Det nye riket: Deir el-Medina
O. Berlin 12630
contactos com a metrópole sendo feitos às custas de uma atividade comercial modesta: utilizando cargueiros isolados, tropas pequenas, ou carros de boi, levaram suas mercadorias para a cidade e contribuíram para criar um capítulo pitoresco que então caracterizou algum dos ângulos metropolitanos [...] (PETRONE, 1995, p. 375).
No século dezenove, com a independência do país, junto às novas vilas e povoados, emergem modernos sentidos para o desenvolvimento da cidade, traduzidos basicamente por intervenções estruturais nos espaços já construídos segundo as demandas produtivas em questão. Este será continuamente munido de infraestrutura, intensificadas pela industrialização na Europa que passa a demandar fontes primárias, do mesmo modo pela racionalização do planejamento e profundas mudanças das relações rurais e urbanas (ABREU, 1996; SUZUKI; COSTA, 2012). Intensificam-se hierarquias espaciais e diferenças sobre as instâncias sociais consolidadas ao longo dos primeiros séculos da colonização. Essas mudanças farão com que as rugosidades produzidas nos séculos anteriores atuem a partir de forças inerciais, que ora impulsionam o crescimento e expansão dos núcleos, ora impedem o desenvolvimento das novas atividades produtivas em jogo. Em Carapicuíba, no entanto, este processo terá algumas singularidades, responsáveis até o meio do século vinte pela manutenção e preservação do conjunto da Aldeia e a latência da acumulação de uma diversidade de rugosidades patrimoniais ligadas à chegada do negro africano e do imigrante europeu.
Com a interiorização da rede de aglomerados populacionais, bem como as transformações empreendidas nesta passagem de quase cem anos do capitalismo comercial ao industrial, farão com que o campo passe a depender, paulatinamente, da cidade, que permite concomitantemente a sua modernização e regulação. Nas ideias de Prado Júnior (1972 [1945]), este é um tempo revolucionário pela nova distribuição das atividades produtivas, no caso brasileiro principalmente as ligadas ao café. Cultivado em fins de século dezoito, o café tornar-se-ia o principal gênero agrícola da economia brasileira no século seguinte. Fugindo do litoral para o interior, em partes elevadas do terreno, a produção cafeeira daria fôlego providencial à decadência das minas, da produção de algodão e açúcar nas regiões tradicionais da colônia.
Como destaca Furtado (1971 [1959]), a gestação da economia cafeeira, que integraria mais efetivamente o país ao comércio internacional, acompanha a produção canavieira e de algodão, como é o caso do quadrilátero do açúcar, que em São Paulo concorreu paralelamente ao ciclo cafeeiro e que vê florescer sua produção especialmente entre 1750 e 1850 (PRADO JUNIOR, 1972 [1945]; PETRONE, 1968; IANNI, 1996; OLIVEIRA, 2012). Estes produtos, no entanto, com preços ainda estagnados pela baixa competitividade com outras regiões, como as
Antilhas, estavam aquém da rentabilidade que o café passava a obter. As tradicionais fazendas canavieiras em São Paulo passavam a gradativamente substituir sua produção, ou no caso de áreas mais interiores a principiar a produção de café (MONBEIG, 1998).
Um problema que se estabelece com o fim dos aldeamentos e o aumento produtivo de gêneros primários é a carência de mão de obra, que como explica Furtado (1971 [1959]) passa a ser gradativamente resolvido com a chegada de mais escravos africanos e colonos europeus. Os rendimentos da lavoura e a expansão da economia paulista passaram a substituir a mão de obra indígena pelo escravo africano. Considerando a baixa expectativa de vida destes trabalhadores, diante de condições precárias de sobrevivência no país, estima-se em 1,5 milhões de escravos integrados no empreendimento colonial até 1800 (número oficial, portanto muito questionável levando em consideração o contrabando e a ocultação para não pagamento de impostos), número muito semelhante se somados aos índios integrados, por volta de 500 mil e índios isolados por volta de 1 milhão, que compunham a população brasileira no período (RIBEIRO, 2006 [1995], p. 137). Mais que o trabalho, ao escravo também cabia a função de investimento, como renda capitalizada fixa, sendo fator privilegiado da produção, pois garantia novos investimentos pelos proprietários de terra, fazendeiros, pelo penhor junto aos bancos, comerciantes de café e insumos e, até mesmo, como garantia aos traficantes de negros para novas investidas (MARTINS, 1990, p. 26).
