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Ainda no século XIX, mais especificadamente no ano de 1873, Esmeralda e Venezianos surgiam em Porto Alegre, a fim de darem uma nova cara à folia carnavalesca. A Sociedade Esmeralda Porto-alegrense nascera em 1° de março de 1873 e a Sociedade Carnavalesca Os Venezianos, dois dias depois, três de março. Passava-se a comemorar os dias de Momo com desfiles de carros alegóricos e bailes fechados destas associações.

Quase quarenta anos depois desse fato, em 1910, o jornal O Independente publicava uma crônica na qual se propunha a historiar a criação do carnaval porto- alegrense. Segundo o respectivo periódico, o carnaval teria nascido justamente em função do entrudo. Este era uma série de brincadeiras e pilhérias que se fazia durante este período, sobretudo, o arremesso de bolas de cera, em formato de limão, que continham água, os chamados limões de cheiro59. Muitas vezes, este aparato era substituído por água jogada de bacias e baldes, sendo mais tarde suprido por bisnagas e seringas. Enfim, o objetivo era molhar e sujar o adversário. Aqui chegada com nossos colonizadores, era a brincadeira predileta até o II Reinado, tendo até mesmo D. Pedro I e II como ardorosos jogadores60. Com o passar do tempo, porém, esse jogo passou a ser bastante criticado. Desde 1847 já era proibido nos Códigos de Posturas Municipais, sendo estipuladas multas para quem desobedecesse61 (estes editais de proibição do jogo foram publicados nos jornais ao longo de várias décadas). Apesar da tentativa das autoridades em tentar deter o jogo, ele continuava existindo e foi somente partir da segunda metade do século XIX, em 1855, por causa do medo das epidemias de cólera, que sua popularidade baixou. Segundo o periódico O Independente,

O carnaval porto-alegrense nasceu de uma bomba d’água, que o entrudo traiçoeiro, penetrando nas trincheiras que os irmãos Masson (Leopoldo e Luiz) haviam construído em um sobrado à Rua dos Andradas, em 1870, irrigando a mangueira aos transeuntes.

59

Para maiores informações e detalhes sobre a brincadeira do entrudo ver LEAL, C. P. Op. Cit. e CUNHA, M. C. Op. Cit.

60

Cf. VALENÇA, Rachel. Op. Cit., p.14. 61

Livro de Registros de Posturas Municipais de 1829 a 1888.4 dez 1829. “Posturas Policiais da Câmara Municipal da cidade de Porto Alegre aprovadas pelo Conselho Geral da Província”. Porto Alegre, Typ. Do Comercio, 1847 (anexadas ao Livro de Registros das Posturas Municipais de 1829 até 1888). AHPA. Em 1909, constava no Artigo 13, do Código de Posturas Municipais que “é proibido o jogo do entrudo, com água ou limão de cheiro. Pena: Multa de 20$00s. Único – Os limões de cheiro que forem encontrados a venda serão inutilizados”.

32 Um caixeiro da botica Luiz Masson, que ficava por baixo do sobrado onde se achavam os irrigadores, á cavaleiro de qualquer investida, deu entrada por uma porta falsa, que havia na escada, a qual só ele conhecia, a uma legião de entrudeiros, comandados pelo coronel Joaquim Pedro Salgado.

O assalto foi realizado de surpresa e a provisão d’água existente no sobrado, serviu para inundar a casa toda, deixando os entrincheirados como pintos depois das enxurradas. A água atravessando o assoalho e forro do piso inferior irrigou as prateleiras da farmácia Masson, estragando muitas coisas.

O caixeiro após a espetagem deu as de vila logo, para escapar da indignação do patrão.

Na quarta-feira de cinzas, o saudoso Amadeu Masson (pai) aconselhou a formação de uma sociedade para sustar o entrudo.

Nasceu então a Esmeralda, criada pelos esforços do Sr. Leopoldo Masson, que, como joalheiro, foi o seu padrinho. E logo apareceu o emulo Os Venezianos, tendo sido o primeiro carnaval um extraordinário sucesso. O entrudo foi coibido e de ano em ano foi menos jogado até que desapareceu aquele brinco bárbaro e brutal que era sempre acompanhado de crimes62. O nascimento do carnaval de Porto Alegre, segundo narrava o jornal, teria se dado por causa de prejuízos financeiros que as brincadeiras do entrudo teriam causado. Amadeu Masson teria aconselhado a criação de sociedades carnavalescas a fim de

“sustar o entrudo”. Seu filho Leopoldo Masson assim o fez, criando a Esmeralda.

