6. EMPIRICAL ANALYSES AND RESULTS
6.4 CEO COMPENSATION PRIOR TO BANKRUPTCY
O estatuto filosófico da Ética foi se estabelecendo definitivamente ao longo das transformações ocorridas nas concepções antropológicas da tradição cultural grega, em
especial pelo aparecimento da noção socrática de psychê,6 como sendo a interioridade
ética do indivíduo, sede da verdadeira areté e objeto de seu permanente cuidado. Esta concepção antropológica, que dá razão das características originais do agir ético, e sua correlação entre o agir e o ser total do agente, em sua estrutura somática, psíquica e espiritual e em suas relações com o mundo, a comunidade e a transcendência, será, a partir de Platão (em República e Timeu) e em Aristóteles (De Anima e Ética a Nicômaco), o pressuposto necessário e fundamental da Ética filosófica. De acordo com Vaz (2012), isto estabelece um caráter fundador da Antropologia filosófica com relação à Ética que nos permitiu definir a realização humana em uma perspectiva essencialmente ética e demonstrar a mais elevada manifestação da pessoa na personalidade ética.
Aristóteles acreditava que todos os seres humanos, em função de sua natureza possuía um desejo irresistível de saber. O próprio termo "saber" no grego possui diversos significados e termos correspondentes, como noein ou nous, sophia, gnosis, theoria, idea,
historia, epistheme e outros. Dentre todas as formas de saber, o saber ético possui
características próprias que darão origem às categorias fundamentais da Ética (VAZ, 2012).
O saber ético contém em si as propriedades fundamentais do ethos, ou seja, sua universalidade e sua presença na história humana desde as primeiras aparições históricas dos grupos humanos. Não conseguimos assinalar uma origem empírica definida deste saber, uma vez que, como elemento constituinte intrínseco do ethos, deve ser compreendido nas diversas hipóteses antropológicas sobre a origem dos costumes na formação das primeiras sociedades humanas. A passagem do saber ético à Ética se configura como um evento cultural relativamente novo em algumas civilizações, muitas vezes documentado e explicável por alguma forma de crise a ameaçar o ethos daquelas civilizações (VAZ, 2012).
Segundo Vaz (2012), o saber ético se organiza entre os polos da objetividade do
ethos e da subjetividade da praxis, tendo como mediador o saber conservado e
transmitido pela comunidade ao longo do seu desenvolvimento e que circula entre os indivíduos mediante as relações intersubjetivas. Embora possamos considerar que todo saber humano é um saber reflexivo, o tipo de reflexibilidade que acompanha o saber ético
6 Psyché: palavra grega que significa alma ou sopro. Referência à deusa da alma na mitologia grega,
possui particularidades que acompanham o objetivo do ethos a ser interiorizado pelo agente moral, a fim de tornar possível sua ação de acordo com as normas e costumes e objetivos exigidos pelo ethos do qual ele faz parte. Assim, a reflexão do saber ético se volta do conhecimento para o sujeito, em sua dimensão interior e intransferível que o caracteriza como agente ético possuidor de uma relação de responsabilidade para com a realização do ethos. Esta reflexão se volta para o "conhece-te a ti mesmo", presente nas tradições gregas socráticas clássicas, e condiciona a relação ética da responsabilidade entre o sujeito portador do hábito e o sujeito eficiente do próprio agir, circunscrita ao espaço intencional medido pelo conhecimento humano e compreendendo as coisas que estão ao nosso alcance ou os bens humanos por nós operáveis.
Aqui reside também a origem da noção de consciência moral. Este homem que vive dentro de um espaço alcançado por seu conhecimento, ação, reflexão e responsabilização precisa descobrir um modo de julgar sabiamente (phronein) e descobrir um "justo meio" para suas ações, para considerarmos as ponderações de Aristóteles, entre os excessos ou vícios (VAZ, 2012).
Para Chaui (2000), nossas dúvidas quanto à decisão a tomar põem à prova nossa consciência moral e nosso senso moral à medida em que temos que decidir o que fazer e justificar para nós e para os outros as razões de nossas decisões, além de assumir as consequências de nossas ações e opções. O "senso e a consciência moral dizem respeito a valores, sentimentos, intenções, decisões e ações referidos ao bem e ao mal e ao desejo de felicidade." (idem, p. 431). Eles dizem respeito às relações que estabelecemos com os outros e, sendo assim, nascem e existem como parte de nossa vida intersubjetiva, ao mesmo tempo em que são inseparáveis da vida cultural. É a cultura de um povo que define os valores positivos e negativos que seus membros devem respeitar ou não.
Nem sempre notamos a origem cultural dos valores éticos, do senso moral e da consciência moral porque somos educados para eles e neles, como se fossem naturais. Esta naturalização dos padrões e da existência moral efetivada pelas sociedades através dos tempos visa garantir sua manutenção, contudo, também esconde o fato de ela ser uma criação histórica e cultural. Embora culturalmente os conteúdos dos valores variem, notamos em diferentes culturas que eles se referem a um valor mais profundo, ainda que subentendido: o bom ou o bem. Para a Chaui (2000), "os sentimentos e as ações, nascidos de uma opção entre o bom e o mau ou entre o bem e o mal, também estão
referidos a algo mais profundo e subentendido: nosso desejo de afastar a dor e o sofrimento e de alcançar a felicidade" (Chaui, 2000, p. 431).