Além das importações, a migração interna destes escravos foi intensificada de norte a sul, onde o dinamismo da produção cafeeira era atrativo. Com a proibição da importação de escravos, assim como a intensificação no controle ao tráfico humano, “[..] a questão de mão-de-obra se agravava, e passava a exigir urgente solução. [...] Sugeria-se fomentar uma corrente de imigração europeia.” (FURTADO, 1971 [1959], p. 119-123). O projeto foi iniciado, patrocinado pelos dividendos do governo imperial na forma de crédito aos grandes proprietários de terra no Brasil. Processo que se acentua no avançar do século dezenove e adentra o primeiro quartel do século vinte, com mais de cinco milhões de pessoas vindas principalmente de Portugal, Itália, Espanha, Japão e Alemanha (RIBEIRO, 2006 [1995]).
Esta contextualização é fundamental ao entendimento das rugosidades patrimoniais de Carapicuíba, exatamente em função de que grande parte desses escravos africanos e trabalhadores livres de origem europeia, concentravam-se nas cidades e áreas rurais dos centros mais dinâmicos de produção, que neste período já principiavam a ser São Paulo e, sobretudo, Rio de Janeiro. Com eles, traziam modos de viver, crenças e saberes que juntos a uma união difusa com os caipiras locais passariam a influenciar e a ser influenciados nas cidades e suas regiões de alcance. No caso de Carapicuíba, além do contorno cultural como um todo, sobretudo em relação aos traços mais
urbanos dessas populações, a marca dos novos habitantes está materialmente gravada por toda paisagem da cidade. Nas propriedades rurais do entorno da Aldeia, nos fins do século dezenove, já estão presentes italianos e japoneses, com suas tradições e modos de viver, mais tarde revelam-se construções da Igreja Ortodoxa Russa, as comunidades da Igreja de Santo Antonio na Vila Anita Caldas, com a presença de portugueses e italianos (TENÓRIO, 2003). Do mesmo modo, as tradições africanas, reveladas nos sincretismos dos festejos de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito ainda perduram anualmente na cidade e região.
No findar do século dezenove, ainda que em meio a crises econômicas contínuas no país, exceção ao café em São Paulo e a borracha na Amazônia, como atestado por Prado Júnior (1972 [1945]), há aceleração das aglomerações urbanas, no sentido em que se expandem as cidades, chegando em 1900 o país a ter uma população citadina de aproximadamente 10% do total. Apesar de relativamente irrisória em relação aos quase 81% da população urbana contemporânea (IBGE, 2010), avançara-se praticamente em quase cem por cento entre 1870 e 1900 o número de residentes em cidades, agora com certa confiabilidade de dados pelos recenseamentos realizados pelo governo imperial.
Trata-se, nas palavras de Moreira (2005, p. 14) de tempos transicionais da “[...] colônia para a independência, da escravidão para o capitalismo e da monarquia para a república, assim antecipando o momento instaurador da grande transformação que ocorrerá na formação espacial brasileira com o advento da industrialização e urbanização do agora país”. Estas mudanças também são apontadas por Ianni (1996) “[...] assim, ao trabalhador escravo sucedeu o trabalhador livre, ao negro sucedeu o branco, à senzala sucedeu a colônia.” (IANNI, 1996, p. 57). Essas sucessões, inclusive de rugosidades, superpõe formas e conteúdos que mais tarde subsidiarão as políticas patrimoniais em moldar uma identidade nacional, bem como fundamentar os sentidos de identidade cultural ligados em parte desses preceitos históricos fundacionais.
