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Cerny 3

In document Kvinner i det gamle Egypt (sider 56-62)

Det nye riket: Deir el-Medina

O. Cerny 3

O aldeamento de Carapicuíba foi uma das doze unidades fundadas por Anchieta em São Paulo (TENÓRIO, 2003). Hoje denominado de Aldeia de Carapicuíba, está localizado à aproximadamente trinta quilômetros ao oeste do centro de São Paulo, nas coordenadas 23.56º sul e 46.83º oeste. Trata-se de um dos poucos aldeamentos distantes das principais rotas

fluviais e terrestres do período colonial. Como explica Azevedo (1957), a preocupação com a defesa fazia com que o assentamento dispusesse de trechos mais elevados, porém não muito distantes dos cursos fluviais. O rio Tietê, mais próximo, fica a aproximadamente dez quilômetros da área, o que para época seria relativamente distante, considerando os meios técnicos primitivos e a localização dos núcleos humanos sempre adjacentes ou nos arredores dos rios e caminhos. No entanto, obedece o rigor e orientações coloniais modernas do período, com o sítio situando-se topograficamente a 750 metros de altitude (entre o interflúvio e o fundo de vale), numa vertente suavizada, que não ultrapassa os trinta graus de declividade e que converge no fundo de vale com o encontro de dois canais de drenagem: o córrego da Aldeia e o córrego da Fazenda. A aproximadamente 500 metros também localiza-se outro importante canal de drenagem, o ribeirão Carapicuíba (Figura 14). Portanto, apesar da distância do canal de primeira ordem, o aldeamento além de ficar numa altitude consideravelmente segura de enchentes, contava com outros importantes canais, o que talvez

tenha originado seu próprio nome, que deriva de peixe espinhento, ou peixe ruim30.

Sítio da área onde se localiza a Aldeia de Carapicuíba

Figura 14: Carta topográfica síntese da área onde se localiza a Aldeia de Carapicuíba, na RMSP. Fonte: Extraído de Petrone. Editado pelo autor, 2016.

30 Carapicuíba na língua Tupi significa: o prefixo Cara deriva de cará ou acará – espécie de peixe comum em

grande parte dos rios paulistas, Picu deriva de picú ou pucú, que significa longo ou comprido e o sufixo Iba que remete para aquilo que não é bom de ser comido, ou ruim. Portanto, peixe ruim de ser comido (COSTA JUNIOR, 1985; PIMENTEL, 2014).

Por situar-se nos trópicos, a região toda atinge pluviosidade anual por volta ou superior a 1.500 mm, com níveis médios a elevados de umidade relativa do ar e uma biogeografia original dominada por mata latifoliada atlântica. Antes do estabelecimento dos aldeamentos, é provável a densa ocupação da área por índios Guaianases, sendo possível acessá-la pelo rio Tietê e depois por trilhas terrestres, ou ao sul pelas trilhas secundárias ligadas ao antigo caminho do Peabiru e, mais tarde, o caminho de Itu. A densa rede de rios permite acreditar num refúgio autossuficiente de alimentos e caças e, pois, relativa autonomia frente aos grandes canais de drenagem ou núcleos arredores. Para Petrone (1995, p. 150), “a distância destas rotas poderia contribuir para explicar sua maior permanência”. Por fim, também se configura funcionalmente à defesa do centro regional, ou seja, a vila de São Paulo, fornecendo insumos essenciais ao seu desenvolvimento, além da força de trabalho, mas concomitantemente permitindo uma sociabilidade calcada na ordem institucional da Coroa e da Igreja. O que não impede, porém, a incorporação e alternativas de elementos culturais indígenas no cotidiano e na hibridização dos ritos, como observado nas festividades de Santa Cruz.

No plano morfológico, o aldeamento de Carapicuíba reflete em sua organização as

Leis das Índias31, baseada no modelo urbanístico já praticado na península ibérica, sendo um

conjunto moderno de normas e orientações, que entre outras regras racionalizavam um modelo ortogonal da cidade, com um plano pré-elaborado, considerando a centralidade dos prédios públicos e destaque dos templos religiosos. Se o aldeamento sugere dúvidas e questionamentos de ser ou não embrião de cidade, já que tinha uma função muito específica, sua composição revigora o caráter urbano já que foi idealizada no modelo de concentração praticado largamente nas cidades europeias. Ou seja, o aldeamento de Carapicuíba é “exemplo de instalação projetada de acordo com as Leis das Índias” (SAIA, 2012, p. 17), como corrobora a Figura 15.

