Seguidamente realizei estágio num serviço de cuidados intensivos neonatais de um hospital geral central. Este serviço tem um historial de uma grande aposta no desenvolvimento de competências parentais de recém-nascidos prematuros através de documentação escrita e suporte informático no registo dos cuidados efetuados assim como na utilização de escalas validadas para avaliação da evolução de diferentes parâmetros em recém-nascidos prematuros. Os registos de Enfermagem
são efetuados através da aplicação informática Sistema de Apoio à Prática de Enfermagem (SAPE) – Sclínico – construída com base na versão Beta 2 da CIPE. Neste contexto defini 2 objetivos específicos indo ao encontro das competências que pretendia alcançar:
1) Analisar critérios de construção de diagnósticos de enfermagem e de resultados de enfermagem relacionados com os focos Papel Parental e amamentação, com recurso à linguagem CIPE;
2) Avaliar o meu processo de tomada de decisão e o papel enquanto enfermeiro EESCJ.
Para dar resposta a cada objetivo defini atividades enumeradas em apêndice (Apêndice II).
Tendo em conta o primeiro objetivo, as atividades a ele inerentes prenderam-se à realização de consulta de documentação, realização de uma reunião para aprofundar conhecimentos sobre critérios de construção de diagnósticos (CIPE), prestação de cuidados e sua documentação (CIPE) e reflexão sobre as atividades.
Realizei inicialmente reuniões com a enfermeira chefe deste serviço, com as enfermeiras responsáveis pelo grupo de trabalho da amamentação e consulta dos documentos do serviço sobre os critérios de construção de diagnósticos de enfermagem segundo a nomenclatura CIPE. Esta reunião, pela sua riqueza teórica e prática, permitiu-me perceber e analisar como se processou em neonatologia a introdução da nomenclatura CIPE na documentação da prestação de cuidados e as ações de formação profissional que foram levadas a cabo. Percebi e refleti sobre a mobilização de toda a equipa nesta etapa de melhoria dos registos dos cuidados em enfermagem. Estes aspetos foram promotores de conhecimentos, especialmente os relacionados com o foco amamentação e papel parental.
A realização de estágio na unidade de cuidados intensivos num hospital considerado de excelência na prestação de cuidados em parceria com os pais de recém-nascidos prematuros, na educação parental e na utilização de escalas de avaliação validadas na prestação de cuidados a recém-nascidos prematuros foi muito pertinente. Este facto veio dar resposta às minhas necessidades de formação e aperfeiçoamento profissional e pessoal nesta área que para mim é tão importante. A busca pela excelência na prestação de cuidados é notória assim como o empenho na formação profissional contínua neste serviço. Foi para mim muito gratificante e enriquecedor ver uma realidade diferente da do meu exercício profissional, na medida que me dotou de
experiências e instrumentos na área de qualidade dos cuidados (papel dinamizador em medidas de suporte e apoio na melhoria dos cuidados, colaborando em programas de melhoria e criando ambiente terapêutico e seguro para a prática de cuidados) para aplicação futura no serviço onde exerço atividade. Neste sentido, pareceu-me pertinente refletir sobre a definição de “qualidade”. Analisando a perspetiva de Mezomo (2001), Hesbeen (2001) e Donabedian (2003) percebe-se que a qualidade de cuidados implica que o cuidar seja praticado em todas as suas dimensões. A promoção desta mesma qualidade é um processo longo, que implica liderança e que contribui para a melhor compreensão da qualidade dos cuidados e o desejo de melhorá-la.
Na prestação de cuidados, a avaliação da vivência do processo de transição para a parentalidade (Mercer, Meleis) realizada permitiu-me perceber a importância para os pais da vinculação ao recém-nascido, das expectativas familiares perante eles, da priorização da criança e da satisfação das suas necessidades assim como o sentir-se competente na realização do papel parental. Neste mesmo sentido esta conceção de parentalidade vai de encontro à definição de parentalidade segundo o Concelho Internacional de Enfermeiros, definindo-a como a ação de tomar conta, assumindo as responsabilidades de ser mãe/pai com comportamentos destinados a facilitar a inclusão do novo membro no seio familiar, otimizando comportamentos que favoreçam o crescimento e desenvolvimento infantil. Ao mesmo tempo que existe a interiorização das expectativas dos indivíduos, famílias, amigos e sociedade quanto ao papel parental (Ordem dos Enfermeiros, 2006).
A parentalidade, segundo Meleis, Sawyer, Im, Hilfinger Messias, & Schumacher (2000), é em si uma transição e de acordo com a sua teoria este processo de transição pode ser sistematizado, descrito, compreendido, interpretado e explicado, especialmente os fenómenos específicos de enfermagem que emergem para a prática. De um ponto de vista do desenvolvimento, a parentalidade é a passagem para uma nova fase do ciclo de vida nos adultos que envolve a complexidade do sistema familiar com uma redefinição de tarefas e papeis. Sendo, geralmente, fruto de uma opção, ser pai e mãe é uma transição crítica pois apresenta repercussões na saúde materna e paterna e no desenvolvimento e crescimento da criança (Meleis, Sawyer, Im, Hilfinger Messias & Schumacher, 2000, Mercer & Ferketich, 1990).
Os pais das crianças que cuidei encontravam-se em processo de transição para a parentalidade, iniciado ainda durante a gravidez e no qual, muitas vezes de modo
inesperado, aconteceu o nascimento prematuro da criança, sendo necessária uma redefinição e reajuste parental à nova situação. Segundo Relvas (2004), a parentalidade exige por parte dos progenitores diferentes respostas comportamentais, emocionais e cognitivas, pois é um processo dinâmico de reajustamento e reorganização no sistema familiar e nas relações com o mundo exterior com reflexo no desenvolvimento dos novos pais e famílias.
Tendo em conta o quarto objetivo, as atividades a ele inerentes prendem-se à realização de diários de aprendizagem e à realização de uma síntese reflexiva relativa ao estágio em contexto de Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais.
O segundo objetivo que resultou o jornal de aprendizagem que realizei (Apêndice VIII) foi referente a uma situação na prestação de cuidados. No jornal, saliento a importância do aleitamento materno como foco complexo e com influência multifatorial no exercício de enfermagem neonatal que requer uma abordagem, por parte do enfermeiro, humanista, personalizada e holística em parceria com os pais. Julgo que a síntese reflexiva realizada sobre este estágio permitiu valiosos contributos de aprendizagem e aperfeiçoamento pessoal na área da Neonatologia, valiosos enquanto enfermeira especialista e enquanto profissional que trabalha nessa mesma área. Daí que, a Ordem dos Enfermeiros (2002) através do Conselho de Enfermagem, ao descrever os Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem menciona que a qualidade destes exige reflexão sobre a prática, sendo que esta reflexão exige tempo apropriado para refletir nos cuidados prestados.