5. FINDINGS AND DISCUSSION
5.5 Causes of Food Insecurity
Crítico contundente daqueles que apelida de apologistas do terror, Walzer considera urgente rebater-se criticamente a cultura das desculpas em que assenta a sua defesa - evasivas de quatro tipos: 1) o último recurso; 2) a inexistência de outra estratégia; 3) a sua funcionalidade; e 4) a de recurso universal (Walzer 2004, p.70).
Concebendo a política como “a arte da repetição”, o teórico recusa o argumento ou, como designa, a desculpa de que o terrorismo é o último recurso - “os ativistas e os cidadãos aprendem com a experiência, quer dizer, fazendo repetidamente a mesma coisa“ (Walzer 2004, p.71). Este argumento é, na sua perspetiva, análogo ao da necessidade militar, frequentemente evocado para justificar as mortes de civis decorrentes de bombardeamentos na guerra convencional. O último recurso é-o apenas em termos de desculpas, já que os seus entusiastas defendem-no desde início como a estratégia, embora talvez careçam de apoio suficiente nesta fase para o declarar abertamente. Para Walzer o mais próximo do terrorismo que é tolerável são os casos previstos pela sua ética de urgência, nos quais populações e comunidades, confrontadas com a ameaça de genocídio, como no caso paradigmático do Ruanda, se debatem pela sobrevivência (Walzer 2004,p.72).
O teórico critica severamente aqueles que concebem o terrorismo como uma luta contra a opressão, opressão contra a qual o terror aparece como a única opção viável. Esta constitui, na sua perspetiva, a desculpa da fraqueza, sendo esta entendida
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num duplo sentido: a fraqueza do movimento face ao estado opressor e a sua fraqueza face ao povo, ou seja, a incapacidade de movimentar as massas para a sua causa. Walzer defende que o terrorismo só pode ser uma estratégia concebível em estados democráticos e liberais, já que os estados totalitários estariam já, pelo uso de terrorismo de estado, imunes a qualquer outro tipo de terror 23. Dado que nos estados democráticos são concebíveis outros tipos de luta quando se goza de apoio popular substancial, enveredar pelo terror é já sintomático da fraqueza do movimento face aos oprimidos que alegam representar (Walzer 2004,p.73).
O teórico refuta também outro argumento frequentemente aduzido em defesa dos terroristas: o da eficácia do terror. Dado o seu cariz consequencialista, “este argumento equivale a uma justificação mais do que a uma desculpa” (Walzer 2004, p.73). Os seus proponentes admitem que as ações dos terroristas estão longe de ser louváveis, mas que estes agem em nome daqueles que nada conseguiriam sozinhos. Porém, como alerta Walzer, não existe uma única nação que deva ao terrorismo a sua liberdade,
“mesmo partindo do princípio que existe uma relação meios/fins entre terror e libertação nacional. A terceira desculpa não funciona, a não ser que consiga cumprir as exigências de um argumento consequencialista. Tem de ser possível dizer-se que o fim desejado não poderia ser atingido através de outros meios menos iníquos. A terceira desculpa depende, portanto, do sucesso da primeira ou da segunda, e nenhuma destas parece ter qualquer probabilidade de sucesso” ( Walzer,2004, p.74).
Outro argumento frequentemente evocado é o de que o terrorismo é uma estratégia universalmente empregue e, portanto “o terrorista, que não se preocupa com aparências, está apenas a fazer, abertamente, o que todos os outros fazem, em segredo” (Walzer, 2004,p.74). Mas esta visão da política como terrorismo baseia-se, segundo Walzer, num certo cinismo da nossa parte em relação à vida política. Defende, assim, que nem os estados legítimos nem os movimentos que gozam de substancial apoio popular têm a necessidade de recorrer ao terror como estratégia que, por isso, o terrorismo é uma escolha, quer dos governantes quer dos movimentos, e nenhum deles se justifica. Quando se debate a adoção de uma tal estratégia encontramos, historicamente, quem sempre se lhe tenha oposto, apesar de provavelmente nunca terem conseguido impedir aqueles que lhe sucumbem, os quais
23 Isto pode não ser necessariamente assim já que, como vimos anteriormente, estados deste tipo não estão imunes à intervenção
83 posteriormente se separam para continuar a luta da forma que consideram melhor ou, como alegam frequentemente, a única possível, vitimando inicialmente aqueles que eram até então seus camaradas.
Neste argumento encontra-se embutido um outro, considerado por Walzer como uma segunda versão, e que exige àqueles que se dizem contra a opressão que apoiem ou, no mínimo, desculpem aqueles que nela se insurgem mesmo quando essa luta se pauta pelo terror; pois, ao fazê-lo “estão apenas a reagir à escolha anterior de outrem, a pagar, em espécie, o tratamento a que durante muito tempo foram sujeitos” (Walzer 2004, p.76). Walzer reconhece a possibilidade de os terroristas serem por vezes vítimas dos seus próprios governos, do imperialismo, da opressão. Mas isto não nos deve conduzir à cultura de culpabilização das vítimas do terror, que são maioritariamente inocentes. O teórico não nega que os opressores definam os termos da luta, mas considera que qualquer luta contra a opressão deve pautar-se pelo compromisso com políticas não opressivas e de modo algum nos obriga a fazer amigos entre os terroristas. Ao escolherem a estratégia do terror, em nada se distinguem dos opressores que acusam de fomentar a sua luta. Este círculo vicioso terá que ser quebrado por uma resistência que se paute por uma outra estratégia, uma estratégia que recuse “jogar o jogo dos terroristas” (Walzer 2004,p.83).
Deste modo, o teórico recusa qualquer tipo de distinção entre terrorismo de opressores e terrorismo dos oprimidos, e a perspetiva segundo o qual o primeiro é intolerável enquanto o segundo é compreensível. Neste sentido, escreve
“Que importa se um grupo dominado for substituído por outro? Imagine-se uma revolta de escravos, cujos protagonistas sonham apenas com escravizar, por seu turno, os filhos dos senhores. O sonho é compreensível, mas o fervoroso desejo desses filhos de que a revolta seja reprimida também é compreensível. Em nenhum dos casos a compreensão serve de desculpa (...)” (Walzer 2004,p.76).
Apesar de Walzer só se ter dedicado a um escrutínio mais rigoroso do terrorismo em escritos mais recentes, nomeadamente no pós 11 de setembro, já em Just and Unjust Wars, referindo-se ao episódio da luta argelina pela independência da França, responsabiliza o filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre por este tipo de discurso entre opressores e oprimidos, que considera imbuído de um melodrama dialético entre senhor e escravo ao estilo hegeliano.
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