Pela sua localização e estrutura, Carapicuíba parece refletir mais uma escolha de padre da Companhia, que de colono. A sua posição não tem dúvida que se enquadra perfeitamente nas determinações e dispositivos das leis das Índias. Pelo menos os detalhes de localização das aldeias e obediência às normas pré-estabelecidas. O processo de situar a povoação em relação aos grandes rios, por exemplo, coincide

31 “Depois de alguns anos de realizações do modelo espanhol, Filipe II, no ano de 1573, institui a primeira

legislação urbanística da idade moderna, a chamada Lei das Índias. Com esta lei, torna-se possível uma associação entre os princípios idéias renascentistas, as influências do Tratado de Vitrúvio e as realizações concretizadas na América. Na verdade, a Lei de Filipe II, não fez mais do que consagrar a planta ortogonal, que na prática já estava sendo realizada.” (DANTAS, 2004).

perfeitamente com a redação de um dispositivo encontrável nas leis da Índia [...] (SAIA, 1937, p. 06-07).

Perspectiva da Aldeia de Carapicuíba em 1937

Figura 15: Planta regular ortogonal da Aldeia de Carapicuíba, em conformidade com os padrões das Leis das Índias, também implementados em outros aldeamentos jesuíticos na América.

Fonte: 9ª.SR/IPHAN-SP – Luís Saia (1937).

O plano estandardizado, de forma quadrangular racional, objetivo à proposta defensiva e relacional catequizadora do espaço, baseado na permanência e cativeiro do nativo, evidencia o conhecimento dos jesuítas de organização e normas urbanas. Para Saia (1937) “o quadrilátero bem projetado, de ângulos retos, desobediente muitas vezes à topografia local tem mesmo bastante sabor jesuítico.” (SAIA, 1937, p. 10). Sem necessariamente reduzir os núcleos coloniais criados à mercê dos colonizadores, ou propriamente pela Coroa, como no caso da planta da cidade de Salvador32, o arranjo espacial sob o desígnio da Igreja,

especialmente os jesuítas e dos aldeamentos, respeitará traços característicos da cultura e das técnicas construtivas e organizacionais mais acuradas e planejadas para durarem no tempo. De tal maneira explica Saia (1937) a respeito de Carapicuíba a esse favor:

Carapicuíba foi fundada precisamente numa época em que se firmavam na Capitania de São Vicente os traços da cultura jesuítica, tão marcadamente diversos daqueles com os quais os colonos haviam inaugurado o trabalho de colonização e povoamento. Traços que traduzidos em termos de arquitetura, iriam representar o advento de um critério pré-estabelecido e racional na escolha dos assentos dos núcleos, em contraposição ao processo tradicional, imediatista e quase sempre precário dos colonos. Sobretudo iriam instituir nas povoações nas povoações o plano

32 A preocupação com o controle e o ordenamento do território fez com que Salvador, a primeira capital da

colônia, fosse fruto dos desígnios técnicos do arquiteto Luiz Dias, contratado pela Coroa portuguesa para o desenho da nova cidade (ABREU, 1996, p. 152).

quadrangular, enquanto os núcleos especificamente de colonos, apresentavam um aspecto desordenado e infixo. A Aldeia de Carapicuíba vai refletir essa nova orientação do trabalho colonizador (SAIA, 1937, p. 02-03).

Assim também, outras instalações em diferentes partes do atual território brasileiro e latino-americano (Figura 16), evidenciam os mesmos padrões. Para o autor, Carapicuíba além da relevância histórica, indica na atualidade importantes elementos posteriores e mesclados da arquitetura popular desenvolvida. Afinal, a aldeia é resultado da mescla de diferentes contextos construtivos e técnicas que permeiam a edificação da casa no Brasil. “Sobre o desenho primitivo, a aldeia evoluiu de então para cá, aceitando os diferentes condicionamentos técnicos e sociais que influíam na habitação” (SAIA, 2012, p. 19).

Os traços primitivos do aldeamento devem ter permanecido por um século desde sua criação, quando foram destruídos por volta de 1698, na tentativa de transferir os indígenas aldeados em Carapicuíba para o aldeamento de Itapecerica (TENÓRIO, 2003). “Por volta de 1698, os índios de Carapicuíba foram transferidos para a aldeia de Itapecerica, sendo a primeira parcialmente destruída pelos inacianos, para que os índios abandonassem o local.” (REIS FILHO, 1982, p. 09).

