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Apesar dos avisos da imprensa para que ficassem atentas ao continuísmo do entrudo, Esmeralda e Venezianos não conseguiram contornar os problemas e acabaram por falir, antes mesmo de adentrarmos o século vindouro. Tal desaparecimento iria causar muita nostalgia nos anos seguintes, como veremos adiante.

Apesar de não serem essas sociedades as únicas agremiações que em Porto Alegre rendiam preito a Momo – havia Germânia, Congos, Floresta Aurora além de outras associações menores, que serão abordadas ainda nesse capítulo – através de desfiles e bailes, Esmeralda e Venezianos foram também os nomes consagrados na

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O Independente, 06 de fevereiro de 1910. 73

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memória do carnaval da cidade. E, apesar de seu sucesso, ainda no século XIX, iriam desaparecer do cenário carnavalesco da cidade.

Os Venezianos duraram um pouco mais que uma década, encerrando suas atividades em 1884. Já a Esmeralda desfilaria até 1891, fazendo uma reaparição em 1897. Apontamos, em nossa dissertação, algumas causas como motivadoras de tal infortúnio: problemas de cunho financeiro e falta de colaboração dos sócios, disputas internas e o já referido gosto feminino pelo jogo do entrudo.

A falta de dinheiro e do pagamento das anuidades pelos sócios foi um dos motivos que encontramos para a falência destas associações. Em 1883, os Venezianos, em seu programa de carnaval já admitiam a falta de dinheiro, afirmando que “apesar das imensas dificuldades que se apresentaram este ano para a realização de suas festas, resolveu não deixar passar despercebida a grande época em que todos os povos do mundo rendem seu tributo ao impagável, ao incomensurabilíssimo Deus Momo [...]”74. Tais dificuldades teriam acontecido, em virtude de a influência de Momo não ter

chegado a “a eletrizar os corações empedernidos de um grande numero de ilustres

concidadãos nossos, os quais, conquanto reconheça serem as festas carnavalescas mais brilhantes que se fazem entre nós, contudo não deixaram de ser apologistas do sistema da comodidade, entendendo que é melhor ver de graça do que cair com o ferro, e que já nos fazem grande favor chamando-nos de tolos[...]”75. Os Venezianos reconheciam, assim, a crise financeira por que passavam por causa da falta de colaboração monetária de seus sócios.

A Esmeralda também não ficou de fora desta situação de colapso, tendo tido dificuldades de fazer o seu festejo desde 1882. A imprensa salientava as dificuldades que ela enfrentava para organizar os préstitos, tendo o Mercantil informado que a

Esmeralda “trabalhou com todo o sigilo, para causar verdadeira surpresa á população, e

assim vai acontecer. Quando todos a supunham, por assim dizer morta, ei-la que surge

com todo o vigor para suplantar os descrentes”76

. Em virtude desta crise por que passava, seus diretores resolveram convidar o jornalista Miguel de Werna para presidi-

la a fim de a Esmeralda poder se beneficiar de sua “influência pessoal”77

. Contudo, já 74 Mercantil, 31 de janeiro de 1883. 75 Mercantil, 31 de janeiro de 1883. 76 Mercantil, 18 de fevereiro de 1882. 77

Carta escrita por José Leite de Castro a Miguel de Werna. O Século, 04 de fevereiro de 1883. Para maiores detalhes, ver LEAL, Caroline P. Op. Cit., p. 143.

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com Werna na presidência, continua-se a evidenciar a preocupação com a falta de colaboração financeira dos membros da sociedade, tanto que Werna irá publicar em seu jornal O Século, um apelo às mulheres para que não namorassem jovens que não apresentassem o recibo de pagamento da anuidade. Vejamos:

[...] Grande parte dos moços da nossa terra negam-se a contribuir com a sua anuidade.

É vergonha!

Leitora querida, não te metas em derriço com rapaz que não te provar o seu bom gosto, apresentando-te um recibo de qualquer das sociedades.

Só assim tomarão caminho esses unhas de fome!

Há certa gente em Porto Alegre que não devia existir, por honra da nossa capital.

Gente refratária a tudo quanto é belo e sublime!

Gente incapaz de concorrer com um seitil para um fim útil ou agradável!

Gente que só tem uma aspiração: - o circo de cavalinhos!

Anuncie-se a exibição de uma companhia ginástica equestre e aí vem o mundo abaixo com tanta gente [...] 78.