Conforme Moreira (2005) e Santos (2013b) ainda não é possível necessariamente pensar em um processo de urbanização, já que este se associará somente mais tarde com a industrialização efetiva do país. Mais que condição urbana, as cidades configuravam-se como centros nodais das novas necessidades produtivas, surgindo novos núcleos ou expandido antigos centros. Fazendo com que São Paulo e Rio de janeiro tomassem a dianteira, já que a dinâmica produtiva se acentuava sem seus territórios. A proposição deste quadro pode ser embasada pela realidade demográfica relativamente baixa dos principais centros urbanos no país: São Luís, Salvador, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro. Neste período de passagem entre os séculos, as maiores cidades, somavam apenas 5,7% dos 2,85 milhões da população total brasileira (SANTOS, 2013b, p. 22).
Não apenas o plano econômico era latente nas propriedades rurais, mas a organização da vida social, nos latifúndios e propriedades, que aglomeravam milhares de trabalhadores e que passavam continuamente a receber as linhas férreas e estações para escoamento da produção. Em 1872, apenas três capitais brasileiras contavam com mais de 100 mil habitantes: Rio de Janeiro (274.972), Salvador (129.102) e Recife (116.671). Somente Belém (61.997) contava com população entre 50 e 100 mil residentes. São Paulo neste período tinha uma população de 31.385 pessoas, o que evidencia em fins do século dezenove sua irrisória centralidade no que tange o aglomerado populacional e a centralidade econômico-política no país. Número que em praticamente duas décadas dobraria o valor, passando a população da cidade de São Paulo em 1890 para 64.934 habitantes. Ainda em 1890, eram apenas três as cidades com mais de 100 mil habitantes: Rio de Janeiro com 522.651, Salvador com 174.412 e Recife com 111.556. Além de São Paulo, duas outras cidades passavam da casa dos 50 mil: Porto Alegre: 52.421 e Belém: 50.064. São Paulo já havia passado Belém, continuando a crescer expressivamente com o incremento de milhares de imigrantes que chegavam dia após dia na cidade (SANTOS, 2013b, p. 23).
Em 1872, o número de municípios em São Paulo era o maior do Brasil, com 89 no total, seguido por Minas Gerais e Bahia, ambos com 72. Tal fato revela que, mesmo a capital não possuindo uma das maiores aglomerações, seu território já vinha passando por espessa fragmentação político-administrativa em razão da alta produtividade de gêneros agrícolas e maior controle dos grupos oligarcas das respectivas regiões. É possível pensar neste período em vários núcleos florescentes em São Paulo, e não apenas sua capital. Principalmente porque no ano de 1900 o número de municípios sobe para 172, num ritmo constante, que chega a 204 municípios no ano de 1920 e a população da capital sendo a segunda maior do país, com 579 mil habitantes, atrás apenas do Rio de Janeiro com mais de 1 milhão de habitantes. Mesmo que os níveis de urbanização pouco se alterem, em verdade, entre o fim do século dezenove e princípios do vinte, o caso de São Paulo passa ser emblemático (Tabela 01 e Gráfico 02).
