes, intencionais, custosos, não automáticos, ativos e deliberados, por meio dos quais habilidades e conhecimentos técnicos são adquiridos por indivíduos e pela organização. Malerba (1992) argumenta que a aprendizagem é acumulativa e aumenta o estoque de conhecimento ou as capacidades tecnológicas da empresa. Bell e Figueiredo (2012a) consideram que a aprendizagem é a maneira pela qual a empresa adquire conhecimentos e habilidades necessários para engajar esforços em atividades de inovação.
O aprendizado tecnológico pode acontecer tanto de forma interna, pela criação de conhecimento pela própria empresa, quanto de forma externa, pela busca de fontes localizadas fora da organização, podendo ser dentro e/ou fora do seu mercado e país. Esse relacionamento externo pode acontecer com diversos atores, como universidades, institutos de pesquisa, fornecedores, competidores, usuários, empresas parceiras etc. Desse modo, é imperativa a importância de integração entre a aprendizagem externa e a interna (KIM, 1997a; FIGUEIREDO; COHEN; GOMES, 2013). Bell e Pavitt (1993, p. 163) comentam que: “Technological accumulation (or
technological learning) refers to any process by which the resources for generating and managing technical change (technological capabilities) are increased or strengthened.” Portanto, se uma organização almeja aprofundar suas capacidades tecnológicas rapidamente e superar descontinuidades tecnológicas efetivamente, é necessário que esforços de aprendizagem sejam realizados de forma intensa.
A aprendizagem tecnológica será examinada nesta pesquisa pelos diferentes mecanismos de criação e assimilação de conhecimento. De forma pioneira, Bell (1984) elaborou uma tipologia de atividades de aprendizagem dividida em: learning-by-doing, operating, changing, searching, hiring, training e system performance feedback. Essa tipologia realiza uma importante distinção entre modos ativos e passivos de aprendizagem. Porém a literatura do tema avança na proposição de outros mecanismos de aprendizagem (para uma revisão dos principais mecanismos de aprendizagem, consultar Queiroz (2006)). Malerba (1992) e outros autores argumentam sobre outros cinco tipos de atividade: learning by searching, using, interacting, from inter-industry spillovers e from advances in science and technology.
Contudo, outros autores examinam outros mecanismos de aprendizagem, por exemplo: (i) learning through linkages (LUNDVALL, 1988); (ii) learning from users (VON HIPPEL, 1988); (iii) learning by competitors (WHIPP; ROSENFELD; PETTIGREW, 1989); (iv) learning in R&D (COHEN; LEVINTHAL, 1989); (v) learning by joint ventures & strategic alliances (DODGSON, 1993); (vi) learning before doing (PISANO, 1996); (vii) learning by sharing (NELSON; WINTER, 1982; MARCELLE, 2004); (viii) learning by field experimentation (MARCELLE, 2004); e (ix) learning by large-scale project management (MARCELLE, 2004). Esses mecanismos de aprendizagem tecnológica são úteis para a compreensão de quais são as possíveis fontes que as organizações, principalmente as que estão inseridas em contextos de mercados emergentes, podem utilizar para criar capacidades de produção e de inovação.
Bell e Figueiredo (2012a) argumentam que a literatura de aprendizagem em empresas latecomers ainda é limitada em duas áreas: (i) entendimento sobre a importância relativa dos diferentes mecanismos de aprendizagem e (ii) entendimento sobre a efetividade de sua implementação. Esta pesquisa, busca adicionar evidências empíricas para compreender a primeira limitação, ou seja, compreender a importância relativa dos mecanismos de aprendizagem tecnológica e como isso varia enquanto a indústria acumula capacidades tecnológicas. Os mesmos autores discutem sobre a importância dos mecanismos da aprendizagem colaborativa:
In a wide range of ways (‘open’ innovation, ‘distributed’ innovation, and so forth), the process of innovation is being substantially disintegrated – or organizationally decomposed – and, as firms adopt a variety of different post-Chandlerian forms, integrated innovation activities that used to be undertaken in-house ad on a highly centralized basis are being increasingly subdivided into specialized segments, many of which are decentralized in various ways. This organizational decomposition may be largely internal to the firm […]. Alternatively, the decomposition may be inter- organizational. (BELL; FIGUEIREDO, 2012a, p. 79).
Porém, a literatura sobre aprendizagem tecnológica em economias emergentes não é suficiente para elucidar algumas questões que esta pesquisa de tese se propõe. Então, as literaturas sobre learning organizations, Aprendizagem Organizacional (AO) e strategic management apresentam uma série de méritos que podem ajudar os estudiosos de inovação de empresas de economias emergentes a entenderem como ocorrem os mecanismos de aprendizagem nesse tipo particular de organização. Essa literatura se torna útil quando as organizações latecomers já realizaram o processo de catching-up e acumularam capacidades tecnológicas em nível de fronteira internacional. O foco dessa literatura é compreender como as organizações exploram, aumentam e renovam suas capacidades tecnológicas e avançam a fronteira tecnológica internacional.
Logo, essas abordagens aplicadas de forma automática se mostram limitadas para o propósito desta pesquisa, uma vez que as empresas latecomers precisam muitas vezes, primeiramente, familiarizar-se com as diferentes formas de adquirir conhecimento para aprenderem como realizar atividades de produção e, depois, engajar-se em atividades de inovação em níveis elementares (BELL; FIGUEIREDO, 2012a). Porém, essa literatura, assim como a literatura de aprendizagem em empresas latecomers, não avançou na compreensão das mudanças dos mecanismos de aprendizagem no decorrer do tempo. Autores como Cohen e Levinthal (1989), Iansiti e Clark (1994) e Zollo e Winter (2002) dão insights sobre diferentes graus de complexidade entre diferentes mecanismos de aprendizagem tecnológica.
Finalmente, este trabalho parte da premissa de que as estratégias de aprendizagem tecnológica desempenham o papel de variável com maior proximidade e com maior grau de influência na acumulação de capacidades tecnológicas (LALL, 1992; BELL; PAVITT, 1993; BELL; FIGUEIREDO, 2012a). Malerba (1992) comenta que, uma vez que há inúmeros mecanismos (fontes) de conhecimento, diferentes tipos de aprendizagem afetarão de forma diferente o estoque de conhecimento (e, por conseguinte, a capacidade tecnológica) das organizações. Desse modo, mudanças nas estratégias de aprendizagem são necessárias para que a empresa desenvolva capacidades tecnológicas mais sofisticadas.