O fato da produção de bens e serviços tender a ultrapassar barreiras geográficas, na busca da economia de fatores, ensejando em alguns casos o conceito de produto mundial, segundo Ferraz e Lousada (2005), deu motivação à criação das normas MSS que focam o gerenciamento e não o controle, reduzindo assim a necessidade de inspeção maciça. Talvez o fato mais marcante desta premissa seja o fato das normas da série ISO 9000, terem se tornado a referência mundial para sistemas de gestão da qualidade.
As influências recíprocas das duas famílias de normas são refletidas na ótica de quem as escreve e quem as lidera no âmbito internacional. Escritas no âmbito do TC 176 (Quality Management & Quality Assurance) e do TC 207 (Environmental Management) ambos são liderados pelos mesmos países quer no nível de comitê (Canadá em ambos os casos) quer no nível de subcomitês responsáveis pelas suas respectivas MSS a ISO 9001 e ISO 14001 (Inglaterra, em ambos os casos em função das origens BS 5750 e BB 7750). Apenas no patamar de grupo de trabalho a liderança difere entre Estados Unidos (WG 18 ISO 9001) e França (WG 1 ISO 14001) conforme ilustra a figura 2.20.
TC 176
TC 176
Quality
QualityManagementManagement
&
& QualityQualityAssuranceAssurance
Canad
Canadáá(CSA)(CSA)
SC 2 SC 2 ISO 9001 e ISO 9004 ISO 9001 e ISO 9004 Inglaterra (BSI) Inglaterra (BSI) WG 18 WG 18 ISO 9001 ISO 9001 Estados Unidos (ANSI) Estados Unidos (ANSI)
TC 207 Environmental Management Canadá (CSA) SC 1 ISO 14001 e ISO 14004 Inglaterra (BSI) WG 1 ISO 14001 França (AFNOR)
Fonte: Construção própria.
O TC 207 é provavelmente um dos mais polêmicos de todos os comitês da ISO e o que mais gera insatisfações entre os seus participantes. Morrison; Kay; Day (2000) explicam que parte desta insatisfação deve-se à composição não balanceada dos representantes (denominados delegados) dos países membros. Isso não seria um problema se não estivesse associado ao porte das economias dos países membros do Subcomitê 1 do TC 207 (SC1) que elaborou e revisou a norma ISO 14001, em especial todos de países ricos. A figura 2.21 mostra dados sobre as delegações que desempenham papel de destaque nas discussões do SC1 do TC 207. Observa-se que as empresas e os consultores exerceram o maior grau de influência entre as partes interessadas no SC1. Cajazeira e Barbieri (2005), também alertam que algumas delegações importantes foram lideradas por consultores, tais como, Horácio Martilena (Argentina), Leonardo Cardenas (México) e Jim Highlands (Estados Unidos). Nas empresas, o destaque é para o setor de petróleo, os delegados líderes da Itália e Canadá, por exemplo, Faustos Cini e Angus Henderson, respectivamente, são ambos da Exxon. A baixa influência das ONGs, com raras exceções, é objeto de preocupação do SC1, em especial no que tange ao assunto credibilidade, pois é amplamente conhecido o fato de são as ONGs ambientalistas as que mais criticam a norma ISO 14001. Vale mencionar que no Comitê 207 estão registradas 42 ONGs ambientalistas na categoria de organizações de ligação (liason), que são as que podem participar de modo direto nas atividades do Comitê. Outros grandes ausentes nos debates produzidos pelo ciclo revisional da norma em questão foram as Instituições de Ensino e Pesquisa, os Trabalhadores e as instituições de Consumidores. O fato é que a fraca presença de ONGs ambientalistas e de instituições de ensino e pesquisa deixou o campo da revisão livre para que as empresas e consultores marquem suas posições com muito mais facilidade.
Fonte: Morrison; Kay; Day(2000)
Figura 2.21 – Influências das partes interessadas no TC 207 SC1
Nível de Influência: 3 alta, 2 média, 1 fraca.
