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Chapter Analysis

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Chapter 2 – Setting the stage

2.9 Chapter Analysis

Enrijecimento de organismo potente; tipo fisicamente constituído e forte; aspecto dominador de um titã acobreado; verdadeiro pai d’égua; [...] homem de gênio forte; cabra se fazendo em arma com facilidade; falando sempre em mulheres; quase nu, de brincadeira com os outros, com os gestos dos touros, de pernas abertas e membro em riste, no deboche, na gargalhada; [...] uma rajada de saúde e força; músculos salientes e mãos calosas; mãos que seguram o fumo de corda e o canivete com que faz o cigarro de palha; mãos que manejam o chicote, o rebenque e a repetição, que manejam os facões, os machados e as foices, derrubando árvores e homens, jogando para longe matas, inimigos e assombrações; rosto picado de bexiga, fechado e soturno, contraído de raiva, que vê raios e ouve trovões, escuta o miado das onças e o silvo das cobras; cabra-macho que luta como Lampião, que enfrenta um batalhão, que trabalha de sol a sol, que de noite vai pro sermão, que reza para Padre Cícero e fala com Frei Damião; homem que prefere morrer a ser desonrado. [...] Eis o nordestino

70.

O Nordeste é alvo de filmes e romances que retratam a região como o lugar do diferente e o nordestino como o outro. Por meio de imagens e linguagens constrói-se e legitima-se o nordestino como esse outro, de maneira que as diferenças passem a ser entendidas como algo inferior. Vivian Andrade (2006; 2007; 2008), ao analisar o homem nordestino na cinematografia nacional, observa que essas produções constituem e legitimam a identidade do sujeito nordestino a partir de binarismos. Quando este não é o machão, viril, cabra da peste, rude e ignorante que impõe a ordem através da morte ou defende a honra com a coragem, ele é então deslocado para o outro extremo, passando a ser configurado como sabido, esperto, astuto, cômico, covarde e malandro, que ganha a vida dando pequenos golpes. Este sujeito é capaz de conciliar estas últimas características ao seu caráter viril. Quando falamos da masculinidade do homem nordestino, é quase comum associá-lo a palavras como

70 Descrição do homem nordestino feita por Albuquerque Jr (2003, p.19-20), a partir das obras de Almeida, J. A.

94 "macho", "virilidade" e "coragem", como se estas fossem inerentes ao masculino e, especialmente, ao nordestino.

No entanto, segundo Albuquerque Jr (Op. cit.), essas representações do Nordeste e do nordestino são elaborações culturais ou, em outras palavras, um discurso criado em um determinado momento da história que se reporta ao final do século XIX e início do século XX, culminando com o documento elaborado pelo movimento regionalista e tradicionalista chamado Livro do Nordeste, que circulou como encarte no Diário de Pernambuco em 1925, principal divulgador do ideário regionalista e tradicionalista na região. O Livro do Nordeste é um dos mais importantes documentos provenientes desse processo de reelaboração da identidade regional nordestina.

Congregando políticos e intelectuais de Pernambuco e dos estados identificados como nordestinos, a proposta do movimento era contribuir para traçar o perfil do homem da região por meio do resgate das tradições rural e patriarcal, que se daria com a produção cultural e artística. Essas práticas e discursos – além do combate ao cangaço, das revoltas messiânicas e dos conchavos políticos das elites para a obtenção e manutenção de privilégios do governo nacional – contribuíram para a institucionalização da ideia de Nordeste e de nordestino.

Para este movimento, considerava-se necessário recriar um homem que preservasse antigas tradições e costumes, resgatasse o modelo de masculinidade e virilidade, que fosse capaz de reagir à feminização da sociedade que o mundo moderno proporcionou e que garantisse a predominância econômica e política que a região havia perdido. A emergência de uma identidade nordestina se deu em um contexto em que a masculinidade no ocidente passava por uma crise, provocada pelas transformações oriundas da industrialização e vivenciada pelos homens das elites brasileiras, principalmente no Nordeste. A região passou a ser vista como se estivesse se feminizando, se horizontalizando e em declínio econômico e político, precisando de um tipo viril, masculino, macho, capaz de reagir à passividade e às diversidades da região. Dessa forma, como aponta Albuquerque Jr, a nordestinidade implica uma identidade de gênero, pois se relaciona diretamente com a masculinidade.

Um homem de costumes conservadores, rústicos, ásperos, masculinos; um macho, capaz de resgatar aquele patriarcalismo em crise; um ser viril, capaz de retirar sua região da situação de passividade e subserviência em que se encontrava (Ibid, 2003, p. 62).

95 Sendo assim, emerge um nordestino, homem por excelência, definidor dos papéis sociais e culturais da região, baseado nos elementos fundantes como o sertanejo, guardião dos valores sociais e morais da sociedade, capaz de enfrentar os novos modelos de masculinidade trazidos pela modernidade. O surgimento desse homem também se baseou no praieiro, no senhor de engenho ou coronel, no caboclo, matuto, no cangaceiro ou jagunço, no beato e retirante, pautados na força, na coragem e na virilidade. O nordestino é o bravo, o rude, o forte, o sertanejo viril, cabra da peste, matador de aluguel contratado pelos coronéis, invulnerável a tudo e todos; o sertanejo, verdadeiro habitante do Brasil, o elemento puro que não foi modificado, a união das três raças colonizadoras do país – como observou Freyre (1967) –, enfim, o tipo ideal para suportar o clima devastador da região, que sobrevive diante das dificuldades da seca e da fome.

Uma região feroz precisava de homens rústicos, resistentes, viris, fortes, híspidos, membrudos como os ancestrais indígenas; altivos, fortes, independentes e, às vezes, autoritários, cruéis e impiedosos com “as classes humilhadas” como os ancestrais portugueses; resistentes e trabalhadores como os ancestrais africanos (ALBUQUERQUER JR, 2003, p. 186).

Na construção de um tipo nordestino, observamos que o movimento privilegiava o sertanejo, um homem forte e resistente em um embate com a natureza, o homem do sertão; o tipo nacional no físico, cruzamento de três povos, embora com maior influência do indígena, em função de sua posição afastada do litoral e de influências externas. Como nos mostra Albuquerque:

[...] Um homem de fibra, aquela mesma do algodão, vegetal que fazia a riqueza da região, homem tão resistente quanto a fibra do algodão mocó, e, como ele, nativo daquelas paragens. Homem capaz de enfrentar as mais terríveis dificuldades, como as pestes, também tão comuns nos sertões, em época de estiagens, sem se intimidar, por isto era um cabra da peste. E era um cabra, por ser, como este animal, tão bem adaptado à natureza de pedra, seca; capaz de sobreviver comendo o que estivesse disponível. Anguloso como a cabra, o cabra nordestino [...] (Ibid, p. 186-187).

Podemos dizer que foi a partir da construção de um discurso que o habitante da região Nordeste ganhou uma identidade e passou a identificar-se com a própria região, que surge também como um produto discursivo, como uma invenção da modernidade brasileira, em um contexto de sociabilidade urbana e industrial proporcionada pela modernidade.

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