5.3 Educating Children about Sexuality
5.3.3 Challenges
A idéia inicial da pesquisa foi a de que a tecnologia é socialmente construída, descartando qualquer opção baseada no determinismo tecnológico. Partiu-se da crença de que a implementação de uma tecnologia é apenas um dos estágios para sua assimilação no processo de trabalho. Essa assimilação está mais ligada aos indivíduos, como determinantes diretos das ações. Não é a tecnologia que age como um imperativo, mas sim os agentes no ambiente, ou nas organizações, que influenciam sua utilização. A idéia inicial foi a de que os indivíduos redefinem e modificam, durante a prática, os significados das tecnologias, suas propriedades e suas aplicações, em um processo de construção social.
Historicamente, a tecnologia vem sendo muitas vezes tratada como uma força determinística, de impactos previsíveis. Nesta perspectiva, a tecnologia é auto-reguladora e deve sofrer o mínimo de intervenção humana. O pressuposto presente no determinismo tecnológico é de que o trabalhador acrescenta vulnerabilidade à produção, e que, portanto, é melhor que os processos produtivos sejam baseados exclusivamente na tecnologia (LIKER
ET AL., 1999).
Recentemente, houve um reconhecimento da complexidade da tecnologia e de seu relacionamento com o trabalho, como bi-direcional e dependente de uma série de fatores contingentes. A perspectiva construcionista reconhece que elementos tecnológicos por si só não podem explicar adequadamente o desenvolvimento da tecnologia ou seu uso (PINCH & BIJKER, 1984). Fatores técnicos e sociais estão interconectados (WOOLGAR, 1996). É na interposição destes elementos que a tecnologia se desenvolve. A tecnologia é uma coleção de elementos dinâmicos e não de elementos estáticos e estáveis (HUGHES, 1986).
Nesta perspectiva, a realidade social de implementação de tecnologia é complexa. Tecnologias distintas são trazidas para configurações sociais diferentes por diversos motivos, podendo gerar uma ampla gama de efeitos (LIKER ET AL., 1999). A implementação de uma tecnologia muitas vezes passa por problemas como: (i) degradação da qualidade de vida das pessoas no trabalho, ao reduzir a segurança no emprego, aumentar o estresse e gerar incertezas quanto aos interesses de carreira; (ii) impacto negativo na comunicação informal, responsável pela amizade, confiança, auto-respeito e sentimento de pertencimento ao grupo;
38 (iii) redistribuição indesejada de poder; e (iv) perda do emprego ou do significado para a vida no trabalho (RAMOS & BERRY, 2005).
A visão de teóricos da construção social é de que as tecnologias e seus efeitos são controlados pela interação entre os agentes sociais (FULK, 1993). Estes pesquisadores analisam como interpretações, interesses sociais e conflitos moldam a produção da tecnologia, ao moldar seu significado cultural e as interações sociais entre grupos relevantes (ORLIKOWSKI, 2000).
Weick (1990) se baseou nesta perspectiva ao apresentar a tecnologia como algo que emerge das relações entre um conjunto heterogêneo de elementos. Ele propôs a idéia de tecnologia como algo não unívoco, no sentido de ser algo que admite diversas interpretações, estando sujeito à compreensão incorreta, incerteza e complexidade. Tecnologias são interpretadas de formas variadas e até conflitantes pelos indivíduos. Weick mostrou que tecnologias causam problemas imprevisíveis porque seus processos são, com freqüência, pouco compreendidos e porque elas são reprojetadas e reinterpretadas no processo de implementação e acomodação a contextos sociais e organizacionais específicos.
A Construção Social da Tecnologia (Social Construction of Technology – SCOT) nasce do construtivismo social de Berger e Luckman (1966) e defende a posição de que diferentes grupos sociais formulam problemas distintos e atribuem significados diferentes as inovações tecnológicas (POZZEBON ET AL., 2006).
A SCOT tem sua origem como área de pesquisa no trabalho de MacKenzie e Wajeman (1985) – “The Social Shapping of Technology” – e no artigo de Trevor Pinch e Wiebe Bijker de 1987, intitulado “The Social Construction of Facts and Artifacts: Or How the Sociology of Science and the Sociology of Technology Might Benefit Each Other.” Destes trabalhos seminais surgiu um campo de pesquisa extenso, que inclui a visão do indivíduo como agente e as estruturas sociais que influenciam o desenvolvimento da tecnologia. As pesquisas do construtuvismo social analisam como as interpretações, os interesses sociais e os conflitos disciplinares moldam a produção da tecnologia. Estes trabalhos também analisam como a tecnologia produzida alcança “estabilização”, em um processo de negociação, persuasão e debate que objetiva alcançar a retórica do encerramento da tecnologia e o consenso dos membros (ORLIKOWSKI, 2000).