Leopoldo Masson nasceu no Rio de Janeiro, em 1845. Em 1870, ainda nesta cidade, terminou o seu aprendizado de relojoeiro e lá estabeleceu uma pequena casa de relógios, com o auxílio de deu pai, Amadeu. Entretanto, o negócio não foi muito bem e parece que seu pai, que possuía uma padaria, foi quem liquidou seus compromissos com credores63. Foi então que Leopoldo, querendo reiniciar seus negócios, veio para Porto Alegre. Assim, em 1º de maio de 1871, ele inaugurou a relojoaria "Pêndula Misteriosa"64. Para iniciar seu negócio, Masson “contou com a ajuda do crédito de outra firma do ramo, o joalheiro Moisés Aaron & Filhos (entre os quais deveria se incluir Emílio Aaron, outro fundador da Esmeralda). A partir de então, começa um empreendimento de sucesso, em sociedade com o ourives Inácio Geyer (outro esmeraldino), que consolida o nome da Casa Masson como um estabelecimento de

prestígio”65

. Esta funcionou durante 12 décadas na esquina das ruas dos Andradas e Marechal Floriano e estabeleceu o nome Masson como tradição e referência em termos

62

O Independente, 06 de fevereiro de 1910. 63

História da Masson. Casa Masson.

http://www.athcsm4.com.br/masson/principal/ShowMATERIA.asp?var_chavereg=34, acessado em 05 de fevereiro de 2012.

64

Cf. Walter Spalding. Construtores do Rio Grande. Porto Alegre: Sulina, 1970. 65

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de joias, pedras preciosas, ótica, relógios. É curioso perceber que o mesmo jovem a quem se relacionava o nascimento do novo carnaval, um empreendedorismo carnavalesco, haveria de ser também um empreendedor de sucesso em Porto Alegre. Ele também chegou a presidir a Esmeralda em 1880 e seu pai em 1877.

Do mesmo modo, a criação dos Venezianos contou com a colaboração do coronel Joaquim Pedro Salgado66 que teve destacada participação no episódio citado

acima ao liderar uma legião de entrudeiros no ‘assalto’ à trincheira da casa Masson.

Salgado foi o primeiro presidente dessa sociedade. Percebe-se que ambas as sociedades

seriam “filhas do entrudo”: Leopoldo Masson que, galhardamente, molhava a todos os transeuntes de sua ‘trincheira’ fundou a Esmeralda; e Salgado, que tomara de assalto a

casa Masson e encharcara os irmãos Masson, teria ajudado na criação dos Venezianos. E a disputa prosseguia.

Esta nova festa, ao que tudo indica, fez sucesso entre os porto-alegrenses. O censo do ano de 1872 estimava em 43.998 a população da cidade e, de acordo com o periódico Mercantil, no ano de 1876, “uma multidão calculada em dez mil pessoas acompanhou com delírio as festas carnavalescas desse ano”67. Apesar do possível exagero do jornal, denota-se, em sua fala, que de cada quatro habitantes da capital, um acompanhou os desfiles daquele ano, perfazendo um total de 22.72 % da população da cidade. A participação destas pessoas nos desfiles, entretanto, restringia-se ao papel de meras espectadoras. Assim como para as mulheres, a quem fora direcionado um discurso moralizador de seus comportamentos, relegando elas a uma posição de passividade. Afinal, nesse novo modelo de festa, esmeraldinos e venezianos é que

“faziam a festa”, desfilando pelas ruas da cidade, enquanto os demais deviam

abrilhantá-la, animando-os e jogando-lhes flores.

Alexandre Lazzari, em sua dissertação, rastreou os componentes das diretorias de ambas as sociedades, quando dos seus surgimentos. Segundo ele, da Esmeralda

“consta uma relação de trinta nomes que teriam constituído sua Assembleia Fundadora.

De vinte e oito deles foi possível descobrir alguma ocupação profissional, exercida

66

Joaquim Pedro Salgado nasceu em Alegrete em 20 de maio de 1835. Foi militar, membro do Partido Liberal e várias vezes deputado provincial e geral. Morreu no Rio de Janeiro em 12 de março de 1906. Casou-se com Maria Josefa Artayeta Palmeiro, com quem teve Joaquim Pedro Salgado Filho. Cf. PORTO ALEGRE, Aquiles. Homens Ilustres do Rio Grande do Sul. Livraria Selbach, Porto Alegre, 1917.