Províncias Brasileiras 1872 Municípios 1872 Número de Unidades da Federação 1900 Número de Municípios 1900 Unidades da Federação 1911 Número de Municípios 1911 Unidades da Federação 1920 Número de Municípios 1920
Territorio do Acre 3 Territorio do Acre 5
Amazonas 7 Amazonas 24 Amazonas 27 Amazonas 28
Pará 32 Pará 50 Pará 54 Pará 56
Maranhão 37 Maranhão 53 Maranhão 54 Maranhão 64
Piauhy 22 Piauhy 34 Piauhy 37 Piauhy 39
Ceará 46 Ceará 79 Ceará 83 Ceará 86
Rio Grande do Norte 22 Rio Grande do Norte 37 Rio Grande do Norte 37 Rio Grande do Norte 37
Parahyba 24 Parahyba 36 Parahyba 39 Parahyba do Norte 39
Pernambuco 39 Pernambuco 58 Pernambuco 59 Pernambuco 59
Alagôas 19 Alagôas 34 Alagôas 35 Alagôas 35
Sergipe 24 Sergipe 33 Sergipe 34 Sergipe 34
Bahia 72 Bahia 126 Bahia 129 Bahia 136
Municipio Neutro 1 Districto Federal 1 Districto Federal 1 Districto Federal 1
Minas Geraes 72 Minas Geraes 124 Minas Geraes 176 Minas Geraes 178
Espirito Santo 13 Espirito Santo 29 Espirito Santo 29 Espirito Santo 31
Rio de Janeiro 33 Rio de Janeiro 48 Rio de Janeiro 48 Rio de Janeiro 48
São Paulo 89 São Paulo 173 São Paulo 174 São Paulo 204
Paraná 16 Paraná 40 Paraná 44 Paraná 49
Santa Catharina 11 Santa Catharina 26 Santa Catharina 28 Santa Catharina 34
Rio G. do Sul 28 Rio G. do Sul 66 Rio G. do Sul 66 Rio G. do Sul 71
Matto Grosso 9 Matto Grosso 13 Matto Grosso 18 Matto Grosso 21
Goyaz 26 Goyaz 37 Goyaz 45 Goyaz 49
BRASIL 642 BRASIL 1121 BRASIL 1220 BRASIL 1304
Tabela 01: Evolução de número de municípios brasileiros entre 1872 e 1920.
Evolução populacional das maiores capitais na fase pré-industrial do Brasil (1870-1950) 0 500.000 1.000.000 1.500.000 2.000.000 2.500.000 3.000.000 3.500.000 Po pu lçã o da s M aio re s C id ad es B ra sil eir as (1 87 2- 19 50 ) Rio de Janeiro 274.972 522.651 811.443 1.157.873 2.377.451 3.281.908 Salvador 129.109 174.412 205.813 283.422 290.443 417.235 Recife 116.671 111.556 113.106 238.843 348.424 524.682 Belém 61.997 50.064 96.560 236.402 206.331 254.949 Porto alegre 43.998 52.421 73.647 179.263 272.232 394.151 Fortaleza 42.458 40.902 48.369 78.536 180.185 270.169 São Paulo 31.385 64.934 239.820 579.033 1.326.261 2.198.096 1872 1890 1900 1920 1940 1950
Gráfico 02: Evolução populacional das maiores capitais na fase pré-industrial do Brasil (1870-1950).
Fonte: (a) IBGE – Evolução da Divisão Territorial do Brasil (1872-2010) – 2011; (b) Censo 2010; (c) Santos (2013b, p. 153) segundo anuários estatísticos e censos demográficos do IBGE. Organização do autor, 2016.
É no contexto das mudanças políticas e econômicas operadas globalmente e rebatidas no território brasileiro que o processo de conformação do cinturão caipira e de chácaras converge propriamente com o fim dos aldeamentos em São Paulo. Sua caracterização é, destacadamente, realizada por Azevedo (1958), Petrone (1995) e Langenbuch (1971), que servem de base para pensar o desenvolvimento urbano de São Paulo e, fundamentalmente, de Carapicuíba. Trata-se do período no qual Langenbuch (1971) principia sobre a própria estruturação da RMSP, onde a capital, com sua localização estratégica entre o interior e o porto, continuará a regular os fluxos econômicos traduzidos ora pela produção primário- exportadora, ora na redistribuição dos produtos manufaturados importados ao restante do país (Figura 17).
Os arredores de São Paulo em meados do século XIX
Figura 17: Caminhos e núcleos populacionais nos arredores de São Paulo em meados do século dezenove. Fonte: Langenbuch, 1971.
No entanto, o desenvolvimento pela alta produtividade é concentrado em espaços de dinâmica produção agrária, ou propriamente na cidade de São Paulo, que faz a regulação e centraliza atividades políticas e administrativas. Isso faz com que Carapicuíba fique à margem das infraestruturas instaladas no território. O tempo no espaço fica cristalizado, em momentos que parecem não corresponder com o florescimento das proto-indústrias e do modo de vida urbano em curso no centro metropolitano paulista. Tão perto e tão distante de uma das maiores cidades brasileiras, a Aldeia de Carapicuíba à margem da modernização preservara relações e modos de vida, tradições e uma relativa organicidade com a unidade designada caipira, na ruralidade ainda pouco tensionada pelos desígnios das inovações técnicas em amplas escalas. A pujança de São Paulo era contrastante não apenas em relação aos seus subúrbios, mas com as unidades territoriais localizadas no interior e que se articulavam pela centralidade estabelecida das linhas de trens na capital e em sentido ao porto de Santos.