Aldeias Jesuíticas – Modelos projetados conforme Lei das Índias

Figura 16: “Villa de Abrantes” – aldeamento jesuítico no sul da Bahia. Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa. Extraído de Reis Filho (1968).

Apesar da formal reconstrução da aldeia logo em 1736, com a nova igreja edificada, seu uso e ocupação parece que jamais fora abandonado totalmente. Primeiro em razão de que nem todos os índios concentravam-se necessariamente nas habitações do aldeamento e, portanto, nunca migraram efetivamente. Segundo, mesmo aqueles que se dirigiram até Itapecerica, retornavam gradativamente ao local de origem. Não restando, pois, às missões evangelizadoras apoiadas pelo poder colonial se reestabelecer no antigo sítio.

Os indígenas, moradores da Aldeia, se apegaram tanto a esse lugar que, mesmo quando foram retirados e transferidos para Itapecerica, insistiram e retornaram para lá. Na ocasião, a Aldeia havia sido queimada e poucas paredes restavam em pé, mas isso não foi obstáculo para eles, que a reconstruíram por volta de 1736 (HENNE, 2015, p. 29).

Escalante (1974) defende que as características do aldeamento foram mantidas, pois “quando a nova igreja edificada em 1736, o traçado original foi respeitado, o mesmo devendo-se dizer das casas que, em 1769, por ordem do ‘Diretor da Aldêa de Carapicuyba”, Pedro José Francisco de Andrade, foram reconstruídas e a aldeia devidamente arruada.” (1974, p. 15). No caso do aldeamento de Carapicuíba, como na maioria dos aldeamentos, a igreja fica numa posição topográfica mais elevada, com amplo espaço que se assemelha aos largos ou praças das cidades brasileiras. Conforme Petrone (1995, p. 229) repete-se “[...] alguma coisa da ocara indígena, com tênue casamento com o fórum ou a ágora, ou com a piazza italiana”. No olhar de Saia (1937), a organização interna das casas, bem como a disposição das paredes, do assoalho, se assemelham de forma idêntica às das missões jesuíticas encontradas ao sul do Brasil. Para o autor, esta evidência mostra que a fundação, o terreno como um todo, foi aproveitado para a reconstrução do aldeamento no século dezoito. Ainda segundo Saia (1937), além da semelhança com as missões, também pela experiência, esta organização foi encontrada em outros aldeamentos, como a distribuição da igreja em relação às casas, ou mesmo a divisão interna de cada unidade, como descreve especificamente do caso da Aldeia de Carapicuíba.

Não há dúvida que a capela é a construção mais notável da aldeia, não só pelo seu tamanho e importância que transparece através de certos detalhes construtivos, como sobretudo pela localização dela no lado mais alto do páteo, encostada e protegida pela colina que lhe fica atrás. Os restantes dezenove edifícios, quando não estão ladeando a capela se dispõem em série nos lados do páteo. A construção residencial seriada é sistemática em Carapicuíba, assim como em todas as outras aldeias jesuíticas que pude visitar. Dona Quirina, deu as casa X e XI como inexistentes há vinte anos, enquanto as outras da série XII, XIII, XIV, XV, XVI e XVII já eram construções antigas. Além de mostrar que há vinte [1916] a estrutura da população permanecia fiel ao desenho primitivo, atraindo os edifícios para o plano fundamental

em torno do páteo, esses espaços desaproveitados sugerem que as construções de pau-a-pique, dessas duas casas, embora aceitando ainda uma porção de soluções procedentes da arquitetura da antiga aldeia, já se libertara, nesse tempo, do compromisso de geminação (SAIA, 1937, p. 14-15).

Ainda segundo Escalante (1974, p. 15), “todas as características do aldeamento indígena conservam-se na Aldeia de Carapicuíba: seja na disposição da igreja, no terreiro fronteiriço ou na colocação das casas [...]”. Com ele, em grande medida, concorda Petrone (1995), explicando que dos aldeamentos que mais conservaram a arquitetura do núcleo é Carapicuíba, que remete do século dezoito, em um plano que deve chegar ao século dezesseis. [...] Constitui-se em um dos mais expressivos documentos do passado paulista, digno das atenções de historiadores, arquitetos, urbanistas, geógrafos, sociólogos, artistas e outros. [...] É evidente que deve ser considerado extraordinário o fato de se ter considerado intacto o conjunto arquitetônico de Carapicuíba” (PETRONE, 1995, p. 617-618).