Werna aclarava sobre a falta de interesse dos membros da Esmeralda, que se negavam em contribuir com a anuidade da sociedade. Apesar de recorrer às mulheres, a

fim de que deste modo tais rapazes se obrigassem a pagar as anuidades, pois “só assim tomarão caminho esses unhas de fome!”, a estratégia parece não ter surtido efeito. No

ano seguinte, a Esmeralda estava mergulhada em dívidas, acossada por credores,

abandonada por seus “membros mais influentes” e incerta de seu futuro79

, o que evidencia a grave situação econômica que enfrentava.

Desta forma, a falta de contribuição dos sócios, que geraria falta de dinheiro para se realizarem os festejos, parece ter sido um dos motivos que levaram Esmeralda e Venezianos a entrarem em decadência na década de 80. Mas que motivos teriam levado os sócios a não se interessarem mais pelas agremiações, a se desgostarem e não mais contribuírem? Em 1881, uma nota publicada pelo jornal Mercantil nos dá alguns indícios de que interesses pessoais chocaram-se contra interesses próprios da sociedade, ocasionando disputas internas e desinteligências entre seus membros.

Neste ano, os venezianos estariam a fazer os preparativos para apresentar seu

festejo carnavalesco, até que “apareceu para a sociedade uma aza negra: o Sr. Germano

Hasslocher, que se mete em tudo como um piolho por costura, lá fez umas imposições á sociedade, umas propostas insensatas foram pouco a pouco desgostando os sócios, que

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O Século, 04 de fevereiro de 1883.

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têm afinal perdido grande parte da sua influência e entusiasmo”80

. O antigo presidente, Germano Hasslocher presidiu a Venezianos em 1879/1880, segundo o jornal, estaria interferindo e impondo sua ideias, gerando disputas entre as propostas já existentes e que estavam sendo implementadas e as trazidas por ele. Contudo, seus interesses, seriam de cunho pessoal ao estar preocupado com seus lucros e de proteger seus contratos. Desta maneira estaria prejudicando a sociedade, lugar que se vem para divertir-se e não para tratar de dinheiro81. Assim, aos poucos, os sócios foram se desgostando e gradativamente se afastando, de acordo com o Mercantil.

Outra questão que teria colaborado para a falência das tradicionais sociedades carnavalescas teria sido a permanência do entrudo. Mesmo tendo surgido com o objetivo de acabar com o antigo jogo, Esmeralda e Venezianos não conseguiram tal feito e, ainda por cima, tinham que conviver com ele, até mesmo nas festas em que promoviam. Tanto que, em seu programa de carnaval do ano de 1879, os Venezianos demonstravam esta preocupação com a presença das bisnagas em seus bailes:

Preparai-vos, portanto, respeitáveis matronas, gentis formosas e feiticeiras representantes do belo sexo, venerando papás, negregados solteirões e tu, oh!

Mocidade, para receber-nos. Os Venezianos vos pedem risos, flores, animação e alegria.

Que folia! Que alegria! Risos, flores, música, dança e uns rostos lindos, lindos! Se sois tão belas gentis porto-alegrenses!

Os Venezianos pedem e esperam que não lhes será negado tão assigualado favor, que lá no salão do baile não apareça uma única bisnaga. Morra o entrudo. Viva o Carnaval.

Pediam eles que “se sois tão belas, gentis porto-alegrenses”, não deveis levar

bisnagas aos bailes por nós promovidos, para que no salão não apareça uma única bisnaga. Isto demonstra o quanto elas eram consideradas responsáveis pela continuidade da brincadeira. Dessa forma, vemos que a conservação do costume foi creditada às mulheres. Como observaremos no próximo capítulo, elas foram as “Evas” desta história, que apesar de participarem das sociedades, permaneceram afeitas ao jogo do entrudo e com isso teriam afogado as sociedades carnavalescas.

Deste modo, Esmeralda e Venezianos irão deixar de apresentar seus préstitos à população de Porto Alegre. Com o passar dos anos, isto causará uma série de descontentamentos por parte da imprensa da capital, que estava insatisfeita com os

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Mercantil, 23 de fevereiro de 1881. 81

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festejos que eram exibidos. Expunham, ainda, uma nostalgia quanto ao carnaval de eras passadas, do tempo de esmeraldinos e venezianos.