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Entre os grupos familiares ou facções, como foi me apresentado em alguns relatos, da aldeia Rio Verde predomina as alianças por afinidades. Isto quer dizer, que os membros de uma mesma família podem manter alianças com outros grupos para defender seus interesses, não se constituindo eminentemente em alianças familiares, não envolvendo relação de parentesco. Conforme observou um servidor da FUNAI:

Nas questões econômicas, se dividem em facções, ou seja, grupos concorrentes que compartilham os mesmos interesses, e entre estes existem as ajudas, (...) as disputas e brigas internas são intensas pelo poder, pelo destaque econômico, e cada família filia-se ao blocão e apoiam as lideranças internas; (...) mas quando se trata de festas tradicionais, todos são afins, as flautas promovem a união, mesmos daqueles que são inimigos. Existem disputas internas entre cada família, mas no momento do trato com o sagrado, isso é colocado de lado. Se uma família não tem flauta e deseja fazer uma festa, pode emprestar as flautas de outro grupo, mesmo que não tenha uma convivência harmoniosa. Não existe harmonia, existem disputas, conflitos, disputas pelos próprios interesses, mesmo sendo elementos da mesma família. Quando envolve o grande grupo, e entre os subgrupos, todos se unem (Cuiabá,12/01/2011).

Existe uma liderança geral, aquela que representa o grupo nas demandas externas, mas cada família ou individuo é livre para desempenhar seus papeis, e nas aldeinhas, existe o dono do lugar. Da mesma forma, o grupo Paresi, como um todo, é representado pelo cacique geral – isto é, chefe de todos os paresi, designação que atualmente é ocupada pelo Sr. João Ahezomae (ou João Garimpeiro), cujo poder, basicamente, é simbólico, pois sua presença nas reuniões é sempre solicitada pelos empreendedores e/ou por órgãos que trabalham diretamente com o grupo kozarini. Por fim, sua presença simboliza segurança para os demais membros, algo como se: seu João está participando, é porque aquele negócio ou projeto é bom para eles, portanto, é passível de ser aprovado.

A representação jurídica dos grupos é feita pelas associações. De acordo com alguns relatos, o título de chefe geral fora moldado por Rondon, que o utilizava como estratégia de aproximação com as lideranças - os amure, (MACHADO, 1994) - com a distribuição de títulos como capitão. Já a referência a chefe geral é instituído, posteriormente, pelos militares tanto do SPI e servidores da FUNAI para representar o grupo nas questões externas, permanecendo até os dias atuais.

Existe a categoria dos caciques influentes, aqueles que dominam os conhecimentos e mecanismos políticos e econômicos da sociedade envolvente, aliam estes conhecimentos com os mecanismos da sociedade interna, e se sobressaem perante as demandas, mantêm o controle e monopólio dos bens materiais e monetários (Tangará da Serra, 25/02/2011).

Outro aspecto importante é o gerenciamento daquilo que denominamos para fins de entendimento das questões financeiras: o uso financeiro dos recursos e a distribuição dos bens. Os Kozarini fazem distinção dos bens da cultura e dos bens advindos da sociedade não indígena, e, consequentemente, seguem o mesmo padrão no tocante ao gerenciamento dos bens industrializados. Daniel explica que na ótica de distribuição dos bens entre os Kozarini, existe a socialização monetária e a socialização material.

Significa dizer que:

A economia tradicional era e é distributivista de bens tradicionais entre os membros da aldeia ou famílias. Quando se trata da socialização monetária e dos bens de consumo, ai existe diferenciação, para a qual não há socialização, nem monetária e nem material, isto é, não é distributivista. Não considero capitalista, pelo fato do capitalismo pressupor acumulação de renda, mas uma tentativa de adaptação do sistema capitalista dentro da realidade dos Kozarini e dos Paresi, em geral. (...) os detentores dos recursos monetários e bens de consumo sempre são os mais privilegiados (CABIXI, 2011).