As técnicas construtivas eram vernaculares, baseadas em pau-a-pique cobertas por sapê (PETRONE, 1995) ou na taipa de pilão com telhas (SAIA apud PETRONE, 1995), com estrutura de palanques alinhados e permeado por barro compactado. No local, é ainda possível observar grossas paredes, com mais de 50 centímetros de espessura, bem como as casas que mantém estes aspectos arquitetônicos. Embora na maioria dos casos a habitação servisse de simples abrigo, considerando a dificuldade de fixação do indígena no local, bem como das instabilidades pelos serviços forçados como a própria condição do jesuíta diante dos colonos, sua organização espacial era suficiente por suprir os serviços catequizadores, bem como estabelecer preceitos políticos, econômicos e culturais do pensamento ocidental naquele contexto (como o trabalho, propriedade privada e as relações sociais). Também na forma quadrangular estrutural da sede, bem como das casas geminadas, pode-se pensar na facilitação da defesa, com a igreja, possivelmente, comportando-se enquanto fortificação, considerando a espessura de suas paredes.

O aldeamento de Carapicuíba, desde sua criação em 1580, não teve por objetivo ser um espaço destinado ao confinamento de índios conversos, ou seja, já cristianizados (LEMOS et al., 2008; FACCIO, 2010). No âmbito da Coroa, sua função destinava-se basicamente à mão-de-obra necessária, a exploração do território e ao apoio nas circunstâncias de defesa. Antes, porém, cabia a Igreja doutrina-los, torna-los “civilizados”. Sobre Sardinha, cujas terras viriam a se constituírem no aldeamento de Carapicuíba, Petrone (1995) explica que “a exemplo de Fernão Dias Paes e outros, contava a seu serviço com uma verdadeira aldeia de

administrados, porque na prática era essa a condição dos indígenas, embora não sancionada por lei.” (PETRONE, 1995 p. 120). Devendo recorrer esporadicamente aos jesuítas para que houvesse assistência espiritual necessária. Tratava-se, pois, de um passo anterior, de aglutinamento dos nativos para sua doutrinação, servindo posteriormente aos desígnios religiosos, do trabalho e das possibilidades que a colonização aventava a estas populações. Conforme Tenório (2003, p. 44), a aldeia de Carapicuíba era uma das mais populosas de São Paulo nos idos das primeiras décadas de 1600, sendo a “Aldeia Velha” um reduto de prisioneiros. Subsiste sobre os desígnios coloniais na plena apropriação territorial, além do conhecimento basilar de suas características, à força de trabalho e, no limite, alianças militares e de defesa contra constantes investidas dos inimigos, tantos de outras etnias indígenas, como piratas ou colonizadores europeus. No caso de Carapicuíba, Petrone (1995) compreende haver nos primeiros momentos de sua fundação uma diversidade étnica de índios concentrada, considerando que estes vinham de lugares distantes, portanto, das mais variadas áreas e dos mais distintos grupos.

As origens do aldeamento de Carapicuíba apresentam alguns curiosos elementos de semelhança com as de Embu. Em Carapicuíba, Afonso Sardinha possuía uma propriedade, nela tendo reunido um número não descurável de indígenas descidos do sertão. O núcleo deve ser quinhentista, sobre tal fato quase não devendo subsistir dúvidas. [...] Dado que nesses casos o núcleo indígena não constituía, de forma necessária, uma força de trabalho aplicada e intensa continuamente a serviço do senhor rural, mas apenas a intervalos irregulares, e não sempre na sua totalidade, não é difícil aceitar a ideia de que seriam os padres a assisti-los mais de perto, mantendo com eles contactos freqüentes e mais significativos, de tal sorte que, na prática, os administravam (PETRONE, 1995, p. 120-121).

Por tratar-se de um aldeamento jesuítico, Carapicuíba pela sua singularidade diferenciava-se não apenas de seus pares, mas sobretudo de um segundo modelo de aldeamento denominado padroado real, o qual destinava-se diretamente ao trabalho em obras públicas ou de grande vulto, cuja administração era diretamente assistido pela Coroa. Coexistiam também aldeias particulares instituídas nas propriedades rurais, que provavelmente antecedem o aldeamento oficial de Carapicuíba. No entanto, estas fragmentações de diferentes unidades não devem ser pensadas como algo estanque. Ao contrário, o correto é considerar a mobilidade que havia entre elas, até mesmo servindo aos moradores da região e aos propósitos distantes, como as prospecções metalistas no sertão, consistindo na mais pura forma de reserva de trabalho. E, ainda que escamoteados, a condição de exploração e do trabalho escravo são evidentes, o que no desenvolvimento histórico

passam a rivalizar com os propósitos jesuíticos, culminando com a expulsão da Companhia do Brasil.