O modelo conceitual de Pinch e Bijker consiste em quatro componentes relacionados. O primeiro é a flexibilidade interpretativa, no qual o projeto de uma tecnologia é um processo aberto que pode produzir diferentes resultados, dependendo das circunstâncias sociais de seu
39 desenvolvimento. Os artefatos tecnológicos são indeterminados e o resultado do processo de desenvolvimento poderá ser diferente, de acordo com a circunstância: eles serão decorrentes de negociações entre grupos. O segundo componente é o conceito de grupo social relevante. Todos os membros de um dado grupo social compartilham um mesmo conjunto de significados em relação a um artefato específico. Eles são agentes cujas ações manifestam os significados que eles dão ao artefato. O desenvolvimento tecnológico é um processo no qual múltiplos grupos, cada um com sua interpretação específica de um artefato, negociam sobre o projeto, com diferentes grupos sociais vendo e construindo objetivos distintos. A estabilização é o terceiro componente3. Um projeto que envolva múltiplos grupos pode ter controvérsias quando diferentes interpretações levam a imagens conflitantes da tecnologia. O projeto irá evoluir até que estes conflitos sejam resolvidos e o artefato não represente problema para nenhum grupo social relevante. O processo de desenvolvimento se encerra, sem modificações futuras no projeto e o artefato se estabiliza. O último componente do modelo é o contexto. Há uma esfera sociocultural e política na qual o desenvolvimento do artefato se dá. Este é o componente menos desenvolvido deste modelo. As condições em que se dá a interação entre os grupos, as relações entre eles, as regras que orientam estas interações, e fatores que contribuem para diferenças de poder, são pouco discutidos (KLEIN & KLEINMAN, 2002).
Esta formulação inicial da SCOT sofreu críticas, inclusive de seus criadores (PINCH, 1996). A maioria das críticas diz respeito a se dar muita ênfase à agência4 e negligenciar estruturas. Uma das principais críticas é que a SCOT originalmente admite que todos os grupos são iguais e que todos eles participam do processo de construção da tecnologia. Contraria a idéia de assimetria de poder entre os grupos (WINNER, 1993) e desconsidera que alguns grupos são alijados do processo de criação de uma tecnologia (WILLIAMS & EDGE, 1996). Alguns grupos podem nem ser realmente grupos unívocos, mas coleções de subgrupos nas quais alguns atores desejam a participação em grupos sociais (RUSSELL, 1986). As assimetrias de poder entre grupos e a forma como estas diferenças de poder estão enraizadas em nossas estruturas sociais são ignoradas na visão de que o resultado da interação entre os grupos é necessariamente o consenso (KLEIN & KLEINMAN, 2002). Beder (1991) nos mostrou que por detrás deste “consenso” residem inevitáveis conflitos econômicos e de poder
3 A idéia de estabilização da tecnologia foi posteriormente desenvolvida por Pozzenbon e Pinsonneault (2006),
que estudaram a retórica do encerramento da tecnologia e suas conseqüências.
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40 entre grupos sociais relevantes. O poder não é externo à esta questão, por estar presente quando determinados significados ganham preponderância nos grupos sociais.
Aos quatro componentes fundamentais, Bijker (1995) acrescentou algo que chamou de quadro tecnológico (technological frame), se referindo ao modelo cognitivo compartilhado que define um grupo social relevante e constitui a interpretação comum aos membros sobre o artefato. Este quadro pode incluir objetivos, problemas, teorias, regras, procedimentos de teste que, tácita ou explicitamente, estruturam o pensamento dos membros do grupo, a resolução de problemas, a formulação de estratégias e as atividades de projeto. O quadro modelo irá promover certas ações e desencorajar outras. Nele não é tudo mais que é permitido, mas as possibilidades restantes são relativamente claras e prontamente disponíveis aos membros do grupo. A introdução de Bijker do quadro tecnológico é um passo importante para o reconhecimento de estruturas subjacentes à agência.
Klein e Kleinman (2002) foram além da idéia do modelo tecnológico, propondo que as capacidades de um grupo são moldadas por características estruturais. Eles reconheceram as estruturas como construções sociais em si. Eles criticaram a SCOT ao apresentar a idéia de que o compartilhamento de significado entre indivíduos não garante que eles irão se organizar em grupo para participar do processo de projeto da tecnologia. Grupos potenciais podem se confrontar com barreiras para a participação e organização. Assim, alguns significados coletivos que têm relevância para o artefato podem não se tornar organizados para participar do processo de projeto, o que pode ter grande impacto no artefato final. Eles propuseram que a atenção a fatores estruturais dá oportunidades para entender a eficácia de sistemas de significados e o papel dos significados em moldar artefatos. March e Simon (1958) já reconheciam que as organizações adotam procedimentos operacionais padronizados para desenvolver tarefas e que estes procedimentos eram limitadores da ação.
A estrutura dos grupos pode possibilitar divisões internas que partilham seus significados - elites administrativas internas cujas percepções e interesses podem divergir de outros membros. Pelo controle da administração, esta elite pode impor seus interesses a toda organização ao impedir ações que contrariem seus interesses. Ela pode impor seus significados ao artefato. As capacidades de grupos sociais relevantes e de atores são moldadas pelas características da estrutura em que estão inseridas (KLEIN & KLEINMAN, 2002).
Da construção social, retirei a visão de que a tecnologia é produzida socialmente. Considero que, neste processo de construção social, os indivíduos e grupos têm assimetrias de poder. Creio que haja, durante o desenvolvimento tecnológico, diferentes forças negociando,
41 de forma explícita ou velada, o que virá a ser a tecnologia. Penso que este processo de negociação é um processo sempre em aberto, com fases mais dinâmicas, quando a tecnologia sofre mais transformações, e com fases de maior estabilidade, onde as mudanças são eventuais. Creio que a estabilização completa nunca é alcançada, pois as necessidades dos usuários se modificam. Por fim, não acredito que o usuário tenha total liberdade de ação para definir o uso que fará de um sistema numa organização. Ele age dentro de limites de liberdade que a organização o confere e que ele conquistou na sua vida organizacional.