Cabixi reconhece que não existe socialização dos recursos financeiros que entram nas aldeias. Cabe lembrar que a noção de distributivismo não é a mesma coisa que comunitário e que, dentro da ótica haliti, sempre predominou os grupos afins, isto é, quando alguém faz uma roça tradicional. Por exemplo, na época da colheita, o dono da roça socializa a produção com aqueles que detêm relações de afinidades e muitas vezes não tiveram nada a ver com a plantação, ao mesmo tempo, ele pode colocar limitação para socializar com toda a aldeia: “funciona de acordo com a vontade do dono da roça, não é uma decisão uniforme, generalizada” (CABIXI, 25/02/2011).

Diante desse quadro, ousarei a categorizar os detentores dos recursos monetários numa perspectiva do grande grupo: os caciques influentes, notadamente a maioria dos caciques Waimaré, apoiados por agentes da sociedade envolvente (principalmente pelos detentores do poder externo: os empreendedores, parceiristas e políticos de todas as instituições). Essas lideranças exercem o poder político atrelado e construído pelos poderes externo (sociedade imuti) e interno (os haliti). Outra categoria de destaque é o de agentes da comunidade, são indivíduos, cidadãos que não tem o poder político e material, mas se destacam de alguma

maneira, pela sua atuação do conjunto social, destacam-se no grupo e almejam o poder. Uma terceira categoria é a daqueles que têm o poder de persuasão, aliam-se em conjunto com outros membros, vão até essas lideranças que detêm o monopólio e negociam em prol de seus interesses particulares (compra de carros, construção de casas, entre outros). Então se utilizam do poder de persuasão para adquirirem bens particulares, e isso não se estende aos demais moradores, do contrário, todos os haliti teriam carros e outros bens.

Ainda sobre o gerenciamento das questões financeiras, foi umas das primeiras preocupações que Carlito (na Aldeia Rio Verde, 2009), contou-me:

Com a entrada do capitalismo, contas correntes em bancos, crediários, facilitou a aquisição de objetos materiais, eletrodomésticos, como não é da cultura, usam de qualquer jeito, sem cuidados. Não tem noção de como administrar o dinheiro, só vai gastando. Entra muitos recursos, mas não sabem utilizar de forma racional para melhor a vida da comunidade.

Ao contrário do que comumente é descrito sobre o cotidiano das aldeias indígenas, de que todos vivem comunitariamente, coletivamente, no caso dos Kozarini da Aldeia Rio Verde (também percebida em outras aldeias), não existe uma hegemonia nos tratamentos, nas relações pessoais. Como em todas as sociedades, existem os desafetos, as intrigas, as fofocas, os ciúmes, as disputas políticas. Na realização dos trabalhos, pude observar que até existem alianças e solidariedade entre sogros e genros, pais e filhos, mas está longe da ideia construída de que tudo é dividido igualitariamente. As mulheres têm as atividades específicas como cuidar da casa e das crianças, mas preparar a mandioca e fazer chicha ainda é uma qualidade bastante respeitada. Na atualidade, homens e mulheres dedicam-se as mesmas tarefas, como ser professores, agentes de saúde, entre outras.

Além do plantio da soja, existem os empreendimentos das Pequenas Centrais Hidrelétricas, principalmente nas regiões dos Rios Sacre, Sucuru-winã (Ponte de Pedra) e Formoso – predominância do grupo Waimaré. Na antiga estrada Nova Fronteira, desde 1997, arrecada-se o pedágio (ou a cobrança pelo direito de passagem), partindo da sugestão de um procurador da República, na intenção de demovê-los das plantações de soja. A estrada foi asfaltada no governo Blairo Maggi e liga os atuais municípios de Sapezal a Campo Novo dos Parecis, configurando-se no coração da produção do agronegócio.

Atualmente, a rodovia foi batizada de Rodovia João (Garimpeiro) Ahezomae, para homenagear a liderança geral do grupo indígena Paresi, mas também é conhecida como a “rodovia dos índios”, uma alusão ao estado de descontentamento em pagar as taxas de direito ao acesso, por parte dos usuários.