Em seus levantamentos Langenbuch (1971) conclui que a metamorfose dos aldeamentos em povoados caipiras se opera durante os dois quarteis intermediários do século dezenove. Seus limites, pois, antecedem a suburbanização propriamente, ou seja, a integração maior com São Paulo pelas estações e os trilhos ferroviários. Concêntricos à São Paulo, estes espaços, em verdade, não constituiriam necessariamente um cinturão, tão pouco seriam determinados pelas distâncias, mas sim uma conjugação de fatores, que remetem à valorização e especialização residencial no caso das chácaras, até o abandono e ostracismo dos vilarejos caipiras – este último mais apropriado para qualificar Carapicuíba. “O ‘cinturão das chácaras’ apresentava propriedades menores que o ‘cinturão caipira’, onde ainda era incomum uma certa indefinição fundiária, sendo freqüentes os litígios e as invasões, estas, às vezes, relacionadas com a prática da rotação de terras pelo sistema de ‘roça’, outras vêzes à antiga estrutura ligada aos jesuítas e aos aldeamentos” (LANGENBUCH, 1971, p. 74).
De difícil delimitação, o cinturão caipira se diferencia fundamentalmente do cinturão das chácaras apenas pelo ostracismo e isolamento que o primeiro se estabelece em relação ao segundo. Seu arranjo é de complexa espacialização, considerando mesmo a indefinição política-administrativa dos limites entre cidades e vilas naquele período, variando espaços por vezes mais distantes e dinâmicos, ou mais próximos de São Paulo e relativamente abandonados. Tanto são as denominações quanto a diversidade de lugares e culturas: vilarejos, distritos, pousos, freguesias, arraiais, aldeias, convivendo áreas dinâmicas e outras estáticas sobrepostas nas mesmas unidades territoriais. Trata-se de uma grande diversidade funcional das unidades no plano dos subúrbios paulistanos em gestação naquele momento.
Considerar, no entanto, algumas diferenças entre eles permite ampliar a diversidade de relações que havia então e que, de todo modo, condicionou posteriormente a forma de desenvolvimento da própria metrópole.
No que tange mais propriamente aos cinturões caipira e de chácaras, estas classificações são funcionais e caracterizam diretamente alguns importantes conteúdos dos arredores de São Paulo ao longo do século dezenove até as primeiras décadas do vinte. Em relação às pequenas propriedades rurais, fazendas e sítios, englobados no cinturão de chácaras, teriam por função não apenas o lazer, mas o fornecimento de insumos alimentícios aos núcleos centrais e localizavam-se mais próximos da capital. Associam-se às chácaras, também os sítios e pequenas fazendas. Sua produção limitava-se muito mais ao mercado local do que a produção de açúcar ou café ao mercado internacional, então podendo considerar o cinturão enquanto celeiro de São Paulo, função que também desempenhava em grande medida junto com o cinturão caipira. Essas seriam as características mais essenciais do cinturão de chácaras nos arredores de São Paulo, lembrando conforme Langenbuch (1971) outros aspectos:
O cinturão das chácaras achava-se visivelmente organizado pela cidade para a cidade. Além das chácaras com sua função de residência, e secundariamente de produção frutícola, o cinturão encerrava uma série de elementos funcionalmente ligados à cidade, e que aí se situavam por requererem muito espaço – por seu caráter repulsivo (recomendando seu isolamento), ou por ser a localização campestre considerada ideal. Trata-se daqueles pousos de tropa destinados a propiciar alojamentos junto a São Paulo, dos cemitérios, de hospitais, de colégios, do depósito de pólvora (LANGENBUCH, 1971, p. 76).
