11 Method Summary, Challenges and Ideas
11.3 Challenges
A reflexão sobre a adolescência e a juventude no contexto escolar angolano tendo em conta o percurso histórico de Angola, não se compara com outras realidades existentes. Em alguns casos, os jovens angolanos são bastante lutadores com um espírito forte de vencer todas as lutas que o país sofre. Tanto na escola como na sociedade em geral, participam ativamente tendo como meta a melhoria das condições sociais.
A escola hoje tem sido muito invadida pelos adolescentes e jovens que procuram, de certa forma, dar uma virada positiva em seu nível acadêmico. O jovem angolano, de uma maneira geral, está cada vez mais a procurar evoluir o seu status. A participação dos jovens nas escolas para o resgate e preservação da cultura angolana tem sido um fato que se registra nas escolas de Angola especificamente em Cabinda, onde a quarta-feira se torna o dia em que os alunos se vestem com o traje africano ou o traje da cultura de Cabinda.
Na escola, os jovens/adolescentes têm uma forte capacidade criativa para o mundo científico e artístico. A dança, a música, o teatro, o desporto e outras atividades culturais fazem parte da convivência no ambiente escolar. A preparação para a condução da nação angolana é o objetivo da maioria, por isso a escola serve como um lugar para a construção do
homem novo. Por meio das disciplinas de educação visual plástica, desenvolveu-se o sentido artístico na escola. Os alunos fazem muitos desenhos em seus tempos livres. Essa tem sido a imagem visualizada em grande número das escolas angolanas, o que tem sido uma alegria. No ambiente escolar verifica-se um clima rico de jovens e adolescentes voltados a música do ritmo Hip hop, Kizomba e o Kuduro que é uma das vertentes musicais com maior expressão por ser o estilo de música feito na maior parte dos casos pelos jovens e adolescentes.
Em algumas regiões de Angola, como em Cabinda e as províncias do leste do país, os adolescentes e jovens ainda passam pela escola tradicional da cultura do povo. Essa escola se caracteriza por uma educação que consiste na preservação e transmissão de valores culturais como um patrimônio da identidade do povo. Essa informação é passada para todos os gêneros, em espaços apropriados. São usados vários métodos de transmissão destes saberes tais como: histórias dos antepassados, canções, e experiências de vida. Na cultura Cokwe, por exemplo, os espaços usados para estes ensinamentos são conhecidos como Jango de pau a pique, tradicionalmente denominado como “Txota”, um espaço para resolução de problemas e passagem de saber. Este espaço pode ser embaixo de uma árvore grande ou uma cabana em forma de esplanada. Os ensinamentos são passados durante uma noitada familiar (serão) ou durante as festas tradicionais. Quanto à preservação de valores culturais é no Jango onde os rapazes, assim como as meninas, aprendem o fabrico de peças de arte, instrumentos de pesca e caça, alguns adágios que servem de normas, bem como a fazer uma armadilha para apanhar animais para o consumo. Existem rituais tais como a circuncisão para rapazes no leste de Angola, onde o jovem é submetido a uma educação tradicional, em que são passadas as bases fundamentais de se firmar como responsável e contribuinte para a renda familiar, para posteriormente dirigir a sua vida familiar e social.
Já em Cabinda, essa educação é passada de forma rigorosa na região central às meninas, por meio do ritual denominado Chicumbi. As famílias se organizam por meio de contribuições de mantimentos e bebidas diversos, fundamentalmente as bebidas tradicionais naturais e as fermentadas, para uma festa onde as comidas são feitas à lenha. Organizam-se pequenos grupos entre os familiares e cada grupo prepara ao longo da festa um tipo de iguaria a ser consumida no local entre amigos e convidados. É um ritual educativo onde a jovem/adolescente é surpreendida e apanhada à força a fim de ser submetida ao ritual tão logo que atinja a fase da puberdade. É surpreendida porque, segundo a tradição, a adolescente/jovem em causa nunca pode saber da organização da festa ou da sua submissão ao ritual. Oferecem-lhe um passeio para uma localidade dentro da região ou lhe é sugerida a
passagem de um fim de semana na casa de algum parente. Logo em seguida, a jovem é convidada a regressar para casa com urgência e acompanhada de uma tia ou uma pessoa adulta da família, desde que não sejam os seus pais. A jovem é apanhada, faz-se um disparo com uma arma de fogo e logo em seguida a adolescente/jovem é levada para um quarto. Lá suas roupas são retiradas e seu corpo é pintado de argila vermelha. Os cabelos são cortados, a não ser que um namorado se apresente e ofereça para pagar por seus cabelos. Neste caso, não se corta o cabelo da jovem. Outra possibilidade é um tio pagar um valor monetário para impedir o corte dos cabelos da jovem. Dando prosseguimento ao ritual, a jovem come uma galinha sozinha, e passa as noites durante uma semana dormindo em esteira. Através das tias e avós, recebe ensinamentos de como ser mulher e cuidar de sua futura família e ser uma boa dona de casa no futuro. Após o ritual, a jovem tem a permissão de ter um namorado, caso ainda não tenha tido. Para aquela que já tinha namorado antes do Chicumbi, fica em aberta a possibilidade de se organizar o casamento tradicional e a permissão de ter filhos.
Fizemos essa apresentação de costumes angolanos, a fim de aclarar que existem outras formas de educar, outras escolas com os ensinamentos que são passados na língua local de uma perspectiva étnico-racial. Assim, ilustramos como é entendida a escola no contexto Africano especificamente em Angola, em que outro saberes se misturam com os saberes transmitidos pelas escolas tradicionais, estes baseados na cultura europeia. Neste universo multicultural, o adolescente/jovem angolano vai forjando sua identidade.
Essa multiplicidade de experiências mostra a singularidade do jovem angolano. Na escola, além de enfrentar problemas de materialidade, tais como: a falta de material didático, número reduzido de salas, as condições físicas e ergonômicas das salas de aulas - transporte escolar, dificuldades de acesso aos outros níveis escolares, escolas com número reduzido de carteiras, falta de bibliotecas escolares - existem tensões permanentes vivenciadas por esses jovens. Essas tensões provêm em parte da necessidade de dar sentido à articulação de, pelo menos, duas culturas: a cultura original angolana, com seus rituais, sua língua e sua visão de mundo e a cultura europeia, trazida pelo português e veiculada, no caso da escola, por meio da organização dos tempos e espaços escolares e saberes transmitidos. Essas tensões, aliadas às precárias condições de vida, à recente experiência da guerra, muitas vezes levam os jovens ao uso excessivo de bebidas alcoólicas.