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3. Methods

3.1 Case study

Os estudos sobre branquitude emergiram como tema de pesquisa nos Estados Unidos a partir da década de 1990, com o objetivo de transferir o olhar dos estudos sobre raça “das margens para o centro”, trazendo à tona os processos de construção da identidade racial branca (STEYN, 2004, p. 121). Esse deslocamento nos provoca a pensar o racismo como um fenômeno que considera as estruturas de poder e que envolve todas as pessoas: negros, brancos e outros grupos étnico- raciais. Relacionando raça com as diversas formas de dominação, para além de posturas individuais, percebemos a garantia e perpetuação de privilégios estruturais e simbólicos para o grupo dos brancos.

Autoras e autores brancos norteamericanos são comumente citados como os precursores desses estudos (DYER, 1998; ROEDINGER, 1990; HARRIS, 1993; ALLEN, 1994; FRANKENBERG, 1995). Alguns autores apontam também pesquisadores negros do início do século XX, como W. E. B. Du Bois, como importantes para a discussão da supremacia branca, um dos pontos fundamentais na conceituação de branquitude, sugerindo que a origem desses estudos seria muito mais antiga do que se supõe. Além disso, podemos considerar que a discussão sobre as relações raciais nos processos de construção das identidades necessariamente traz em seu bojo, mesmo que implicitamente, as dimensões do privilégio associado à identidade branca.

A despeito dessas disputas em torno da origem desses estudos, há pelo menos um ponto consensual: a branquitude é considerada como produto da dominação colonial europeia, estando diretamente relacionada à supremacia branca global, sendo impossível compreendê-la sem considerar as relações de poder que lhe deram origem. (FRANKENBERG, 1995; HARRIS, 1993; STEYN, 2004). Nesse sentido, a branquitude remete necessariamente ao contexto de expansão colonial europeia.

[Ela é] um constructo ideológico extremamente bem sucedido do projeto modernista de colonização [...] um constructo do poder: os brancos, como grupo privilegiado, tomam sua identidade como a norma e o padrão pelos quais os outros grupos são medidos. (STEYN, 2004, p. 115)

Para Melissa Steyn (2004), a branquitude é a posição social ocupada pelas pessoas de ascendência europeia, como consequência das ideologias raciais do colonialismo e do imperialismo europeus. Não é um ataque aos indivíduos brancos,

mas à branquitude enquanto posição de vantagem social, historicamente construída e ideologicamente adotada como natural, e também ao conhecimento e à visão que o individuo tem de si mesmo a partir dessa posição.

O grupo branco sempre esteve próximo dos pressupostos originais que impregnaram a narrativa colonial que passou a dominar explicações possíveis das diferenças entre Europa e os outros povos. Ao mesmo tempo, foi sendo construída nesses contextos coloniais a Narrativa Mestra da Branquitude. Portanto, ignorar os processos de construção da identidade branca seria reforçar sua hegemonia e seu sistema de privilégios, tornando-a naturalmente o padrão universal a ser seguido.

Entre esses privilégios, Marvin Harris (1993), estudando a sociedade norteamericana, aponta a associação entre branquitude e propriedade privada no que diz respeito ao direito de excluir. Nesse sentido, a branquitude funciona como privilégio racial sustentando a chamada supremacia branca, responsável pela dominação de outros grupos raciais.

Entendendo-a enquanto uma construção social, David Roedinger (1990) afirma que a atribuição da branquitude não decorre de uma condição natural ou estática. Em seu estudo sobre os trabalhadores brancos nos Estados Unidos da América, a branquitude representa um modo que eles usavam para reagir ao medo da dependência do trabalho assalariado e às exigências da disciplina capitalista do trabalho. Sua tese central consiste na ideia de que, apesar da baixa remuneração monetária, os trabalhadores brancos eram remunerados por um salário simbólico que implicava a consideração pública e seu tratamento pessoal preferencial por parte das principais instituições sociais e políticas.