Em relação ao cinturão caipira, tratavam-se de pequenos núcleos de aglomeração de economia decadente, agricultura de subsistência, roçado, ou ainda um ou outro gênero a ser comercializado na capital. No ostracismo, serviram-se da criação de alternativas próprias de subsistência, vivendo a poucos quilômetros de São Paulo, que apesar de expressividade no quadro regional, ainda era uma pequena vila no século dezenove (PETRONE, 1995). O vilarejo, da Aldeia de Carapicuíba, achava-se assim como no passado, um conjunto de casas que se encerravam entre si, ou seja, se no passado assim dispostas pressupunham separação entre o índio e o branco, ou mesmo a própria segurança do núcleo, agora dispunham em seus conteúdos a rusticidade do caipira que tão bem descreve Antônio Cândido (2010), fechado em seu núcleo familiar e de compadrio, vivendo apartado em um sistema social que está
relativamente alheio às transformações em São Paulo. A detalhada descrição de Cândido (2010) da cultura caipira anos mais tarde (1948), na região de Bofete, interior de São Paulo, converge compassadamente com parte da cultura indígena e dos aldeamentos tão bem precisado por Petrone (1995) em citação subsequente, que vão dos hábitos alimentares, às vestimentas, assim como as relações sociais mais complexas em torno da religiosidade e da agregação familiar.
Os referidos núcleos, aldeamentos ou não, de qualquer forma testemunhos do passado, sempre abrigavam uma população relíquia sob muitos aspectos. Vivendo em casas de pau-a-pique ou de taipa, sempre modestas e pouco confortáveis; cultivando um pouco de milho ou de feijão, algumas touceiras de cana-de-açúcar e um ou outro pé de fumo; queimando anualmente uma área sempre maior do que a cultivada de fato; praticando a coleta onde ainda era possível; recolhendo lenha ou fazendo carvão, e vestindo pobremente, de pé no chão, calças pula-brejo, camisas de algodão, barbinha rala e toco de cigarro de palha na orelha, conforme o estereótipo, o morador dessas áreas com frequência representava bem o caipira dos arredores de São Paulo (PETRONE, 1995, p. 374).
Os núcleos do cinturão caipira guardam ainda maior relação com os aldeamentos, considerando a hibridização cultural que se efetivava nestas regiões (IANNI, 1996), o “caipiramento” ou “acaipiração” como denominado por Antônio Candido (2010 [1958]), expressada por Almeida Junior em uma de suas mais famosas obras a retratar o cotidiano do
caipira35 (Figura 18), segundo aquilo que observara, mas também os preceitos detalhados por
viajantes como Saint Hilaire, ainda que muitas vezes pejorativas, precisas no entanto eram as descrições que situam-se desde o século dezenove aos dias atuais. Além do branco e o índio, havia a introdução recente do negro na miscigenação étnica, que junto a um modo de vida adaptado ao meio rural, realizado no campo, qualificaria a tradição, a rusticidade, aspectos que sintetizam modos de ser “caipira”, e não exclusivamente um “tipo racial” (CÂNDIDO, 2010 [1958]; LANGENBUCH, 1971; PETRONE, 1995; IANNI, 1996).
35 “Mesclaram-se os portugueses e os índios, escravos e forros, mestiços ou não, nas bandeiras, monções, roças
ou criações. Assim, enquanto se estendia a rede de povoamento e negócios, pelas longas lonjuras, formava-se a base de uma sociedade peculiar, a sociedade caipira. (IANNI, 1996, p. 16).
Caipira Picando Fumo (1983) e o Violeiro (1899) – Almeida Júnior
Figura 18: A esquerda, “Caipira Picando Fumo” (1983) e à direita “O Violeiro”. Telas do pintor realista Almeida Júnior, retratando o modo regional de vida do caipira em São Paulo no século dezenove.
Fonte: Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Estes núcleos caipiras, como veremos em laudas posteriores, guardam acumulações, rugosidades patrimoniais, em relação a efetiva cristalização suburbana de Carapicuíba, ou