2 3 1 2 2 2 1 1 2 3 3 1 1 1 3 1 3 1 1 2 1 3 2 2 2 3 3 1 3 1 2 2 1 1 3 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 Gove rno Em pre s as ONGs Ce rtificadore s Cons ultore s
O processo de criação da versão atual da ISO 9001 seguiu uma longa trajetória de aprimoramentos conforme retratado no quadro 2.9. Notadamente a liderança dos países Inglaterra, Estados Unidos e França foram determinantes na modelagem da versão por processos da ISO 9001. O comentário típico enviado pela delegação americana ao TC 176, segundo o relatório ISO TC 176 SC 2 WG 18 N 10 BRIEF REPORT (p. 117) reflete essa afirmação: “by 2000 we would like to distribute a document describing how these Quality Models are fitting in the quality world – our ‘dream’ is to do this together.” ou seja, “até o ano 2000 nós gostaríamos de distribuir um documento estabelecendo como os modelos de qualidade estão modelando a qualidade no mundo. O nosso ‘sonho’ é que isso ocorra de maneira integrada” (tradução nossa)
Quadro 2.9 – Evolução e revisões das normas ISO série 9000.
Ano Característica da série 9000 Foco revisional
1987 A versão da ISO 9000:1987 tinha a mesma estrutura da norma britânica BS 5750, com três modelos de gerenciamento do sistema da qualidade, a seleção do modelo era baseada no escopo das atividades da organização:
ISO 9001:1987 Modelo de garantia da qualidade para projeto, desenvolvimento, produção, montagem e prestadores de serviço era para companhias e organizações que tinham em suas atividades a criação de novos produtos. ISO 9002:1987 Modelo de garantia da qualidade para produção, montagem e prestação de serviço tem basicamente a o mesmo material da ISO 9001, mas sem abranger a criação de novos produtos. ISO 9003:1987 Modelo de garantia da qualidade para inspeção final e teste abrange somente a inspeção final do produto e não se preocupava como o produto era feito.
1994 Manteve-se o formato de três normas:
ISO 9001, ISO 9002 e ISO 9003 versões 1994.
A revisão de 1994 buscava enfatizar a garantia da qualidade, inserindo o conceito de ações preventivas, ao invés de inspeção final, entretanto, manteve a exigência de processos documentados o que manteve a crítica da burocratização excessiva. 2000 A família de normas ISO 9000:1994 (9001, 9002 e 9003) foi
cancelada e substituída pela série de normas ISO 9000:2000 ISO 9000:2000: Descreve os fundamentos de sistemas de gestão da qualidade e estabelece a terminologia para estes sistemas. ISO 9001:2000: Especifica requisitos para um Sistema de Gestão da Qualidade, onde uma organização precisa demonstrar sua capacidade para fornecer produtos que atendam aos requisitos do cliente e aos requisitos regulamentares aplicáveis, e objetiva aumentar a satisfação do cliente.
ISO 9004:2000: Fornece diretrizes que consideram tanto a eficácia como a eficiência do sistema de gestão da qualidade. O objetivo desta norma é melhorar o desempenho da organização e a satisfação dos clientes e das outras partes interessadas.
A MSS ISO 9001:2000 combina a três normas 9001, 9002 e 9003 em uma, agora chamada unicamente de 9001. Os processos de projeto e desenvolvimento são requeridos apenas para empresas que de fato investem na criação de novos produtos. A versão 2000 procura fazer uma mudança radical no conceito normativo inserindo o modelo de gestão por processos.
Já as versões da ISO 14001 são duas: uma de 1996 e a de 2004. Decorridos três anos da primeira versão da norma, de 1996 a 1999, teve inicio um ciclo de avaliação marcada por uma controvérsia entre duas posições antagônicas. Uma corrente, liderada pelos norte-americanos, japoneses, canadenses e italianos, não queria nenhuma alteração. A outra corrente, com grande apoio dos países nórdicos, Holanda, Austrália e países em desenvolvimento como Brasil, Colômbia e Argentina, queria uma revisão ampla com vistas ao alinhamento com a nova versão da ISO 9001:2000 e seu modelo de processo, bem como para incluir alterações no texto que garantisse maior credibilidade para a norma. As alterações do posicionamento de vanguarda entre as versões da ISO 9001:2000 e ISO 14001:2004 são importantes indícios que alimentam as hipóteses desta tese.