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4. Empirical Approach and Analysis

4.5. Changing market conditions

Na caça aos piratas, corporações e distribuidoras de vídeos latino-americanas difundem campanhas que circulam nos cinemas e em vídeos comerciais em DVD. Em geral, as campanhas são curtas-metragens que encenam famílias de classe média reunidas na sala de jantar, cuja harmonia é perturbada pela instalação de um conflito: a aquisição de um produto pirata.

Em um desses curtas, produzido pela União Brasileira de Vídeo, quando o pai convida a família a assistir um filme pirata, a filha o acusa de estar ajudando o crime e associa sua atitude à venda de drogas na escola. A recriminação se confirma com o enunciado em áudio, arrematando a moral da história: “o dinheiro que circula na pirataria é o mesmo que circula no crime organizado”. Por fim, confirma-se o slogan da campanha, “DVD pirata é crime, filme em DVD só original”46. Outro curta, este em língua espanhola, também exibe o cenário da família na mesa de jantar. Dessa vez, é a mãe que declara a aquisição do filme pirata. A avó, em cena, questiona se adquirir um filme pirata não é o mesmo que roubar. A mãe argumenta que não, porque comprou o produto. Na sequência, seu filho comunica que vai encontrar os amigos e, quando a mãe o reprime porque tem que estudar, replica que não precisa porque já adquiriu a prova. A mãe, pasma, pergunta se o garoto roubou o exame. Ele responde que o comprou. A câmera enquadra o rosto da mãe em close, a capturar uma expressão perturbada, de embaraço ou desolação. Com tom de lamento, o áudio repete as inscrições verbais que

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Campanha Antipirataria da União Brasileira de Vídeo. Disponível em:

intimidam o olhar-espectador através de uma escura tela de fundo: Las películas piratas se

ven mal, pero tú como papá te vês mucho peor. Qué le estás enseñando a tus hijos?47

O discurso de repúdio à violação do copyright converte o cidadão comum em destinatário. Os recursos são múltiplos: faz-se uso da interface da tela, a partir de uma comunicação audiovisual, sob o formato de curtas, interpelando o cidadão a assumir uma condição de espectador “honesto”. As estratégias atuam em duas vias: atrair o olhar-espectador a partir da identificação (a família) e produzir a rejeição à pirataria através de palavras ou imagens que remetam à violência. Em um instante, a estabilidade familiar é ameaçada pelo medo do ilícito e pela exposição dos filhos à insegurança.

A sedução do olhar-espectador se dá através da representação da família na sala de jantar. O retrato da ceia familiar porta uma sacralidade, sobretudo na memória cristã. O conflito se instala no cenário que deveria ser imaculado – não fosse o mau exemplo dos pais –, quando a interferência do “perigo” perturba a harmonia do lar. Logo, o objeto proibido descortina uma cadeia de ameaças: a má formação dos filhos, as drogas, o crime organizado. Doutrinando que os vícios da sociedade começam em casa, o discurso antipirataria faz uso do sincretismo dos meios audiovisuais, bem como das formas curtas e sedutoras da publicidade. Não obstante, com a ampla circulação dos vídeos, formas contestadas de recepção se manifestaram.

García Canclini (2008) relata que, nos cinemas do México, a exibição desses curtas gerou chacota. Quando o sermão final aparecia na tela: “O que você está ensinando a seus filhos?”, ouvia-se a piada de algum adulto: “a economizar”. Ao fazer uma busca na internet, é possível encontrar vídeos amadores que parodiam as campanhas antipirataria. O apelo ao humor é uma tática que atua no cotidiano, como forma de burlar discursos autorizados. A disseminação dessas paródias é favorecida pelas redes digitais de comunicação, em que cidadãos partilham suas próprias mensagens, através de blogs, sites de relacionamento e de armazenamento de vídeos.

A reação dos adultos, narrada por García Canclini, imprime, em tom de anedota, uma forma contestada de recepção, demarca uma posição discursiva arredia aos sentidos dominantes da

47 Tradução nossa: Filmes piratas são muito ruins, mas você, como pai, é pior ainda. O que você está ensinando

a seus filhos? Vídeo de Campanha Antipirataria. Disponível em:

campanha, contrapondo-os a um valor partilhado pelas famílias de classe média: a economia doméstica. Como indica García Canclini (2008), a economia é uma conduta virtuosa e um recurso de melhoria econômica; por isso, um valor atualizado na memória de países menos abastados. Assim, prossegue Canclini, é possível flagrar o coro de risadas do público juvenil, que recebe com escárnio o discurso legalista de uma ordem que distribui desigualmente o acesso aos bens culturais. A nova geração encara com naturalidade as possibilidades de partilhar bens simbólicos. Os jovens de países menos abastados experimentam as contradições de uma ordem mundial que manifesta os entusiasmos da globalização cultural, mas silencia os abusos da orientação neoliberal, que beneficia grandes investidores em detrimento dos próprios criadores e do público48. García Canclini (2008) pondera que os jovens são impelidos a combinar recursos formais e informais, legais e ilegais, para conectar-se, informar-se e divertir-se. Isto é, para dispor da vigor dos novos meios.

Por mais que a campanha se valha da tela, suporte privilegiado, foco convergente dos olhares, a sala do cinema se constitui como espaço de sociabilidade. Assim, a plateia se comunica, pleiteia e objeta sentidos, através da partilha de risadas, da manifestação do suspense ou da comoção, dos comentários que circulam durante e após a sessão. Portanto, o ambiente da sala de cinema é também lugar de mediação dos discursos veiculados na tela. No caso apresentado, essa mediação subverte a dominância de sentidos pretendida na campanha. A plateia devolve com ironia a lábia de criminalizar o consumo, a maneira como converte o espectador em bode expiatório.

O debate acerca dos novos direitos autorais – e também dos direitos do público de ler, consumir e se informar –, gera polêmicas, fomenta embates discursivos e já se concretiza em dispositivos legais, novas licenças de direitos autorais. Entretanto, o jogo de caça aos piratas insiste em produzir equívocos e esquecimentos, ao reduzir tudo a um bangue-bangue entre bandidos e mocinhos, western inverossímil que pretende ora seduzir, ora intimidar o olhar- espectador nas salas de cinema.

48 García Canclini (2008) ressalta que pesquisas comprovam que os benefícios do copyright atendem aos

investidores, mais do que a criadores ou receptores. Sabe-se que a orientação neoliberal reforça essa tendência. Conforme Oliveira (2003), a valorização do conhecimento do atual estágio do capitalismo é acompanhada pelo fortalecimento do sistema de patentes, sua ampliação e vigilância. Essa disposição se concretiza no acordo estabelecido pela Organização Mundial do Comércio em 1995, o TRIPS.