67

FERREIRA, Athos Damasceno. O Carnaval Porto-Alegrense no século XIX. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1970, p.43.

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exatamente nos anos de 1873 e 1874. Entre estes nomes, a predominância absoluta é de

funcionários públicos: vinte e três ao todo”68

. Havia funcionários da burocracia imperial, comerciantes (proprietários de lojas de fazendas, relojoeiros e joalheiros), major da Guarda Nacional. Já quanto a Venezianos e seu suposto pertencimento às classes mais abastadas, ele dispôs de menos informações:

De um total de um levantamento de trinta e três nomes de pessoas que teriam integrado as diretorias destas sociedades na década de 1870, só se possui informações seguras sobre dezoito. Com certeza, pelo menos seis destes eram ligados diretamente ao comércio, seja de varejo, atacado ou importação. Outros sete dedicavam-se a atividades empresariais e serviços diversos, e três eram profissionais liberais. Apenas um único indivíduo consta como funcionário público. A amostra dá o perfil de um grupo heterogêneo, mas incluindo membros do alto comércio e pessoas ligadas a atividades financeiras e empresariais, que são praticamente ausentes no grupo de esmeraldinos apresentado acima69.

O referido autor demonstrou que o perfil lembrado, descrito pelos jornais anos mais tarde, não estava muito longe da realidade. Corroborando tais afirmações, também encontramos nas memórias de Aquiles Porto Alegre (que fora membro das duas sociedades) tal diferenciação entre esmeraldinos e venezianos:

A ‘Esmeralda’, conquanto formada, em sua maioria, de famílias do nosso escol social, era a mais popular, e a ela pertenciam elementos da burocracia modesta, do pequeno comércio e estudantada álacre e ‘desbagada’. Já não eram assim os ‘Venezianos’, que só abria o seu passeio para o alto comércio, capitalistas e outras pessoas gradas70.

É interessante ressaltar que essa condição mais modesta dos esmeraldinos em relação aos venezianos em nenhum momento foi apontada como fator de desprestígio dos primeiros em relação ao segundos. De acordo com Lazzari, quando do surgimento

destas associações, os cronistas faziam “questão de declarar que ambas as associações

igualaram-se em excelência na tarefa de acabar com o entrudo e promover um carnaval brilhante, ficando evidente que a iniciativa dos esmeraldinos no mínimo confirmava ou reafirmava sua posição respeitável na sociedade, mesmo com seus integrantes não

pertencendo aos círculos mais enriquecidos”71 .

Assim, a iniciativa dos irmãos Masson e de Joaquim Pedro Salgado de fundarem as sociedades – Esmeralda e Venezianos, respectivamente – foi saudada por ser uma reforma de costumes que traria o progresso ao eliminar a brincadeira do entrudo,

68

LAZZARI, Op. Cit., p.87. 69

Ibid., p. 85. 70

Cf. Aquiles Porto Alegre. Noutros tempos. Porto Alegre: Globo, 1922. 71

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considerada uma “brincadeira bárbara e brutal que era sempre acompanhada de

crimes”72 .

O inconveniente jogo de entrudo foi este ano substituído completamente, nesta cidade, pelo Carnaval.

Deve-se este acontecimento às sociedades carnavalescas “Venezianos” e “Esmeralda”, que foram os iniciadores da reforma, secundados pelos habitantes, que visando mais um progresso, firmaram a abolição do entrudo e concorreram gostosos para o abrilhantamento da festa carnavalesca.

Nas principais ruas da cidade, não se viu jogar um só limão; e nas menos populosas aconteceu outro tanto73.

Não mais a brincadeira do entrudo – que por aqui reinara desde os tempos da colonização – com suas molhadelas e farinhadas e, sim os requinte dos desfiles e dos salões. Esta seria a maneira civilizada de se comemorar o carnaval. Ao menos era isso o que pretendiam esmeraldinos e venezianos: dar fim ao rude e grosseiro entrudo! Curioso que os fundadores de ambas as sociedades, que criaram esta nova proposta de comemorar os dias de Momo e intencionavam abolir o entrudo, haviam sido entusiastas da antiga brincadeira. Leopoldo Masson teria sofrido, inclusive, uma reprimenda do pai, Amadeu, por ter estragado, com sua brincadeira, muitas mercadorias de sua farmácia.

Tais sociedades carnavalescas, portanto, foram criadas com o propósito de modernizar o carnaval e acabar com o entrudo. Isto, porém, não ocorreu e, ao que tudo indica, como veremos mais adiante, foi ele que ajudou a acabar com elas.