Os aldeamentos ou fazendas jesuíticas caracterizavam-se, antes de mais nada, pela estabilidade de sua vida. Alguns criados ainda nessa fase, a exemplo de Carapicuíba e Embu, mantiveram-se, como é natural, com condições muito próximas das que desfrutavam antes, dentro dos quadros das propriedades a que pertenceram. De resto, o fato de esses aldeamentos serem administrados dentro das conhecidas normas jesuítas, que chegavam a evitar ‘com penas rigorosíssimas a communicação não só entre Indios e os brancos, como de uma para outras que não fossem mesmo grei’, contribuía para que não fossem perturbados em sua evolução (PETRONE, 1995, p. 181-182).

Em relação à função militar, como defende Saia (1937) há de se considerar Carapicuíba como um aldeamento estratégico à proteção e defesa de Piratininga. Conforme explica, “com efeito, observa-se que a localidade de Pinheiros bem como o forte de Umbiaçaba formam uma como que a primeira linha de defesa situada ao longo do rio Pinheiros. Só depois que cessaram os ataques dos selvagens contra Piratininga, vêem-se aparecer novos aldeamentos mais avançados, Carapicuíba, Barueri [...]”. (SAIA, 1937 p. 06). No entanto, a não ser a uma batalha em Pinheiros contra índios inimigos, a história não reserva a Carapicuíba qualquer conflito ou, propriamente, a concretização desta função militar

específica. Vê-se neste retrospecto, que a expulsão dos jesuítas no século dezoito33 impacta

diretamente os quadros demográficos das populações aldeadas, mesmo naquelas já administradas pela Coroa. Se numa primeira fase, que vai do quinhentismo até metade do século dezessete, os quadros populacionais crescem, junto ao sucesso empreendedor dos jesuítas, após esse período, quando passam a não mais regular as relações, verifica-se aumento na mortalidade dos aldeados, com deslocamentos para outras regiões, ou fugas empreendidas diante da precarização da vida naquele momento. “Entre 1610 e 1670, a Aldeia passou por uma fase de estagnação, servindo de ponto de encontro entre clero e autoridades, os quais procuravam traçar normas para a ocupação das terras e o aproveitamento do trabalho indígena” (PIMENTEL, 2014, p. 43). Um terceiro período ainda retoma maior equilíbrio, como podemos considerar a reconstrução da igreja em 1736 e de grande parte do aldeamento

33 “Na prática, os jesuítas constituíram-se, durante todo o século XVII, excetuando-se o curto período em que

foram expulsos de São Paulo (1640-1653), nos únicos elementos estáveis da administração dos aldeamentos.” (PETRONE, 1995, p. 163).

encabeçados pelo Padre Belchior de Pontes, período que culmina com a extinção dos

aldeamentos ainda na primeira metade do século dezenove34 (PETRONE, 1995).

Em estimativas deste mesmo autor, a população aldeada em Carapicuíba deveria estar próxima de 100 indivíduos após o ano de 1736, período que se estabelece a sua reconstrução e desenvolvimento, após meio século de queda populacional e junção à Itapecerica. Os aldeamentos paulistas possuem aproximadamente 15 mil aldeados até 1640, diminuindo radicalmente para uma população total de 1 mil em 1700. No ano de 1766, Morgado de Mateus organiza um recenseamento, identificando uma população de 2.524 aldeados. Carapicuíba, neste ano, possui 132 aldeados, estando presentes 130 e dois ausentes, com predominância do sexo feminino. Em 1798 serão 138 aldeados, passando em 1803 a 168 (PETRONE, 1995), como ilustra o Gráfico 01.

Gráfico 01: Evolução do quadro populacional – Aldeamento de Carapicuíba (1736-1803). Fonte: Petrone (1995).

No século dezenove, a situação era de abandono dos aldeamentos, sendo descrita nos relatórios oficiais e que com o Plano Rendon acabam por se assimilarem aos “[...] quadros normais de povoamento europeu ou luso-brasileiro”. Ainda que com expressivo crescimento demográfico em relação a maioria dos aldeamentos neste período, deve-se compreender que o caso de Carapicuíba era emblemático, considerando sua relativa estagnação entre os séculos dezoito e dezenove, em decorrência não apenas dos desequilíbrios populacionais causados

34 A última tentativa de reestabelecer os aldeamentos paulistas foi em 1845, o que acabou por não ocorrer

pelo trabalho compulsório a que eram submetidos seus habitantes, mas também pelo

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