2 Metode og datagrunnlag
2.3 Case-studier på skoler
A intenção de pesquisa, seus objetivos, a forma como as narrativas seriam socializadas no trabalho de dissertação foram discutidas com os sujeitos. Alguns acordos foram firmados antes do início das narrativas, entre eles, o respeito à fala do outro e o pedido de que os jovens mantivessem sigilo das histórias que seriam contadas e que a pesquisadora poderia contar suas histórias na dissertação, contanto que eles não fossem identificados.
Para cumpri o compromisso de não identificá-los, pedi que criassem um nome que utilizaria ao fazer minha interpretação da interpretação deles de suas histórias de vida. Mas apenas um escolheu um nome diferente do seu. O outro garoto escolheu uma abreviação do seu nome, que era exatamente a forma como era chamado no cotidiano, e a garota falou que não conseguia imaginar um nome diferente e pediu que eu criasse. Então, resolvi começar minha leitura de suas narrativas criando um nome que representasse a forma como vejo cada um.
Pablo: “comum a todos os grandes narradores é a facilidade com que se movem para cima e para baixo nos degraus de sua experiência” (Walter Benjamin)
Pablo, nome escolhido pelo próprio jovem, mas que lembra a forma como o vejo: um narrador, assim como o viajante Marco Polo, do livro de ítalo Calvino (1990), que narra o mundo contando as experiências que viveu em uma mesma cidade.
Menino risonho, amigo de todos, sempre disposto a ajudar. O primeiro voluntário de qualquer atividade. Pablo vive no Serviluz, mora com os pais e tem renda familiar de menos de R$ 380,00 reais por mês, “mas isso não é nada”, ele repetia. O que importa para ele são os momentos felizes, as amizades, a família, os amores e a religião.
A timidez não o impede de contar seus 18 anos de história. A sua narrativa começa pelo nascimento como o dia mais importante de sua vida, mesmo que não lembre, depois, segue fazendo ligações, tecendo tramas, mas sem ficar preso a uma ordem cronológica.
As cortinas musicais enchem a narrativa de melodia e as histórias seguem sem perder o compasso. A solidão, a tristeza e o medo estão presentes, mas para nos ensinar como podemos ser felizes apesar de tudo ou exatamente por tudo.
Desde 2005, nunca perdi o contado com Pablo. As conversas por telefone davam conta das novidades em sua vida e onde estavam os outros
jovens. Em 2008, encontro um menino crescido, cheio de novas experiências e histórias para contar.
Ana: “uma menina que já conseguiu dominar o amor” (Teatro Mágico)
A música Ana e o Mar32, da banda O Teatro Mágico, fala de uma
menina por quem o mar se apaixonou. “Ana aproveitava o carinho do mundo, os quatro elementos de tudo, deitada diante do mar”, fala um verso que, para mim, conta a história da jovem Ana, que começou a trabalhar na praia com 8 anos e que para descrevê-la é preciso falar de amor, sua temática predileta.
Ana mora com seus pais, depois de muitas idas e vindas de sua mãe pelo mundo, sua casa fica na Paria do Futuro, pertinho da barraca onde vendia queijo. Hoje, o bar construído na fachada de sua casa garante uma renda mensal entre R$ 380,00 e R$ 760,00 reais, mas que precisa ser dividida entre cinco irmãos.
A família e o amor são os assuntos mais importantes para Ana, apesar de ela sentir que é o oposto de suas irmãs falantes e extrovertidas. Mas todos os olhares são direcionados a ela, beleza que lhe rendeu diversos convites de turistas que, entre um queijo e outro, chamavam-na para morar na Europa.
O reencontro com Ana me deu a impressão de que ela é uma menina que sabe crescer com leveza. O sorriso de 14 anos deixa a infância ainda à mostra. As palavras resumidas das primeiras narrativas dão lugar a uma história cheia de detalhes, cores vibrantes e sentimentos, mas só quando estamos em seu local. Só na praia, na companhia do mar, Ana consegue descrever sua vida.
Pedro: “Pedro não sabe, mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo, maior do que o mar” (Chico Buarque)
Pedro é um garoto de 19 anos que guardava histórias maiores do que ele mesmo. Pensou em desistir várias vezes antes de construir sua narrativa,
32 Música Ana e o Mar, composição de Fernando Anitelli, da banda O Teatro Mágico. Álbum musical Entrada
“mas eu preciso falar”, confessou. As primeiras palavras pareciam sair como navalhas. Uma pausa. Um copo de água. Silêncio... Pedro achava que era um menino frágil, que não resistiria à sua história, depois descobriu que pode ser o que quiser.
Vizinho de Pablo, morador do Serviluz, perdeu as contas de quantas vezes mudou de casa, de uma rua para outra, mas sempre no mesmo bairro. Pedro mora com a mãe e dois irmãos, todos de pais diferentes, a renda mensal de sua casa não passa dos R$ 380,00, mas vem melhorando depois que passou a consertar os computadores dos vizinhos e da lan house do bairro.
A informática e a banda Calypson, de Belém do Pará, são suas paixões. “Um dia eu ainda vou conhecer o camarim deles”, garante. O seu amor pela banda é antigo, nasceu antes das oficinas de rádio-escola que, inclusive, nunca faltou a nenhuma. Em 2005, era um dos menores da turma, adorava ajudar e me acompanhava a cada passo. Fiquei surpresa quando, em 2008, encontrei um menino com o dobro do tamanho e com uma voz que titubeia entre o grave e o agudo.
Mas Pedro ainda acha que é um menino triste, que tece em sua narrativa as dores do alcoolismo da mãe, a morte do pai antes de seu nascimento, as dificuldades na escola, a dureza do trabalho. Até que irá perceber que, para cada momento triste, há um que o contradiz, como as projeções de futuro e as experiências de solidariedade e amor, que o deixa mais próximo da felicidade, mesmo que ele ainda não tenha se dado conta disso.