Para Ruth Frankenberg (1995), além da vantagem estrutural e do privilégio racial enquanto pontos centrais para o estudo da branquitude, a identidade branca apresenta um conjunto de práticas culturais não-marcadas e não-nomeadas que são geralmente deslocadas para o campo social, o que resulta na sua invisibilização. Assim, brancos não seriam representantes de uma raça, construindo-se enquanto referência universal de humanidade, e o silêncio em torno da identidade branca, na verdade, reforça esse status de neutralidade. Ao tornar-se invisível, a branquitude tende a se apresentar como o estado normal e universal do ser, o padrão pelo qual tudo é medido e a forma com a qual os desvios são avaliados.

Ao estudar os judeus, irlandeses e latinos que em determinados contextos são vistos como não brancos, Theodore Allen (1994) reforça a constatação de que a

cada mudança de contexto sócio-histórico os significados da branquitude se modificam. Nesse sentido, os grupos que podem considerar-se pertencentes à categoria dos brancos têm que negociar sua inserção. Essa perspectiva reforça a tese de que as identidades raciais brancas são construções sociais, localizáveis em cada sociedade e contexto histórico, mas que, inevitavelmente, apresentam alguns traços comuns que dizem de um lugar de poder. Entendida dessa maneira, enquanto um sistema simbólico, um lugar de privilégio, significante da corporificação do privilégio, a branquitude foi construída a um custo enorme para a humanidade. No entanto, por ser uma construção social, ela pode ser questionada e reconstruída. Devido aos estudos críticos da branquitude terem sua origem nos Estados Unidos da América, este país tornou-se o principal ponto de referência para quem trabalha essa temática em outras partes do mundo. No entanto, devemos ter cuidado para não criar a falsa impressão de que a dinâmica da supremacia branca que funciona ali está desconectada do resto do mundo.

Na verdade, a branquitude deve ser entendida como um sistema global interligado, com diferentes inflexões e implicações dependendo do contexto no qual é produzida. Entende-se, dessa forma, a importância dos estudos da branquitude para compreendermos suas origens e efeitos em contextos locais (WARE, 2004).

Para Melissa Steyn (2004)

A tendência a universalizar a experiência da branquidade a partir dos centros metropolitanos precisa ser interrogada. Precisamos examinar exemplos historicamente situados de branquidades posicionadas de maneiras diferentes, a fim de chegar a uma compreensão mais plena, mais complexa e matizada dos modos como funciona a branquidade. (STEYN, 2004, p. 117)

A branquitude opera em um contexto específico. No entanto, em sua invisibilidade, esteve e está em toda parte se constituindo enquanto um obstáculo para a população negra em seus esforços para atingir uma real igualdade de oportunidades, assim como também pode se constituir como um dificultador para as possibilidades de construção de uma identidade branca que busque romper com as práticas racistas. Nesse sentido, a incapacidade de reconhecer a branquitude permite que os indivíduos brancos ignorem o modo como a raça molda sua vida e como se acumulam os privilégios raciais.

Entendemos, dessa maneira, que a questão da branquitude precisa ser examinada de forma mais aprofundada em diferentes contextos locais. Essa afirmativa concorda com as críticas pós-coloniais que enfatizam a necessidade de uma compreensão dos contextos globais e históricos a fim de relativizar a posição historicamente central da Europa.

Vron Ware (2004, p. 18) afirma a necessidade de se sustentar uma dimensão internacional nos estudos que focalizam a identidade racial dominante e os modos através dos quais aqueles que são categorizados como brancos têm feito um trabalho consciente para se rebelar contra os privilégios advindos da branquitude.

A partir dessas ponderações, fica evidente que as definições globais e locais da branquitude estão interligadas. A fragmentação da narrativa colonial determinante do que significaria ser considerado “branco” lhe permite vincular a análise euro- americana da branquitude às especificidades encontradas nas discussões sobre relações raciais das diferentes sociedades pós-coloniais. Assim, entendemos a necessidade de que a branquitude seja particularizada e historicizada, a fim de perder sua sensação desestabilizadora de ser a norma universal.