É esta dimensão ética do viver e do conviver humano, implicada, segundo Cortella (2011) na nossa necessidade ou possibilidade de sustentar a integridade da vida individual e coletiva, que nos leva a refletir sobre o que devemos, podemos, queremos e de como coordenamos estas questões em função do coletivo, da convivência e da manutenção da integridade social. Uma das ferramentas que dispomos para isto é a racionalidade que, no plano das ações, nos torna capazes de refletir sobre elas e, para além das ações tão somente guiadas por paixões ou impulsos, nos torna capazes de as transmutar em ações transformadoras conscientes, um agir intencional em busca de mudanças no ambiente que nos favoreçam ou aos outros e que nos ajudem a lidar de modo mais adequado com as exigências do viver em sociedade (CORTELLA, 2011).
Para Romano (2004), muitas atitudes éticas foram assumidas por povos e classes sociais de modo irrefletido ao longo da história porque foram aprendidas desde a infância. Na prática, isto tanto pode se traduzir tanto como uma atitude de respeito e consideração pelo outro, uma vivência de aprendizado com a cultura e experiência de vida do outro, quanto pode se traduzir em uma repetição do processo de alienação frente às figuras de autoridade e uma repetição de velhos costumes e hábitos, sem qualquer ato de reflexão ou crítica sobre isto. O que seria então necessário para se quebrar este monobloco de certezas e incertezas éticas? Para Romano (2004), é preciso uma educação do pensamento e da sensibilidade.
Para escapar de uma ética assim, apenas a educação pública para o convívio, para o respeito aos outros, uma educação coletiva para o exercício do pensamento seria uma solução. Apenas quando indivíduos e a coletividade pensam, julgam e criticam seus próprios costumes, temos a esperança de modificar comportamentos adquiridos, automatizados. A ética, não raro, precisa de choques do pensamento e da moral para se modificar (ROMANO, 2004, p. 42).
Segundo nosso entendimento, uma educação do pensamento e da sensibilidade e a nossa compreensão a respeito da educação e formação necessárias ao agente moral estaria melhor expressa na ideia grega de paidéia, "[...] refiro-me às práticas e teorias que se reportam a uma exigência fundamental da mentalidade grega, o desejo de formar e educar, o cuidado daquilo que os gregos denominavam paidéia." (HADOT, 2008, p. 30).
Aristóteles acreditava que o homem é capaz de moralidade porque é capaz de ser educado. Assim, o homem é um ser moral justamente porque é um ser político, e é um ser político precisamente por sua própria natureza humana (ARISTÓTELES, 2003,
Política I, i, 12). Mas, a educação só é possível no viver comum.
Carvalho (2013) retoma esta temática ressaltando que, ao ampliarmos nossa
consciência relacionando-a com a Política e a Ética, abrimos novos significados e enriquecemos a compreensão da realidade educacional de um modo que não poderia ser atingido somente pela racionalidade epistemológica. Esta racionalidade precisaria ser ampliada, incluindo a Ética e a Política, a fim de ser não somente reflexiva, mas também ativa em seu interior e exterior, entre si e os outros, entre si e as coisas. Na educação, isto implica em reconhecer professores e alunos não somente como sujeitos do conhecimento que se apoiam em métodos de conhecer em sua busca pela verdade, mas também como pessoas e cidadãos, agentes morais, políticos e intelectuais "[...] que, por meio de suas práxis, revelam e constroem os seus valores, suas crenças, seus desejos, suas paixões, seus direitos e deveres." (CARVALHO, 2013, p. 12).
Compreendemos que a ética social do nosso tempo é marcada pela tendência contemporânea de relativização absoluta ou individualização radical da Ética, se opondo à tradição filosófica grega e à do século XVIII, momentos em que o sujeito moral era compreendido como uma existência social, e, portanto, coletivo. Esta era a visão grega de sujeito moral, de cidadão. O valor moral de uma ação estava em sua conformidade com o bem viver ou a felicidade, mas não a felicidade de um só. A felicidade ou o bem viver significavam o ideal do ser humano e não apenas de um indivíduo ou de seus interesses particulares. O homem justo grego é aquele que vive em uma cidade justa (MIRANDA, 2004).
Para Aristóteles, a justiça, assim como a amizade, é uma virtude. O homem verdadeiramente político também goza da reputação de haver estudado a virtude acima de todas as coisas, pois deseja fazer com que seus concidadãos sejam bons e obedientes às leis. Mas, a virtude que deveríamos estudar, é a humana, porque o bem é humano, assim como a felicidade que buscamos (ARISTÓTELES, 1991, Étic. a Nic., livro
I). Todavia, "a virtude moral é um meio-termo [...] entre dois vícios, um dos quais envolve
excesso e o outro deficiência, e isso porque a natureza é visar à mediana nas paixões e nos atos (ARISTÓTELES, 1991, Étic. a Nic, livro II, p. 37)."
Deste modo, percebemos que o ser humano depende fortemente dos processos educacionais e da educação para sua sobrevivência, quer consideremos a educação como a vivencial ou espontânea, aquela realizada no dia-a-dia, na convivência e no aprender fazendo, quer a educação intencional ou proposital, organizada pelas instituições sociais como a escola. Estas instituições sociais - escola, família, igreja, mídia, mercado profissional entre outros - são ainda o canal de conservação e inovação dos valores da sociedade em seu determinado tempo histórico e os guardiões dos fundamentos e dos poderes políticos e epistemológicos que governam e sustentam a vida em sociedade (CORTELLA, 2011).
No próximo tópico, retomaremos esta discussão ao fazermos uma leitura sobre o
panorama histórico e cultural do ensino da Ética no Brasil, em especial da ditadura aos dias atuais, refletindo, a partir desta perspectiva histórica e política, sobre como a formação ética vem sendo compreendida e tratada em nossas escolas.