No ano de 1961 inicia-se uma nova abordagem exploratória, que contou com a disposição dos técnicos contrários ao Relatório Link e logrou resultados positivos, como a descoberta dos Campos do Recôncavo (BA) e Carmópolis (Sergipe), deixando para trás a limitação de se ter apenas a Bahia como campo de exploração. Outra inovação foi a incursão da empresa em busca de petróleo no mar, ao longo da plataforma continental, que consistia numa faixa que vai do Espírito Santo ao Maranhão. De acordo com a própria Petrobras (2010), plataforma continental é a porção dos fundos marinhos pouco profundos - até 200m - localizada nas margens de um continente ou plataforma continental ou, ainda, a orla dos continentes banhada pelos mares.
O CNP, em 1959, criou o plano de refinarias da Petrobrás, que visava alcançar, em dois anos, a auto-suficiência em refinados. Em 1961 foi iniciada a construção das refinarias de Porto Alegra e de Belo Horizonte, o que possibilitaria a execução do referido plano. [...] Em 1963, com o objetivo de fazer valer o poder de barganha da Petrobrás, o governo decretou o monopólio de importação do petróleo. Em 1965 foi descoberto o campo Carmópolis em Sergipe, além de novos campos no Recôncavo Baiano. Tais descobertas possibilitaram um grande aumento na produção de petróleo, que em 1966 já ultrapassava a metade do volume consumido. Apesar de todos os êxitos obtidos pela estatal, o consumo crescia muito rápido, o que pode ser observado no período de 1967 a 1973, período no qual o consumo quase duplicou. Em 1967 o consumo médio era de 386 mil barris por dia, passando, em 1973, a um consumo de 724 mil por dia. (REBELO, 2004, p.42)
A conseqüência dessas novas abordagens foi à inauguração em 1961 da Refinaria Duque de Caxias (REDUC), primeira refinaria construída pela Petrobras, visto que as demais foram apenas incorporadas. Atualmente a REDUC é a mais completa refinaria do sistema da estatal, pois produz diversos derivados, tais como: gasolina, óleos básicos para lubrificante e diesel, dentre outros. Devido ao seu excelente funcionamento, no mesmo ano de inauguração da REDUC, foi possível à Petrobras atingir a marca da auto-suficiência na produção dos principais derivados.
Segundo Dias e Quaglino (1993), o projeto da REDUC trouxe ao país o mais moderno processo de fracionamento do petróleo, chamado ‘Craqueamento Catalítico’, que possibilitou à Petrobras a produção de derivados médios e leves em maior quantidade e melhor qualidade. Esses derivados foram muito importantes para a estrutura de consumo do Brasil, pois possibilitaram à capacidade instalada do parque de refino brasileiro superar o consumo já no ano de 1961. A pressa no funcionamento da REDUC era tão grande que a refinaria iniciou
suas operações em setembro de 1961, sete meses antes do término de sua construção, que foi concluída somente em abril de 1962..
O projeto da REDUC sofreu atraso em relação aos prazos previstos. Mesmo sem a refinaria estar concluída, o presidente Juscelino decidiu inaugurá-la poucos dias antes de deixar o governo. Esse episódio ficou bem marcado na memória dos técnicos da empresa, que contam as “duas inaugurações” da REDUC. A de JK ocorreu em 20 de janeiro de 1961, quando só os equipamentos auxiliares estavam prontos para operar. (DIAS e QUAGLINO, 1993, p.159)
De acordo com Silva, desde o inicio das atividades da Petrobras, seus investimentos industriais concentraram-se “em três complexos, nucleados pelas refinarias Landulfo Alves (RELAN), em Mataripe, Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão, São Paulo, e Duque de Caxias (REDUC), no Rio de Janeiro” (SILVA, 1985, p.122).
A Tabela 7 ilustra os investimentos feitos pela Petrobras nas refinarias e demonstra claramente como a trajetória da REDUC se destaca das demais, visto que seus investimentos anuais têm uma média de Cr$ 32.244 milhões, valor este somente alcançado pela RELAN em 1959.
Tabela 7 - Refinação e Investimentos em Capital Fixo da Petrobras – Brasil – 1957 a 1965 (em Cr$ Milhões)
ANO RELAN Evolução (%) RPBC Evolução (%) REDUC Evolução (%) TOTAL
1957 9.596 100 5.214 100 - - 15.010 1958 29.424 307 4.245 81 10.176 100 44.233 1959 39.287 409 3.601 69 27.471 270 70.837 1960 10.083 105 12.206 234 57.982 570 80.610 1961 22.016 229 7.381 142 48.489 477 78.257 1962 16.440 171 6.533 125 54.015 531 77.285 1963 17.955 187 2.014 39 22.359 220 42.554 1964 11.695 122 3.450 66 20.742 204 36.075 1965 7.083 74 2.481 48 16.719 164 26.404 Fonte: elaborado pela autora a partir de dados de Silva (1985 apud Petrobras, s/d)
O resultado de todo esse investimento pode ser observado na Tabela 8, que revela a produtividades das refinarias. Observa-se que a REDUC iniciou suas atividades com capacidade de processamento de 8 mil barris/ano, registrando já no ano seguinte um salto de 400%. Silva explica esse fato através das “constantes ampliações na capacidade produtiva” (1985, p.122).
Tabela 8 - Carga processada de Petróleo da Petrobras – Brasil – 1960 a 1965 (em barris/ano)
ANO Petrobrás
Presidente Bernardes Landulpho Alves Duque de Caxias
1960 35.134.147 10.004.783 - 1961 39.292.223 13.113.478 8.129.346 1962 40.189.872 12.645.323 31.119.257 1963 41.059.972 13.905.521 36.973.489 1964 40.125.028 15.032.498 39.482.751 1965 39.539.428 15.433.899 36.151.805 Fonte: Elaboração a partir de Silva (1985 apud Plano Decimal do Conselho Nacional do Petróleo, 1976)
Desde sua criação até o inicio dos anos 60, a Petrobras se dedicou somente à produção, transporte, refino, pesquisa e lavra. Entretanto, a partir de 1962, a empresa estabelece um contrato com a Marinha de Guerra no qual era consentido o fornecimento de combustível, entrando assim para o ramo de distribuição de derivados de petróleo. Esse acordo foi de grande interesse para a Segurança Nacional, pois possibilitou o controle do abastecimento das instituições pelo governo. Por outro lado favoreceu também a Petrobras, que passou a distribuir gasolina para outros Órgãos Governamentais, além de consumidores industriais, sempre com o aval do CNP. (PETROBRAS, 1993)
O comércio de distribuição de derivados de petróleo neste período era muito competitivo, e a Petrobras inaugurou na cidade de Brasília em 1964, seu primeiro posto de gasolina, que concorria diretamente com grandes empresas, tais como Shell, Texaco, Ipiranga e Esso.
Definida a linha básica de ação no sentido de promover sua presença física na comercialização de derivados, a PETROBRÁS ingressou na distribuição retalhista, com um posto localizado em Brasília, em 1964, ano em que já detinha 5,2% do mercado de distribuição, enquanto a ESSO e a SHELL participavam com 36,5% e 27,2%, respectivamente. (PETROBRAS, 1993, p. 45)
Assim, é seguro afirmar que a década de 1960 foi de grandes desafios, mas também de grandes conquistas para a área de Refino da Petrobras, pois durante esse período foi possível criar novas estruturas, diversificar suas atividades em novas áreas, como a distribuição, obtendo ótimos resultados.